Inquérito Colegial
5 Parte V
Notas iniciais
Um garoto tímido, calado, que passava boa parte do seu tempo isolado e fazia questão de parecer invisível para todos. Era assim que Kyoma Liao, o único e legítimo Espantalho Jack, poderia ser caracterizado. Com poucos ou nenhum amigo, a única pessoa que conhecia seu segredo e guardava a sete chaves era Valentina. Mesmo assim, não se pode dizer que ela era seu anjo da guarda, já que a própria costumava tentar se dar bem às custas das postagens do EspantalhoNeüer. Naquele momento, definitivamente, pelo menos 70% do colégio Neüer odiava Liao, ainda mais do que o Espantalho.
Kyoma estava na sala do diretor, chorando enquanto tentava se justificar com o investigador em meio a soluços.
– Eu juro que eu não queria prejudicar ninguém. Todos os dias, no momento em que eu coloco os pés nessa escola, eu me lembro do meu primeiro ano aqui. Eu estava na metade no fundamental e era o mais baixo do turno. Uma vez me trancaram no banheiro masculino, com o uniforme todo manchado do suco de uva da cantina que ninguém gosta. Eles disseram que eu era tão detestável quanto. Isso só aconteceu na quarta série, porque eles nem sabiam o meu nome. Eu era invisível, continuava sendo até hoje e isso era bom.
– Você acha que sua história deveria nos fazer desistir de alguma punição?
– Não. Eu fiz besteira, eu assumo, podem me expulsar ou sei lá o que a direção vai decidir. Mas não prejudiquem meus pais. Eles são incríveis, mesmo tendo me obrigado a ficar aqui até hoje. Por favor, deixem eles de fora.
Todos, enquanto olhavam para o jeito com que Kyoma falava de sua infância e seus pais, percebiam que ele estava sendo sincero. O investigador, um pouco menos flexível, tentou acalmar o garoto antes de encerrar a conversa.
– Vou tentar interceder por você, mas não garanto nada. Mas, antes de ir embora, me responda mais uma coisa: alguém sabia sobre as suas atividades no EspantalhoNeüer?
– Não, senhor.
...
12 de setembro, 9:35. Nesse horário exato, um carro estacionou próximo à casa dos Albertoni, em uma rua no alto de uma elevação de terra onde haviam poucas casas. Luana recebeu a mensagem de Diego avisando que estava a esperando lá embaixo e a garota logo terminou de se aprontar. Pegando sua mochila, onde guardara algum dinheiro e coisas que poderia precisar, principalmente caso não voltasse para casa naquele dia, ela desceu os primeiros lances de escadas.
Ao passar pela sala, Luana se deparou com o olhar desconfiado de Branca. A mãe viu a mochila nas costas da adolescente, que já não era tão confiável quanto o desejado, e automaticamente suspeitou daquela saída de fininho.
– Luana? — Branca chamou, caminhando até o centro da sala. — Onde você está indo?
– Eu vou estudar na casa da Mari.
– Tudo bem. Eu devo te esperar para o almoço?
– Acho que eu vou ficar pra almoçar lá mesmo.
– Ok. Mande abraços para os pais dela.
Luana, prendendo o nervosismo, se dirigiu até a escadaria e desceu até a garagem. As fitas amarelas listradas da polícia ainda estava ali, mesmo semanas antes, bloqueando quase toda a área. A adolescente, olhando vagamente com nenhum sentimento ou atenção significativos, passou pela porta da garagem e saiu da casa, correndo até o carro estacionado ali perto. Diego estava dentro e, assim que viu a garota, despertou de imediato e a lançou um olhar atento e cauteloso.
– Que carro é esse? — Luana perguntou, entrando.
– Meu presente de 17 anos. É incrível o poder que uma carteira provisória pode ter. — ele respondeu, ligando o carro e sorrindo. — Ansiosa?
– Mal dormi essa noite. Acho que eu passei a madrugada inteira pensando em como ela deve estar.
– E daqui a alguns minutos você vai poder ver com seus próprios olhos.
Os dois se entreolharam e sorriram, deixando um silêncio vagar antes de dar a partida. Na janela da casa de frente com a dos Albertoni, uma brecha deixava camufladamente evidenciado o olhar de Valentina, que dormira na casa da tia mais uma vez. Atenta, a garota discou o número do investigador, que conseguira alguns dias antes, e aguardou que ele a atendesse enquanto enrolava uma mecha de seus cabelos ruivos compulsivamente.
– Alô?
– Investigador Tavares? Valentina Erenberg. Eu acabei de ver uma coisa e achei que gostaria de saber. A irmã da sua fugitiva está saindo agora mesmo com o Diego, amigo dela, em uma Land Rover preta. Acho que estão entrando na cidade...
