Insanidade

8 Uma escolha nada fácil


Notas iniciais
Ashley tem uma séria decisão a tomar e dependendo do que escolher, terá que lidar com sérias consequências.

— Fugir?! — por alguns segundos a mulher processou a informação — Que...que…pera aí — gaguejou tentando formar uma frase coerente — Quê?!

— Isso mesmo. Escuta, em breve ela vai receber uma grana alta, será a parte dele na funerária somado a quantia que ele guardava no banco. Eu vi as economias dele, te afirmo que é o bastante pra eu e você irmos para bem longe daqui, só nós dois. A gente pode viajar, fala um país e eu te levo. Não foi isso que você disse pra mim no dia que nos conhecemos? Que queria viajar? Ser livre? É a nossa grande chance Ashley, nossa chance de sermos livres.

— Daniel…isso é loucura... — ela desviou seu olhar, o mantendo fixo no chão, sem saber o que dizer.

— Loucura? Loucura é a gente ficar em empregos que a gente não gosta ganhando uma miséria de salário, isso sim é ruim. Poxa, você acha mesmo que vai conseguir alguma coisa assim? Olha pra nossa vida, o estado que a gente está, os dois na merda. O Leroy escreveu um testamento e deixou tudo pra Ângela e nada pra você. Acha realmente isso justo? Ele gostava mesmo de você? Acho que não. Parte desse dinheiro também é seu, pelo tempo que o aturou. Parte desse dinheiro também é meu, pelo mesmo motivo, ter suportado tanto tempo uma vida que eu não queria ao lado dela.

Ashley ouvia tudo quieta. Tudo aquilo realmente fazia sentido. Será mesmo?

— Eu não sei… — foi tudo o que saiu em meio a tantas coisas que ela pensava agora. — sua mulher, suas filhas, como elas vão ficar?

— Elas ainda tem a casa, o carro que Leroy deixou. Elas vão ficar bem. A Ângela só precisa vender os bens que vai dar uma quantia boa para sobreviver. Necessidade elas não vão passar. — explicou, mas ela se mantinha em silêncio com uma cara de paisagem. Ele então decidiu dar uma colher de chá para a garota. — Não precisa me responder agora. Pensa bem, pensa no que eu disse. Quando decidir fazer o que é certo, você fala comigo. — Esticou o braço esquerdo e abriu a porta do passageiro para ela que levantou e saiu — Só não demora, porque esse dinheiro vai estar em minhas mãos em breve e com você ou sem você eu vou embora. — Ela o encarou uma última vez e entrou na casa.

Na residência, decidiu tomar um banho enquanto pensava bem no que iria fazer. Tinha uma decisão séria a tomar a partir de agora.

A água quente escorria pelo seu corpo relaxando-a. Pegou o frasco de shampoo e despejou na mão, passando pelos cabelos e espumando. De roupão, voltou ao quarto com a mão esquerda sacudindo os fios molhados. Realmente, o banho se mostrou revigorante, deixando-a menos tensa naquela noite.

Deitou-se, mas não conseguia dormir. Vários minutos se passaram e ela continuava com os olhos abertos, tendo as mãos cruzadas sobre a barriga. “Fugir” era realmente o que queria? Quais seriam as consequências? As coisas realmente poderiam ficar piores? O sentimento de culpa, ansiedade e tristeza poderiam sumir em outro lugar, numa outra cidade, com a bela vida luxuosa e confortável que tanto desejava? Já estava tudo uma merda mesmo. Não seria uma ideia tão ruim assim. “Ruph” bufou. Pense bem.

Batidinhas na porta a tiraram do transe. Sem esperar resposta, uma menininha loira de pijama branco, agarrada a um ursinho marrom, entrou.

— Tia Ashley — fala com cara de sono — posso dormir com você?

— Oh querida, claro que pode. Vem aqui. — disse, afastando-se e dando espaço na pequena cama de solteira. A menina num pulo estava ao seu lado, preenchendo o lugar. Ashley tratou de conferir se a menina estava bem embrulhada. Após a precisa análise de seus olhos, a abraçou.

— O que houve? Por que está acordada essas horas? Teve outro pesadelo? — encarou os olhos brilhantes da garotinha que consentiu com um balanço de cabeça — quer contar pra tia?

— Foi estranho. Eu sonhei que um cachorro corria atrás da senhora tentando te morder.

— É mesmo? E o que mais? Eu conseguia escapar dele? — após um balanço de cabeça negativo, ela voltou a indagar. — Não? Não acredito! Ele me mordeu então?

— Sim. Bem aqui — apontou para o pescoço da mulher — aí eu acordei.

— Ai — fingiu dor, pondo a mão no local apontado. — Uma mordida dessa deve doer. E sabe o que mais deve doer? A suas bochechas depois que eu morder elas todas — Apertou as bochechas da menor dando uma mordida de leve em cada uma como sempre fazia.

— Para tia — gargalhadas gostosas ecoaram pelo quarto — a senhora sempre morde forte.

— Quem manda ser tão bochechuda? A tia não se aguenta — Começou a fazer cócegas na pequena que riu mais ainda.

