Capítulo 2

Eu voltei para Boston, minha cidade natal, e para minha antiga vida, mas eu já não era mais a mesma. Eu havia crescido em poucos meses o que eu jamais cresceria em uma vida inteira e tudo graças a Ruby. Nós passamos a nos comunicar por telefonemas ou fax e, poucas semanas depois, ela também voltou para a américa e as coisas fluíram mais fáceis para nós duas.

Ela morava em Nova York e seguimos com esse relacionamento a distância por pouco mais de dois anos. Nós nos víamos sempre ao longo desses anos, mas chegou um tempo que a distância se tornou insuportável. Foi Ruby quem sugeriu primeiro a ideia de morarmos juntas.

A ideia era que eu largasse tudo e fosse morar com ela em Nova York. Nós estávamos conversando pelo telefone quando ela sugeriu tal proposta, eu estava escondida dentro do meu closet e não consegui segurar minha risada quando ouvi o seu plano. Era muito extremo, complicado e arriscado, mas ela estava bem convencida de que era isso que deveríamos fazer.

Eu lembro que eu fiquei em silêncio depois que ela propôs tal loucura. Eu não saberia como dizer aos meus pais que queria sair de casa, para morar com uma garota que havia conhecido nas minhas férias em Paris. Minha mãe ainda estava tendo dificuldades em aceitar que eu havia desistido da minha bolsa na faculdade para viver “fazendo comida para os outros”, como ela mesma gostava de dizer. Ela jamais aceitaria meu relacionamento com Ruby, de modo que eu escondi o que de fato estava acontecendo.

Tudo o que ela sabia era que eu havia conhecido alguém em Paris, que nos comunicávamos e que nos víamos algumas vezes. Eu jamais me referia a Ruby por pronomes como ‘ela’ ou ‘ele’ e, aos poucos, minha mãe parou de fazer perguntas e aceitou que eu estava em um relacionamento com alguém de outra cidade e estava convencida de que não duraria muito por conta da distância.

“Você não quer isso, não é mesmo?” Eu ouvi Ruby perguntar do outro lado da linha.

Eu estava encostada contra a parede do meu closet, completamente no escuro lá dentro. A escuridão me fazia lembrar do nosso primeiro beijo e eu senti muita falta dela ao meu lado.

“Nós não podemos fazer isso.” Eu respondi. “Como viveríamos?”

“Nós podemos trabalhar. E até onde eu sei, você é uma excelente chef de cozinha.” Ela respondeu e desejei que não tivesse essa distância entre nós duas, então eu poderia acalmá-la com meus beijos.

“Não é assim tão fácil.” Eu respondi e escutei ela bufando do outro.

“Um dia você vai ter que me assumir para todos, Regina.” Ela respondeu. “Eu só tenho medo que seja tarde demais quando esse dia enfim chegar.”

Ela desligou o telefone, explicitamente irritada comigo e eu não tive coragem de ligar de volta. Eu senti que estava perdendo-a, que nossa relação a distância não era assim tão forte e que aos poucos ela se cansaria de me esperar.

O sono veio difícil aquela noite. Eu passei algumas horas pensando no que fazer e como fazer. Eu queria ficar com ela e aceitar o plano louco dela de morarmos juntas, mas eu ainda me sentia uma filhinha de papai e o mundo era muito grande e perigoso longe da segurança e da estabilidade que eu tinha com meus pais.

Nas poucas horas de sono que eu tive aquele dia, eu sonhei com Ruby, sonhei com seus beijos, suas carícias, seus toques mais íntimos e acordei no meio da noite, sentindo meu corpo gritar pela urgência de tê-la novamente ao meu lado. Eu precisava fazer de tudo para tê-la de volta e foi por isso que juntei todas as minhas forças e coragem para enfim dizer tudo o que eu sentia aos meus pais.

Eles estavam sentados tomando café da manhã, quando eu me aproximei e me sentei em uma das cadeiras vazias. Eu encarei meu pai, que me deu um bom dia animado e sorriu para mim por de trás da folha do jornal que estava lendo. Minha mãe fez um comentário sobre como eu estava perdendo meu tempo fazendo nada da minha vida. Enquanto meu pai respondia, prontamente, que eu estava esperando o semestre do meu curso de gastronomia começar e que não havia nada de errado em fazer ‘um monte de nada’, enquanto se preparava para um monte de coisa.

Eu ri com a resposta dele e o encarei em silêncio. Eu sentiria muita falta dele quando eu fosse embora. Sentiria falta de cada detalhe dele. De seus cabelos grisalhos, quase careca, de seu tom de voz calmo e gentil. Da forma que ele sempre me defendia da minha mãe e de suas frases engraçadas, durante nossas conversas, que sempre me faziam perder o foco do que eu estava falando.

