Instruções
14 Capítulo 14
Capítulo 14
Dois minutos. Foi o tempo que levou para chegarmos ao primeiro andar. O elevador antigo e lento chacoalhava a cada segundo e eu contei cada um deles, enquanto tentava acalmar minha própria mente. Eu ainda estava com aquela sensação de que eu não pertencia a mim mesma. Era como se o meu corpo e minha mente estivessem desconectados. Eu me senti a deriva, completamente em alto mar, enquanto meu corpo era levado para longe.
Pensei em dizer em voz alta o nome dela, a fim de me fazer presente, mas eu não conseguia juntar uma palavra sequer em meus lábios. Dois minutos. Só dois minutos e eu sentia como se fosse o fim do mundo. Não sabia o que aconteceria assim que as portas daquele elevador abrissem.
“Você deveria ter me ligado antes.” Ela disse, assim que os dois minutos se passaram e nós duas caminhamos juntas pelo corredor.
Eu não respondi. Como eu ligaria? Eu nem sequer tinha o seu telefone ou endereço, juntei cada uma dessas palavras para colocá-las em uma frase e dizê-las em voz alta, mas tudo o que consegui dizer foi: “Seu vestido está aberto.” Ela parou, se virou para mim e hesitou um segundo, antes de rir. Não consegui acompanhá-la, eu ainda me sentia fora de mim.
“O vestido não fecha.” Ela respondeu e deu de ombros.
O vestido era rosa, sem mangas ou alças, que ia até a altura de suas coxas e parecia completamente fora de contexto no corpo de Emma. Atrás, era possível ver o zíper que aparentemente ou estava quebrado ou não subia. Não ousei fazer outro comentário a respeito.
“Pertenceu a tia da noiva de Anna.”
“Anna?” Eu perguntei, de forma automática.
“Minha amiga, lembra que eu te contei sobre ela? Estamos dividindo esse apartamento por enquanto.” Respondeu Emma, virando-se em direção a porta, abrindo-a logo em seguida.
Tive tempo de ver novamente o zíper completamente aberto e de observar o quanto o vestido se encontrava apertado em seu corpo. Tive tempo também de perceber que eu segurava fortemente a chave que Emma havia jogado para mim e ao abri minha mão, a encontrei marcada pelo contorno do objeto. Eu não apenas estava me sentindo longe do meu corpo, como também havia perdido a capacidade de senti-lo.
Segui Emma apartamento adentro, o lugar pequeno e mal iluminado me colocou logo na realidade do bairro em que eu me encontrava. No pequeno sofá de dois lugares, uma ruiva, que logo pousou seu olhar sobre mim, estava jogada entre as almofadas do móvel. No chão, pétalas e mais pétalas enfeitavam o caminho. Perguntei-me o que estava acontecendo, mas não sabia se era meu direito de perguntar o que quer que fosse. Eu nem sequer estava ali de fato.
“Levando em conta o acordo que nós combinamos assim que viemos para cá. Você tem que deixar o apartamento por 24 horas quando eu trouxer alguém.” Emma disse, com os braços cruzados em frente ao corpo.
A garota ruiva, que logo supus ser Anna, me olhou de cenho franzido, mas sua atenção voltou rapidamente para Emma e uma discursão sobre quem deveria ou não sair começou.
“Na verdade, pelo o que eu lembro bem.” Começou a dizer Anna. “Você tem que avisar 24 horas antes de trazer a garota.” Completou, se levantando e pegando cada uma das pétalas vermelhas no chão. Emma nem sequer saiu do lugar para que a pobre garota pegasse uma das pétalas que ela pisava.
“Bem, não foi nada programado. Ela é uma das garotas do projeto e tenho que seguir a agenda dela.” Respondeu Emma.
Anna olhou para mim de cima abaixo e se ajoelhou no chão, era como se ela tivesse recolhendo informações no ar. Talvez eu estivesse tão fora de mim que tudo o que eu já fui ou ainda sou estivesse de fato planando ao redor de meu corpo.