...
Ansiedade. Essa era a palavra que definia a perna direita de Verônica, que tremia compulsivamente enquanto ela esperava que a irmã e o amigo aparecessem, sentada no sofá da sala da avó. Dona Olga estava voltando da cozinha com os biscoitos que as netas tanto adoravam quando viu o rosto preocupado de Verônica. Renan, sentado ao lado dela, segurava sua mão enquanto tentava trazer a namorada de volta à realidade, sem sucesso.
– Tudo bem, querida? — a avó perguntou, colocando a bandeja de biscoitos na mesinha de centro e se sentando em uma poltrona.
– Ela está com medo de que a irmã dela não apareça. — Renan respondeu, encarando Olga.
– Não queria meter a Luana em mais problemas. Já não basta o que aconteceu depois de o Olavo...
– Não fala nesse cara. — Renan interrompeu a namorada. — Ele não existe mais, ok?
– Meu anjo, não foi culpa sua.
– Minha irmã quase foi acusada de ser uma assassina por minha causa. Se eu não tivesse metido ela nessa história...
– Não teria feito nenhuma diferença. O que aconteceu com o seu padrasto não foi culpa da sua irmã, e nem sua. Certo?
– É claro que a culpa foi minha. — Verônica afirmou, encarando a avó. — Foi por minha causa que mataram ele.
– E você sabe quem matou ele? — Renan indagou, sem esperar uma resposta. — Vê, sua irmã e sua mãe não eram as únicas que odiavam ele. Eu falei com o meu pai mais cedo e ele me garantiu que a lista de suspeitos é enorme.
– Isso me deixa bem mais tranquila. — a adolescente ironizou, ouvindo o som do interfone tocar e se alarmando. — Eles chegaram!
Olga sorriu para a neta, se levantando e indo em direção ao botão que destravava o portão da casa.
Do lado de fora, Luana sorria suave e persistentemente enquanto Diego, distraído, observava a empolgação da garota. Quando o portão foi aberto, os dois entraram rapidamente e, antes de o fechar por completo e adentrar a casa, analisaram qualquer movimentação suspeita por perto. Seguros, os dois fecharam o portão e correram para dentro da casa.
Ao entrar, Verônica imediatamente se levantou e encarou a irmã, abrindo um sorriso instantâneo retribuído pela caçula. Empolgada, Luana correu para a irmã e se aconchegou firmemente em seus braços, a abraçando com força em uma tentativa inconsciente de se assegurar de que ninguém mais a tiraria de perto de si.
...
"Investigador: Sra. Albertoni, consta em nosso registro que sua mãe, Olga Lazzari, mora aqui em São Paulo. Por acaso você acha que ela possa saber de alguma informação sobre sua filha?
Branca: Impossível.
Investigador: Por que?
Branca: Eu e minha mãe cortamos relações há alguns anos, pouco antes de eu me casar com o Olavo.
Investigador: Qual o motivo, se me permite a intromissão?
Branca: Ela não aprovava meu casamento, nem meus modos de criar minhas filhas. Nós discutimos alguns dias antes do casamento e não nos falamos mais.
Investigador: E por que ela era contra seu casamento?
Branca: Primeiro, ela não sentiu nenhuma empatia pelo Olavo. Bem, nisso ela estava totalmente certa. Mas ela ficava repetindo no meu ouvido dezenas de vezes que eu não podia colocar meus interesses pessoais acima das minhas filhas, que, na época, tinham 11 e 12 anos. Ela não foi no meu casamento, e nem na debutante das meninas.
Investigador: Entendo. A senhora poderia me dar o endereço da sua mãe?
Branca: Por que querem o endereço dela?
Investigador: Nós recebemos uma ligação há uma meia hora dizendo que sua filha mais nova saiu de casa próximo às dez horas de carro com o sr. Diego Cadori, que é amigo da Verônica. Algo me diz que eles podem ter ido se encontrar com os dois fugitivos e, se for o caso, a casa de sua mãe seria o local perfeito.
Branca: Não estou entendendo. Minha filha foi estudar na casa da Mari, uma amiga dela. E por que o senhor acha que a Verônica se esconderia na casa da minha mãe?
Investigador: Você e sua mãe não se falam, o que diminuiria a probabilidade de ela lhe contar se sua filha aparecesse por lá. Fora que sua mãe, em momento algum, foi envolvida na investigação. E ela mora aqui em São Paulo, isso facilitaria para a Luana encontrar a irmã. Concorda?
Branca: Vocês vão ir até lá?
Investigador: Sim, e eu aconselharia a senhora a ir junto.
Branca: Por que?
