Instruções

13 Capítulo 13


Capítulo 13

Houve um tempo, depois da morte dos meus pais e de Ruby, que eu não conseguia dormir com as luzes apagadas. A escuridão me assustava e me deixava em um eterno estado de alerta. Dormir era difícil e consequentemente a manhã seguinte também. Sofri com isso por algum tempo, antes de me entregar as medicações e os relaxantes musculares, para que enfim eu tivesse uma noite de sono.

Demorei a me acostumar ao escuro e a solidão, pois os remédios só me ajudavam a dormir e não preenchia minha necessidade por contato humano. Por conta dessa carência eu desenvolvi alguns hábitos e vícios. No espelho do meu banheiro, por exemplo, havia a foto dos três. Minha mãe, meu pai e Ruby. Todos os dias, assim que eu me levantava, ainda dopada pelos meus remédios, eu caminhava até eles e fitava suas fotografias por horas.

No começo, esse exercício me trouxe uma paz, até que eu comecei a notar que ele também me trazia uma espécie de vício, assim como os remédios que eu andava tomando. A ideia inicial era contar a mim mesma uma memória boa que eu tinha de cada um deles. Eu me fixava eu seus olhos e puxava do passado uma história que outrora me fizera sorrir.

Não era tão difícil com meu pai, era quase instantâneo. Eu apenas fechava meus olhos, por um segundo, e me via criança, correndo pelo clube que visitávamos todos os finais de semana. Eu podia até sentir meus pequenos pés de garotinha, correndo pelo gramado. Ao fundo, eu ouvia minha mãe, dizendo para não correr e eu a ignorava em meus pensamentos, como ignorava anos atrás. Meu pai me seguia e enfim me alcançava e nós dois caíamos na grama. Exaustos da nossa brincadeira de pega-pega, da qual ninguém saia ganhando.

Puxar uma memória boa em relação a minha mãe era a parte mais exaustiva. Eu demorava mais tempo e sempre me sentia culpada pela resistência da minha mente. Porém, no final, eu me via com apenas 14 anos, no meu uniforme de equitação, estendendo para ela minha medalha de primeiro lugar. Lembro do sorriso que apareceu no canto de seu lábio e do seu olhar dotado de orgulho. ‘Muito bem, Regina. Enfim você alcançou a excelência em alguma coisa.’

Eu lavava meu rosto, para levar essa memória para longe e me focava logo em seguida em Ruby. Seu sorriso enorme e seu olhar apaixonado me acalmavam sempre. Eu pensava então no nosso primeiro beijo. Das luzes apagadas, do seu vulto na escuridão, seu perfume e sua boca na minha. Meus olhos se fechavam e a escuridão que eu evitada durante a noite, tomava conta da minha mente e eu me perdia nessa memória, retornando muitos minutos depois.

Os remédios me tornaram apática e mais lerda do que eu gostaria. Era difícil reagir a dor e ao mundo. Era muito mais fácil não sentir nada. Eu teria que parar com os remédios e com os meus exercícios de memória, se eu quisesse voltar a viver no mundo real novamente. Meu primeiro passo para isso, foi jogar fora todos meus comprimidos e guardar todas as fotos.

Entretanto, eu não consegui abrir mão de Ruby, de seu sorriso e do nosso primeiro beijo. Eu demorei muito para enfim guardá-la na gaveta da pia do meu banheiro. Era uma noite chuvosa, como a noite do nosso primeiro beijo e a luz oscilou. Eu estava diante do espelho do meu banheiro, lavando meu rosto, para enfim me jogar na minha cama. Eu ainda temia a escuridão, ainda dormia com a luz acesa, mas já não mais sofria com os efeitos colaterais dos meus remédios. Porém, ainda me levantava de manhã e olhava para a foto de Ruby, sorria de volta para ela e lembrava do nosso beijo.

Quando a luz se apagou, me deixando no escuro, eu senti uma onda de pânico me consumindo e me agarrei na borda da pia. Eu me senti sozinha, assustada e desesperada. Tentei focar minha visão no ponto onde se encontrava a foto de Ruby. Eu não podia vê-la, mas sabia que a foto estava ali e que ela estava sorrindo para mim.

