Insanidade

4 Pequenos bichinhos


Notas iniciais
Finalmente chegamos a última parte da minha introdução.

— É somente isso que deseja colocar no testamento Sr.Smith?


— Somente.


— Ok. Tudo certo por aqui. Quando tudo estiver ok eu te dou o retorno, tudo bem? — Leroy concordou com a cabeça.


O mais velho abriu a porta do escritório e verificou se o corredor estava vazio.


— Pode sair — disse a Raymond, seu advogado, que carrega uma maleta preta consigo.


Leroy acompanha o rapaz até a porta e a tranca. Se dirige até a porta dos fundos e senta em sua cadeira de balanço, acendendo um cigarro e tragando com gosto, olhando para cima e pensando em tudo. Está uma madrugada fria.


— Aguenta mais um pouco aí meu velho — disse dando batidinhas no lado esquerdo do peito. — Olha para o céu estrelado. Ele sopra o ar branco do cigarro enquanto sente a forte ventania da noite. O barulho das árvores se mexendo é agradável, assim como o frio que o atinge e carrega a fumaça para longe dali. O homem fecha os olhos e aproveita a energia calma do momento.


De repente, um barulho lhe tira o sossego. Parece vir de dentro da casa. Imediatamente, ele desgruda as costas da cadeira e joga a bituca de cigarro no chão, a apagando após se levantar e pisar em cima.


Empurra a porta dos fundos lentamente. Na medida que anda pelo corredor e se aproxima da cozinha, o barulho aumenta. O homem vai cauteloso com passos curtos e sem som.


Há alguém na cozinha. Deduz pelo barulho que era constante, mas baixo, como se alguém estivesse mexendo em várias coisas.


— Querida? É você? — pergunta esperando receber uma resposta de Ângela, o que não acontece.


A luz continua desligada, o fazendo pensar não se tratar da filha. Pode ser uma das netas, mas nunca se sabe. Ele então pega a vassoura que há ali no corredor e segura como se fosse uma lança.


Ele empurra a porta com o cabo e vê a luz da geladeira iluminando algo sentado ao chão. Ele percebe a presença de alguém ali pelas sombras se movendo. Porém, sua visão era tapada pela porta do objeto, aberto.


— Olha, eu to armado. — disse temeroso — não sei quem é você, mas quero que se retire agora mesmo. — A essa altura, ele já pensa ser algum intruso, descartando a filha novamente andando pela casa. Não verificou as janelas, mas na pior das hipóteses algum morador de rua invadiu sua residência à procura de comida.


Leroy chega mais perto e puxa a porta, se surpreendendo com o que vê. “Oh meu deus!” disse ao ver uma das cenas mais bizarras que já viu na vida.


Bem à frente, sentado, está Daniel segurando um pedaço de carne crua e comendo com saciedade. Nesse estado, ele se assemelha mais a um animal do que a uma pessoa. Leroy fica alguns segundos estático até ter uma reação.


— O que está fazendo? Levante-se daí! — O homem fala com a voz tremida se aproximando mais. Ao encostar a mão em seu ombro, Daniel vira a cabeça rapidamente na direção dele, fazendo o mais velho remover o braço o mais rápido que pôde, assustado. Por um breve momento, Leroy achou que estivesse vendo coisas ao encarar os olhos brilhantes e esverdeados de Daniel, que parecia rosnar para ele. Seu olhar era furioso, como um animal prestes a atacar, entretanto, na medida que seus olhos voltaram à cor normal, sua sanidade pareceu ter retornado junto.


Ele agora mantém uma expressão de confuso ao ver o rosto assustado do sogro que segura uma vassoura. Ao olhar para a mão, vê um pedaço pequeno de carne. Ele já sente o gosto estranho na boca, então passa as costas da mão para limpar o que sente escorrer dos lábios.


— O que houve? — pergunta com a voz fraca e olhar caído, como quem acaba de acordar.