Investigador: Nós analisamos as imagens do circuito de segurança da sua rua e, de acordo com o vídeo, nenhum ladrão apareceu para assaltar o dr. Olavo. Mas sua filha voltou para casa uma vez antes de fugir em definitivo.
Branca: O senhor está me dizendo...
Investigador: Ao que tudo indica, a pessoa responsável pelo assassinato de seu marido é também a nossa fugitiva."
...
Sentados no sofá, Diego, Luana, Verônica e Renan conversavam sobre tudo o que acontecia naquele momento enquanto Olga, como a avó cuidadosa que sempre fora, preparava a segunda fornada de biscoitos. O ar pesado era praticamente inevitável, principalmente quando tocavam no assunto da morte de Olavo.
Luana, sentada ao lado de Verônica e segurando sua mão, manteve certo receio antes de fazer a pergunta que Diego não conseguia fazer.
– Vê... como vocês souberam da morte do Olavo e tudo mais?
Verônica, ao se lembrar da cena, teve que respirar fundo e controlar o estômago gritante antes de contar, em poucos detalhes, como tudo se desenrolou.
– Quando a gente já estava na estrada, eu me dei conta de que a primeira coisa que a minha mãe faria quando desse a minha falta seria rastrear meu celular. Eu até pensei em jogar ele na estrada, mas o Renan disse que seria melhor voltar e deixar ele em casa.
– Uma péssima ideia. — o namorado acrescentou, com uma nítida repulsa às lembranças.
– Eu também precisava deixar um bilhete para a Lua, queria que ela me encontrasse de novo. Enfim, nós voltamos e, quando eu entrei, o carro da minha mãe estava tampando o corpo dele. Só quando eu estava saindo que eu notei, entre os dois carros, uma coisa vermelha. Sangue. Quando eu me aproximei, vi o corpo dele de bruços, todo ensanguentado.
No momento em que Verônica se calou, visivelmente perturbada com as lembranças, o interfone da casa de Olga tocou mais uma vez e alarmou a todos. A avó das meninas, assustada, correu para atender.
– Fiquem calmos e quietos. — Olga recomendou, atendendo. — Olá?
– Sra. Lazzari? Aqui é a polícia. Nós estamos no meio de um caso e gostaríamos de fazer algumas perguntas à senhora. Podemos entrar?
– Entrar? Mas eu estou limpando a casa, o chão está molhado... Eu posso ir aí fora?
– Tudo bem, como preferir.
Olga, mantendo uma expressão calma, olhou rapidamente para os adolescentes e sorriu, tentando os transmitir um pouco de tranquilidade.
– São eles. Fiquem aqui dentro enquanto eu tento os despachar.
Os quatro, nervosos, assentiram com a cabeça e se entreolharam, compartilhando o mesmo pensamento de medo.
Olga manteve a expressão que melhor definia o que ela pretendia parecer: uma senhora simples, apesar de endinheirada, inocente, cuidadosa e pregadora dos bons valores. Ao abrir um pouco o portão branco de alumínio, que não permitia qualquer tipo de exibição do interior da casa, a senhora se deparou com quatro policiais e sua filha, Branca. Mesmo nervosa em ver a filha, Olga manteve-se natural e sorriu, olhando para todos.
– Está tudo bem?
– Ficará, em breve. Posso lhe fazer uma pergunta?
– Se eu puder ajudar.
– A senhora ficou sabendo sobre a morte de seu genro, Olavo Albertoni, há pouco mais de três semanas?
– Uma amiga minha, que é vizinha da casa da minha filha, me ligou contando há alguns dias. Eu liguei para a Branca para saber se estava tudo bem, mas ela, é claro, não me atendeu.
– E a senhora também soube do desaparecimento de sua neta?
– Pensei que isso fosse exagero do povo. Mas, pelo visto, a história é bem mais séria do que o imaginado.
– Por favor, investigador, isso é ridículo. — Branca apelou, nervosa. — Vamos embora, está nítido que ela não sabe de nada.
– Sra. Lazzari, nós podemos entrar?
– Como eu já lhe expliquei, o chão está...
O investigador, ignorando as justificativas de Olga, afastou o corpo dela e entrou na casa, seguido pelos outros policiais. Branca, um tanto receosa, lançou seu olhar amedrontado para a mãe e parou na sua frente, com o coração disparado.
– Mamãe, por favor. Me diz que as minhas filhas não estão aqui. Eles não podem encontrar a minha Verônica.
– Melhor você entrar também.
Olga a deixou ali e entrou. Branca, completamente desolada, descarregou a rajada de ar misturada com medo, angústia e um pouco de lágrimas antes de entrar na casa.