Agarrei-me a esse pensamento e fechei os olhos. Por um segundo, a escuridão, o desespero e a solidão se intensificaram, mas apenas por um segundo. Senti minha respiração normalizando, senti o medo e todo aquele desespero indo embora. Eu não temia mais a escuridão e algo me dizia que eu não estava sozinha.

Quando enfim abri meus olhos, a luz havia voltado e a foto de Ruby, sorrindo para mim, se encontrava bem ali onde sempre esteve. Estiquei minha mão em sua direção, a descolei do espelho e a beijei pela última vez, antes de guardá-la na gaveta, onde até hoje ela se encontra. Naquela noite, eu dormi com as luzes apagadas e não mais precisei de um momento para trazer aqueles que eu amava para minha mente. Eles aprenderam a vir sozinhos. Eu os sentia em pequenos momentos do meu dia. Em situações do meu cotidiano.

Minha mãe aprendeu a surgir em meus pensamentos sozinha. Todas as vezes que eu vejo um quadro que ela gostaria de ter ou quando eu me pego reprendendo alguma atitude minha. Minha mãe ainda vive em mim. Ela é meu lado mais severo, que raramente aparece, mas que quando surge consegue ser bem característico.

Meu pai está em todo canto também. No modo que eu dobro os jornais de domingo na mesa do café da manhã, na forma que eu escolho minhas panquecas quando saio para um brunch com meus amigos e nas linhas de expressões de meu rosto. Toda a gentileza que tenho em mim foi herdada de meu pai. Meu lado para os negócios e a forma que eu me relaciono com meus empregados também têm origem dele. Sou eternamente grata ao que ele me ensinou a ser.

Ruby esteve por um tempo em todos os lugares que eu frequentava, qualquer detalhe em vermelho me fazia pensar nela. Qualquer sorriso e qualquer perfume pareciam pertencer a ela. Nunca lutei contra a sua presença, que era real demais e forte demais para ser ignorada. Aos poucos, ela foi desaparecendo, sumindo no ar, junto com as suas próprias cinzas.

Em meus momentos de tristeza, eu me pego caminhando até o banheiro, onde eu apago as luzes, fecho meus olhos e seguro no puxador da gaveta onde sua foto ainda está guardada. Espero a tristeza passar, abro meus olhos e me olho no espelho. Forço meu melhor sorriso e abro a gaveta, onde encontro o sorriso de Ruby, que me dá uma certeza de que ainda há muitos motivos para continuar sorrindo.

Enquanto eu encaro agora meu próprio reflexo no espelho, o vulto de Emma, caminhando pelo meu quarto rouba minha atenção. Eu forço um sorriso, repito baixinho ‘Olá, você deve ser Úrsula. Eu sou Regina.’. Forço outro sorriso. Inclino-me sobre a pia, procuro algum defeito em meu rosto, na minha maquiagem e volto para a posição onde eu estava.

Queria não ter ativado todas essas memórias, mas Emma remexeu em algo adormecido em mim. Eu não conseguiria silenciar isso nem tão cedo. Talvez se eu estivesse mais confiante sobre esse encontro ou se eu fosse mais confiante no geral, eu não estaria pensando tudo isso. Mas aqui estou eu, diante do meu próprio reflexo, pronta para mais uma noite de encontro às cegas.

Há muita expectativa com encontros às cegas, que geralmente são marcados por amigos que fazem questão de exaltar não apenas suas qualidades quanto a do outro. De modo que o encontro se torna algo carregado de expectativas que muitas das vezes não é quebrada. Alguém sempre sai frustrado de situações como essas.

Tudo o que eu sabia sobre Úrsula era que ela adorava dançar. Nós nos encontraríamos em uma boate latina, onde provavelmente ela me forçaria a alguma atividade da qual eu não sou nada boa. De modo que eu teria que escolher sandálias confortáveis e não poderia ir com o meu carro, se eu quisesse beber. Eu definitivamente iria querer beber algo para me soltar com essa nova estranha em minha vida.

