Instruções

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Eu dedico esse capítulo a Olivia que deixou uma recomendação para a fic e me deixou bem emocionada, obrigada novamente pelo carinho e por cada palavra que você dedicou a história.

Capítulo 12

Eu me virei para Emma, minha boca aberta em surpresa, enquanto eu procurava em minha mente algo para dizer a ela, mas talvez não houvesse nada a ser dito naquele momento. Eu dei um passo à frente, quebrando a distância que havia entre nós e a tomei em meus braços, como se eu tivesse algum direito a essa intimidade. Ela correspondeu ao abraço e eu senti suas mãos envolvendo minhas costas, por um segundo, eu fechei os olhos e me vi longe dali.

Aquele abraço foi capaz de me levar de volta ao passado e em um piscar de olhos eu me vi parada naquela rodoviária no interior de Maine e, de repente, todo a raiva, frustração, insegurança e medo que eu senti naquele dia deixaram de fazer sentido. Nós quebramos o abraço e olhamos uma para a outra, não cheguei a me dar conta que eu segurava suas mãos na minha. Ela sorriu para mim e eu procurei algum vestígio em seu olhar da Emma de seis anos atrás, não encontrando nenhum. Essa mulher a minha frente era completamente nova, era outra pessoa e eu queria conhecê-la a fundo.

“Você está diferente.” Eu disse, encarando seus olhos verdes cheios de vida, seus cabelos loiros e levemente ondulados, que estavam enormes e caiam perfeitamente sobre um de seus ombros.

Ela sorriu ao finalmente ouvir minha voz e se aproximou de mim novamente e houve outro abraço, dessa vez deixando explícito que havia sim um grau de intimidade entre nós. Eu não soube explicar o que eu senti, mas havia algo naquele abraço, havia algo naquele toque tão inocente. Uma certa conexão que há seis anos atrás nós duas fomos obrigadas a interromper.

“Eu estou diferente de fato.” Ela respondeu e um frio desceu em minha barriga ao ouvir novamente o som de sua voz.

Eu percebi então, ao notar que eu já não lembrava mais do som de sua voz, que novamente nós éramos duas estranhas, se encontrando por acaso em uma noite em Nova York. Quais eram as forças que havia nos levados até ali? Eu não saberia responder. Talvez houvesse sido a mesma força de anos atrás. Aquela mesma força que me colocou no caminho dela e que de certa forma me salvou. Enquanto eu refletia sobre isso, eu me perguntava também se ela estaria me salvando novamente.

“Quem é esse garotinho?” Emma perguntou, se ajoelhando diante de Roland, que parecia um pouco envergonhado por ser abordado por uma estranha, mas que não demorou para se soltar e responder a pergunta dela.

Ela começou então a conversar com ele sobre sorvetes e se seguiu uma conversa curta, onde ele disse sua idade e Emma contou a ele que conhecia um garotinho da mesma idade que gostava de livros, sorvete e que morava ali perto e quem sabe um dia eles pudessem se conhecer. Roland pareceu bem animado com a expectativa de conhecer um novo amiguinho.

Ela então se levantou novamente, seus olhos fixos nos meus. Nós duas sorrimos uma para a outra e eu a convidei para ir até a minha casa. Ela olhou ao redor, como se estivesse procurando alguém e eu senti que ela estava prestes a hesitar e a recusar meu convite, mas Roland se intrometeu na conversa e suplicou para que ela fosse conosco.

O pedido de Roland teve mais efeito, Emma logo concordou e nós três pegamos um táxi até o meu apartamento. Com Roland ali, foi difícil conversar com ela, eu fiz perguntas rápidas, que não exigia respostas complexas. Descobri que ela estava morando em Nova York há duas semanas, dividindo um apartamento com uma amiga e estava trabalhando em uma editora de revistas em quadrinhos e parecia gostar muito do que estava fazendo.

Marian e Robin demoraram um pouco para chegar e quando eu enfim me vi a sós com Emma, eu não soube o que fazer ou falar para ela. Eu caminhei até a sala de estar, onde a encontrei andando pelo cômodo e olhando para cada detalhe do lugar. Eu a observei, dessa vez com mais atenção, notando a roupa que ela usava, que era de ginástica, mas que por algum motivo dizia para mim que ela não estava de fato dando uma de atleta no Central Park.

