Insistente
4 Capítulo III – Aferrado: Um pouco abatido demais.
Notas iniciais
Sexta-feira, 22 de maio de 2013
Senti um arranhão na garganta, na minha frente vi apenas quatro paredes brancas. Ao longo dos segundos comecei a distinguir melhor as coisas, uma poltrona, uma mesinha e uma enorme cortina do teto ao chão que terminava na porta. Ouvia apenas um “pi, pi, pi” irritante. Estava perdido, as lembranças não se fixavam em minha mente agora, olhei pra baixo e vi um fino cobertor verde claro, levantei-o e vi minhas pernas cobertas por algo que parecia ser um vestido branco. Internado. Eu estava em um hospital. Olhei para o lado, o barulho irritante era um aparelho que mostrava meu ritmo cardíaco. Uma cânula jogava ar nas minhas vias aéreas por meio do nariz. Minha cabeça ainda doía, tentei pôr os pensamentos em ordem mas apenas conseguia me lembrar de fragmentos, minha cabeça doía e muito. Meu corpo cedeu e minhas pálpebras caíram sobre os olhos.
Novamente o barulho que indicava que meus batimentos por minutos estavam estáveis me acordou. Esfreguei os olhos e olhei em volta, minhas roupas estavam em cima da poltrona, então fui me lembrando. Na noite passada estava eu indo pra Floresta do Tronco Lascado, guiado por um instinto de querer respostas, fui até um chalé e fotografei uma foto na parede, peguei um diário de uma criança e... O diário! É claro, eu peguei pelo menos o diário.
Ainda estava tentando ligar os pontos quando a porta do meu quarto de hospital se abriu. Uma jovem enfermeira de cabelos pretos sedosos que caiam pelo ombro, bochechas grandes e rosadas e olhos azuis bem claros entrou no quarto. Suas sobrancelhas eram bem feitas e seus lábios finos estavam cobertos por um batom rosa claro.
― Olá Austin. – ela disse. A voz dela era firme, porem doce. A garota devia ter 20 ou 21 anos. – Você dormiu bastante
― Oi... – olhei o crachá em seu peito onde MELANY estava ressaltado em negrito, o sobrenome não consegui ler. – Melany. Quem é você?
― Sou sua enfermeira. – ela se sentou na beirada da cama e pousou as mãos sobre suas coxas – Você teve bastante sorte.
― Sorte de que? – A essa altura eu não estava sabendo de muita coisa.
― Bom... – ela suspirou fitando os aparelhos ao lado da cama. – Pelo que eu soube você estava ontem em um casebre na floresta e houve um incêndio. – Melany fez uma pausa – A perícia ainda não sabe se foi acidental ou criminoso. E você bateu com a cabeça, segundo os laudos médicos e desmaiou. – ela parou de novo como se estivesse pensando no que falar. – Uma ligação anônima ao corpo de bombeiros tirou você apenas com algumas queimaduras leves.
Então me lembrei do meu objetivo, eu queria respostas, eu precisava agora e tinha elas pra mim. Senti meu coração acelerar e uma ansiedade tomar conta de mim.
― Pode por favor pegar minhas roupas? – apontei para a poltrona.
― Claro. – Melany disse se levantando e caminhando até a poltrona. Ela envolveu tudo em suas mão e trouxe, colocando sobre meu colo.
Imediatamente revirei a calça, meu celular caiu no meu colo, mas nada do diário. Não é possível. Tem que estar aqui. Pensei enquanto olhava nos bolsos e até no tornozelo da calça.
― Vocês tiraram alguma coisa daqui? – perguntei preocupado.
― Não, nem mexemos Austin. – ela disse com calma.
― Mas... era pra estar aqui, não é possível! – protestei suspirando no final.
― O que está procurando? – Melany perguntou
― Uma agenda. – respondi. – De couro, pequena. – completei.
― Ãh, posso te afirmar que ninguém que trabalha no hospital pegou. – A enfermeira Melany falou e eu senti um gelo percorrer meu corpo todo.
― Meus pais já vieram me ver? – perguntei tentando me auto confortar.