O investigador, após transpor o jardim e abrir a porta da casa, se deparou com os quatro adolescentes de pé no meio da sala. Luana segurava a mão da irmã firmemente enquanto chorava discretamente, sem esconder o medo, entretanto. Uma policial, com feição dura, se aproximou de Verônica e, com pouca delicadeza, afastou a garota dos outros, a levando para o lado da polícia.
– Você vem conosco, garotinha.
– Solta ela! — Luana gritou, tentando correr atrás das duas, mas sendo impedida por Diego.
– Luana, fica aqui! — ele disse, puxando a garota e virando seu rosto para ele. — Ei, ei... fica calma, vai ficar tudo bem.
A adolescente, sem nem saber mais como pensar ou agir, abraçou Diego e afundou sua cabeça em seu peito, para tentar não ver o que iria acontecer.
– Não levem a minha filha, por favor! — Branca implorou, com medo de dizer qualquer outra palavra.
– Ela não matou o padrasto. — Olga interrompeu a todos, atraindo sua atenção inexplicavelmente. — Fui eu quem matou o marido da minha filha.
Todos os olhares chocados se voltaram à aquela senhora de setenta e poucos anos, que permanecia com uma expressão controladamente culpada. Branca permaneceu incrédula, sem conseguir encarar a mãe direito, digerindo aquelas palavras e tentando entender o porquê de tudo aquilo.
Próximo à senhora, o investigador se virou lentamente e, ciente de que poderia ser uma tentativa de aliviar a culpa da neta, iniciou sua indagação:
– O que a senhora disse?
– O que o senhor e todos nessa casa ouviram, investigador. Eu não deixei de amar meu marido porque ele morreu, e, logicamente, não deixei de amar minha filha porque ela não falava mais comigo. Eu conversava com minha neta, a Luana, todos os dias. Ela me contava tudo o que acontecia dentro da casa dos Albertoni... bem, como vocês já devem imaginar, o Olavo fez questão de colocar o sobrenome dele nas minhas netas também. A Luana me contou sobre as discussões frequentes dele com a minha filha, sobre o que ele fez com a Verônica. A única coisa que eu fiz foi defender a minha família. Alguém precisava fazer.
– Como eu posso ter certeza de que a senhora não está mentindo? Nas câmeras de segurança, em nenhum momento eu a vi.
– Como você deve ter percebido, entre as 2:10 e as 2:30 da madrugada, as câmeras ficam travadas. É assim, toda noite, continuará sendo até alguém ir consertar aquela porcaria. Minha neta saiu de casa às 2:00 e voltou às 2:37. Em vinte minutos, eu tive tempo suficiente para fazer o que eu queria.
– E a senhora pode ao menos me dizer como fez isso?
– Uma pancada na cabeça para o desacordar e sucessivos golpes com uma faca de carne qualquer. Eu joguei ela fora, em algum lugar, mas não me recordo ao certo onde. Antes que o senhor prossiga, vamos deixar os esclarecimentos para serem feitos na delegacia. Não quero falar sobre isso na frente de minhas netas.
Todos ali, sem exceção, estavam mudos com toda aquela situação. O investigador, mantendo seu sangue frio, seguiu com seu trabalho e ordenou que soltassem Verônica e, diferente do planejado, algemassem Olga. Renan acolheu a namorada enquanto Diego consolava Luana, ambos com um certo desolamento.
Enquanto os policiais encaminhavam Olga até a viatura, no mais absoluto e perturbador silêncio, Branca correu até eles. A mulher, desesperada com o estado em que sua mãe se encontrava no momento, tentou trocar sua última dúzia de palavras antes de a mãe ser presa.
– Espere. Eu preciso falar com ela, por favor. Só um minuto.
– Nós esperaremos no carro. Não demorem.
O investigador, assim como os policiais, entraram no carro e esperaram Olga, que estava no portão da casa com a filha. Branca, respirando fundo, encarou profundamente a mãe.
– Por que você...
– Não fale nada, querida. — Olga a interrompeu, com um sorriso abatido. — No momento em que eu te vi, eu já entendi tudo. Uma mãe faz qualquer coisa por uma filha. Foi o que nós duas fizemos.
Ela, sem esperar qualquer reação da filha, abaixou a cabeça e saiu pelo portão, indo diretamente para a viatura policial. Para Olga, aquela seria a última visão de liberdade.
Branca, olhando para o nada enquanto o carro da policia se distanciava, voltou a ter os flashes que a assombrara durante dias e noites. Viu o taco de golfe, com o qual Olavo levou a segunda pancada na cabeça da noite; a faca, que Branca usara no restante do serviço; a carteira, sendo gradativamente deteriorada em chamas; olhando para suas mãos, era como se Branca pudesse ver o sangue de seu marido, que também sujara a camisola que a mulher queimou na mesma noite.
Inevitavelmente, Branca via uma assassina. Inevitavelmente, era o que ela era.
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