Insanidade
9 A um passo da liberdade
Notas iniciais
— Ashley? O que você está fazendo aqui? — pareceu incrédulo ao vê-la.
— Nada. Eu já estava de saída. — se apressou, nervosa.
— De saída? E que mala é essa? — analisou suas roupas e o acessório.
— Eu não te devo explicação nenhuma Daniel. Vai falar com a sua esposa que ela te conta. Adeus. — disse colocando a mão na maçaneta, mas ele a segurou forte pelo braço a levando.
— Você não vai sair assim, você precisa me explicar muito bem o que está fazendo aqui. Vem comigo.
— Espera, minha mala. — disse esticando o braço quase não alcançando o objeto, mas conseguiu antes de ser praticamente arrastada para o andar de baixo.
Em poucos segundos, estavam no porão, iluminado somente pelas luzes que entravam da pequena janela que ali havia.
— Tá bom, me larga! — Puxou o braço, soltando-se — Não encosta mais em mim assim, tá me ouvindo?! Quem você pensa que é?
— Para com esse show e me diz logo o que você veio fazer aqui.
— Quer mesmo saber? Acabar com isso de uma vez. — No rosto de Daniel, via-se preocupação — Eu vim aqui pra contar à sua esposa a sacanagem que você estava pensando em fazer com ela.
— Não. — riu nervoso — não, não, não.. você não fez isso — a encarou com um sorriso de canto de boca esperando uma confirmação que aquilo fosse mentira.
— Sim, eu fiz. — Daniel ficou sério, com feição de assustado — Mas não precisa se preocupar, porque ela não acreditou em mim. Pelo visto ela é daquelas que preferem ser enganadas. — viu o homem desfazer a pose tensa, soltando um sopro aliviado pela boca — nada disso importa. O que você precisa saber é que eu não quero mais nada com você. Eu cansei desse joguinho doentio. Eu estou indo embora daqui e espero não ver a sua cara nunca mais.
Um som alto ecoou no andar de cima, alguém tinha ligado o rádio, provavelmente Ângela tentando se distrair, mas os dois tentaram ignorar, focando a atenção totalmente no conteúdo daquela conversa.
— O que? Você não pode fazer isso comigo. Você não pode me deixar assim.
— Uma porra que eu não posso. Eu não te devo nada. Já tomei minha decisão e a resposta é não.
— Eu fiz planos pra nós dois.
— Eu não tô nem aí! Entende isso! — abriu as mãos, esticando-as para lados opostos da cabeça. — Eu não sei porque você se importa tanto, você mesmo disse que comigo ou sem mim você iria embora. Segue a sua vida.
— Eu menti, tá bom? Eu falei aquilo pra te botar pressão. Pra fazer você aceitar. Eu achei realmente que você iria.
— Achou errado. — Ele não falou mais. Ficou quieto. — Enfim, é isso. Agora eu realmente tenho que ir.
— Você não vai. Eu não posso deixar você ir, eu não posso. — murmurou.
Ela revirou os olhos ao ouvi-lo e foi rumo às escadas. De costas, não viu Daniel pegar uma chave de fenda em cima do freezer e avançar na sua direção.
O homem se aproximou antes dela chegar a porta e tentou segurá-la. Na primeira tentativa, ele puxou seu colar, que arrebentou na hora, caindo no vão da escada. Com o movimento repentino, ela se assustou, mas antes que pudesse pensar, lá estava ele de novo dando um jeito de segurá-la. Ele tampou sua boca e a puxou. Inutilmente, ela tentou se segurar em algum lugar, mas não alcançou o corrimão colado na parede.
Com o movimento brusco, a loira caiu sentada nos degraus em cima de um dos pés, o sentido estalar, com Daniel ainda abafando a sua boca. Usou os punhos para bater no homem, acertava sua cabeça e rosto, em completo pânico, mesmo assim, ele não a soltou. O coração dela estava quase atravessando o peito de tão disparado. Tudo piorou quando viu que em sua mão direita havia uma chave de fenda bem pontuda. Antes de pensar em qualquer coisa, ela sentiu o objeto atravessar sua garganta, rasgando sua carne sem piedade.
A dor e agonia do objeto a atravessando e a fazendo engasgar com o metal e o seu próprio sangue, era algo que nunca pensou que sentiria na vida. Daniel repetia o movimento de ataque várias e várias vezes.Para Ashley, a dor piorava a cada novo furo em sua pele, penetrando sua traqueia e a dilacerando.