Após as brincadeiras, Ashley fez carinhos nos cabelos dourados da menor até ela apagar. Ali, naquele momento, pensava em Daniel e em como ele era cruel de ter um plano tão horrendo contra a própria família, roubar uma herança que poderia fazer uma grande diferença na vida das filhas e até da esposa. Ela poderia ser ruim, infiel, interesseira e ambiciosa, mas não a ponto de fazer mal à própria família. Nisso, Daniel se superou. Por um minuto, pensou que se John, marido de sua irmã, tentasse fazer algo parecido com a sua mais velha ou a sobrinha, ela o mataria. Amava as duas mais do que tudo no mundo. Percebeu ali que não era mais do que sua obrigação fazer alguma coisa para ajudar. Mais do que isso, tinha uma pendência grande com Ângela, uma dívida maior que qualquer outra. Agora, ela já sabia o que fazer. A decisão estava tomada.

O dia seguinte se passou calmamente. Ashley percebendo que logo seria noite de novo, resolveu arrumar as malas. Após organizar suas coisas em uma grande mala preta, olhou o relógio e decidiu que era hora de partir. Saiu pela porta dos fundos para que ninguém a visse.

Em sua cama, havia uma carta dando as devidas explicações para a irmã. Não quis falar pessoalmente com ela, visto que conhecendo o jeito de Amanda, ela ficaria preocupada e possivelmente tentaria impedir sua ida repentina, mas ela precisava ir embora e somente ela entendia o porquê. Não queria causar mais problemas e não queria que qualquer consequência de suas ações respingasse nelas. Na carta, agradeceu pela moradia e disse que voltaria para a cidade grande e tentaria melhorar de vida por meio de seu trabalho e que, quando estivesse estável, avisaria para que a irmã e a sobrinha pudessem visitá-la.

Foi diretamente na antiga casa de Leroy. Andando mesmo, até porque não tinha veículo. A única coisa que tinha era uma mala e algum dinheiro guardado, mas não pretendia usá-lo. Seu plano era pegar uma carona com algum caminhoneiro ou coisa do tipo no bar hot drink. Sempre havia alguém vindo de fora, homens em sua maioria. Sabia que bonita como era, não seria difícil.

Em frente ao seu destino, respirou fundo antes de tocar a campainha. É agora. Com Daniel ou sem Daniel, é a hora de fazer o certo pelo menos uma vez na minha vida.

A porta se abriu revelando Ângela. Estava com um pano listrado prendendo o cabelo e um avental branco amarrado na cintura. Provavelmente estava cozinhando.

— Você? O que quer? — disse sem disfarçar seu descontentamento ao ver a garota.

— Eu preciso falar com você. É importante.

— Comigo? — enrugou a testa — Tudo bem, mas seja breve, estou com um molho no fogo. — afastou-se dando espaço na porta. — Pode entrar — reparou a mala preta — está indo viajar?

— Sim. — bateu a porta e deixou a mala aguardando na sala enquanto acompanhava Ângela até a cozinha — Eu estou precisando deixar a cidade. Buscar novas coisas.

— Entendi. — Ângela mexeu seu molho com uma colher de pau. — Sabe, me admira você ter a coragem de vir aqui depois do que você fez. — O coração de Ashley acelerou. Ela provavelmente sabia de alguma coisa. — Como você falta ao enterro do meu pai? Considerando como ele gostava de você. — Ashley se acalmou novamente. Era apenas isso.

— Me desculpa, eu fiquei tão abalada com a morte dele que eu não consegui.

— Não tanto quanto eu, disso você pode ter certeza. — A loira ficou em silêncio, pois não soube como se explicar — e pensar que ele preparou um jantar romântico pra você. — Percebeu o olhar confuso de Ashley — você nunca soube, mas na noite que ele passou mal, eu estava ajudando ele a te fazer uma surpresa. Enfeitamos a casa, tinha vinho, macarrão, pétalas de flores na cama — Ângela deu uma pequena risada já começando a se emocionar. Instintivamente, colocou o punho embaixo do nariz, contendo-se. — Foi por isso que ele foi te buscar naquela noite. Infelizmente, ele foi embora antes. Ele estava inseguro, por isso preparamos tudo. Falo isso só para que saiba que ele gostava de verdade de você. — falou encarando os olhos culpados de Ashley, também reparando o colarzinho dourado com o pingente de sereia que a surpreendia o fato da loira continuar usando, vendo o desapreço que aparentemente tinha com seu pai.

Ashley não conteve o nó na garganta e o aperto no peito ao saber da informação. Isso de certa forma fez tudo parecer terrivelmente pior. Ela era um monstro. Era assim que se sentia. Mesmo não sendo acostumada a mostrar fragilidade na frente de outras pessoas, não conteve as lágrimas que pareciam querer sair a qualquer custo. Respirou fundo e passou uma mão pelo cabelo tentando de alguma forma voltar ao seu estado normal.