Meu reflexo no espelho parecia tão miserável, que eu tive que rir da minha própria desgraça. Eu preferia mil vezes estar jogada no meu sofá, julgando a programação da TV a cabo ou assistindo a um dos inúmeros DVDs que eu comecei a colecionar nos últimos anos, mas que sequer os abri da embalagem. Novamente o vulto de Emma no espelho, eu me viro e me encosto contra a cerâmica gelada da pia e ela finalmente aparece, segurando um catálogo de utensílios de cozinha.

“As pessoas realmente pagam uma fortuna por grills como essa, não é mesmo?” Perguntou Emma, folheando o catálogo de forma divertida e revirando os olhos ao ver os preços anunciados.

“Pessoas dão o dinheiro que for para se sentirem donas de algo que esteja na moda.” Respondi, sem muita convicção. Ela fechou o catálogo e me olhou de cima abaixo, mordendo os lábios de lado e esperando, talvez, alguma outra observação de minha parte. “Eu não tenho uma grill dessas.” Eu continuei e ela sorriu, parecendo satisfeita com a resposta.

“Minha amiga tentou comprar duas vezes na última semana, mas nossa cozinha é tão minúscula que se algo daquele tamanho entrar, nós teremos que quebrar uma parede ou uma de nós teria que sair.” Não consegui segurar minha risada diante desse comentário e senti meus músculos relaxando. “Eu realmente tenho que ir embora. Eu tomei muito o seu tempo e não quero que você se atrase para o seu encontro.” Dizendo isso, ela saiu novamente do banheiro, caminhou pelo meu quarto e jogou o catálogo sobre a minha cama.

Eu a segui, tentei convencê-la a ficar mais um pouco, ofereci uma bebida e recebi uma resposta educada, dizendo que a bebida teria que ficar para outro dia. No balcão da cozinha, ela se dirigiu até a sua bolsa, abrindo-a e tirando de lá o que parecia ser um caderno.

“Naquele dia nós não tivemos chance de conversar. Eu não estava com cabeça e além do mais, eu precisei ir embora. Acontece que eu não esperava te encontrar aqui em Nova York. Jamais pensei que você daria outra chance a essa cidade.” Ela começou a dizer, segurando contra o corpo o caderno que tinha em mãos. “Infelizmente não temos novamente um tempo para conversar, mas acredito que teremos em breve. Eu voltei para Nova York por inúmeros motivos. Um deles foi esse.” Ele me estendeu o caderno, segurei em minhas mãos, senti o seu peso. Notei a lombada costurada e o título que dizia: Instruções por Emma Swan.

“Você escreveu um livro sobre você?” Eu perguntei, me controlando para não folhear suas páginas. Ela soltou uma risada e balançou a cabeça.

“Não.” Respondeu. “Não é sobre mim. É uma releitura dos contos de fadas. Eu queria chamar ‘Era Uma Vez’, mas essa minha amiga, a que eu estou dividindo o apartamento, me aconselhou que não era um título muito atrativo.”

“Eu não sabia que você escrevia.”

“Bem, eu não escrevo de fato.” Respondeu Emma. “Mas não é um livro narrado. É uma história em quadrinhos.” Continuou e se aproximou de mim, folheando a primeira página, onde as gravuras começaram a surgir. “Eu tive essa ideia uma tarde. Tentei tirá-la da minha mente, mas alguém me incentivou a continuar. Eu não estava certa de que daria certo. Parecia não ter valor algum, mas eu resolvi dar uma chance a minha ideia. Procurei alguém que me ajudasse com todo o processo. Então, encontrei Anna, que na época trabalhava na mesma escola onde eu era voluntária. Nos juntamos, contei a ela minhas ideias e passamos pouco mais de um ano e meio aperfeiçoando os detalhes. Enfim conseguimos desenhar e escrever toda a história do começo ao fim. O que você tem em mãos é o esboço. A parte que eu mostrei para os editores que compraram os direitos de publicação. Eu queria ter esperado para te mostrar quando a obra de fato estivesse em minhas mãos, mas eu não resisti. Tanto o esboço quanto a obra final só existem graças a você.”

