Insistente
3 Capítulo II – Perseverante: Em busca de respostas.
Quinta-feira, 21 de maio de 2013.
Minha noite toda se resumiu em ficar rolando na cama pensando naquilo tudo. O que significam aquelas fotos, o que eu tenho que descobrir? Certamente eu não conseguiria trabalhar com os pensamentos revirados desse jeito, eu liguei pra Purg e disse que eu estava doente, eles me deram dois dias de folga, era bom ser um dos preferidos da empresa.
― Austin. – minha mãe balançou o monte de edredons que me cobriam. – Austin... Austin! – ela insistia.
Eu soltei algo entre um gemido e um protesto.
― Não vai trabalhar hoje filho? – ela perguntou baixinho.
― Não, eles me deram folga – falei baixo e rouco, estava cansado, pois não havia dormido nada essa noite.
― Ah, que bom. – comentou minha mãe. – Não quer tomar café da manhã?
― Não... – falei sonolento – Me deixa dormir, estou com dor de cabeça.
― Não quer água filho? – minha mãe perguntou e eu não respondi, depois de um tempo ela saiu e encostou a porta.
A ansiedade estava tomando conta de mim, me levantei e caminhei até meu simples closet, abri as portas de madeira e peguei a calça que havia usado no dia anterior, tirei o bilhete do bolso e o olhei.

“Descubr” li em voz baixa. Mas descobrir o que? Bom, só indo lá pra descobrir né? Voltei pra cama e me deitei, deixando o bilhete rente a meu peito. Podia ser uma emboscada, poderia ser alguém tentando me assaltar ou coisa e tal, mas eu não pensava nisso... Só pensava em saber o que as duas crianças tem em comum e quem quer me levar até a Floresta do Tronco Lascado.
***
Já eram sete da noite, demorei demais no banho, estava pensando. Tenho que acelerar ou irá ficar muito tarde pra me aventurar sozinho em uma floresta vazia. Sai do banho e abri o closet, peguei uma camiseta regata branca e a vesti junto com uma calça jeans preta. Calcei coturnos marrons e coloquei o bilhete no bolso, tinha que descer em silêncio, não queria meus pais no meu pé. Desci a escada tentando pisar como uma pena e meio que deu certo, meus pais estavam vendo TV e não notaram, peguei a chave do meu carro no chaveiro o que fez um pouco de barulho, mas não chamou a atenção deles. Fui até a porta e girei o trinco, estava velho e fez um barulho maldito o que fez minha mãe olhar.
― Vai sair Austin? – ela disse olhando pra trás, do sofá era possível ter um campo de visão da porta de entrada.
― Ahn... – fiquei com medo de ser impedido com perguntas – Vou, tchau, até mais. – falei com pressa, sai e fechei a porta rapidamente.
Corri até meu carro e entrei fechando a porta com um suspiro e liguei o GPS e digitei: Chipped Trunk Forest. A rota era de 6 km daqui, acelerei o carro em direção a “caça ao tesouro”.
Em oito minutos estava na entrada, li à placa que apontava pras arvores com o nome da floresta. Parei o carro no acostamento e desci, trancando-o. Comecei a andar procurando algo, não sabia o que procurar, mas estava procurando, fui andando em direção norte e vi algo semelhante a uma clareira, franzi o cenho tentado enxergar melhor e me aproximei.
Era um pequeno casebre feito de madeira, bem velha pra falar verdade. Quase do tamanho de um banheiro, ficava tão no fundo da floresta que se não fosse pela luz fraca amarela na entrada eu não teria encontrado. Olhei para os lados, já era comum agora sentir como se estivesse sendo observado?
Andei até a entrada, uma cadeira de balanço feita de madeira estava parada na porta. Coloquei a mão no trinco gelado e antigo de ferro em forma de interrogação da porta e empurrei, não abriu, ou estava emperrado ou estava trancada. Se me mandaram vir até aqui não era pra lutar com uma porta trancada, continuei empurrando.
― Ah, qual é?! – reclamei entre uns gemidos enquanto empurrava a porta.
Batia com meu cotovelo na porta e empurrava, mas a possível ferrugem parecia lutar contra. Olhei em volta certificando que não havia ninguém por perto, suspirei e com toda minha força chutei a porta com o pé no meio dela.
Finalmente a porta abriu balançando com um "nhec, nhec" irritante. O quadrado de madeira arejado pelas fendas entre uma madeira e outra era iluminado apenas por uma luz amarela fraca como a da entrada e uma janela pequena, coberta por um pano branco, que ficava quase incolor. Olhei pra parede, uma foto pregada com pregos de uma casa grande e antiga, dessa vez a foto estava em preto e branco.