“Ela não parece uma das garotas do projeto.” Respondeu Anna, agora com um punhado de pétalas na mão. “Mas bem, eu não vou atrapalhar você ou os seus jogos.” Dizendo isso, ela se levantou, partiu em direção a uma das portas e sumiu por alguns instantes.
“Você vai para casa dela?” Perguntou Emma, aos berros, ouvindo uma resposta em mesmo tom, que vinha de algum cômodo do qual eu não podia ver.
“Para aonde mais eu iria?” Gritou a garota do outro cômodo.
“Eu sei lá.” Respondeu Emma. “Não estou tão por dentro da sua agenda.” Continuou e no instante seguinte Anna apareceu, carregando uma bolsa e a pendurando em um dos seus ombros.
“Na verdade, você está sim.” Disse em tom divertido. “Não é mesmo? Ela te manda o cronograma a cada hora. Aliás, assim que eu a ver, vou dizer que você falhou completamente no seu papel como dama de honras. E olha que isso só exigia que você jogasse algumas pétalas no chão.” Anna parecia estar se divertido com isso. Emma, por sua vez, não parecia nada feliz. Talvez fosse o vestido apertado ou havia outra história por trás.
“Por favor, Anna.” Emma se aproximou dela, sua voz quase suplicando. “Tente convencê-la a tirar esse vestido do cronograma ou pelo menos outro vestido. Eu não conseguirei perder peso algum, porque é impossível entrar nele. Ele foi feito para uma criança de 12 anos, não para uma mulher!”
“Você não é uma mulher e eu não vou pedir nada. Você sabe que é a tia dela que quer o vestido e eu não vou tirar isso dela. A mulher me odeia!” Anna logo se afastou de Emma, passou por mim e forçou um sorriso gentil. Não tive tempo de me virar a fim de vê-la sair pela porta, apenas ouvi o barulho desta se fechando.
“Ela vai se casar. E tanto ela quando a noiva estão me levando a loucura.” Disse Emma para mim, indicando o sofá de dois lugares onde Anna estava sentada antes.
Dirigi-me até ele, sentei-me ao lado dela e finalmente abri a mão, revelando a chave e a marca que ela havia me proporcionado. Emma se inclinou, pegando minha mão na dela e olhou para a marca que havia na minha palma. Não era nada grave, mas ainda assim, ela levou como se fosse um problema de fato.
Senti-me como uma criança, enquanto ela esfregava seu polegar em minha mão, até que voltasse a sua cor natural. Eu ri desse gesto, embora ela parecesse de fato preocupada e, aos poucos, enquanto eu relaxava, eu sentia minha mente voltando ao meu corpo.
“Você deveria ter me ligado.” Ela repetiu, segurando ainda minha mão na sua. “Eu poderia ter preparado algo para nós, comprado uma bebida decente e expulsado Anna há mais tempo. Além do mais, eu poderia ter tirado meu corpo fora dessa coisa estúpida de ensaiar a entrada do casamento. Elas querem que eu entre jogando as pétalas no chão. Eu realmente pensei que o convite para ser madrinha vinha apenas com fotos e com a obrigação de ficar em pé durante toda a cerimônia, mas não, elas também queriam que eu fizesse isso com as pétalas. É ridículo.”
“O que tem de ridículo?”
“Ora, isso deveria ser coisa de criança. Além do mais, eu tenho que usar esse vestido que é dois ou até mesmo dez manequins menor do que o meu. Eu odeio ele. Odeio tudo nele. Odeio os ensaios e odeio todas essas pétalas.” Disse ela, em um tom furioso, se jogando contra o encosto do sofá, com sua mão ainda segurando na minha.
