Insistente
2 Capítulo I - Obstinado
Notas iniciais
Quarta-feira, 20 de maio de 2013.
A luz invadiu meu quarto através da persiana que balançava fazendo um tic-tic no vidro da janela, na minha cabeça eram quarta-feira. Olhei para o despertador ao lado da minha cama, marcava oito horas em ponto.
Levantei-me e andei até o banheiro, lavei o rosto na pia e comecei a escovar os dentes, eu tinha uma reunião com os gerentes da Purg hoje. Purg é a revista mais famosa de Beetwood e eu sou o editor-chefe dela, muita responsabilidade, acredite. Cuspi a água e a vi descendo em espiral pela pia, logo após sequei minha boca e peguei uma camisa azul que ilustrava uma praia nela. Desci as escadas vestindo ela, minha mãe estava na cozinha. Minha mãe Rose já está nos seus 68 anos, mas ainda está lúcida e sabe cozinhar. Sempre admirei seus cabelos loiros, assim como os do papai, por que eu não herdei isso?
― Bom dia mãe. – minha mãe estava de costas e nem olhou pra mim, continuou preparando o que estava fazendo.
― Bom dia Austin! Como vai? – respondeu ela ainda fazendo algo em cima da bancada.
Nossa casa era pequena, três quartos, sala de estar, cozinha, sala de jantar, três banheiros e um sótão. Sentei-me na velha mesa de madeira que ficava no meio da sala de jantar, tinha uma bela visão da cozinha que, como sempre, minha mãe deixava brilhando.
― Estou bem, eu acho. Meio nervoso – suspirei e esfreguei os olhos. Cocei meu maxilar minha barba, infelizmente, pela primeira vez estava começando a crescer, sim eu era atrasado nesse recurso. Completarei 22 anos em cinco dias, já era hora de ela apontar pra fora, mesmo que eu não quisesse.
― Oh, não seja duro com se mesmo, Austin! Você é um excelente profissional, com certeza será algo bom pra você! – disse ela em um tom otimista. Em seguida minha mãe se virou, segurava um prato grande e colocou na minha frente com um copo de suco de laranja.
― Obrigado, mãe! – falei sorrindo ao ver o prato com quatro waffles redondos cobertos com mel, chantilly e vários morangos em cima e em volta. Era minha comida preferida desde cedo. Mesmo eu já sendo adulto, sou filho único e ainda tenho meus mimos.
― Seu pai foi ao Loyd’s Market comprar algumas frutas, ele vai demorar. – minha mãe disse e sentou-se ao meu lado na mesa me observando comer. – Quanto tempo vai durar sua reunião?
― Espero que seja pouco tempo – disse e dei uma mordida em um waffle.
― Não precisa se preocupar, vai ser tudo bem, filho, você vai ver! – minha mãe falou, sendo otimista de novo. Aquele jeito de fazer tudo parecer bem era próprio dela.
― Ok, irei ficar calmo. – falei.
O resto do café da manhã foi em silêncio, minha mãe comeu apenas uma maçã enquanto me observava comer. Subi até meu quarto, que ficava ao lado da escadinha que levava ao sótão e me olhei no espelho. Eu era alto, magro, cabelos castanhos bem lisos, olhos cor de mel e meu rosto tinham feições bem firmes. Levantei uma mecha de cabelo do canto da têmpora e observei uma velha cicatriz, de uma queda no parque. Foi bem funda, minha mãe me contou, por isso ela não sumiu. Balancei minha cabeça tentando me livrar desses pensamentos e comecei a me arrumar. Vesti uma camisa branca social de botões e um paletó preto por cima, dei o laço em uma gravata vermelha no meu pescoço. Vesti calças pretas e um sapato social... Dei os últimos cuidados com a aparência e desci as escadas correndo, peguei as chaves do meu carro que estavam em um chaveiro na parede.
― Tchau mãe! – gritei abrindo a porta da sala, e andei até meu carro.
Destravei, com o alarme da chave, minha Nissan Versa e entrei, suspirei e ajeitei o retrovisor interno. Vi um pequeno pedaço de papel saindo de dentro do porta-luvas e franzi o cenho. O tempo era nublado, porém quente e nuvens negras cobriam o céu. Olhei em volta, a rua estava estranhamente quieta. Puxei a trava do porta-luvas e puxei o papel, era pequeno e amassado o virei vendo a imagem. Uma foto antiga, bem velha e arranhada... A foto retratava uma menininha com grandes bochechas e grandes olhos cor de mel, a garota possuía cabelos curtos, loiros e lisos. Franzi o cenho observando a foto, meio estranho aquilo estar no meu carro sem mais nem menos.