As mãos da garota cessaram as agressões lentamente, começando a ficar moles e tremer em espasmos, junto do resto do corpo, fazendo suas tentativas de grito mudarem para sons de engasgo cada vez mais audíveis.
Ele a puxou novamente, a arrastando para próximo da escada. A chave de fenda ainda estava cravada em sua garganta. Ao puxar, um jato espesso de sangue se fez. Não entendia muito de anatomia, mas provavelmente uma artéria havia sido atingida.
Tentando evitar que o sangue se espalhasse mais pelo local, ele colocou a boca no pescoço da mulher que ainda tremia e golfava sangue. Bebia o líquido como se fosse água, ou melhor, um suco deliciosamente saboroso.
Aos poucos, ela parou de se mover. Não teve mais forças para lutar, sentindo os braços cada vez mais pesados. Aquela era a morte, ela sentiu, a sentiu chegando. A visão escurecida era uma forte denúncia que sua jornada acabava ali mesmo, a livrando da dor física e emocional, lhe abraçando com seu manto negro.
A garota estava imóvel, morta.
Daniel não se conteve em morder um pedaço do pescoço de Ashley. De início, precisou fazer força para cravar os dentes ali. Definitivamente, comer carne crua não era igual nos filmes.
Após conseguir, ele puxou vendo o pedaço se desprender em fios de tecido muscular e nervos. Mastigou e engoliu com muito prazer. Estava realmente com fome. Para ajudar a descer, ele engoliu mais sangue que ainda escorria. Fez isso variando os pontos de ataque para braços, peito e barriga. Continuou até sentir o estômago inflar, lhe conferindo a sensação de saciedade.
Após a refeição, ele encostou-se na parede, descansando a cabeça. Tecnicamente, aquela era sua segunda vítima. Estou certo? Acho que sim. Pelo menos, sabia que era a sua segunda vítima realmente importante e que ele havia diretamente causado a morte. De qualquer forma, a bagunça só aumentava.
De uma forma ou de outra, Ashley ficaria com ele para sempre, mesmo não sendo da maneira que queria.
Ele acabou de fazer uma coisa horrível com alguém que lhe despertou algo que não sentia há muito tempo. Como deveria se sentir? Triste? Abalado? Culpado? Quebrando todas as expectativas, ele estava feliz. Parece que nunca se sentiu tão vivo como agora, mais do que quando a conheceu. Aquele era ele, tinha certeza disso.
Uma felicidade genuína tomava conta de seu corpo naquele momento. Não se preocupou, mesmo sabendo que deveria dar um jeito no corpo. Ele já tinha em mente o que iria fazer. O freezer que Leroy guardava suas carnes seria o lugar ideal.
***
Ângela sentou à mesa com as filhas após preparar o café. As duas devoravam as panquecas com caldas. A mulher por sua vez não tocou na comida. De vez em quando dava umas goladas em seu café, mas fome mesmo não tinha.
Sua cabeça ainda fritava com o que Ashley havia lhe dito dias atrás, antes de ir embora. Tanto a conversa absurda sobre Daniel querer roubá-la, quanto o que ela disse sobre a morte de seu pai. O que será que eu não sei?
Quando chegou ao hospital naquele dia, ambos disseram que Leroy passou mal instantaneamente após chegar na funerária. Eles ficaram sem entender o que estava acontecendo, mas desesperados, principalmente com a demora da Ambulância, decidiram por eles, o levar de carro ao hospital mais próximo. No entanto, era tarde demais, já que o tempo não favoreceu a saúde de seu pai, falecido de um infarto fulminante. Aparentemente, tudo foi um acidente.
— Mãe? — sua primogênita chamou — não vai comer?
— Não querida, estou sem fome. Se quiser, pode pegar. Divide com sua irmã.
A caçula ficou feliz ao ver mais comida. Era pequena, mas comia demais. A mais velha pensou em perguntar o que a mãe tinha, mas não quis incomodar ou deixá-la ainda mais chateada. Não era boa nessas coisas. Decidiu comer.
Após se retirarem, a mulher resolveu lavar a louça, mas assim que começou, sua campainha tocou.
— Sr. Raymond! — sorriu ao abrir a porta e ver o homem. Esperava boas notícias. Felizmente, ele agiu sem rodeios.
— Aqui estão. — tirou do bolso e lhe entregou dois pequenos papéis dobrados — Os cheques da sua herança.
— Eu agradeço muito. Assim que o Daniel depositar e estiver tudo certo, eu peço para ele lhe dar o seu dinheiro, tudo bem? Se amanhã nesse mesmo horário você vier, podemos resolver isso. — o homem assentiu e saiu.