— O que você tá fazendo aí? — após receber um silêncio confuso do genro, ele insiste — responde rapaz, o que faz aí?!


— Eu.. Eu não sei — Daniel levanta. É possível ver sangue nas mãos e boca do jovem, que anda rápido de volta para o quarto com a cabeça baixa.


Leroy fica estático vendo a cena e não sabe o que fazer. Decide então limpar a bagunça feita por Daniel, ao mesmo tempo que a lembrança macabra habita sua cabeça. Após isso, o mais velho pega suas carnes e trata de escondê-las no freezer do porão, assim o outro não poderia pegar. Ele finalmente entende o motivo de seu precioso bife desaparecer durante a noite. Havia sido o genro o responsável esse tempo todo.


***


Segurando duas sacolas cheias de compras, Ângela anda de volta para casa. Saiu de manhã cedo para comprar algumas coisas.


De longe, avista a casa do pai, porém um detalhe curioso chama sua atenção. Bem em frente, do outro lado da rua, há um pequeno grupo de pessoas em círculo observando algo. Se aproxima e pergunta a uma pessoa do montinho, o que aconteceu. Descobre então que o cachorro querido da Sra. Clark foi atacado, após se meter em alguma briga provavelmente.


Dentre vários sons que Ângela ouve, há burburinhos e choro. Tentando ver mais, Ângela estica a cabeça e vê a senhora ajoelhada próxima ao corpo do cão que tem uma imagem aterrorizante. Seus olhos estão abertos, em uma das patas é possível ver o que parecia um osso, e no restante do corpo há repetidas falhas em seu pelo, como se estivesse faltando alguns pedaços do animal. Completando tudo da pior forma, ele tem sua barriga aberta no qual se via alguns órgãos escapando, enquanto moscas rondavam o local.


Naquela altura, Ângela já se arrepende de ter cedido a curiosidade. A imagem irá demorar um tempo para sair de sua cabeça. No entanto, sua maior preocupação é em sua dona que continua aos prantos enquanto repete frases como “meu companheirinho”, “quem faria isso com ele?", "Ele sempre foi tão dócil”. Algumas pessoas tentam convencê-la ter sido algum cachorro de rua que fez aquilo, mas devido seu estado, até quem disse custava a acreditar. Parece obra de um animal muito maior, ou pior, de alguém.


Ângela se retira antes que ficasse definitivamente mal com a situação. Se a imagem já é pesada para ela que não convivia com o animal, imagine para a dona.


Entra em casa e vai direto para a cozinha. Lá, o pai sentado à mesa lê um jornal e toma uma xícara de café. Ela trata de arrumar as compras no armário enquanto fala com ele.


— Oi pai. Já acordou? Eu fui ao mercado comprar o que combinamos, mas eu vou já preparar o seu bife, tá bom? — olha para o pai que mantém uma expressão séria — o que foi? Está tudo bem? — ela pensa um pouco e completa — Imagino que você já soube o que houve com o cachorro da vizinha. — ele a olha confuso — eu passei agora aqui pela frente e ela tava lá super mal. Alguma coisa atacou ele. Tem várias pessoas lá fora.


— Nossa. — responde o mais velho — eu tô sabendo agora por você.


Levanta e olha pela janela, vendo ao longe o corpo ser recolhido por um morador que o coloca em um saco plástico preto e leva para os fundos da casa. A mulher se levanta do chão acompanhada. A maioria dos curiosos volta às suas casas, enquanto uns 3 a seguem.


— Ele era um bom cachorro. Eu lembro quando ele era filhotinho. Ela o amava muito. — volta à mesa e lembra do que estava pensando. — mas não é sobre isso que eu quero falar no momento, tem uma coisa mais importante agora — a filha atenta, o olha, curiosa com o que vinha — é sobre o Daniel.


