Insignificantemente, você
46 Capítulo quarenta e cinco
O Beco Diagonal estava cheio, bruxos e bruxas com capas em cores extravagantes e chapéus pontudos andavam para todos os lados, alguns carregavam caldeirões apinhados de livros ou frascos para poções. Hermione caminhava por entre as pessoas com pressa, seu queixo batia tamanho o frio que sentia. Mesmo o cachecol puxado até a altura de seu nariz não aquecia o suficiente. Abraçada no próprio corpo apontou a varinha para os tijolos do final de rua e atravessou a passagem que se formou, entrando em seguida no Caldeirão Furado. Tom, já muito velho limpava alguns copos com um pedaço de pano muito encardido. A garota ainda trêmula avistou Draco, sentando no fundo do bar, mexendo um caneco largo. Aproximou-se, já sentindo o calor abafado da taverna. Tirou o casaco e colocou-a sobre a cadeira, sentando-se de frente para Draco.
—Pode começar! —Disse, sinalizando para Tom que lhe serviu cerveja amanteigada rapidamente.
—Precisa abraçar Nott? Mesmo sabendo que ele gosta de você? —Não olhava diretamente para a garota, apenas confrontava-a com a voz firme e sem emoção.
Hermione pigarreou, apenas para ter Draco fixado em seus olhos.
—Primeiro. —Sinalizou o número com o dedo indicador. —Foi você mesmo quem disse que não importava o que éramos, ou seja, não temos algo fixo ou sério. Segundo. —Indicou agora, com dois dedos. —Ele é meu amigo e sim, o abracei mesmo sabendo que ele gosta de mim, porque querendo ou não, ele foi junto com Harry e Ron nos resgatar daquele lugar. Estou em divida com ele.
“Antes que pergunte com todo esse sarcasmo escondido, não irei pagar essa divida com abraços. Você sabe muito bem disso. Mas acredito que possamos ser civilizados o suficiente. Quero que saiba que não me importa o que somos, mas quero respeito e liberdade para abraçar quem eu quiser sem você me controlando. Entendeu?”
Draco batia um garfo qualquer na mesa, a expressão era de desprezo. Inclinou-se sobre a mesa e disse:
—Se eu estipular o que somos, você para de abraçá-lo?
A garota controlou-se para não rir ou estuporá-lo, mas apenas seguiu com a feição passível no rosto.
—Você sabe que não! —Respondeu. —Nós duelamos hoje, por isso o ajudei a levantar e o abracei. Foi apenas isso! E agora, depois desse seu ataque, Harry e Rony sabem que estamos juntos.
Draco sorriu, aquele riso lateral, tão cafajeste quanto o jeito que a olhava.
—Estamos namorando! —Disse, bebendo a cerveja amanteigada. —Fim de história!
—Você perguntou se eu queria? —Guinchou irritada. Tirou da bolsa algumas moedas de prata e jogou-as no mesa, saindo apressada. Deixando o casaco sobre a cadeira de madeira. A porta bateu com força, deixando resquícios de neve entrar. Draco apenas sorriu amargo.
O vento forte e gelado batia contra a janela fechada, mas Hermione aquecia-se na frente de lareira que crepitava, soltando uma espessa fumaça pela chaminé de tijolinhos. Enrolada em uma manta azul, bebia um café fumegante que parecia amargo demais. O natal aproximava-se cada vez mais, e a vontade de comemorá-lo se esvaia rapidamente. As chamas bruxuleantes e sons crepitantes lhe chamaram atenção, fazendo com que os pensamentos que a distraiam, desaparecessem.
—Mione? —Rony tinha a cabeça saindo pelas cinzas e fogo, o cabelo ruivo misturava-se às chamas.
A garota aproximou-se, com um sorriso que o incentivava a continuar.
—Fleur quer que Victoire veja o natal pelos olhos dos bruxos e dos trouxas. Você sabe! Aquela coisa de Papai... Como é mesmo?
