Notas iniciais
Chegamos ao penúltimo capítulo do Inquérito. Esse aqui está cheio de revelações contraditórias: leia e descubra...

"Investigador: A senhorita insistiu em dar depoimento, não é? Espero que seja importante.

Valentina: Garanto que sim. Bom, é sobre o dr. Olavo, então acho que o senhor vai querer ouvir.

Investigador: Tudo bem, diga.

Valentina: É que... na noite em que ele morreu, eu estava dormindo na casa da minha tia que, não sei se por sorte, fica na frente da casa dos Albertoni. Devia ser meia noite e tantas já quando eu vi uma garota entrando na garagem.

Investigador: Que garota?

Valentina: Na hora eu não reconheci, mas eu me lembrei um tempo depois. Era a Isabele, amiga da Verônica.

Investigador: E o que ela estava fazendo lá?

Valentina: Antes que o senhor tire suas conclusões, ela não estava matando ninguém. A porta da garagem ficou meio aberta e eu vi a Isabele e o dr. Olavo... juntos, poupando os detalhes.

Investigador: Juntos?

Valentina: É, algo um pouco menos caliente do que a esposa dele com o diretor.

Investigador: A senhorita está insinuando um caso entre os dois?

Valentina: Eu não insinuo, só digo o que eu vejo. Era só isso, com licença.

Investigador: Só um minutinho. Por acaso, você sabe alguma coisa sobre o tal Espantalho Jack, que publicou os vídeos na internet?

Valentina: Nada esclarecedor. Por quê? Vocês vão fazer alguma coisa?

Investigador: Ainda não. Por enquanto, ele está sendo útil."

Isabele permanecia no banheiro, se afogando em lágrimas enquanto pensava na descoberta da polícia, proporcionada pelas palavras de Valentina e, posteriormente, pela prova física. Em seu depoimento nada convincente, Isabele não conseguira dizer nada que provasse em definitivo sua inocência. Mesmo chorando, jurando centenas de vezes que não havia feito nada de errado e, em estado emergencial, tentado jogar a culpa para outra pessoa, seus esforços foram em vão.

O caso já havia sido espalhado pela escola inteira. O NeüerEspantalho, antigo poço de fofocas inconvenientes, agora mais parecia um portal de jornalismo 24h especializado em crimes intra-colegiais e relacionados. Os investigadores, após muito pensar, decidiram não cortar a festa do Espantalho. Se, por um lado, ele estava mexendo com o trabalho da polícia, por outro estava sendo útil ao dar informações novas e significativas, até certo ponto.

Depois de um intervalo de vinte minutos para Isabele se recompor, a garota novamente foi chamada na diretoria do colégio, para tentar continuar seu depoimento coerentemente. Os profissionais, não suportando mais o choro descontrolado de Isabele, esperavam finalmente ouvir esclarecimentos sobre tudo o que fora descoberto.

"Investigador: Pode continuar seu depoimento agora. Você esteve na casa dos Albertoni na madrugada do crime?

Isabele: Sim.

Investigador: E o que você foi fazer lá?

Isabele: Eu... eu recebi uma mensagem do Olavo pedindo para eu me encontrar com ele lá. Ele estava estressado e...

Investigador: ...e chamou a ninfeta para dar uma aliviada.

Isabele: Eu não sei o que o senhor está pensando, mas eu não matei ninguém. Eu juro.

Investigador: Quem faz as deduções aqui sou eu. Agora me diga, como era a relação de vocês?

Isabele: Se eu disser que gostava dele, vai dizer que eu estou mentindo.

Investigador: Já disse, não tente fazer o meu trabalho.

Isabele: Eu sei que ele também tinha sentimentos por mim. Quer dizer, eu achava.

Investigador: Estava errada?

Isabele: Ele só gostava dele mesmo. Na noite em que eu fui lá, ele me disse que ele e a 'esposa dele' iam entrar em um negócio milionário, em alguns anos. Ele tinha me garantido que eles iam se separar, ele disse que ia me assumir. Eu fui tão estúpida em acreditar. A única coisa fora do espelho que ele ama é o dinheiro.

Investigador: E como você se sentiu depois disso?

Isabele: Eu senti raiva. Ódio. A Ingrid estava certa, eu não senti a morte dele. Mas alguém sentiu?"

Isabele saiu de dentro da sala de interrogatórios, que já possuia uma função parecida quando era ocupada pelo diretor, e a primeira pessoa com quem se deparou foi com Lavínea, sua mãe. A mulher, morena, jovem e muito bonita, tirou seus óculos escuros e encarou a filha, com certa indiferença.

– Fazia parte daquele seu caderninho de projetos para a vida se tornar uma vagabunda e jogar o nome da sua família na lama?

– Eu... eu sinto tanto. — Isabele se redimiu, voltando a chorar.

