Instruções
7 Capítulo 7
Capítulo 7
Solidão e vazio. Seriam essas as duas palavras que eu escolheria para descrever o que eu senti ao chegar ao meu apartamento. Eu desliguei meu celular. Desliguei-me do mundo. Eu havia passado as últimas horas naquele hospital com Emma, enquanto a televisão anunciava o horror do mundo lá fora.
Eu perdi meu chão quando me dei conta do que estava acontecendo. Meu celular não parou de tocar nos minutos seguintes. Eu ignorei a maioria das ligações. Eu tentei ignorar tudo o que eu estava sentindo, mas era impossível. A única ligação que eu atendi foi a da avó de Ruby.
Eu ainda estava no hospital, sentada em uma cadeira, minhas mãos tremiam, meu corpo inteiro tremia e tudo o que eu ouvia do outro lado da linha era a voz inconsolada da única pessoa que Ruby tinha nesse mundo. Eu não tive forças de ir até lá para consolá-la, eu quase não tinha forças para levantar.
Eu passei algumas horas com Emma no hospital, até que eu decidi voltar para o meu apartamento. Emma tinha dado a luz a um menino, de modo que apesar dela ter insistido em voltar para casa comigo, o médico dela achou melhor que ela ficasse mais um dia no hospital.
David, o amigo de Emma e pai do bebê que ela carregava, se ofereceu para me levar de volta para casa. Ele ficou comigo até que eu adormecesse. Eu acordei horas depois, encontrando sobre o balcão da cozinha um lanche que David havia preparado para mim. Um banho demorado não foi capaz de me ajudar a relaxar. Ainda assim, eu consegui dormir novamente e acordei horas depois, com meu celular tocando.
Era o advogado do meu pai, que morava em Boston, ele estava desesperado e assustado do outro da linha. Eu não precisei falar muito, ele queria vir imediatamente para Nova York, para me ajudar com o que quer que fosse preciso. Eu insisti que ele não viesse, eu não estava pronta para enfrentar nada no momento.
As horas se seguiram conturbadas e confusas. Várias ligações de parentes distantes. Eu precisava atendê-las, eu precisava acalmá-los e precisava também dizer a verdade sobre o que havia acontecido, embora todos já soubessem. O mundo inteiro já sabia.
Acredito que eu deva ter ficado três dias trancada naquele apartamento. Sozinha. Tentando esquecer a dor que eu carregava em mim. A campainha então tocou, insistentemente. O plano era ignorar. O plano era dormir até que eu simplesmente esquecesse quem eu era.
Então, quem quer que fosse que estivesse do outro lado da porta, desistiu e eu tentei voltar a dormir. O quarto estava escuro e silencioso. O cheiro de Ruby estava impregnado nos lençóis. Eu jamais conseguiria esquecê-la se eu permanecesse ali. Mas talvez eu não quisesse esquecê-la.
“Você tem que se levantar.” Disse uma voz e o quarto se iluminou.
Eu me virei e encarei Emma, parada contra o batente da porta, segurando uma mochila nas mãos.
“Você precisa se levantar e vir comigo. Eu não vou deixar você se afundar nesse luto.” Ela continuou. “Eu me abaixaria para te levantar, mas eu não posso.” Ela me encarava, com uma das suas mãos na cintura, seu olhar estava bem fixo em mim e seu semblante era sério.
Eu me sentei em meu colchão, meus olhos estavam tentando se adaptar a luz. Ela estava usando uma calça jeans, uma jaqueta vermelha e seus cabelos loiros estavam amarrados em um rabo de cavalo. No chão, ao lado dela, havia uma mala.
“Você vai a algum lugar?” Eu perguntei.
“Não.” Ela respondeu rapidamente e me jogou a mochila. Eu a segurei no ar, percebendo que estava vazia. “Nós vamos.” Ela continuou. “Arrume suas coisas, nós vamos passar alguns dias fora.”
Dizendo essas palavras, ela se afastou levando a mala que estava ao seu lado consigo. Eu encarei a mochila em minhas mãos, levantei e fui atrás dela. Encontrei Emma na cozinha, havia algumas sacolas sobre o balcão e o cheiro de comida exalava no ar.