― O Dr. Krauler, seu médico, ainda não liberou as visitas.
Senti um arrepio na espinha. A pessoa que colocou fogo na cabana não queria me incendiar, pelo contrário, me queria vivo. Eu peguei algo dela e isso foi um meio dela conseguir de volta. E me avisar quanto é perigoso(a). Desbloqueei meu celular e abri a câmera, a foto ainda estava lá. O diário pertencia a pessoa e ela não queria que eu o visse, presumi. Ainda não sei com quem estou lhe dando mas se ela pode me colocar em uma cama de hospital acho melhor nem querer lhe dar.
***
Após o almoço Dr. Krauler veio me ver, e me dizer alguns cuidados que eu tenho que tomar com minha cabeça devido á amnésia.
Essa é uma outra história, mas não pode ser esquecida. Meus pais me disseram que quando eu tinha 10 anos, cai de uma gangorra e bati a cabeça em um bloco de cimento provocando amnésia retrógrada. Isso foi um grande trauma, tive sorte de sobreviver mas durante três meses me esquecia do meu sobrenome quando se passavam três dias. Foram longos meses de recuperação e de presença total dos meus pais me “lembrando” de tudo que eu perdi com o acidente desde qual é minha cor favorita até quem era meu melhor amigo na escola.
O Dr. Adam Krauler me disse que corro sérios riscos de “tocar” novamente a área afetada e causar danos piores quando eu bato a cabeça.
Assim que a visita do médico terminou meus pais puderam me ver. Eu só teria alta em dois dias então podia ir me acostumando com o cheiro de alvejante e de luvas plásticas. Minha mãe estava morta de preocupação o que levou-a a exigir que eu explicasse três vezes o que houve na floresta e o porquê de eu ter ido lá. Menti na maior parte.
***
― Você trabalha aqui há muito tempo? – perguntei pra Melany assim que ela colocou uma bandeja com sopa quente de vegetais, suco de laranja e um pacote de batatas ressecadas em cima de uma mesa de café na cama em cima do meu colo.
Eram 20:00 da noite, horário da janta saudável servida pelo hospital.
― 9 meses apenas – ela suspirou. Seu cabelo estava amarrado em um coque – Meio período aqui, meio período na faculdade de enfermagem. E você trabalha?
― Sou editor chefe da Purg. – falei segurando uma colher de sopa e a analisando.
― Não brinca! – vi um brilho nos olhos da enfermeira Melany, então percebi o quanto ela era jovem e bonita. – Eu sou fã da revista desde os meus 14 anos! Não perco uma edição! Todo aquele conteúdo genial selecionado pra cada página perfeita é você que faz?
― Não é pra tanto mas obrigado – sorri lisonjeado com os elogios de Melany, coloquei a colher na boca tomando um pouco da sopa, estava razoável.
― Isso é muito legal sa... – Melany foi interrompida por um barulhinho vindo do bolso do seu uniforme. — Desculpe tenho que ir. – ela saiu apressada fechando a porta atrás dela e se dirigindo a outro quarto onde vi pelo vidro que várias enfermeiras se dirigiam também. Parecia ser algum tipo de emergência.
Terminei a refeição comendo tudo, dessa vez uma enfermeira diferente apareceu para recolher os pratos e apagar a luz, fiquei me perguntando o porquê de não ser Melany a me atender e se a verei amanhã.
Me deitei suspirando, e pensando na situação que eu me encontrava. Machucado por alguém que eu não faço a mínima ideia de quem seja. Posso ter caído em uma armadilha ou posso ter obrigado a pessoa a me impedir de levar o diário. Meus olhos estão quase se fechando quando vejo uma forma preta passar da direita pra esquerda através da cortina, isso os abriu de novo. Meu coração acelerou, meu agressor estava ali depois da porta com suas intenções ocultas a mim, queria gritar, ou chamar alguém mas isso indicaria que eu estou ciente de sua presença. Fecho os olhos, uma gota de suor brota da minha testa. É pensando nas várias formas que posso morrer essa noite que adormeço e caio em sono pesado.
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