Insanidade
5 A noite do caos
Notas iniciais
Ângela arruma as flores vermelhas no jarro da mesa onde estão dois pratos bem enfeitados, mas sem comida nenhuma, já que o jantar estava guardado em algumas panelas na bancada. Ângela cozinhou naquela noite
para ajudar seu pai na grande surpresa para Ashley. Por fim, essa foi a grande ideia, um jantar romântico.
A filha espalhou pétalas de rosa na cama do pai e comprou também uma garrafa de vinho para acompanhar. Esperava muito que Leroy tivesse uma noite inesquecível e que conquistasse sua jovem pretendente de uma vez por todas. Apesar de não ter simpatizado muito com a garota, estava fazendo aquilo pela felicidade do pai. Ela lhe devia isso. Era o mínimo depois de sua negligência e por passar tanto tempo longe. Claro que um jantar não apagaria o passado, mas já era um primeiro passo. Além disso, aquela noite também seria especial para ela, visto que o pai que acabou de sair para buscar Ashley no trabalho, avisaria Daniel da surpresa para que o marido fosse até em casa levar a esposa para um jantar já reservado em um restaurante no centro da cidade. Naquela noite, tudo daria certo. Vai ser perfeito!
— Ok, por aqui tudo pronto. — disse Ângela indo a escada gritar pelas filhas — Meninas, desçam! Já vamos sair!
As meninas em poucos instantes descem já arrumadas e com uma bolsa contendo pijamas e escovas de dentes.
Ângela nota que a caçula parece triste com alguma coisa.
— O que foi, querida? — ajoelha para ficar na altura da menina.
— O Elvis, mamãe. Eu não to achando ele. — diz fazendo biquinho.
"O Coelhinho" A adulta soube na hora do que se tratava.
— Será que você não deixou a gaiola aberta? Ele deve ter fugido.
— Mas eu lembro que eu fechei. Eu juro.
— Tudo bem meu amor. Amanhã procuramos, ok? Agora a mamãe tem que levar vocês, vamos logo. — A pequenina concorda ainda triste.
Ângela tocou a campainha e em poucos minutos a Sra. Clark aparece na porta.
— Oi meninas, podem entrar. Tem biscoitos na cozinha. Fiquem à vontade — disse vendo as duas passarem rápido por ela.
— Obrigado por fazer esse favor pra mim, viu? Amanhã cedo eu venho buscá-las. — A mulher fala já se retirando, mas é chamada.
— Espera só um minuto. — vendo que tem atenção de Ângela, continua. — Eu preciso falar com você. Será que pode entrar só um pouco? Tome um chá comigo.
— Senhora Clark, eu bem que queria, mas o Daniel vai chegar daqui a pouco.
— Não vai demorar. Uma xícara de chá não leva nem 5 minutos — a olha sorrindo. Um sorriso apagado e diferente, que poderia ser pela morte do pet, mas faz Ângela pensar por alguns segundos o que deve ser tão importante para ser conversado naquele momento. Ela então aceita o convite.
Na estrada, Leroy já se encontra na metade do caminho. O rádio toca uma música agitada que deixa o clima ainda mais animado. Olha rapidamente o banco do passageiro, vendo o buquê de rosas vermelhas que comprou para a mulher que estava fazendo novamente o seu coração palpitar. Uma palpitação que não sentia desde quando a mulher era viva, antes de perdê-la para o câncer. Balança a cabeça tentando não pensar no que já foi, e sim no que está por vir. Espera que de onde estivesse, Martha o observe feliz.
Enquanto isso, na funerária, Richard pega seu casaco no cabideiro do Escritório e caminha em direção a saída. Ashley observa de longe o homem entrar no carro prata e ir embora. Como quase todos os dias, ele saiu e deixou Daniel e Ashley para organizar e fechar o local.
Ashley vai até a porta de vidro e a tranca, logo em seguida vira a placa do outro lado. Assim, quem estivesse fora, veria os dizeres “fechado” logo na entrada.
Caminha até Daniel perto da escada e lhe dá um beijo intenso e molhado, enquanto entrelaça os braços no seu pescoço. O homem a segura pela sua cintura, retribuindo.
Ela cessa o beijo e pega Daniel pela mão, levando-o ao andar de cima. Chegando, quer saber onde Daniel prefere dessa vez: o armário de limpeza, em cima da mesa do escritório, ou no banheiro. No entanto, Daniel a surpreende com a resposta: a sala do legista.
Relutante, ela vai. Achou assustador a ideia no momento em que ouviu. No entanto, ela não era hipócrita, pois o próprio fato de ali ser uma funerária, por si só já era bizarro, mas fazer sexo nessa sala, era subir de modo assustador o nível das coisas.
Entraram. Daniel liga a luz, iluminando a mesa de metal bem no centro, onde normalmente os corpos eram colocados. Atrás dela, há um grande compartimento de metal com várias gavetas grandes, no qual ela sabia que estavam outros corpos que faltavam serem preparados.
— Daniel, eu não tenho certeza disso... — diz com uma cara de desânimo sentindo o frio e o clima macabro da sala.
— Deixa disso. Eu sei que você vai gostar — fala tentando convencê-la.
Antes de receber qualquer resposta, ele a beija de novo continuando o trabalho, mas ela mantém os olhos abertos, desconfortável. No entanto, resolve tentar.
A jovem fecha os olhos, aproveitando o beijo que ele dá com tanta vontade. Ashley começa a desabotoar sua camisa sem cessar o beijo. Ela então a tira e desgruda seus lábios dos dele um breve momento para admirar seu abdômen definido. A pele negra reflete um pouco a luz do ambiente, o que a faz achá-lo ainda mais perfeito, a excitando intensamente.