“O que você está fazendo?” Eu perguntei, ela me olhou rapidamente, sem tirar atenção do que estava fazendo.
“Eu vou preparar algo para nós duas.” Ela respondeu e começou a tirar algumas coisas das sacolas.
“Como você entrou?”
“Meu deus, Regina, pare de perguntas.” Ela respondeu irritada. “Apenas pegue as coisas que você vai precisar, nós sairemos daqui assim que terminarmos.”
Ela começou a preparar a comida e eu não ousei me mover, até que ela me encarou novamente e, com uma voz decidida, ordenou novamente que eu fosse arrumar minhas coisas. Então eu fui até o meu quarto, encarei as caixas com as minhas coisas, peguei algumas mudas de roupa e as joguei na mochila. Eu não sabia exatamente o que eu estava fazendo. Parecia que eu estava no piloto automático. Parecia que eu era um robô. Eu já não mais me sentia eu mesma e estava tendo dificuldades para lidar com o que eu estava me tornando.
Ruby também tinha uma caixa, com poucas coisas, pois a casa de sua avó era razoavelmente perto. Eu devo ter ficado muito tempo olhando fixamente para aquelas caixas, até o ponto de perder a noção do tempo. Eu senti uma mão tocando meu braço. Eu me virei e olhei para Emma. Seu olhar era triste e eu me perguntei como ela estava me vendo naquele momento, pois eu me sentia tão vazia que chegava a acreditar que eu já não era capaz de expressar o que eu sentia.
Ela se aproximou de mim e me envolveu em um abraço. Eu me afundei em seu pescoço, sentindo o perfume que ela exalava. Eu a escutei dizendo em meu ouvido que ela estava ali comigo e que ficaria o tempo que fosse necessário. Eu me afastei e percebi que meus olhos estavam tomados por lágrimas.
Suas mãos seguravam firmemente as minhas, ela sorriu, me fazendo lembrar do momento que compartilhamos naquele hospital. Eu vi o mundo acabar com ela ao meu lado, com ela segurando minhas mãos.
“Eu perdi todos eles.” Eu disse a ela. Eu estava soluçando, incapaz de controlar minha própria respiração. “Eu perdi todos.” Eu continuei e eu queria me jogar naquele chão e desejei estar naquele prédio. “Eles eram o mundo inteiro para mim.”
Ela segurou minhas mãos, olhou fixamente dentro dos meus olhos e, sem dizer nada, simplesmente me abraçou. Eu me senti segura nos braços dela. Eu senti como se ela fosse a única pessoa que havia me restado nesse mundo.
Minha família não era grande. Meus pais não tiveram irmãos, de modo que eu não tinha tios ou tias. Meus avôs haviam morrido antes mesmo de eu nascer. Todos os meus parentes distantes, eram de fato distantes. Eu estava sozinha no mundo. Eu estava sozinha em um mundo doente e sombrio.
Eu tomei um banho demorado, coloquei uma roupa e fui ao encontro dela. Nós jantamos juntas em silêncio. A comida já estava fria, mas mesmo que eu quisesse eu não conseguiria aproveitar o gosto. Ela me ajudou a pegar algumas coisas pessoais e nós duas saímos. O fusca dela estava estacionado em frente ao apartamento. Eu perguntei algumas vezes para onde nós duas estávamos indo, mas ela apenas respondia ‘Você vai saber quando chegarmos.’
Nós dirigimos pelas ruas vazias de Nova York. Era muito tarde, havia poucos carros e poucas pessoas nas ruas. O medo e o pânico haviam tomado conta daquela cidade. Ela pediu que eu desligasse o meu celular e que eu confiasse nela. Eu desliguei e eu confiei. Ela dirigia em silêncio. O mundo lá fora parecia extremamente assustador. Eu me foquei nela, em seu rosto e em seus olhos verdes.
“Quem é você, Emma Swan?” Eu perguntei, ela se virou para mim, seu cenho franzido. “Quer dizer, você me salvou.” Eu continuei. “É isso o que você faz?”