“Graças a mim?” Eu perguntei, confusa demais para fazer qualquer outra pergunta.

De repente, o peso desse caderno em minhas mãos era mais do que físico. Eu sentia como se estivesse segurando o sonho de alguém, de modo que a cada segundo ele se tornava mais e mais pesado.

“É uma longa história.” Respondeu ela. “E eu realmente não quero te atrasar para o seu encontro com a sua namorada.”

“Ela não é minha namorada.” Respondi rapidamente em um tom defensivo. Ela arqueou as sobrancelhas, me fitava fixamente, enquanto seus ombros relaxavam. Sentou-se na cadeira alta do balcão da cozinha, com um de seus braços apoiados sobre a bolsa. “Uma amiga em comum arranjou esse encontro. Eu nem mesmo sei como ela se parece.”

“Não tem medo de que ela não faça seu tipo?” Perguntou e eu hesitei antes de responder, ainda segurava o manuscrito em minhas mãos e a medida que o tempo passava mais pesado ele ficava.

“Eu não tenho um tipo.” Respondi, colocando o livro sobre o balcão e me dirigindo até a geladeira, pegando uma bebida para nós duas. Ela balançou a cabeça, quando eu estendi a taça e a garrafa de vinho, ainda assim eu despejei o líquido e o empurrei para ela.

“Todo mundo tem um tipo.” Começou a dizer, segurando a taça de vinho com as duas mãos, enquanto um de seus dedos corria pela borda e em seguida tocava o líquido.

Ela lambeu o dedo molhado, enquanto eu observava silenciosamente seus movimentos. Dei um gole em minha bebida e esperei que ela continuasse sua teoria, pois era o que eu sentia que estava por vir, mas tudo o que ela fez foi me encarar, até que o breve segundo de silêncio se tornou insuportável.

“Foi assim que você escolheu sua atual namorada?” Perguntei, me arrependendo em seguida. Emma soltou uma risada, leve e rápida, que durou tempo o suficiente para me deixar constrangida.

“O que te fez pensar que eu tenho uma namorada?”

“Eu não sei.” Respondi, dando outro gole no vinho, sentindo que estava extrapolando meus limites. “Talvez o que você me disse sobre suas novas regras. Os três As. Eu imaginei que tivesse alguém por trás. Um amor, talvez.”

Ela tirou as duas mãos da taça, me olhou por um instante e afastou a bebida de si, pegando em seguida o manuscrito. Eu me aproximei, suas mãos agora caminhavam pelas bordas costuradas, me sentei a seu lado e isso pareceu um convite para que ela me contasse a sua história.

“Existe alguém sim.” Ela respondeu. “Porém, não do jeito que você está pensando. Nos últimos anos muitas pessoas entraram na minha vida, mas não dessa forma. Eu realmente acredito que há algo em mim que repele os outros.”

“Talvez você esteja sendo exigente demais com o tipo que você procura.” Ela soltou uma risada com a minha observação.

“Eu pensei que você não acreditasse em tipos.”

“Não acredito.” Respondi. “Mas você acredita, não é? É assim que você selecionou as últimas pessoas que entraram na sua vida? Talvez você esteja sendo severa demais com os outros.”

“Não, não estou.” Respondeu, senti seu tom de voz tomando um ar reflexivo. “Eu sou sincera com as pessoas. Não posso dar espaço para que elas entrem se elas não podem ficar. É meio injusto, não acha? Ou faz meu tipo ou não faz. É simples assim. Imagino que você seja tão exigente quanto eu, caso contrário, não estaríamos tendo essa conversa, pois você estaria ocupada com uma atual namorada e quem sabe até uma esposa. Não é isso o que está acontecendo, não é mesmo? Você ainda está a caça. Nós duas estamos.” Dizendo isso, ela puxou a taça para si, dando um enorme gole e pedindo desculpas por suas palavras.