— O que tem ele? Não vai me dizer que ainda é por aquele dia que ele saiu à noite? — bufa — pai, olha…


— Não, não. — Ele a interrompe — Ontem à noite eu vim até a cozinha e vi ele… — demora alguns segundos para concluir enquanto a expressão de confusão dela só aumenta — com um comportamento muito estranho. Quando eu chamei, ele pareceu nem lembrar do que tinha acontecido. Como se nem estivesse ali. Eu acho que tem alguma coisa errada com ele, Ângela.


Ela muda a expressão de confusa e preocupada para aliviada e dá uma pequena risada.


— Que susto pai, eu achei que tinha acontecido algo grave.


— E isso não é grave? — agora quem está com cara de preocupado é ele.


Ângela bate os dedos na coxa pensando na melhor forma de falar.


— Pai, o Daniel é sonâmbulo. — Vê o progenitor arquear as sobrancelhas como sinal de quem entendeu. — esse tipo de situação de ele andar por aí não é tão incomum assim, ocorre mais em períodos de estresse ou falta de sono. Ele acabou de perder o emprego, está muito preocupado. Deve ser isso. Foi isso que o senhor viu. A partir de hoje eu vou tentar tomar mais cuidado pra evitar que ele ande por aí à noite, tá bom?


— Ah...Tudo bem. — disse ainda digerindo a informação — Mas de qualquer forma, fica de olho nele. O que eu vi parecia bem mais anormal do que isso.


Leroy tomou em um só gole o resto de seu café e saiu de casa. Ângela não se preocupou muito para onde o pai foi. O que lhe deixou pensativa foi o que ele disse sobre Daniel. Anormal?


***


— Obrigado por ter vindo Leroy. Não se preocupe, eu to bem.


— Espero mesmo que esteja. Aliás, belo chá — falou após uma golada quente. Os dois estão sentados na bancada de mármore da cozinha da mulher, após ela servir para os dois um chá de ervas da sua horta.


— Pra você eu sempre faço o melhor. — Sra. Clark aperta forte a mão do homem que sorri sem jeito. — Obrigada, de verdade. Você sempre é muito gentil comigo. — O encara.


— Deixa disso. É só uma gentileza — dá uma leve risada tratando logo de mudar de assunto — você já tem ideia do que fez isso com ele?


A expressão da mulher novamente foi melancólica.


— Ainda não. — Respira fundo, largando a mão dele e desviando seu olhar. — Mas eu vou acessar as câmeras hoje à noite. Vou criar coragem e ver o que aconteceu.


Leroy franze o cenho ao ouvir aquilo. Do nada a imagem ensanguentada de Daniel surge na sua cabeça.


— Depois você me conta então — pede após piscar algumas vezes tentando esquecer o que acaba de pensar. Ela concorda


— Mas me fala, e sua filha, como ela está? — diz Sra. Clark mudando de assunto e buscando sua xícara.


***


No dia seguinte, as coisas estão tranquilas. Angela cozinha, as meninas brincam no quintal e Daniel está prestes a sair para o trabalho.


No andar de cima está ele, segurando firmemente, com dedos sujos de sangue, a bancada branca da pia do banheiro. Encara o reflexo brutal no espelho. Os olhos negros estão vermelhos e arregalados pela confusão. A boca cheia de sangue não é a pior coisa da imagem, perdendo para a camisa social branca marcada com uma enorme mancha. Daniel só consegue encarar a si mesmo e pensar quem estava vendo. Se era realmente ele ou uma forma estranha cheia de desejos e surtos incontroláveis?


Sem obter resposta, ele liga a torneira e ensaboa as mãos e o rosto, tentando desesperadamente retirar o líquido grudento de si.


Estica a mão, agarra uma toalha e seca o rosto, respirando fundo.


Daniel, perplexo, olha uma última vez para o corpo morto do coelho dilacerado boiando e puxa a descarga. Lentamente, ele o vê girar até sumir cano abaixo.

Notas finais
Bem vindos ao fim do 1° ato. Até a próxima!