“Eu vou desistir do curso de gastronomia.” Eu disse, ele abaixou o jornal e encarou minha mãe, que tinha um sorriso satisfeito no rosto. “Mas não é porque eu vou aceitar a bolsa de estudos em Yale.” Eu continuei e o sorriso da minha mãe simplesmente sumiu de seus lábios.

“Você tem novos planos, querida?” Meu pai perguntou e minha mãe bufou irritada e jogou o guardanapo de pano, que estava em seu colo, sobre a mesa.

“Novos planos?!” Repetiu ela, irritada, seus olhos castanhos me fuzilaram por alguns instantes. “Henry, nossa filha não tem nada de ‘novos planos’. O que ela tem é falta de foco.” Continuou e meu pai respirou fundo, buscando pela mão da minha mãe sobre a mesa, a fim de acalmá-la.

“Cora, nossa filha está se descobrindo e está descobrindo também que o mundo é muito grande para se pensar sempre em linha reta.” Ele respondeu e eu agradeci mentalmente por ele ser tão compreensivo. “Me diga, querida, o que você tem em mente agora?”

“Eu quero morar em Nova York.” Eu respondi, o olhar dos dois foi de alívio e rapidamente meu pai soltou a mão da minha mão e voltou a pegar o jornal que ele havia deixado sobre a mesa.

Eu observei os dois, sem entender a reação inusitada que eles haviam tido. Minha mãe parecia bem satisfeita com o que havia acabado de ouvir e meu pai simplesmente agia como se nada tivesse acontecido.

“Que bom que você quer morar em Nova York.” Minha mãe disse, em um tom de voz jovial, não parecia a mulher que estava querendo me matar minutos atrás.

“Sério?” Eu perguntei, um pouco confusa. “Sério que você realmente acha isso?”

“Querida, nós iríamos conversar com você sobre uma proposta que seu pai recebeu para trabalhar em Nova York, mas ele simplesmente recusou. Pois, segundo ele, nós temos nossa vida aqui e você estava bem estabilizada no seu novo curso, você tem seus amigos e todas essas preocupações que só o seu pai tem.” Ela respondeu, eu encarei meu pai, que estava lendo – ou fingindo ler- o jornal em suas mãos.

“Você recusou uma oferta em Nova York por minha causa?”

“Eu sempre odiei Nova York.” Ele respondeu, sem tirar os olhos do jornal.

“Pois eu sempre amei Nova York.” Minha mãe continuou a dizer e no minuto seguinte ela estava nomeando todas a lojas, todas as ruas importantes e todos os teatros nova iorquinos.

Eu tinha o olhar fixo em meu pai, ele desviou o olhar por um instante e seu olhar se encontrou com o meu. Nós sorrimos um para o outro, ele buscou minha mão por debaixo da toalha da mesa e a apertou gentilmente.

“Eu não vou deixar você sozinha numa cidade louca e grande como aquela.” Ele me disse. “Nós vamos todos para Nova York.” Ele continuou e eu agradeci e o beijei no rosto, enquanto me perguntava se ele fazia alguma ideia do quanto sua decisão significava para mim.

Nos mudaríamos dois meses depois daquela conversa. Quando eu contei a novidade a Ruby, eu pude ouvi-la gritar do outro lado da linha e eu segurei uma risada. Eu estava escondida, dentro do closet, tentando não me fazer ser ouvida.

“Nós vamos ficar juntas.” Eu disse a ela.

“É, nós vamos!” Ela gritou do outro lado e mesmo estando milhas uma da outra, eu pude ver o rosto dela em minha mente, de modo que eu sabia exatamente o sorriso que ela tinha nos lábios. “Você vai amar Nova York.”

“Eu não estou indo por causa da cidade. Você sabe disso.”

“Não importa, você vai amar a cidade de qualquer jeito.” Ela disse. “Eu sinto, Regina.” Continuou. “Sua vida inteira está prestes a começar aqui.”

“Minha vida inteira?!” Eu a questionei, a fazendo rir. “Então tudo o que eu vivi até agora foi o quê?”

“Eu não sei, Regina. Talvez fosse apenas um prólogo para algo mais louco e intenso que você ainda está para viver.”

Eu esperei com ansiedade para o dia que eu enfim chegaria a Nova York e a veria novamente. Meu pai não entendia minha ansiedade e minha mãe agia como se me entendesse. Acontece que minha mãe estava pensando apenas em tudo o que ela compraria e faria em Nova York, enquanto tudo o que eu conseguia pensar era na minha garota.