Ela começa a beijar a barriga dele que se arrepia com a sua boca, descendo lentamente. Chegando na altura do seu membro, dá uma leve mordiscada por cima da roupa, que provoca uma reação de susto nele, que foi levada com humor pelos dois que riram da situação. Daniel a pega nos braços e a senta na mesa. Ele puxa a camisa dela que levanta os braços, ficando apenas de sutiã. Rapidamente, ele tira a peça e joga longe. Ele então a beija e a faz descansar as costas naquela mesa gelada que lhe causa arrepios da cabeça aos pés, mas sem lhe tirar a chama que a consome na hora. Sente de olhos fechados a boca de Daniel indo de seu pescoço, passando delicadamente pelos seios e indo até um pouco abaixo do umbigo. Ele abre o zíper e puxa a calça jeans da mulher, com calcinha e tudo. Em seguida, despiu-se e foi para cima dela.
Longe de toda a cena erótica e ao mesmo tempo mórbida, Ângela toma um gole do chá de erva doce que acaba de adoçar. Pega um biscoito de chocolate com gotas no centro da mesinha e dá uma mordida.
— Uma delícia esses biscoitos, Sra. Clark — disse tentando evitar que caíssem farelos de sua boca — o chá está ótimo. — Sorri.
— Que bom que gostou minha querida — a mais velha sorri também.
— Mas então, Daniel pode chegar a qualquer momento — engole e tenta apressar a conversa — sem querer parecer grossa, Sra. Clark, mas o que queria falar comigo? Estou com um pouco de pressa…
— Oh! Tudo bem. — A mulher desconfortável abaixa a cabeça e a coça por um momento pensando em como falar. Até ali, ela evitava encarar Ângela. Entretanto, ao olhar de volta em seus olhos, soube que tinha que falar de qualquer forma. — É sobre o bob.
— O cachorro? — Ângela franze a testa sem entender. — Não entendo. Por que você quer conversar sobre ele, especialmente comigo?
— Desde que ele morreu, eu fiquei extremamente abalada. Bob estava comigo há muitos anos. Eu fiquei muito mal, sem saber o que fazer. O enterrei e tentei me manter bem até então. Mas eu tive a ideia de ver o que aconteceu. Eu fiquei receosa em como isso poderia me abalar no início, visto o estado que ele ficou, muito machucado. Os vizinhos disseram que poderia ter sido briga com outro cachorro da vizinhança, mas nada me tirou da cabeça que aquilo parecia ter sido feito por alguém. — Ângela ouve atenta, achando cada vez mais estranho o rumo daquela conversa. — Finalmente eu olhei as câmeras. E eu vi o que realmente aconteceu.
— E então? O que você viu?
— Eu não sei se consigo dizer. Você provavelmente vai achar que eu estou vendo coisas. Por isso eu quero que você veja com seus próprios olhos. Para não lhe restar nenhuma dúvida.
Enquanto Ângela é apresentada às filmagens pela Sra. Clark, Leroy chega ao seu destino, bate a porta do carro e caminha até a entrada da funerária. Lê a placa de fechado, empurra a porta e percebe que está trancada. Olha para dentro, mas não vê ninguém. Até dá algumas batidinhas, mas deduz que ninguém o ouviu. Ele sabe que há sim pessoas no local, até porque o carro de Daniel segue estacionado ali. O homem então toma a decisão mais sábia, abrir com a própria chave.
Chama por alguém no local, ao entrar, mas não recebe resposta. Continua andando com o buquê na mão. No andar de baixo não há nenhum barulho e as luzes de algumas salas que poderiam estar os dois, já se encontram apagadas. Ele resolve subir, mantendo os ouvidos atentos.
Chegando ao andar de cima, ele começa a escutar algumas coisas que o deixam temeroso. Ouve o que parecem ser risadas, que vem do final do corredor. A cada passo que dá, elas ficam mais altas. Ele passa pelo longo corredor estreito, notando que a maioria das portas já estavam trancadas e com as luzes apagadas. Exceto uma, a qual via acesa pela fresta no chão.
O barulho fica mais nítido conforme se aproxima da porta de ferro. Teme cada vez mais o que ouve. Sem acreditar, encosta o ouvido na porta e ouve gemidos e respirações ofegantes. Ele já sabia muito bem o que estava acontecendo ali, não era idiota, mas com quem? Não podia ser com ela. Não, não, não…
Leroy então ouve a frase que o quebra por inteiro:
"Isso Daniel...ah..continua…"
O homem cerra os dentes, tendo uma expressão de ódio somada aos olhos já vermelhos, ele empurra com brutalidade a porta que se choca contra a parede, originando um forte som que assustou os desprevenidos.
Leroy viu que não estava louco. Milésimos de segundos antes que o barulho tirasse a concentração dos dois, ele viu rapidamente o que se passava na sala: Ashley deitada de peito pra cima, enquanto Daniel a satisfazia com um sexo oral. Deitada, completamente nua na mesa de ferro, como se fosse uma vadia.
Ela treme de susto com o baque, antes da expressão incrédula após descer da mesa e ver Leroy. Daniel não reagiu diferente, um susto seguido de um olhar de medo. Ashley fica estática no canto com as costas coladas na parede. Encara os olhos furiosos de Leroy enquanto tenta cobrir os seios e as partes de baixo com as mãos.
Daniel, no impulso, pegou a calça no chão e tapou sua nudez, não sabendo o que fazer.
Leroy solta as flores que vão ao chão. Uma lágrima escorre de seus olhos vermelhos completamente tomados pelo ódio e decepção.
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