Instruções

18 Capítulo 18


Notas iniciais
Eu já agradeci por PM a MorgamZ, mas a agradeço aqui novamente. Ela deixou uma recomendação para história, que me encheu de coragem para continuar. Dedico esse capítulo a ela. Boa leitura

Capítulo 18

Pela primeira vez eu não consegui me focar em meu trabalho. Tudo parecia não ter sentido algum, eu me peguei precisando parar alguns segundos, de modo a recuperar meu foco, a cada atividade que eu fazia. Errei duas vezes uma receita, confundi o nome dos funcionários e atrasei toda minha agenda, por não conseguir fazer com que minha mente funcionasse a meu favor.

No final da tarde, eu desisti do trabalho, deixei tudo com o meu encarregado chefe e voltei para o meu apartamento. Havia algo no ar que até então eu jamais havia notado. Todo o ar estava denso, pesado, quase impossível de se respirar. Uma vez lá dentro, eu não soube o que fazer, tudo parecia vazio e sem sentido. Então, assim como fiz com meu trabalho, desisti também do meu apartamento.

Peguei minha bolsa, enfiei o manuscrito de Emma lá dentro, peguei algum dinheiro e a chave do meu carro. Eu raramente dirigia, odiava o trânsito e a solidão do automóvel, o rádio do carro era a única coisa que eu via vantagem, mas hoje nem isso fazia sentido. Deixei-o ligado, de qualquer forma, e circulei pelas ruas de Manhattan, passei por ruas das quais jamais havia passado, ignorei aquelas que eu sabia que me levaria direto para aquela da qual eu ainda evitava.

Entretanto, depois de circular sem rumo por algumas quadras, me peguei estacionando o carro no encostamento. Uma quadra me separava do buraco que havia naquela cidade. Uma quadra inteira que me impedia de resgatar certas memórias e, por algum motivo, eu me vi andando até lá, como se houvesse um imã me atraindo para aquele local.

Aquele manuscrito pesava, havia algo nele que eu ainda não conseguia decifrar, mas para ser sincera, eu sequer havia tentado. Não cheguei a abri-lo, apenas o mantive perto, sob a mesinha de centro da sala, onde eu poderia vê-lo a cada vez que eu passava. Talvez fosse ele o responsável pelo ar pesado do apartamento, talvez ele desestabilizasse tudo assim como Emma fazia.

Eu caminhei com aquele peso, sentindo que a cada passo em direção ao vazio tornava-o mais leve. Parei na calçada, desci minha bolsa até o chão e me libertei daquele peso. Lá estava o vazio, bastava que eu atravessasse a rua e eu estaria onde um dia centenas de pessoas perderam suas vidas devido ao ódio de extremistas. Eu respirei fundo, inalando o ar que já não era mais carregado pelas cinzas dos mortos e percebi que não era o manuscrito que estava pesado, mas sim, eu mesma.

Sentei-me ali mesmo, do outro lado da calçada, ignorando os pedestres que me olhavam com curiosidade. Tirei o manuscrito da bolsa e aproveitei os últimos raios de sol para me afundar naqueles desenhos. Percorri cada linha daqueles traços com a ponta dos dedos e me imaginei observando Emma desenhá-los. No final da tarde, eu já havia decorado cada linha, cada personagem ali desenhado e, por falta de uma narrativa, inventei uma história para cada um deles.

Desejei que Emma estivesse ali, contando uma de suas teorias, criando mais complexidade para sua personalidade. Ou que ficasse apenas em silêncio, ao meu lado, observando o vazio a nossa frente. Talvez ela tirasse algum papel de sua bolsa, desenhasse algo repleto de cores e transformasse o vazio que havia em Nova York em algo repleto de sentido. Algo que, naquele momento, me faltava.

Meu celular tocou, desejei ter forças para ignorá-lo, mas acabei atendendo. Era Mariah, me convidando para tomar um drink. Aceitei na mesma hora, peguei o manuscrito de Emma, levantei-me do chão e atravessei a rua, encarando novamente aquele vazio. Respirei fundo, abracei aquele documento contra meu corpo e percebi que encarar o vazio já não mais me angustiava, algo havia mudado em mim.

Era um restaurante pequeno, uma espécie de café com cadeiras espalhadas pela calçada, Mariah se levantou ao me ver, me deu abraço e anunciou que havia fechado um importante contrato. Ela era decoradora de interiores, mas só trabalhava quando o cliente era interessante ou lhe dava total controle do que fazer no cômodo, de modo que, ela praticamente não fechava tantos contratos. De qualquer forma, acredito que ela só queria mesmo era sair um pouco de casa e usou a desculpa do novo cliente para isso.

Tomamos alguns drinks, conversando sobre coisas triviais, que fugiam do assunto casa, relacionamento, filhos e empregos, mas, em algum ponto da conversa, minha mente se perdeu e eu não consegui esconder isso de Mariah. Uma série de perguntas se seguiu, sobre o que estava acontecendo comigo, que ia sobre questões financeiras a emocionais. Mariah talvez não me conhecesse profundamente, mas definitivamente sabia fazer as perguntas certas e tirar qualquer resposta de qualquer um.

Eu me vi contando todo meu drama de Emma, sobre tudo o que sentia, sobre as confusões que eu estava fazendo dentro de mim e de como eu me sentia presa a um sentimento que eu temia jamais ser reciproco. Ela me ouviu atentamente, balançando a cabeça e me deixando falar tudo, me senti em uma terapia, mas com o bônus de eu poder beber duas taças de vinho para relaxar de fato. Assim que eu terminei, ela se ajeitou em sua cadeira e pareceu aliviada de ter se livrado de todo esse drama mexicano.