– É para sentir, mesmo. Eu vou falar com o tal policial, para tentar manter essa história aqui dentro. Espero não ter mais nenhuma surpresa.

– Só isso?

– Sim. Você me envergonhou o suficiente, não acha? Não quero mais ter que perder o meu tempo com essa história. E nem com você. Eu vou conversar com o policial e o diretor, o resto fica por sua conta e risco.

Lavínea passou por Isabele e entrou na diretoria, sem gastar nenhum milésimo de segundo olhando para trás. A adolescente, se sentindo cada vez mais inferior, voltou ao seus prantos inconsoláveis. A irmã mais nova de sua amiga, ao passar pelo corredor, a lançou uma encarada rancorosa, mas não interagiu. Aquela parecia a perfeita realização do fundo do poço.

Breno, que havia acabado de chegar com um inédito atraso de um período, viu a amiga encolhida, escorada em uma parede do corredor com as mãos no rosto. Ele, ciente de toda a história, foi até lá para falar com a garota e tentar consolá-la.

– Isa. — ele iniciou, se aproximando e atraindo o olhar dela. — Eu soube o que aconteceu.

– Deixa eu adivinhar: o sr. Certinho veio aqui me dizer que o que eu fiz foi detestável. Eu já ouvi isso, milhões de vezes.

– Não. Acho que nem se eu pensasse isso, diria. Não é da minha conta. Mas eu ainda sou seu amigo, esqueceu?

– O que você quer?

– Se não for inconveniente, te dar um abraço, talvez. Eu posso?

Isabele, totalmente fragilizada, o encarou por alguns instantes e se jogou em seus braços, afogando as lágrimas no peito de Breno. Ele a abraçou e beijou o topo de sua cabeça, a aconchegando em seu corpo.

– Vai ficar tudo bem.

...

Em casa, Branca permanecia fixada no telefone da sala, conversando com um dos policiais designados ao caso de seu marido. O estresse da mulher era evidente, já que, enquanto não fosse desvendado o mistério da morte de Olavo, nenhum bem voltaria para seu nome. Ela sabia que, na realidade, essa era uma maneira indireta de dizer que ainda suspeitavam do seu envolvimento no crime. Mas com uma nova evidência, talvez essa situação pudesse mudar. Ou não.

– A senhora tem certeza de que ele estava com a carteira? Talvez ele tenha deixado no carro ou dentro de casa, afinal ninguém carrega a carteira para ir na garagem de casa de madrugada.

– Do mesmo jeito que ninguém veste roupa formal e leva a chave do carro para se encontrar com uma amante mirim na garagem de casa. Eu já lhe expliquei centenas de vezes, ele tinha uma reunião.

– Então você está sugerindo um latrocínio? Sra. Albertoni, você acha que um ladrão esfaquearia alguém com tamanha brutalidade por causa de uma carteira.

– Eu conheço meu marido. A vida dele ficava dentro da carteira e do celular. Ele carregava dinheiro, os cartões, conta bancária, endereços de possíveis investidores. Ele pode ter reagido.

– Tem certeza de que ele morreu em um assalto?

– A possibilidade não é tão distante.

– E por que o ladrão não levou o celular dele? Daria um bom dinheiro.

– Investigador, por favor. Não espere que eu saiba como funciona a mente de um marginal.

– Tudo bem. De qualquer forma, nós vamos averiguar melhor essa hipótese. Sua filha, Luana, está na escola?

– Sim. Por quê?

– Nós precisamos fazer umas perguntas para ela. Tenha um bom dia, sra. Albertoni.

Branca desligou, frustrada com a curta conversa que tivera ao telefone.

Sua esperança, após tanto defender sua teoria, era que a investigação parasse antes de atingir suas filhas. A partir da conversa que o investigador, anunciadamente, teria com Luana, essa possibilidade ficava mais remota.

Olhando vagamente para a parede de vidro da sala, Branca se dirigiu até a cozinha e pegou de dentro do armário uma bacia de alumínio e uma garrafa de álcool etílico. Respirando fundo, sua próxima ação foi ir até o balcão e abrir a gaveta de facas, onde os utensílios eram organizadamente armazenados. Sem perder tempo, ela ergueu o estojo de lâminas e pegou ali de dentro a carteira de seu marido, que, naturalmente, não havia sido roubada.

Branca colocou a carteira de Olavo dentro da bacia e espalhou o álcool por cima, acendendo um palito de fósforo e lançando-o à mistura. Era assim que ela acreditava que ajudaria as filhas.

Branca estava errada.

...

"Investigador: Acho que a senhorita se recorda de que nós temos uma conversa pendente, sim?

Luana: Vocês tiraram a câmera do Espantalho da sala?

Investigador: Não precisa se preocupar, o tal Espantalho Jack não vai nos assistir desta vez. Agora, pode começar. Por que você agrediu seu padrasto na noite da morte dele?

