Instruções
15 Capítulo 15
Capítulo 15
Seu quarto era um pequeno cubículo, minúsculo demais para caber mais do que uma cama e uma pequena cômoda. E havia uma brisa que causava aquele tipo de calafrio pelo corpo todo, mas eu não conseguia pensar a respeito disso. Assim como já não conseguia pensar a respeito de como eu havia chegado até ali ou do porquê meu vestido ainda estava em meu corpo. Sua boca já havia percorrido cada canto de meu pescoço e eram seus beijos que me arrepiavam, não o vento gélido que escapava da fresta da janela do quarto.
Ajoelhei-me em sua cama e senti as molas desestabilizando meu equilíbrio. Emma estava bem a minha frente, me abraçando, me beijando e, assim como as molas de sua cama, tirando de mim toda a estabilidade que eu ainda tentava manter. Senti o zíper do vestido deslizando, permiti que ele rapidamente libertasse meu corpo, a fim de que ela pudesse explorá-lo por inteiro.
As luzes estavam acesas (e assim permaneceram) e nenhuma de nós se importou, pois, estávamos tão acesas quanto elas. Acesas por um desejo que nos acompanhou a noite inteira. Um desejo típico de duas pessoas completamente apaixonadas uma pela outra. Fechei meus olhos em dado momento senti suas mãos deslizando pelas curvas dos meus seios e seus dedos brincando com os meus bicos já enrijecidos que apenas aguardavam seus lábios quentes, que não tardaram a encontrá-los.
Estremeci a cada toque, a cada beijo inesperados em pontos que eu já não lembrava mais que me faziam ir e voltar do céu. Entreguei-me ao êxtase, com suas mãos segurando bem as minhas coxas, sua boca e língua fazendo pressão nos lugares exatos. Gritei por seu nome, me contorci enquanto aquela dor de prazer consumia o meu corpo. Obriguei os meus olhos a procurar pelos dela e a encontrei, sorrindo para mim.
Ela subiu até a minha boca, tomou os meus lábios e meu pescoço, me permitiu descansar, até que eu estivesse disposta a agradecer a ela. Eu não demorei muito. Eu queria provar cada parte de seu corpo e queria ouvi-la gritar o meu nome, pois cada segundo naquela cama parecia um sonho. Surreal demais para ser verdade e talvez apenas ela fosse capaz de me convencer de que eu realmente estava ali em seus braços.
Ouvir o meu nome saindo de sua boca, sua voz trêmula e carregada de prazer foi o auge daquela noite. Deitei em seu peito, sua respiração descompassada servindo como música para meus ouvidos e seu corpo, ainda trêmulo, me embalando em um sonho que eu nem sabia que podia sonhar.
Fechei meus olhos e contei os segundos. Eu não queria dormir. Eu queria ficar acordada e ver o Sol nascer com ela ao meu lado, pois assim que amanhecesse, as luzes invadiriam a pequena janela de seu quarto e a iluminaria por completo. Eu queria ver o Sol reluzindo em sua pele, sua boca semiaberta respirando calmamente, enquanto a beijava e sussurrava o quanto ela tinha feito eu me sentir especial. Eu não poderia dizer que a amava. Eu não poderia assustá-la, mas eu diria que tinha amado a noite. Que havia amado seus beijos e que ela era linda e então esperaria que ela ficasse sem graça, pois gostaria de ver suas bochechas corarem.
Os segundos se passaram, eu contei todos eles, com seus braços me envolvendo e um sorriso em meu rosto. A luz, ainda acesa, agora incomodava, mas eu podia fechar meus olhos e esquecer todos os incômodos do mundo, pois ela estava comigo. Havia alguém comigo. Alguém escolhido por um universo, que insistia em pregar peças e fazer jogos comigo, mas que decidiu ser bondoso de uma hora para a outra e por algum motivo me levou até ela.
Ela apertou o abraço e eu senti o calor de seu corpo contra o meu. Sorri para mim mesma. Oito minutos haviam se passado. Contei cada segundo desses minutos que pareceram um piscar de olhos, pois assim que eles passaram, ela me libertou do seu abraço e de seu calor. Seu corpo se afastou do meu, em silêncio, e ela se levantou da cama, sem que nenhuma palavra fosse trocada.
Permaneci na cama, observando o calor, antes tão presente em meu corpo, indo embora. Emma apagou as luzes e por um segundo eu pensei que ela voltaria, mas a porta se fechou e eu fiquei sozinha, sentindo como se a cada segundo o frio tomasse conta de mim. Nenhuma luz adentraria a janela, nenhum raio de Sol brilharia em sua pele branca, iluminando seu corpo, seus cabelos, seu sorriso. Ela havia me abandonado.