“Você está com fome?” Eu perguntei, a fazendo virar o rosto em minha direção, ela estava agora diante de um belíssimo quadro que uma vez eu havia arrebatado em um leilão beneficente.

“Não muito.” Ela respondeu. “Mas se você não se importa, eu aceito uma bebida mais forte, agora que o garoto foi embora.” Ela continuou, me fazendo sorrir.

Assim que havíamos chegado ao meu apartamento, eu havia oferecido a ela uma bebida e prontamente, tanto ela quanto Roland, disseram que gostariam de um suco de laranja. Eu caminhei até o pequeno bar que eu possuía, ela me seguiu e enquanto eu pegava uma garrafa de gim, eu a senti me observando por trás e esse pensamento me fez gelar a espinha.

“Você estava correndo pelo parque?” Eu perguntei, abrindo a garrafa e depositando um pouco do líquido em um copo.

“Era o plano.” Ela respondeu, aceitando o copo que eu havia estendido a ela. “Eu tenho duas semanas para entrar em um vestido, mas acontece que assim que eu cheguei ao parque, a primeira coisa que eu fiz foi ir até o carrinho de sorvete e então te encontrei.” Ela completou, com um sorriso surgindo no canto do seu lábio.

“Então você me encontrou.” Eu repeti e a vi corar por algum segundo. “De novo.”

“Acho que você estava certa quando me disse uma vez que havia entrado na minha vida por coincidência.” Ela disse. “Não que eu ainda siga essas regras dos 3 ‘Cs’.” Ela concluiu dando um belo gole em sua bebida e eu a fitei por alguns segundos, sentindo o silêncio nos consumir.

Havia tantas perguntas que eu gostaria de fazer a ela, mas eu não sentia que ainda era a hora ou que eu merecesse tais respostas. Um celular tocou quando eu abri minha boca para perguntar por aonde ela havia andado nos últimos anos. Era o celular dela e ela parecia bem frustrada em ter que atendê-lo. Ela encarou o visor deste, entortou os lábios em um sinal de reprovação e voltou a guardá-lo preso ao elástico da calça.

“Não vai atender?” Eu perguntei, ela fez que não com a cabeça e caminhou em direção ao sofá da minha sala, me fazendo segui-la.

“O que você fez nos últimos anos?” Ela me perguntou, sentando-se confortavelmente no sofá, esperando por mim, eu dei de ombros e olhei para o meu apartamento.

“Construindo meu próprio império, acredito eu.” Eu respondi, roubando uma risada dela, que deu novamente outro gole em seu gim.

“Vejo que foi bem-sucedida. Então correu atrás do seu sonho de ser chefe de cozinha?” Ela quis saber, eu assenti e procurei em minha bolsa, que estava encostada próxima ao sofá, um cartão de visita do meu restaurante, entregando a ela em seguida.

Ela segurou o cartão entre os dedos, girando-o, primeiro para ver o endereço do local e seu endereço na internet e então, ela o girou novamente para enfim ler o nome.

“Le Château.” Emma leu em voz alta, usando o melhor francês que ela tinha em si e me deixando orgulhosa de sua pronúncia.

“Veja só, pelo jeito sua viagem a Europa te levou a França também, eu presumo, sua pronúncia é muito boa.”

“Não.” Ela respondeu, me fazendo notar que ela estava um pouco distante agora. “Eu nunca cheguei a ir à Europa.” Ela continuou e permaneceu fitando o cartão de visita por alguns segundos, antes de enfim forçar um sorriso e devolvê-lo a mim. “Eu preciso ir embora.” Ela disse rapidamente, se levantando e estendo para mim o seu copo ainda cheio.

“Agora?” Eu perguntei, um pouco espantada, querendo dizer algo para convencê-la a querer ficar, mas perdendo todo meu poder de persuasão.

“Bem, eu não deveria estar aqui, não é mesmo?” Ela respondeu, ainda com aquele sorriso forçado, enquanto sua voz vinha carregada de um nervosismo que eu não entendi muito bem.

“Certo, tudo bem então, eu posso te levar de carro, ele está estacionado na garagem do prédio e a essa hora não deve ter mais trânsito.”

“Por favor, não se incomode, eu posso ir andando até minha casa ou eu posso pegar um táxi.” Ela respondeu e se aproximou para um abraço.

Eu senti, enquanto a envolvia por um segundo em meus braços, que havia naquele gesto uma saudade e uma despedida. Eu a segurei por mais tempo que deveria em meus braços, meus olhos fechados, enquanto inalava seu perfume e meus dedos praticamente pressionados contra o seu corpo.