O dia enfim chegou e, depois de algumas horas de avião, nos encontramos enfim em Nova York. Estava tão frio aquele dia, de modo que eu demorei a reconhecer Ruby no aeroporto, que estava usando um casaco enorme, uma touca vermelha e botas pesadas. Ela acenou para mim e eu olhei apreensiva para meus pais, que estavam mais preocupados em manter as malas por perto.

Eu tive vontade de correr até ela e de abraçá-la e rodá-la em meus braços pelo saguão do aeroporto e de beijá-la na frente de todos, mas tudo o que eu fiz foi caminhar lentamente até ela. Ela sorriu ao me ver e segurou minhas mãos com as suas luvas grossas de inverno, assim que nos abraçamos, ela sussurrou em meu ouvido que esperaria até eu estar pronta para gritar ao mundo que pertencíamos uma a outra. Eu agradeci e quebrei o abraço, olhando para trás e vendo meus pais discutindo sobre algo.

“Você tem que saber que eu te amo.” Eu disse, ela sorriu e assentiu, dizendo que me amava de volta.

Ela não tinha receio algum de dizer tais palavras, diferentemente de mim, que sempre olhava ao redor e dizia em um tom de voz baixo, com medo de que o mundo inteiro pudesse me ouvir. Não é porque eu não a amava, eu amava e muito, mas eu ainda não estava pronta. Eu tive que explicar aos meus pais quem era Ruby, omitindo todos os fatos sobre quem de fato ela era e o que de fato significava para mim.

Meu pai não fez muitas perguntas, ele apenas se apresentou para ela, perguntou sobre a cidade e a convidou para jantar conosco, pois ele estava morrendo de fome. Minha mãe, por outro lado, fez todos os tipos de perguntas. Ela queria saber o que ela fazia da vida, a quanto tempo morava na cidade, qual era sua idade e houve até perguntas sobre Ruby que nem eu sabia responder. Ruby respondeu todas elas, sem esquivar de nenhuma e sem hesitar. Minha mãe era do tipo intimidadora, mas Ruby era do tipo que não ligava para opinião dos outros e eu pude perceber que nenhuma das duas haviam gostado uma da outra.

Um motorista havia ido nos buscar, meu pai foi no banco da frente, conversando com ele sobre o quanto Nova York era horrível e o quanto o trânsito era caótico. Em menos de 10 minutos de viagem, eu já havia escutado pelo menos cinquenta motivos para não morar na cidade.

“Ah, por deus, Henry! Por que você aceitou esse trabalho, se você odeia a cidade?” Minha mãe perguntou, ela estava sentada entre Ruby e eu.

“Eu aceitei porque eu não tive escolha. Eu vou onde as mulheres da minha vida estão.” Ele respondeu, a única pessoa que riu foi Ruby, meu pai se virou para ela e continuou a falar. “Você entende não, é?” Ele perguntou.

“Eu também faria o mesmo, Sr. Mills.” Ruby respondeu e me olhou de relance.

Eu sorri timidamente e percebi que minha mãe havia notado essa troca de olhares. A viagem foi longa e silenciosa, o rádio do carro preenchia o silêncio. Eventualmente meu pai comentava alguma coisa e todas nós concordávamos ou ríamos dele.

“Você disse que trabalha em um restaurante, não é mesmo, Srta. Lucas?” Minha mãe perguntou, Ruby estava encarando a vista lá fora e demorou alguns instantes para responder, o que irritou bastante a minha mãe.

“Bem, não é um trabalho. É uma lanchonete da família. Eu trabalho lá algumas vezes para ajudar a minha vó, mas eu estou estudando para ser professora.” Ela respondeu, sem se virar para minha mãe.

“Então é isso o que sua família faz?” Minha mãe continuou. “Eles têm uma lanchonete?”

“Minha família se resume a apenas minha vó e eu. E sim, é isso o que nós ‘temos’, uma lanchonete. E se a senhora está realmente interessada em saber, é a mais tradicional da cidade. Aposto que o misto quente que nós preparamos consegue ser melhor do que qualquer caviar que a senhora já tenha comido.” Ruby respondeu e minha mãe se calou e voltou sua atenção a estrada a sua frente. Eu quis rir, mas apenas botei minha mão na frente a boca e segurei minha risada.

“Vamos até o centro da cidade!” Disse meu pai. “Eu daria meu reino inteiro por esse misto quente agora!”

“É assim que se fala Sr. Mills!” Ruby disse e meu pai soltou uma risada longa e divertida, deixando claro que ele estava começando a gostar de Nova York.