—Papai Noel! —Hermione completou.
—Isso! —Sorriu. —Você poderia arranjar um fio de cabelo dele? Consigo a poção polissuco!
Hermione gargalhou por alguns minutos, limpou a lágrima no canto do olho e voltou a conversar com um Rony muito sério.
—Eu vou procurar a fantasia, não se preocupe!
O ruivo sorriu e despediu-se.
No dia seguinte, como prometido, Hermione acordou um pouco mais cedo e aparatou em um beco da Londres trouxa, procurando pela fantasia. Depois de praticamente uma hora procurando a maldita roupa vermelha, encontrou-a, em um tamanho pequeno para qualquer um dos rapazes, mas um feitiço seria o suficiente. Entrou pelo cano. Quase que literalmente...
O Ministério estava cheio, algumas pessoas já se encaminhavam para as lareiras, com embrulhos de papel pardo nas mãos. Hermione então, correu para seu escritório, onde Rony brincava com a varinha, soltando faíscas amarelas.
—Que dia é hoje? —Perguntou, jogando o casaco cinza sobre a mesa, espalhando alguns papéis coloridos.
—Vinte e três! —Responderam juntos.
Hermione sorriu, como se estivesse sonhando.
—Só pode ser brincadeira... —Murmurou. —Podem dispensar minha turma? Preciso fazer compras!
Harry assentiu enquanto Rony continuava brincando com a varinha, observando as convictas faíscas.
Hermione correu, pela Londres Bruxa e Trouxa. Comprando presentes infantis e adultos. Nas últimas lojas, quase comprou um livro de fotografias dos jogadores de Quadribol do último século com o dinheiro trouxa, tendo de explicar para o vendedor que era nascida trouxa. E que quase cometera o mesmo erro em uma loja trouxa. Chegou a segurar os galeões, mas jogou-os no bolso antes que a atendente mal humorada percebesse. Em casa, separou os objetos e iniciou sua batalha com os papéis de presentes e fitas coloridas. Em cinco minutos, já estava completamente perdida entre tantos laços, nós e fita adesiva. Três batidinhas na porta lhe tiraram do momento “estressante”.
Ele estava todo de preto, exceto pelo jaleco branco que aparecia sob o casaco comprido e segurava o casaco que Hermione esquecera no dia anterior no Caldeirão Furado. Tinha neve nos ombros.
—Draco... O que faz aqui? —Perguntou, abrindo passagem para o rapaz. O frio a fez tremer.
O rapaz bateu os pés no tapetinho e entrou, roçando o braço na garota.
—Pedir desculpas!
Hermione percorreu seu rosto, procurando sinal de sarcasmo ou irônica, mas apenas assentiu.
—Só irei te desculpar, se me ajudar a embrulhar aquilo tudo! —Apontou para a pilha de presentes.
Draco riu e tirou o casaco, seguido do jaleco tão branco quanto a neve. Aproximou-se do único embrulho feito. Riu e levou um tapa de Hermione que sentou-se no chão, frustrada,
—Está péssimo! —Diz, observando um quadrado torto que começava a se soltas da fita adesiva e do laço amarelo.
Draco apenas assentiu e desembrulhou todo o pacote. Puxou as mangas da camisa preta até o cotovelo. Desfez o embrulho, ajeitando ali e aqui, até que ficasse quadradinho e bem preso. O laço foi posicionado bem no centro do pacote vermelho. Pegou a pena que estava no chão, molhou a ponta e perguntou:
—Esse vai para quem?
—Você quer ir embrulhando enquanto eu escrevo os nomes? Fica mais fácil, sou um desastre com isso, meus embrulhos são péssimos!
Passou a pena para a garota e pegou o próximo objeto. Renderam-se à noite no último embrulho, Draco sentado no tapete com as costas escoradas no sofá, enquanto Hermione dormia em seu ombro. Aquecidos um pelo outro.
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