“Talvez você esteja certa.” Eu respondi, um pouco constrangida e até mesmo perplexa por ter ouvido uma verdade de alguém que nem está presente na minha vida. Eu quis me afundar no meu vinho, virei o copo em um único gole, tomando o restante da bebida. Senti meu rosto esquentar e desejei ter deixado que Emma fosse embora, quando ela teve a chance. “Mas eu não tenho um tipo.” Ela não me respondeu, me olhou como se buscasse uma resposta em minha maquiagem forte ou em meu olhar que agora devia estar dando sinais de minha pequena embriaguez.

Um sorriso surgiu em seus lábios, um tipo de sorriso do qual se revela não apenas os dentes, mas também segundas intenções. Ela se virou em seu banco, deu de ombros e repetiu sua frase de que todos temos um tipo. Eu devo ter revirado os olhos e dessa vez seu sorriso se misturou em uma risada.

“Ter um tipo significa procurar algo em alguém. Pode ser qualquer coisa. A diferença é que existe um abismo enorme entre nossas expectativas e a realidade que o outro tem a oferecer.” Começou ela, prestei atenção em cada palavra, pois era a primeira vez que eu sentia que nós duas tínhamos um pensamento em comum. “Eu, por exemplo, quero alguém que me ajude a não pular entre todos estágios da minha mente. Alguém que faça com que eu me sinta no controle, que me tire do tédio e que me acalme quando tudo o que eu sinto é ansiedade ou preocupação. Eu fujo das pessoas que não compartilham comigo pelo menos uma coisa em comum. Fujo das pessoas que me faça sentir indiferente ao seu estilo de vida. Não sou obrigada a me adaptar a quem não se encaixa em mim com facilidade. Tudo o que é forçado machuca. Tudo o que machuca deixa marcas. Marcas são pequenas deformidades que no futuro podem te impedir que a pessoa certa se encaixe a você. Eu fujo dessas pessoas. Elas não fazem o meu tipo.”

Dessa vez eu desejei ter mais vinho em minha taça. Eu desejei estar bêbada o suficiente para me jogar no sofá e ignorar que eu teria um encontro com alguém que eu mal conhecia, mas que já me colocava em um estado que eu não gostaria de estar.

“Anna diz que eu nunca vou encontrar alguém, pois, segundo ela, eu tenho uma mente macaco. Meus interesses mudam frequentemente, eu nunca encontrarei alguém disposta a pisar em um território minado. Ela disse uma vez: ‘Emma, seu problema é que você é um vulcão adormecido que jamais explode, mas que está sempre quente, sempre queimando o outro. Sempre com pequenos terremotos para impedir que o outro descubra que por trás de toda essa lava, há território o suficiente para qualquer um fazer morada.’” Sua voz soou distante, como um pensamento que ela havia compartilhado sem querer. Seu olhar desviou do meu por um segundo, deslizou por entre o manuscrito e voltou para mim.

“Ela está certa?” Eu perguntei e sua resposta foi um dar de ombros.

Ela abriu a primeira página do manuscrito e começou a contar a história, ignorando o fato de que segundos atrás ela estava se abrindo para mim. Aquele manuscrito era o primeiro esboço de uma série de quadrinhos que ela iria publicar em breve. De modo que os desenhos eram rascunhos, sem muitos detalhes, como se tivessem sido desenhados às pressas. Ainda assim, havia certa beleza em seus traços. Eu ouvi atentamente, sem em nenhum momento pensar em interromper sua narrativa. Como ela havia dito antes, era uma releitura dos contos de fadas. Rainha Má, Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho eram retratada de uma forma jamais vista.

Ela havia ignorado toda a inocência que uma vez os filmes da Disney ousaram exaltar e botou em evidência as outras faces de cada personagem. A Rainha Má tinha outros motivos além de inveja e um passado gentil, que fora corrompido pela dor de perder um grande amor. Branca de Neve não era tão boazinha e pelos traços dos esboços de Emma, eu pude sentir que ela podia lutar sem a ajuda de um Príncipe Encantado para salvá-la.