No andar de cima, ouvia-se o barulho de chuveiro ligado. Daniel estava tomando banho, ou era o que deveriam achar. Dentro do cômodo branco, a água caía no chão do box fechado, respingando no vidro que separava o chuveiro do resto do banheiro.
Encostado na parede, próximo a porta, estava Daniel com a boca colada em seu braço esquerdo. Em sua mão direita, ele usava uma faca pontuda com pequenas serras para fazer alguns furos em sua pele. Cada vez que escorria sangue do local, ele lambia e sugava, saciando-se. Olhava com admiração para o membro com várias marcas. Era como um quadro que se construía a cada corte.
Empunhando a faca mais uma vez, ele espetou a pele, puxando-a. Fazendo cada vez mais força para rompê-la, sentia a pressão do movimento e via a ponta da lâmina por debaixo do tecido, mas não havia dor. Era como se estivesse anestesiado. Isso deixava o momento muito melhor.
A lâmina rasga finalmente o couro, deixando um resultado maior do que o esperado. Além do sangue escorrendo, uma lasca de pele solta ficou à mostra. Pela abertura, observava a gordura que rapidamente foi coberta pelo líquido vermelho. Ele lambeu os lábios e não se conteve, mordendo a pelinha que se esticou em uma liga, até finalmente soltar-se.
Após engolir, ele levantou os braços e os inclinou na direção das costas a fim de tirar alguma lasca de pele dali também, mas antes que conseguisse completar o serviço, batidas na porta o assustaram, fazendo o homem parar.
— Daniel?— a esposa o chamou esperando sua resposta.
Tratou rapidamente de levantar. Ele arrastou a porta do box, entrou, desligou o chuveiro e respondeu:
— O que foi? — A voz ecoou por ali.
— O advogado trouxe os cheques. Eu preciso que você vá depositar.
— Tudo bem, deixa só eu terminar o meu banho, ok? — ela concordou do lado de fora e ele se apressou a tomar um banho de verdade.
Ligou o chuveiro e fixou seu olhar no chão, vendo o sangue misturar-se com a água e escorrer pelo ralo.
Na sala, Daniel usava uma calça e um moletom preto de mangas compridas, como forma de esconder seus machucados. Por debaixo dos panos, havia vários outros enrolados sobre a pele, evitando sangramentos.
— Estou pronto, onde estão?
— Aqui — Ângela enxuga as mãos em uma toalha próxima a pia e abre uma gaveta, conferindo as folhas antes de entregá-lo. A mulher parecia tranquila por fora, no entanto, internamente não estava certa sobre aquilo. Será mesmo que fazia o correto entregando esses cheques a ele? O quanto Daniel era confiável e quando deixou de ser? Por milésimos de segundos esses pensamentos rondavam a cabeça de Ângela, principalmente por conta da atitude grosseira dele no dia em que ela soube que receberia as coisas do pai.
Naquela noite, ele saiu e quando chegou, disse estar arrependido das coisas que disse e ela o desculpou, como sempre faz. Ao indagá-lo sobre onde ele esteve, sua resposta foi que precisou sair para beber um pouco, pois era assim que resolvia os problemas. Ela engoliu, visto que conhecia seu histórico. Além disso, ele cheirava a álcool, mas ela ainda desconfiava. Como chegou tarde, ele teria tempo de ter ido visitar Ashley antes de ir a um bar beber? Isso sim, mas acreditar naquilo, era demais.
Ao entregar o cheque, foi possível ver uma marca de corte escondida embaixo da manga do homem que, com o movimento, fez o tecido arrastar. Ângela reparou no mesmo segundo.
— O que é isso? Você está machucado? — indagou puxando seu braço, tentando abaixar a manga para ver melhor, mas antes que pudesse, ele segurou o tecido, a impedindo de olhar. Em seguida, tirou o braço numa velocidade alta, aparentemente desconfortável.
— Não é nada. — ajeitou a peça de roupa — eu tenho que ir agora. — Apressou-se e bateu a porta ignorando os vários chamados da esposa.
Ela viu mais de uma marca. O que aconteceu para ele estar desse jeito? Questionou-se.
Aproximou-se da janela, afastando a cortina, vendo o carro de Daniel partir. Era a hora de averiguar o que Ashley disse. Não aguentava mais sentir que havia algo errado e não saber do que se tratava. Se tinha alguma coisa para ela saber, agora seria a hora.
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