“Como assim, Regina?” Ela me perguntou, confusa. “Você acha que eu sou uma espécie de salvadora ou algo do tipo?”
“Eu acredito que sim.” Eu respondi
Ela se virou para mim, sorriu de lado e sua mão procurou pela minha e seguimos a viagem. Nós havíamos dirigido pouco mais de meia hora. Estávamos em um bairro no subúrbio, ela estacionou o carro diante de uma casa.
“Onde estamos?” Eu perguntei, olhando para a casa modesta do outro lado da rua, que Emma estava encarando.
“Essa é a casa de David e Killian. Eu liguei para eles antes, eu queria me despedir do bebê.” Ela respondeu.
“Para onde nós vamos, Emma?” Eu perguntei, mas ela me ignorou e desceu do carro, sendo seguida por mim. “Você tem que começar a me responder as coisas.” Eu insisti, ela riu, enquanto caminhávamos em direção a porta.
Ela tocou a campainha e nós aguardamos que alguém nos recebesse.
“Eu não preciso te contar as coisas.” Ela disse. “Você vai descobrir eventualmente.” Ela continuou.
Antes que eu tivesse a chance de dizer algo, a porta se abriu. David, que era um homem alto, loiro e de sorriso bem simpático, nos atendeu. Ele abraçou Emma apertado e em seguida me abraçou, perguntando como eu estava. Eu menti. Entramos na casa e encontramos o esposo de David, Killian, esperando por nós duas.
Nós conversamos brevemente. Emma parecia com pressa e nada a fim de conversar e os dois pareciam entendê-la muito bem, o que era bem interessante de se ver. O bebê estava dormindo e, segundo eles, havia acabado de dormir, de modo que demoraria umas duas horas para que ele acordasse. Emma não quis esperar.
Então, eles nos levaram para o quarto do bebê. Era um pequeno cômodo, bem decorado. Eles haviam escolhido um tema que era ‘Era Uma Vez’. Era tudo muito bonito e delicado. Cheio de príncipes, princesas, coroas e todos os tipos de símbolos dos contos de fada.
O pequeno bebê estava dormindo em seu berço. O quarto era silencioso e a luz tinha um aspecto frio, para não o incomodar. Uma música baixa tocava no quarto. Eu rapidamente reconheci a música. ‘Strangers In the Night’, de Frank Sinatra. Isso me fez lembrar da noite em que Emma entrou na minha vida.
“Nós vamos deixar vocês duas sozinhas.” David disse. “Emma, você tem que escolher logo o nome do bebê.” Ela continuou, se virando para Emma.
“Verdade, Emma. Nós não podemos continuar chamando nosso filho de ‘o bebê’.” Killian continuou e os dois saíram, nos deixando sozinhas.
Eu me virei para Emma. Nós duas estávamos paradas próximas ao berço do bebê.
“Eles deixaram você escolher o nome do bebê?” Eu perguntei, ela assentiu e se aproximou do berço.
O bebê era a coisinha mais pequena e perfeita que eu já havia visto. Completamente enrolado em um lençol azul.
“Aposto que foi o David que o enrolou dessa forma. Ele parece um burrito!” Emma comentou, me fazendo rir.
Era a primeira vez que eu ria em dias. Ela o desenrolou, revelando a roupinha que ele estava usando. O bebê se despreguiçou em seu berço, abrindo a boca em um bocejo e depois seus olhinhos azuis.
“Ai meu deus.” Emma disse, eu me aproximei dela. “Ele é a coisa mais linda do mundo.”
O bebê piscou para nós. Emma acariciou seus cabelos loiros, ele permaneceu sério, encarando nós duas.
“Será que nós conseguimos roubá-lo?” Ela perguntou rindo, me roubando outra risada.
“Bem, eu deixei minha bolsa no seu carro.” Ela sorriu para mim e pegou o menino em seus braços.