Luana: Eu já tinha ido deitar quando eu ouvi um barulho esquisito no quarto da Verônica. Quando eu fui lá ver o que era, vi ela guardando um monte de coisas em uma mochila. Ela me disse que iria fugir com o Renan, me fez jurar que não contaria nada a ninguém.

Investigador: E o que você fez?

Luana: Ajudei ela a arrumar as coisas e desejei boa sorte.

Investigador: Ou seja, encobriu a fuga da sua irmã com o namorado. Então eu vou aproveitar a brecha para fazer uma pergunta bem objetiva: para onde ela foi?

Luana: Eu não sei, não quis saber. Mentir para a polícia é crime, mas eu nunca trairia minha irmã. Se eu tivesse perguntado ela me diria, mas eu pedi para ela não dizer.

Investigador: Ok. E você manteve algum contato com ela após a fuga?

Luana: Ela e o Renan deixaram os celulares, pra ninguém rastrear.

Investigador: Não foi isso o que eu perguntei.

Luana: Não, nós não nos falamos.

Investigador: Mas ela deixou algum recado, como, por exemplo, quando voltaria?

Luana: Não imagino como ela poderia fazer isso. Se ela tivesse que me dizer qualquer coisa, faria naquela hora. E, como eu já te expliquei, eu não quis saber.

Investigador: Tudo bem. Continue a história.

Luana: Quando ela estava saindo, eu vi o marido da minha mãe indo atrás dela e segui eles. Eu vi ele puxando ela, dizendo que ela não ia a lugar nenhum. Ele machucou ela, por isso a unha dele ficou com aquilo. Quando ela conseguiu derrubar ele, na garagem, ela saiu correndo. Eu fiquei escondida atrás da porta da escadaria, ouvindo ele gritar. Eu precisava fazer alguma coisa.

Investigador: E então teve a grande ideia de tentar matar ele.

Luana: Quando ele se levantou, eu fui até atrás dele sem ele ver e peguei uma garrafa de cerveja que estava jogada no chão. Eu estava nervosa, não pensei direito antes de quebrar ela na cabeça dele.

Investigador: Ele desmaiou com a pancada?

Luana: Sim. Na hora, quando eu vi ele desacordado, eu achei que tivesse matado ele realmente. Fiquei pensando isso até a hora em que me disseram que ele tinha sido esfaqueado. Eu não vou mentir, eu queria que ele morresse. Mas eu nunca iria querer matar. Eu juro que tudo o que eu disse foi a verdade.

Investigador: Ninguém está dizendo o contrário. Por acaso, você sabe se sua irmã ou o namorado dela voltou à sua casa depois do seu incidente?

Luana: Você realmente acha que a Verônica matou ele? Isso é loucura! Ela é a pessoa mais doce e ponderosa que eu conheço, ela nunca faria uma coisa dessas. Ela queria distância dele. Só isso.

Investigador: Mas o namorado dela, assim como você, faria qualquer coisa para protegê-la. Inclusive, se vingar do homem que causou todo esse infortúnio.

Luana: Está errado. Eu sei que está. Ele queria ajudar ela, e ajudou. A essas horas, eles estão bem longe daqui. Ele salvou ela."

...

"Investigador: Sr. Liao, se não me engano você estuda na mesma turma da aluna Luana Albertoni. Estou errado?

Kyoma: Não, mas nós não somos amigos... quer dizer... nós não nos falamos muito.

Investigador: Tudo bem? Você parece nervoso.

Kyoma: É que eu nunca precisei falar com um policial antes.

Investigador: Entendo. Eu vou pegar uma água para você beber, enquanto isso tente relaxar. Ah, e não deixe ninguém entrar aqui. Existem coisas nesse computador que precisam permanecer nele."

No momento em que o investigador saiu da sala, Kyoma viu a oportunidade perfeita para encontrar sua possível nova manchete. Com a porta fechada, o garoto corpulento e com os olhos repuxados se certificou de que não havia mais nenhuma câmera ligada na sala do diretor e se dirigiu ao computador, abrindo uma pasta cautelosamente.

A primeira imagem ampliada por Liao foi a do corpo de Olavo de bruços no chão, com um tapete de sangue sob ele. A outra, ele virado para cima. As marcas da faca eram evidentes; suas roupas e seu tronco mostravam-se brutalmente golpeados pela lâmina. Kyoma, que já havia colocado seu pendrive no gabinete para copiar os arquivos, estava paralisado com aquela imagem tão intensa.

Em uma questão de milésimos de segundo, enquanto Kyoma ainda permanecia estático em frente ao computador, a porta da sala se abriu e o investigador adentrou, o surpreendendo.

– Acho que pegamos nosso Espantalho com a mão na massa.

...

Notas finais
Espero que tenham gostado e não deixem de comentar. O desfecho da trama vem aí.