“Qual é seu medo de fato, Regina? Porque você obviamente gosta dela, mas pelo o que eu entendi, você está complicando tudo, só porque não tem uma certeza sobre o que ela de fato sente.”

“Talvez.” Eu disse, odiando o fato de que eu ainda não tinha parado para pensar nesse ponto de vista. “É que nossa relação é bem estranha, não sei se vale a pena dar mais um passo adiante ou um passo para trás. Entretanto, nos últimos dias ela tomou minha mente de tal forma, que chega a parecer uma espécie de feitiço.”

“Talvez seja isso.” Ela respondeu, em uma risada, dando um gole em seu café. “Sabe o que é engraçado? Pela história que você me contou, sobre Emma e sobre esse suposto relacionamento de vocês? É que vocês começaram tudo ao contrário.”

“Como assim?”

“Bem, Robin e eu, por exemplo. Ou qualquer outro casal, primeiro tentamos nos conhecer, vamos devagar, ninguém sabe o defeito do outro, nós mostramos nossa melhor face, a face mascarada, repleta de qualidades. Com o desenrolar do relacionamento, nós vamos nos conhecendo, vendo que nenhum dos dois é perfeito, que temos falhas, dramas internos e que não combinamos em todos os pontos. Todavia, quando descobrimos essa outra face do parceiro, já estamos apaixonados e talvez o amor mascare e nos ajude a suportar tudo. Você conheceu Emma por completo, você já sabia todos os defeitos dela, ela fez questão de mostrar todos, de deixar claro que ela era péssima em relacionamentos. Aliás, ela deixou mais explicito que isso, deixou que você soubesse que ela não se importava. Você se deixou encantar pela parte que ela, supostamente, deveria esconder.”

Eu parei para refletir, encostei-me contra a cadeira, olhei as pessoas passando, a taça de vinho pela metade, minha marca de batom na borda. Desejei que tudo o que ela me disse não fizesse sentido, mas ela estava certa. A sinceridade de Emma sobre si mesma foi o que me prendeu, e me prende, a ela.

“Tenho medo de entrar em um relacionamento nada saudável.” Eu disse, em voz alta, assumindo um medo que eu havia deixado afundar em mim. “Tenho medo de dar espaço a alguém que possa me machucar mais do que eu já estou.”

“Tem certeza que esse é o seu medo?” Ela perguntou, chamando o garçom e pedindo a conta. Eu franzi o cenho, tentando entender o que, aparentemente, Mariah já sabia.

“Por quê?” Eu perguntei. “Acha que eu estou escondendo algo?”

“Acho que você está com medo de assumir algo. Veja bem, Regina. Emma sempre foi sincera com você desde o início. Você a acha complexa e difícil demais, mas ela fez com você o que qualquer pessoa desejaria ter quando começa um relacionamento.”

“Do que você está falando?”

“Ela lhe deu seu manual de instruções, de modo que você já sabia o que tinha em mãos, antes mesmo de tocá-la. Acho que seu medo é normal, qualquer pessoa tem medo de quebrar a cara em relacionamento, mas veja bem, Regina. Lembre-se que você é uma vítima do 11 de Setembro.”

“O que isso tem a ver?”

“Bem, isso significa que você vai estar sempre tentando esquecer de algo que todos fazem questão de lembrar. Mas você precisa parar com isso. Você precisa parar de tentar esquecer e começar a lembrar, não das marcas desse dia, mas do fato de que você é humana e que você precisa, acima de tudo, de alguém para amar. Se ela te amar em troca será um grande bônus, mas não é isso que você precisa no momento.”

Nos despedimos, ela me deixou sozinha e seguiu o seu rumo. Eu andei um pouco, sem rumo, com o manuscrito nas mãos e a frase de Mariah ecoando na minha mente. Eu era uma vítima do 11 de Setembro e, acima de tudo, uma sobrevivente. Talvez seja essa a parte mais difícil de sobreviver de algo. Peguei um táxi, para me levar de volta ao meu carro e fiz questão que ele me levasse até o vazio.

Desci do táxi, olhei para aquele lugar e desejei que o futuro monumento para as vítimas fosse também construído em cima das minhas cinzas. Respirei fundo novamente, lembrei que anos atrás, assim que eu voltei do Maine, eu sentia o ar denso, pesado, carregado pelas cinzas dos mortos. Não era só no ar que eles estavam, mas também nos noticiários, nos olhares das pessoas nas ruas, na tensão que eles demonstravam a qualquer tipo de barulho.

Eu não era a única vítima do 11 de Setembro. Havia toda uma cidade que demorou a se recuperar e que até hoje possui uma cicatriz desse dia. Também não posso deixar de pensar nas outras vítimas, aquelas que sofrerem e que sofrem com as consequências das guerras que esse ataque e a intolerância levaram o país criar.

Talvez o mundo inteiro fosse uma vítima do 11 de Setembro, talvez o mundo inteiro precise parar de lembrar do atentado, do ódio e do medo que sentimos aquele dia e começasse a lembrar do porquê fomos poupados. Porque nós precisamos viver, um dia após o outro e para sempre e enquanto houver motivos e um sentido para continuarmos existindo.

Consigo lembrar perfeitamente dos dias negros em que eu não podia ver sentido algum, onde tudo era cinza como o ar que eu respirava. Consigo lembrar da dor, de como meu peito ficava pesado depois de inalar todos os mortos e depois de chorar por tudo o que eu jamais teria novamente.

Eu não me sinto mais assim, a cidade não se sente mais assim, do outro lado do mundo, o ar está pesado com as cinzas de outros milhares de pessoas mortas pelo mesmo vilão que causou o vazio em minha cidade: a intolerância. Talvez eles jamais se recuperem, talvez eles jamais recebam o que eu recebi: uma segunda chance e eu não podia negar a mim mesma que essa chance estava toda em Emma.