— Me perdoa... — disse com a voz trêmula — por tudo. Eu juro que se eu pudesse consertar, eu faria. Se eu pudesse evitar tudo o que eu fiz a você, eu evitaria. Me desculpa Ângela, meu objetivo nunca foi te prejudicar ou a seu pai. — A mais velha ouvia atentamente pensando saber do que se tratavam essas palavras — por isso eu vim aqui. Pra me retratar com você de alguma forma.

— Ah, é? Isso inclui trepar com meu marido?!

Ashley ficou completamente surpresa com a frase, levando consideráveis segundos para processar o que acabou de ouvir, e se tinha ouvido certo.

— Como? — engoliu em seco parando de chorar — Então você sabia? — encarava temerosa a mulher.

— Acho que na cabeça de vocês eu sou uma completa idiota, não é? Esqueceu quem mora com ele e observava ele chegar bem mais tarde do horário de saída? Quem lavava as roupas dele e sentia esse seu perfume doce e enjoativo nas camisas? Obviamente eu sabia. Quer dizer, eu tentava colocar na minha cabeça que poderia ser qualquer outra coisa, paranóia minha, mas estava tão estampado que só uma idiota pra não ver. — encarou Ashley por alguns segundos que não soube como reagir à surpresa — se foi pra isso que você veio aqui “Se desculpar”, pode ir embora que eu tenho mais o que fazer.

— Não... — Sua voz parecia um sussurro. Pausou. Era a hora de ser corajosa. — Foi por outra coisa que eu vim aqui. Tem mais coisa que você precisa saber.

— Mais? O que poderia ser pior? Me fala.

— Ontem o Daniel foi falar comigo. Ele me disse que Leroy deixou as coisas dele pra você, além de uma quantia no banco.

— Sim, quantia essa que você não tem direito nenhum, espero que isso esteja bem claro.

— Eu não quero esse dinheiro. Por isso mesmo que estou aqui. Se eu quisesse, eu teria aceitado a proposta que ele me fez.

— Do que você está falando? Que proposta? — cruzou os braços

— Daniel disse que era pra eu fugir com ele. Disse que iria pegar essa quantia e ir embora daqui e me convidou pra ir junto. — falou rápido antes da sua coragem ir embora. Angela a encarou de maneira assustada — Ele está tentando roubar você, Ângela. Eu não achei certo e decidi vir aqui te avisar antes que fosse tarde demais e isso prejudicar você e suas filhas.

— Que absurdo é esse que você tá me falando? O Daniel me roubar? Você espera mesmo que eu acredite nessas mentiras que você tá inventando? Nunca ele faria isso, nem nos meus piores pesadelos. Ele pode ter os defeitos que for, mas isso não. Ele me ama, a mim e as nossas filhas. — Ashley tentou argumentar mais um pouco, mas Ângela não deixou — Para de contar essas mentiras! O que você está tentando fazer comigo? Me enlouquecer? — Ela olhava pra cima como se quisesse escapar de ouvir tudo aquilo, como se a qualquer custo tentasse evitar que aquelas palavras entrassem na sua cabeça, caçava incessantemente uma maneira de não comprar essa informação — Eu já sei o que deve ter acontecido. Ele terminou com você, não foi? Aí você veio aqui inventando essa história como uma forma de se vingar e de arruinar o meu casamento. Claro, só pode ser isso!

— Arruinar o seu casamento? — Ashley franziu a testa para um segundo depois desfazer qualquer expressão de seu rosto, revirando os olhos — Ah, chega! Eu cansei dessa palhaçada, se você gosta de ser feita de trouxa, problema seu. — antes de caminhar para fora da cozinha, decidiu soltar mais uma informação — Só mais uma coisa.

— O quê? — Ângela perguntou com uma voz fraca e ríspida, de costas para ela, apoiada na pia.

— A morte do seu pai não foi como você pensa.

— Como assim? Do que você está falando? — virou o pescoço para vê-la melhor, curiosa com a informação.

— Pra que você não me acuse de tentar "arruinar seu casamento" — fez aspas com as mãos — ou coisa pior, é melhor você ver com seus próprios olhos. Procure o Richard e peça para ele as imagens das câmeras de segurança daquele dia. Só assim você vai saber da verdade.

Ângela apertou os punhos e lançou uma lata com molho de tomate em direção a parede, que, com o baque, se abriu, pintando a cozinha de vermelho.

— Merda! — gritou a mais velha. — Tudo isso é culpa sua! — Ela passou por Ashley em direção a escada. A loira, mesmo tentando não transparecer, ficou com medo da mulher fazer algo, mas surpreendentemente, ela não fez. Ângela parou prestes a subir. — Eu vou pegar o esfregão pra limpar essa sujeira. Quando eu voltar, se você ainda estiver aí, eu juro pra você que eu não respondo pelos meus atos.

Ashley viu a mulher sumir de vista no andar de cima. Sem perder tempo, pegou na alça da mala e foi em direção à porta. Antes que pudesse encostar na maçaneta, ela se abriu, fazendo a loira ficar cara a cara com Daniel.

Notas finais
Obrigado por acompanhar até aqui. A tensão só aumenta daqui em diante.