Ele era tão pequeno e cabia perfeitamente em seus braços. Ela o balançou gentilmente de um lado para o outro e se aproximou de mim, perguntando se eu queria segurá-lo. Eu respondi que não. Ele parecia tão pequeno e frágil. Eu temi quebrá-lo e disse isso a ela. Ela me chamou de ridícula e disse que era impossível que eu ‘quebrasse’ o bebê.
Ela o entregou a mim. Eu o segurei desajeitadamente em meus braços, me sentindo bem desconfortável em segurá-lo. O bebê reclamou e começou a resmungar, eu o entreguei imediatamente a Emma e observei a forma que ela o segurava.
“Você parece que nasceu para isso.” Eu disse, ela riu e disse que tinha sido babá por algum tempo, então tinha alguma ‘pratica’. “Ah, olha aí outra coisa que eu não sabia de você. Por quanto tempo você foi babá?”
“Ah, não lembro exatamente. Fui babá por umas três horas, eu acho. De um garotinho aqui perto.”
Eu caí em uma risada e ela me olhou de uma forma estranha.
“E eu jurando que você era quase uma ‘expert’.” Eu disse, ela riu comigo.
“Eu não acho que exista tal coisa quando se trata de bebês, mas de qualquer forma, eu não sou tão ruim nisso, não é mesmo? Pelo menos não na parte de segurá-lo.”
Ela ergueu o bebê em frente ao seu rosto. Eu me aproximei dos dois.
“Sabia que bebês recém nascidos sabem todos os segredos do universo?” Ela me disse, eu fiz uma expressão confusa. “Eu vi em um filme.” Ela continuou.
“Não acho que isso tenha alguma base científica.”
“Bem, eu não acredito que a ciência tenha a resposta para tudo.” Ela respondeu.
“É claro que não.” Eu disse. “Mas quem sabe você esteja certa.” Eu continuei, ela levou o bebê para junto de seu corpo. “Eu adoraria ouvir a teoria que ele tem sobre o universo e tudo mais.” Eu continuei, Emma sorriu gentilmente para mim.
“Eu vou te levar para um lugar longe daqui, Regina. Não para que você esqueça seu luto ou para você esquecer aqueles que você amava. Você nunca os esquecerá e eu não quero que você os esqueça. Mas acontece que essa cidade está doente agora. Tudo lá fora é cinzas e nós duas não precisamos disso. Nós precisamos de algumas cores.”
“Você vai me levar até elas?” Eu perguntei. “Vai me levar até as cores?”
“Não.” Ela respondeu. “Vou te levar para um lugar aonde você possa sentir sua dor. As cores estão em todos os lugares, Regina. Você voltará a notá-las.” Ela continuou. “Qual era o nome do seu pai?”
“Henry.” Eu respondi.
Ela olhou para o bebê em seus braços e repetiu em um sussurro o nome do meu pai.
“Parece um nome muito bom, não é mesmo?” Ela perguntou ao bebê, em um tom de voz infantil. “É, parece sim.” Ela continuou. “É um nome grandioso para um menininho incrível.”
Ela olhou para mim e sorriu.
“Você se importa?” Ela perguntou. “Que eu nomeie ele com o nome do seu pai?” Ela continuou.
Eu respondi que não, ela agradeceu, o ergueu novamente e o chamou pelo nome.
“Henry.” Ela disse. “Bem-vindo a esse mundo, meu príncipe. Ele é bem louco e assustador, mas também pode ser mágico.”
Eu encarei os pequenos olhos azuis do bebê e pensei em todas as respostas que o pequeno Henry guardava em si naquele momento. E desejei que nós pudéssemos entendê-lo, desejei que ele fosse capaz de nos dar uma luz, que ele pudesse nos guiar para fora dessa loucura que estávamos vivendo.
Emma se virou para mim e sorriu. Eu não tinha nenhum motivo para sorrir, mas ainda assim eu correspondi seu sorriso. Ela abraçou o pequeno Henry contra o corpo. Meu olhar percorreu os pequenos olhos azuis do menino até os olhos verdes de Emma e aquelas duas cores foram suficientes para me fazer acreditar que em breve eu aprenderia a ver o mundo colorido novamente.
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