“Eu realmente preciso ir, Regina.” Eu a ouvi dizendo contra o meu ouvido e então a soltei e fitei seus olhos, enquanto buscava em seu olhar, alguma certeza de que nos veríamos novamente.

“Você quer me dar seu número de telefone?” Eu perguntei e ela negou com a cabeça e um sorriso surgiu em seus lábios, enquanto ela se justificava.

“Não há necessidade, não é mesmo? Eu sei onde você mora e onde você trabalha. Tenha a certeza que eu vou te encontrar novamente.”

Aquela foi a última frase que ela me disse, antes de se despedir de fato. Eu fiz questão de acompanhá-la até a entrada do meu apartamento e a observei caminhar pela minha rua, até consegui parar um táxi e enfim desaparecer da minha vista.

Eu mal dormi aquela noite. Eu fitava o teto, em silêncio, buscando acalmar meus pensamentos e ansiedades, mas em vão. Quando eu fechava meus olhos, me via em mente Emma e automaticamente todo meu corpo sentia falta daquele abraço, ou do perfume que ela exalava.

Durante esses últimos anos, eu jamais havia me apaixonado de fato por nenhuma mulher, nem meu último relacionamento mais duradouro havia sido marcado por uma intensidade de sentimentos. Eu respirei fundo, minhas mãos repousadas sobre minha barriga, meus olhos fechados enquanto eu esperava pelo meu sono e percebia que minha mente e pensamentos estavam completamente voltados para Emma.

Eu acabei dormindo, não tanto quanto gostaria ou deveria, mas fui despertada pelo celular que indicava que eu tinha pouco mais de meia hora para me aprontar e ir para o trabalho. Quando eu cheguei ao Le Château, eu encontrei toda minha equipe, parada um ao lado do outro, enquanto uma mulher loira que eu nunca havia visto antes, acompanhada de um homem pequenino que tinha um bloco de notas em suas mãos anotava tudo o que a mulher falava.

“Bom dia.” Eu disse, entrando no salão do restaurante, enquanto a mulher, que se virou para mim com um sorriso no rosto, caminhou sobre os seus elegantes saltos.

“Regina Mills.” Ela disse, se aproximando para dois beijinhos e se afastando logo em seguida.

O homem que a acompanhava também a seguiu e entregou para mim um cartão de visita, onde eu pude ler o nome da mulher. Seu nome era Ingrid Mitchell e ela parecia ter dado um tempo para que eu descobrisse quem de fato ela era, antes de continuar a falar.

“Eu sou tia de Elsa. Ela é minha única sobrinha e não sei se você sabe, mas eu sou a única família que ela tem e o contrário também é verdadeiro. De modo que sou eu quem estou pagando cada detalhe desse jantar de noivado.” Ela disse, sorrindo, enquanto eu olhava novamente para o cartão.

“Editora da revista Vogue?” Eu perguntei em voz alta, olhando-a de cima a baixo.

“Títulos não são nada aqui, Senhorita Mills. Hoje, e nos próximos dias, eu serei para você apenas a tia da Elsa, eu fui clara? Sem formalidades, por favor, espero que possamos nos tratar de igual para a igual.” Ela disse, se virando rapidamente para o homem pequenino de aparência pitoresca ao seu lado, que ajeitava os óculos em seu rosto e estendia para ela uma revista.

Eu a vi procurar por uma página, enquanto eu rapidamente olhava por cima de seu rosto, a fim de ver meus funcionários, parados um ao lado do outro, com olhares que variavam de medo a tédio. Ela enfim parou em uma página, a dobrou e começou a ler em voz alta.

“O Le Château não é um restaurante qualquer. É impressionante a qualidade do lugar, que vai da recepção calorosa e educada dos funcionados, até o conhecimento e facilidade que todos eles demonstram ao descrevem seus pratos. A música ambiente e a decoração do lugar são outros pontos que merecem atenção. Uma pequena parte de Paris no coração de Manhattan, não há frase melhor para descrever o restaurante da jovem chef Regina Mills.” Ela terminou de ler, eu senti minhas bochechas corarem, quando ela enfim abaixou a revista e olhou para mim. “Acredito que você conheça bem a reputação da New York Magazine, essa coluna não foi assinada pela minha sobrinha, mas eu conheço bem o editor e tenho certeza que cada linha escrita aqui é verdadeira. Por isso, eu aceitei e não questionei minha sobrinha quando ela escolheu seu restaurante.”