Havia mais coisa por trás, havia nosso mundo, um mundo sem magia, que seria cenário para o primeiro volume de sua série em quadrinhos. Uma maldição aconteceria, fazendo com que todos os mocinhos e mocinhas perdessem sua memória e consequentemente seus finais felizes. Quem sairia ganhando com isso, era a Rainha Má, que teria não apenas suas memórias, como também seu final feliz. Entretanto, a Rainha não contava com uma salvadora, a filha de Branca de Neve, que em um ponto da história entraria para quebrar a maldição da Rainha Má.

Isso foi tudo o que Emma me contou, segundo ela, algumas coisas haviam sido adicionadas a versão final e havia detalhes que não constavam no manuscrito e que eu teria que esperar até que saísse a versão impressa. Eu me perguntei os motivos pelos quais ela havia dito que sua obra só existia graças a mim e perguntei a ela.

“É uma longa história.” Ela respondeu, me deixando mais frustrada do que eu já estava. “E acredito que agora você não tenha mais tempo, não é mesmo?”

Eu olhei frustrada para o relógio da cozinha. Eu iria me atrasar para o meu encontro se não saísse em menos de meia hora. Olhei para Emma, que agora pegava sua bolsa e se aproximava de mim para uma despedida. Senti seus braços ao redor do meu corpo, tive vontade de prendê-la a mim por mais algum tempo. Eu estava sendo carente demais em relação a presença dela. Ainda assim, eu a soltei e a deixei ir embora.

Prometi que olharia seus esboços, que não narravam a história, tendo em vista que eram apenas as gravuras, mas ainda assim eu queria saber o que ela havia produzido nos últimos anos. Acompanhei-a até o elevador, a observei sumir quando as portas se fecharam, acenei uma última vez e congelei em minha mente o sorriso que ela havia me dado, antes das portas finalmente se fecharem e nos afastarmos mais uma vez uma da outra.

Voltei até o meu quarto, procurei por minhas sandálias e me olhei uma última vez no espelho do meu banheiro. Forcei um sorriso, forcei uma felicidade que não havia em mim naquele momento. Eu não reconheci essa Regina. Eu não era infeliz e melancólica. Eu sorria de fato, eu vivia de fato, mas agora parecia tudo falso. Agora pareceria tudo forçado e fadado ao fracasso. Eu me senti como anos atrás, temendo a escuridão, me sentindo sozinha. Faltava algo, eu sentia e sabia bem disso. Essa era a pior parte, saber que falta algo, mas não saber exatamente o quê.

Faltava uma busca. Pensei eu, quando notei que estava segurando o puxador da gaveta onde se encontrava a foto de Ruby. Falta a certeza de uma busca. O que eu buscava nos outros? O que eu buscava em mim mesma? O que eu achei em Ruby anos antes e que não mais consigo achar agora? Ruby era toda uma quebra de expectativa que eu nem sabia que eu estava nutrindo.

Ela apareceu na escuridão e deixou sua marca em mim, não uma marca que machuca e que deforma. Uma marca que me moldou e que me tornou quem eu sou hoje. Talvez por isso eu não consiga encontrar ninguém que se encaixe a esse molde que me tornei. Eu ainda estou presa a ela. Estou presa a Ruby e a uma ideia de que ninguém no mundo poderia me fazer sorrir como ela um dia fez.

Soltei o puxador da gaveta. Senti o vazio de não ter mais nada a que me segurar e prometi a mim mesma que nunca mais procuraria pelo sorriso de Ruby em lugares comuns. Ela não estava na gaveta e minha felicidade não podia ser apenas direcionada a um espelho. Abri a gaveta, olhei para a foto de Ruby e a trouxe para mim. Com a foto em mãos, eu caminhei até a cozinha e procurei por um maçarico.