Ótimo, outra foto. Em cima da foto estava pregado á parede um bilhete de folha de caderno que dizia: “Oliver Street, 715, Beetwood”. Era um endereço, informava apenas a rua o número e a cidade, mas não o bairro. A foto era muito grande pra levar, pensei que seria inteligente fotografa-la caso precise da foto, tirei meu celular do bolso e bati uma foto da imagem pregada na parede, puxei o bilhete o prego continuou preso á parede em meu bilhete agora rasgado estava escrito “Oliver Street, 715, Bee”. Em cima da mesa de madeira que ficava encostada na parede de madeira (o único móvel de dentro da cabana) estava uma folha inteira, escrita em rabiscos: “ELES NÃO TE CONTARAM A VERDADE”. Senti um arrepio, aquilo era realmente bizarro e assustador, o que eu fazia em uma cabana no meio da floresta, no meio da noite? Eu devia estar louco pra ter a ideia de ter ido ali, me decidi ir embora, foi quando eu vi um ressalto marrom no canto da mesa de madeira, tateei a região querendo saber se era um objeto e senti algo macio, peguei e trouxe até a meia luz que iluminava a cabana.
Parecia uma bolsa, era de couro e tinha uma fivela, mas era pequeno. Era um retângulo do tamanho da palma da minha mão, o couro era velho, porém ainda um pouco macio. Coloquei o dedo na fivela e abri vi um pedaço de página branca, porém encardida me fez perceber que era uma agenda, na primeira folha estava escrito com letras desenhadas e floridas “Diário da Mary”, pela caligrafia parecia ser algo de criança. Passei as primeiras páginas e entre a quinta e a décima li algo que me destacou o interesse.
“Querido diário,
Hoje eu, Austin e o papai saímos pra pescar em um lago aqui próximo de casa, a melhor parte foi a guerra de lama.
Agora tenho que ir jantar.
Com amor, Mary.”
Passei mais algumas páginas e fui lendo trechos.
“Querido diário,
Austin tem sido um ótimo irmãozinho pra mim, ele me defendeu de meninas briguentas na escola hoje.”
“Querido diário,
Mamãe fez torta de amora pra mim e pro Austin hoje”
Aquilo era realmente estranho, mesmo sendo algo totalmente incogitável pensei que aquele Austin tinha alguma relação com esse Austin, quer dizer, eu. Foi nessa hora que vi uma sombra passar rapidamente pela janelinha fazendo um feixe de escuro no pano branco que cobria a janela. Senti um arrepio, eu não estava sozinho.
Fechei o diário e passei a fivela, meio que trancando-o, eu precisava ir embora agora. Coloquei o diário no cós da minha calça deixando-o preso á minha cintura. Nesse momento, a porta se fechou atrás de mim, me virei assustado. Foi o tempo de ouvir o barulho de uma chave a trancando.
― Ei! – gritei e soquei a porta – Ei! Quem está ai? – gritei socando a porta.
Ouvia pegadas e galhos quebrando em volta da cabana.
― Abra a porta agora! – gritei socando a porta e empurrando o trinco freneticamente, eu estava ficando assustado. – Isso não tem graça!
Por um momento o lado de fora ficou em silêncio, eu parei também. Vi uma claridade amarela e laranja reluzindo no pano branco da janela. Funguei com o nariz, sentindo um cheiro nauseante. Fumaça.
― Me tira daqui! – gritei alto com o coração na garganta, estava aflito e meus olhos estavam marejados de lágrimas.
A luz se tornou mais intensa, e o calor evidente, alguém estava tentando me fritar. Fagulhas começaram a invadir a madeira, eu era extremamente alérgico a fumaça e não planejava morrer queimado.
― Por favor! – comecei a suplicar socando a porta, enquanto lágrimas escorriam.
Eu ia morrer, estava desesperado, o fogo invadiu o lado da janela e me afastei, suplicando, o calor era intenso, a fumaça dominava o local quase completamente fechado. Minha alergia não ajudava, a fumaça entrando pelo meu nariz, o calor me fazendo suar, o desespero de estar preso em um incêndio tudo isso fez meu sistema falhar. Senti meus músculos ficarem mais pesados, minha visão embaçou e tudo começou a girar em câmera lenta. Ouvia o fogo crepitar, eu perdi o equilíbrio. Senti uma forte pancada na minha cabeça, provavelmente da quina da mesa, cai no chão e tudo ficou escuro, tudo parou de acontecer.
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