“Eu me sinto honrada.” Eu respondi, ela sorriu, antes de responder.

“Se sinta de fato, seu restaurante estará em todos os tabloides e revistas importantes daqui a poucas semanas, espero que esteja pronta para ter suas reservas lotadas no próximo mês.” Ela continuou. “Bem, eu já avisei aos seus funcionários sobre tudo o que eu espero e tenho certeza que eles conseguirão passar a você minhas instruções.” Ela parou, me fitando de cima abaixo, ela era verdadeiramente elegante, uma mulher que deixava claro que trabalhava para o mundo da moda e então, se aproximando de mim, ela começou a falar novamente, dessa vez, em um tom de voz mais baixo. “Eu não sou muito a favor desse casamento, veja bem, essa noiva da minha sobrinha é uma garota muito excêntrica. Eu realmente não vejo como alguém de família pode ser envolver com alguém como aquela garota.”

“Talvez não tenhamos controle algum sobre questões de amor.” Eu respondi, ela sorriu, se afastou ligeiramente e pareceu refletir a respeito.

“De qualquer forma, eu sei que minha Elsa está feliz e não ficarei no caminho. Ela terá tudo o que quiser para concretizar esse casamento. Eu conto com você para tornar a noite dela maravilhosa. Até lá.” Ela continuou e se despediu de mim e de meus funcionários e eu esperei que ela saísse, antes de me virar para a minha equipe que agora suspirava de alívio.

“Meu deus, que mulher é essa?” Aurora perguntou, se aproximando de mim e me mostrando um papel impresso com todas as exigências que Ingrid havia feito para o jantar de noivado.

“Ela é bem detalhista.” Eu disse, enquanto lia a lista que ia de como ela queria os guardanapos de pano, a música ambiente e uniforme dos meus funcionários. “Mas bem, nós já aceitamos, não é mesmo? Daremos o nosso melhor.” Eu completei, enquanto nos dirigíamos para a cozinha para darmos início ao expediente.

O trabalho me ajudou a manter minha mente ocupada e longe dos meus pensamentos constantes em Emma, mas quando eu enfim me vi em casa, jogada no sofá, com meus pés me matando pelo fato de eu ter passado o dia em pé, eu então me permitir pensar nela. Eu estava deitada no meu sofá, remoendo o fato de eu não ter insistido em pegar o número do celular dela, quando meu celular tocou, me despertando de meus pensamentos.

“Eu não acredito que você não ligou para Úrsula!” Eu ouvi a voz de Mariah do outro lado. “Regina, amanhã é sexta e você devia ter algo para fazer.”

“Até onde eu saiba, não é uma obrigação ter que sair todas as sextas feiras.” Eu ouvi uma risada do outro lado e ela começou a me perguntar quando eu tinha saído pela última vez, eu fechei os olhos, tentei puxar da minha memória a última vez que de fato eu tive uma ótima noite e não ousei respondê-la.

“Se você quiser, eu posso ligar para ela e marcar um encontro para vocês duas, o que acha?” Ela perguntou e eu respirei fundo e permiti que ela fizesse seu papel de cupido, pois eu não tinha o que perder.

Quando a sexta feira chegou, um dia depois, eu me vi correndo de um lado para o outro no meu apartamento, irritada, pois eu tinha apenas duas horas antes de estar pronta para meu encontro com Úrsula e havia então faltado energia e eu estava tendo dificuldades de encontrar qualquer coisa que fosse.

Alguém bateu a porta do meu apartamento, me deixando irritada por ter que parar minha busca pelo outro par de sapatos. Eu a abri e encontrei um dos meus porteiros, segurando uma lanterna e acompanhado por Emma, que sorriu ao me ver.

“Emma.” Eu disse, me sentindo idiota por não consegui dizer uma frase completa. Ela entrou no meu apartamento assim que eu permiti, enquanto meu porteiro explicava que não me comunicou antes sobre a chegada de Emma, pois o interfone estava mudo devido à queda de energia.

“Eu espero que a minha presença aqui não tenha problema.” Ela disse, assim que eu fechei a porta. Ela tinha em mãos uma bolsa, estilo pasta, carregando-a a tira colo.

“Nenhum problema, Emma.” Eu disse, me aproximando dela para um abraço.