Segurei aquela foto em meus dedos e a queimei. Senti algo ardendo dentro do meu peito, não lutei contra as lágrimas que desceram do meu rosto, mas sequei todas elas. A foto virou cinzas e eu a joguei na pia, abrindo a água que levou todas as cinzas de Ruby para longe de mim. Perdi tempo o suficiente olhando para aquela água descendo pelo ralo e assim que me senti pronta, peguei minha bolsa, meu celular e desci para a entrada do meu apartamento, onde um táxi me aguardava.

Dei o endereço para o taxista e pedi que ele pegasse um caminho que há anos eu evitava. Era totalmente contramão e eu perderia alguns minutos até chegar no lugar onde Úrsula havia marcado, mas eu precisava ver aquele lugar. Eu precisava saber o tamanho do vazio que havia ficado no coração de Manhattan.

Não ousei descer do carro. Olhei para o espaço onde em breve seria um memorial e imaginei se homenagear os mortos traria de fato algum conforto para aqueles que continuaram aqui. Tudo o que aquele espaço representava era um vazio enorme e cinza. Tudo era cinza e eu não me referia apenas ao mundo lá fora. Eu mesma me sentia vazia e sem cor. Pedi para o motorista seguir seu rumo, peguei meu celular na bolsa e conferi as horas.

Eu estava levemente atrasada, mas o que me chamou atenção não foi a hora e sim o ícone de mensagem recebida que piscava no visor. Cliquei no ícone e li a mensagem de Mariah, avisando que Úrsula teve que resolver um problema familiar. Não era nada grave, mas isso a atrasaria por muitas horas e ela achava melhor marcarmos para o outro dia.

Eu ri da minha própria desgraça. Logo quando eu estava me afundando na minha própria tristeza, o que significaria que eu seria um alvo fácil para uma noite de sexo sem sentido. Eu já conseguia me ver saindo do apartamento de Úrsula no meio da madrugada, com minhas sandálias nas mãos e minha cabeça latejando por todas as bebidas que eu teria tomado.

O táxi virou em uma rua conhecia, estávamos perto do lugar onde eu me encontraria com Úrsula. Eu poderia mandar ele me levar de volta para casa. Eu ainda tinha aquela garrafa de vinho na geladeira. Também poderia ligar para alguma de minhas amigas que nunca tiveram tanta intimidade assim comigo e terminar a noite de forma saudável ou poderia seguir meu caminho até o bar que eu não conhecia e permitir que a noite me direcionasse para qualquer garota que estivesse disponível no local.

“Você poderia parar o carro?” Pedi, ignorando todas as opções da minha noite. Ele prontamente me obedeceu e encostou o carro em uma calçada qualquer. Entreguei a ele o dinheiro, saltei do táxi e o observei se afastar.

Eu estava sozinha, em um bairro que não conhecia nada, andando sem rumo pela noite de Nova York. Não faria diferença onde eu estivesse agora, eu me sentiria sozinha de qualquer forma. Eu só não queria destruir mais a minha noite, de modo que me afastar das bebidas ou de garotas que não faziam meu tipo, era a melhor estratégia. Eu ri com esse pensamento.

Eu tinha um tipo? Existia alguma garota nesse mundo que preenchia minhas expectativas? O que eu buscava em alguém? Eu sabia que eu buscava algo. Todos nós buscamos, eu podia claramente ouvir a voz de Emma na minha cabeça. Desejei que ela não tivesse aparecido essa noite, pois a última coisa que eu precisava era de alguém que me fizesse refletir sobre meus relacionamentos ou sobre eu mesma.

Essa forma de pensar era tão falsa. Na verdade, tudo o que eu precisava era de alguém que me fizesse questionar sobre o que eu estava fazendo com minha vida amorosa. Eu andei em círculos nos últimos anos. Andei sem rumo, como estou fazendo agora. Andei às cegas, sem saber que chegaria a lugar algum.

De repente, parei de súbito, como se algo em minha mente tivesse sido decodificado. Eu soube então o que eu procurava em alguém. Eu procurava essa sensação de pertencer a um lugar, de saber onde eu estou e saber o que quero. Além disso, eu queria alguém que me surpreendesse, que me fizesse rir pelos motivos certos, não por educação ou pela necessidade de forçar um sorriso só para provar que estava tudo bem.