Por um segundo, eu senti como se eu não fosse a única que estivesse se sentindo fora de si. Imitei o seu gesto, me inclinei a fim de encostar minha cabeça contra o sofá. Inclinei a cabeça para trás, notei o teto completamente pintado de azul. Era como ver o céu, havia até as nuvens ou talvez fosse o efeito da pouca luz.
“Anna pediu que eu pintasse o céu no teto.” Emma começou a dizer, me virei para ela e então entendi que de fato não era apenas um efeito, havia de fato um céu sobre as nossas cabeças. “Nenhuma de nossas janelas tem uma boa paisagem.” Continuou. “Nos dois primeiros dias isso a matou. Eu pensei que ela pegaria o primeiro voo e voltaria para Califórnia. Eu realmente acho que ela teria feito isso se eu não tivesse pintado um céu para ela.”
Eu segui seu olhar, me perdi no desenho das nuvens, no azul celeste e na pequena imensidão daquele cômodo. Emma se levantou, soltando enfim minha mão, me senti desamparada por alguns segundos e temi essa necessidade por contato físico. Eu sempre tinha sido assim tão carente? Ou minha necessidade por contato se restringia apenas a ela?
Sua ausência foi breve, ela voltou com um pequeno aparelho que eu não soube identificar o que era. Era do tamanho de um rádio portátil. Ela o ligou na tomada e o trouxe para o centro da pequena sala, entre o sofá que eu estava e o pequeno rack da televisão. Então, ela o ligou e do pequeno aparelho surgiram luzes, inúmeras luzes coloridas, iluminando aquele céu. Ela se jogou novamente ao sofá, bem ao meu lado.
“São as Luzes do Norte.” Emma disse, me fazendo sorrir. “Anna gosta quando o céu está acordado. É assim que ela diz.” Continuou a dizer, senti pelo seu tom de voz que Emma gostava muito de Anna, não pude deixar de sentir uma pontada de ciúmes. “Todas as noites desde que eu pintei esse céu, nós nos sentamos aqui e ela ouve todas as minhas ideias para o próximo volume dos quadrinhos. Ela me corrige quando eu digo alguma besteira ou sugere algo novo. Ela também lê os meus contos. Eu deixo ela ler porque estamos no escuro e as únicas luzes são do nosso céu artificial. Gosto da distância que esse jogo de luzes proporciona na escuridão. No escuro tudo fica mais distante, ainda não consigo permitir que alguém leia meus escritos assim de perto.”
Houve um silêncio e a escuridão pareceu me engolir. Observei as luzes artificiais dançarem pelo céu de Emma. Observei a mim mesma voando nessas luzes. Não sei se eu concordo sobre a distância que a escuridão proporciona. Pois, durante um tempo, a escuridão me levou para mais perto de meus medos.
Suspirei fundo. Senti o corpo de Emma se arrastando em minha direção, senti seu braço se entrelaçar ao meu e sua cabeça repousar em meu ombro. Esse toque me arrepiou a espinha, senti meu corpo se aquecer e por instante pensei em me inclinar em sua direção e beijá-la. Mas algo me dizia que não era isso que ela buscava em mim.
“Por que não me ligou?” Perguntou Emma novamente, seus olhos fitavam os céus, suas mãos agora percorriam o meu braço, ela provavelmente agora sabia que o seu toque me arrepiava por completo.
“Eu não tinha o seu número.” Respondi, minha voz sussurrava, como se eu temesse quebrar esse vínculo entre nos duas.
“O que você quer dizer com isso? Eu escrevi meu número na última página do manuscrito. Meu número, endereço, local de trabalho. Deixei tudo lá. Imaginei que uma vez que você se sentasse e lesse com cuidado tudo o que eu havia desenhado e anotado, você iria querer saber de todos os outros detalhes.” Respondeu Emma, me odiei por não ter tido sequer a curiosidade de abrir o caderno que ela havia deixado para mim, mas eu não estava com cabeça naquele momento.