“Você está de saída?” Ela perguntou, olhando para mim de cima abaixo, eu estava usando um vestido simples e ainda estava descalça, meu cabelo era a única coisa que eu havia feito nas últimas horas e estava tendo dificuldade de fazer minha maquiagem.

“É, bem, eu tenho um encontro daqui a algumas horas.” Eu respondi, ali, no saguão de entrada, era o único lugar do apartamento que havia uma luz de emergência, de modo que eu caminhei em direção ao armário da cozinha, em busca de uma lanterna ou velas.

“Bem, então eu devo te deixar se arrumando, desculpa o incômodo, eu volto outro dia.” Ela disse, caminhando em direção a porta, mas sendo impedida por mim.

“Não, veja só, você pode ficar, eu tenho algumas horas e talvez você possa me ajudar com a maquiagem, eu não acho que eu consiga fazer sozinha.”

Ela me encarou e tirou a bolsa que carregava, colocando-a sobre o balcão da cozinha e então assentiu, dizendo que seria um prazer me ajudar. Eu não achei lanterna alguma, mas achei algumas velas e as levei para o meu banheiro, acendendo algumas sobre a pia.

“Qual é o nome dela?” Ela perguntou, enquanto eu separava minha maquiagem.

“Úrsula.” Eu respondi, olhando seu reflexo do espelho. Ela estava atrás de mim, me encarava com um olhar cansado e foi inevitável perguntar se estava tudo bem.

“Está sim, eu só estou cansada.” Ela respondeu e se aproximou da pia, pegando um dos produtos e lendo sua embalagem. “Venha, acho que eu posso fazer isso mesmo com pouca luz.”

Eu me aproximei dela, enquanto ela abria meu estojo de maquiagem e começava então a me maquiar, eu não disse nada, apenas permaneci parada, sentindo uma de suas mãos gentilmente segurando minha cabeça, enquanto com a outra ela me maquiava.

“Você não tem nada para fazer hoje?” Eu perguntei, ela negou com a cabeça e pediu que eu ficasse quieta, eu obedeci e ela sorriu satisfeita ao terminar.

“Você está linda.” Ela respondeu e eu agradeci e me virei para o espelho para ver como havia ficado, mas não consegui me focar em meu rosto e sim na imagem dela ali, parada atrás de mim.

“Obrigada.” Eu disse, me virando para ela. Ali, sobre a luz de inúmeras velas para iluminar aquele banheiro, as coisas ficavam mais em evidência, seu semblante de fato era de alguém cansado e eu tive que perguntar novamente, a fim de saber o que estava acontecendo.

“Não é nada grave.” Ela respondeu. “Eu mudei nesses últimos anos.” Ela continuou. “Minhas regras mudaram, minhas instruções, consequentemente eu mudei no processo.” Ela continuou.

“Para melhor, eu suponho”. Eu disse e ela sorriu para mim, enquanto assentia.

“Talvez o tempo de convivência que nós duas teremos daqui para frente te responda isso.”

“Convivência, é?” Eu perguntei. “Eu passei de conveniência, para coincidência e agora estamos também na convivência?” Eu continuei e vi um belo sorriso surgir em seus lábios.

“Sabe...” Ela começou a dizer e estávamos tão próximas e ela estava tão linda que quanto mais eu a olhava, menos eu conseguia me concentrar em meus pensamentos. “Essa regra eu já não mais uso. Aquele dia, quando eu te vi ir embora naquele ônibus, eu percebi o quanto de fato eu era tóxica. Então eu resolvi mudar ou tentar pelo menos, mas devo te dizer que foi bem difícil, levando em conta que eu não tinha ninguém para me inspirar nessa mudança. De qualquer forma, eu acabei encontrando essa pessoa e aprendi que na vida as pessoas entram e permanecem graças ao que eu gosto de chamar agora de regra dos 3 ‘A’s.” Ela continuou e sorriu para mim, antes de dizer sobre o que se tratava os 3 ‘A’s. “Amizade. Afinidade.” Houve uma pausa e eu entendi então sobre o que se tratava o último A e entendi também que havia alguém por trás desse ensinamento e principalmente por trás dessa palavra. “Amor.” Ela concluiu e assim que ela terminou as luzes se acenderam, como mágica, como se tal palavra carregasse em sua essência um poder que eu já não mais sabia do que se tratava e que aparentemente Emma havia aprendido a reconhecer.