Ainda estava tudo cinza e silencioso, estar em uma rua residencial, longe dos bares e boates movimentadas, apenas aumentava minha sensação de solidão, mas algo dentro de mim me dizia que eu não teria esse tipo de revelação dentro de casa. Eu precisava estar ali. Eu precisava me sentir sozinha. Eu encontraria algo e alguém em algum lugar. Algum dia.

Um sorriso, que eu pensei que não surgiria em meu rosto aquela noite, apareceu. Eu senti os músculos do meu rosto se contorcendo, acredito que até eles não imaginavam que eu teria algum motivo para sorrir. O que me fez sorrir foram pétalas. Inúmeras delas e todas vermelhas. Caindo do céu como uma chuva.

Eu abri minhas mãos em frente ao corpo. Elas tomaram conta dos meus cabelos, do chão ao meu redor, algumas repousavam na palma de minhas mãos. Todas vermelhas. Todas elas preenchendo aquela rua cinzenta com uma das cores mais vivas desse mundo. Eu olhei para o alto, me perguntando de onde elas vinham. Provavelmente da sacada de um desses prédios, eu respondi a mim mesma. Não vi nada, nem ninguém. Não havia uma alma viva sequer em nenhuma das sacadas e a essa altura as pétalas já haviam acabado.

Talvez eu tivesse imaginado tudo, pensei comigo mesma, mas os perfumes das pétalas das rosas tomavam toda a calçada. Eu não poderia estar imaginando. Eu não tinha uma mente assim tão criativa e vívida. Eu esperei, ainda com as mãos cheias de pétalas, assim como meus cabelos. Esperei olhando para o alto, na esperança de que houvesse mais pétalas, embora as que houvesse ao meu redor tivessem sido o suficiente para colorir a minha noite.

Esperei e não houve mais pétalas ou cores. O que aconteceu foi algo melhor do que isso. Em uma das janelas de um dos apartamentos acima de minha cabeça, surgiu ela. Surgiu Emma, com a cara mais fechada possível. Ela se inclinou sobre a janela, o cenho franzido, os lábios contorcidos de raiva. Seu rosto se iluminou no instante em que seu olhar cruzou com o meu. Eu fechei minhas mãos, sentindo as pétalas das rosas sendo amassadas contra meus dedos.

Era a mesma sensação de segurar o puxador da gaveta. Então eu abri minhas mãos, abaixando-as e permitindo que as pétalas deslizassem pelos meus dedos. Emma me olhava de forma confusa, talvez tentando entender o que eu estava fazendo ali. Ao invés de fazer qualquer tipo de pergunta, o que ela fez foi sorrir. Um sorriso que me desarmou de todos os medos e ansiedades que eu havia sentido na última hora. Ela se inclinou para fora da janela e, sem dizer nada, jogou para mim um chaveiro, com uma única chave.

Eu me abaixei para pegá-lo entre as pétalas, olhei para ela uma última vez e entendi o que queria com esse gesto. Subi os degraus da entrada de seu apartamento. Coloquei a chave no trinco e a girei, a porta abriu com facilidade. Encontrei-me em um pequeno saguão de entrada com dois elevadores que não se encontravam no térreo.

Por um instante, eu cheguei a pensar que não deveria estar ali, mas a sensação foi embora, quando enfim o elevador chegou ao térreo e suas portas se abriram, revelando Emma, que usava um vestido rosa, que não combinava nada com ela. Não ousei perguntar do vestido, apenas entrei no elevador e a encarei, ela esticou o braço para apertar o botão de seu andar.

Enquanto subíamos, minha cabeça dava inúmeras voltas. Eu não sabia o que o acaso queria provar colocando Emma em minha vida dessa forma, mas estava aberta para as consequências. Pois finalmente eu havia entendido que falsos sorrisos apenas abriam antigas gavetas. Eu precisava de mais. Eu precisava de sorrisos que me traziam flores, cores e novos amores. Eu só não sabia se eu poderia encontrar isso em Emma.