A pequena janela me olhou, talvez sentindo minha tristeza ou rindo da minha solidão. A brisa fria que escapava de sua fresta invadia mais e mais aquele pequeno quarto, mas eu já estava me sentindo fria demais para me importar. Sentei-me no colchão, instável, assim como meu interior. Senti compaixão pelo pobre colchão. Usado, assim como eu fui.
Abracei minhas pernas e senti vontade de gritar, pois eu tinha a certeza de que ela não voltaria. Ela não queria voltar, talvez nem quisesse essa transa, talvez estivesse agora no banheiro tirando todos os vestígios de mim de seu corpo. Eu não podia aguentar essa sensação de abandono, de tristeza e de nojo de mim mesma. Levantei-me, pegando o vestido e meus sapatos do chão e os colocando antes que saísse do quarto.
Passei pela sala e lá estava ela no sofá, completamente apagada, como se tivesse se embriagado com um vinho barato e agora dormia para esquecê-lo. Encarei seu corpo seminu, apenas coberto por uma manta. Eu quis apagá-la de minha mente e odiá-la com todas minhas. Sua voz agora ecoava em minha mente. Não mais me chamando pelo nome, mas sim, reiterando o quanto ela era destrutiva. E de fato ela era e eu estava quebrada demais para me envolver com alguém assim.
Peguei o primeiro táxi que eu vi e me joguei na minha banheira assim que coloquei os pés no meu apartamento. Seu perfume teria que ir embora da minha pele, não poderia ter espaço para ela em mim. Mergulhei na banheira, a água transbordou, mas eu não liguei, eu queria abrir os olhos lá embaixo, ver a água completamente turva e pensar com mais clareza lá embaixo.
Lembrei de quando eu tinha oito anos e me afoguei na piscina de uma amiga de minha mãe. Ao invés de ser abraçada e acalmada, quando enfim expeli toda a água de meus pulmões, o que eu recebi foi uma bronca e um sermão por parte de todos. O único que ficou ao meu lado foi o filho da amiga da minha mãe, que havia me resgatado e feito respiração boca a boca em mim.
Durante alguns dias, eu recontava essa história para minhas amigas da escola. Sobre como eu havia morrido e salva por um beijo, na época, parecia tão mágico, mas na vez seguinte que eu vi o garoto, anos mais velho que eu, já não havia mais aquela sensação de eterna gratidão por ter sido salva. Senti nojo de que um dia seus lábios tivessem tocado os meus e prometi a mim mesma jamais recontar essa história a ninguém.
Porém, agora ela está aqui, essa história antiga, que eu jurei ter esquecido. Senti raiva de mim mesma por não esquecer certas coisas, sentei-me na banheira, abraçando minhas pernas, o queixo encostado contra o joelho. Eu tremia de frio, mas não sairia dali até que a superfície parecesse tranquila.
Havia algo no mar e na água que me intrigava. Sempre gostei do balanço do mar e da sensação de ainda estar dentro da água quando ficávamos horas na piscina. Sempre pensei que era algo que só eu sentia e sentia-me especial por isso, mas eu estava errada. O mar tem essa mania de perseguir a todos que o buscam.
Ali, parada durante alguns minutos, pensando na água e em todos seus mistérios, eu afundei no mar que havia em mim. Afoguei todas minhas preocupações, as amarrei com pesadas pedras e as deixei chegar até o fundo, nas profundezas do mar que, por ora, eu chamarei de ‘minha mente’. Afundei Emma também, fiz questão de amarrá-la a inúmeras pedras, pedras que a destruiriam com o tempo, assim como ela me destruiu em poucos segundos.
A pior parte desse exercício mental é que tudo o que está no fundo do mar volta à tona como uma onda, capaz de fazer grandes estragos e destruir completamente a superfície. Ter consciência disso me fez perceber que não importava a pureza da água que eu me banhasse, eu jamais seria capaz de tirar Emma de mim. Ela já havia feito dano o suficiente.
Dormi com tanto ódio aquela noite, com ela em meus pensamentos e em meu corpo, pois havia marcas em mim. Quando eu as tocava, sentia a dor e a sentia também. Pois ela era isso, essa mistura de dor e prazer. Mesmo tendo plena consciência disso, eu fechei os olhos e apertei com mais força o roxo de minha pele, pois o roxo era a única cor que eu teria essa noite e essa dor era o único sentimento que, por ora, eu era capaz de sentir.
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