Havia muitos fantasmas me assombrando quando ela me deixou. Pensei em dizer isso a ela, embora soubesse que talvez isso não a interessasse. Então me ajeitei no sofá, de modo a encará-la. Ela logo se ajeitou e me olhou fundo nos olhos.
“Eu não cheguei a tocar no manuscrito quando você foi embora.” Respondi, senti a necessidade de contar a ela sobre meus sentimentos guardados em relação a Ruby.
Senti a necessidade de falar sobre a gaveta, a foto e sobre tudo o que eu senti e vivi na última hora, mas não parecia certo. Era como se isso só pertencesse a mim, de modo que resolvi guardar tais memorias em meu interior.
Ela se ajeitou novamente no sofá, como se algo a incomodasse. Eu vi a luzes dançando por seu rosto, azuis, amarelas e verdes. Todas refletiam em seus olhos. Era como uma extensão do céu no teto e eu não conseguia pensar quando fora a última vez que eu vi algo mais lindo que isso.
“Então como você me achou?” Ela perguntou, num sussurro, dando um ar mais dramático para tudo o que estava acontecendo entre nós duas.
Eu quis dar de ombros e dizer o que eu realmente pensava que tivesse acontecido, mas ao invés disso, decidi ignorar a razão e responder o que de fato meu coração sentia.
“Eu não te achei Emma.” Respondi. “Pois acho que isso implicaria em te perder. Eu nunca fiz isso. Nunca te perdi, pois você nunca foi minha.” Continuei, seu rosto que as vezes era todo luz e as vezes sombras foi tomado por ligeira confusão. “Eu não acredito na ideia de que uma pessoa pertença a outra, mas eu não posso ignorar o fato de que existe algo em você que me atrai, mesmo que eu não queira.”
“O que você acha que é?”
“Eu acho que é uma parte de mim mesma. Acho que eu a deixei contigo anos atrás e talvez agora o universo queira que eu a recupere.”
“Faz sentido.” Emma respondeu, sorrindo e iluminando seu rosto mais ainda. Senti uma necessidade incontrolável de buscar sua mão e a achei sem demora. Entrelacei meus dedos nos seus e pedi que ela se explicasse. “Eu achei a melhor parte de mim quando você foi embora. Na verdade, eu lutei para que essa parte se sobressaísse e ocultasse a Emma fria e egoísta que eu sempre fora. Será que na verdade eu não achei nada? Será que você a deixou comigo?” Ela pareceu se divertir com essa parte e milhares de perguntar surgiram de uma vez em minha mente.
“Eu não acho que eu tenha esse tipo de poder.” Respondi.
Emma balançou a cabeça, sorriu para si mesma e se inclinou em minha direção. Seus lábios tocaram os meus por menos de um segundo, o que foi o suficiente para eu ansiar por mais.
“Você tem sim, Regina. Pelo menos em mim, você tem todo e qualquer poder.” Ela respondeu e sua voz era exaltada, quase em desespero. “Eu queria muito te beijar agora.” Continuou. “Mas eu ainda sou destrutiva e não quero te arrastar para minha vida.”
O silêncio que se seguiu pelo instante seguinte foi o suficiente para que eu ignorasse sua frase. Eu não ligava para o seu poder de destruição e nada do que ela dissesse poderia me impedir de querer entrar em sua vida. Pelo menos foi assim que eu pensei, quando levei minhas mãos até seus cabelos, trazendo seu rosto para mim.
Eu fechei os olhos e senti seus lábios nos meus, esperei que ela me afastasse, mas isso não aconteceu. Ela se arrastou pelo sofá em minha direção, suas mãos percorrendo meus cabelos, seus lábios e boca que me devoravam aos poucos. Seu gosto, seu perfume e seu toque me fizeram perder os sentidos. Senti minha mente novamente deixando meu corpo, dessa vez para se juntar a ela e eu sabia que dessa vez não teria volta. Eu teria que me entregar completamente.
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