***
― Senhor, você tem 9 ligações na caixa postal e três delas são do Sr. Molliester, você quer ouvi-las? – Minha assistente Jéssica, uma mulher da meia idade, meio cheinha e morena começou a andar ao meu lado, assim que sai do elevador, entrando no andar da Purg, como sempre estava uma agitação total.
― Não, Jéssica, deixe pra depois... Eu to muito atrasado. – respondi, enquanto andava apressadamente até minha sala.
― Senhor Reynolds, ele está insistindo em marcar um encontro para te mostrar as fotos. – Jéssica insistiu.
― Marque pra depois – falei e abri a porta onde estava escrito em letras grandes “AUSTIN REYNOLDS, editor chefe”, Jéssica parou na porta e depois de um tempo saiu.
Olhei o relógio grande e moderno na parede, já marcavam nove horas e cinquenta minutos, a reunião estava marcada pras dez. Fui até minha mesa, procurando uma prancheta com anotações nas gavetas que eram grandes o suficiente para portá-la. Depois de examinar as três gavetas da minha mesa e só então percebi que havia um envelope branco fechado sobre minha mesa com poucas escrituras nele.
“Tudo que eu nunca poderia dizer-lhe.
Anônimo”

Franzi o cenho e olhei pros lados, senti como se alguém estivesse me observando. Toquei o papel branco e gelado, em seguida abri o envelope. Senti um leve arrepio ao ver a foto e ler o que estava escrito com tinta sobre ela.
“FLORESTA DO TRONCO LASCADO
AMANHÃ
DESCUBR”

A foto retratava um menino de cabelos lisos meio emaranhados, com olhos cor de mel e um sorriso contagiante, parecia estar frio onde a foto foi tirada, e parecia ter sido na mesma época da foto da garota. A mensagem escrita na foto com tinta parecia ter sido feita apressadamente, fazendo com que parte das letras ficassem pra fora do papel. Senti um nó na garganta sem saber o que significava aquilo.
Parte de mim estava louca pra descobrir.
Decidi que seria meio estúpido ignorar o bilhete sem saber o que é. Tirei a foto e coloquei-a no meu bolso, em seguida amassei o envelope e o joguei na lixeira.
― Jéssica, ahn, alguém entrou na minha sala hoje? – disse saindo da sala e fechando a porta com cuidado, tranquei-a.
― Não senhor, desde que estou aqui não. – ela respondeu, enquanto operava um computador.
― Obrigado. – falei e me apressei em ir até a sala de reuniões.
Entrei na sala rapidamente e fiquei meio sem jeito ao perceber que todos estavam na sala, menos eu.
― Está atrasado Austin. – Frederick disse olhando sério pra mim. Frederick era meu chefe, o dono da Purg, e ele odiava atrasos.
― “Aa...” – Comecei a inventar uma desculpa mas decidi que seria melhor ficar calado. Andei em silêncio até minha cadeira e sentei.
Frederick começou a falar algo do tipo: “A última edição da Purg vendeu 25% menos do que as duas últimas, e isso é um total descaso já que fizemos a pesquisa de sobre que tema o público queria e fizemos o mais votado...”. Parei de prestar atenção nessa parte. Meu cérebro só conseguia pensar na situação de hoje, aquela foto da menina e do menino deixadas pra mim... O que isso tem haver? Pensei que podia ser, sei lá, “e o vento levou”... Quer dizer, as fotos foram parar lá por acidente, mas não tem lógica. As duas estavam colocadas em um lugar certo. Depois de vários minutos perdido nos pensamentos voltei a mente pra reunião e a frase que ouvi foi: “Então, temos que bolar algo inovador, pra dar um up nas vendas da próxima edição. O que acha Austin?”. Eu era o editor chefe e um dos meus papéis no cargo era “achar”, se eu “achasse” certo as vendas subiam, se eu “achasse” errado, as vendas caiam.
― Ahn, eu acho que... – fiquei contra a parede, não tinha prestado atenção em NADA que Frederick disse e tinha que dar uma resposta sensata. – É, acho que é uma boa ideia inovar na próxima edição. – falei tentando parecer concentrado – E também acho que eu preciso ir ao banheiro.
Fingi estar apertado pra usar o banheiro e levantei saindo da sala. E eu realmente fui ao banheiro, mas apenas me fechei em uma cabine e fiquei ali pensando por minutos, e minutos, e minutos sobre o que eu devia fazer.
E eu “acho” que eu deveria fazer.
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