Inocente Mulher

5 Porque eu precisava de um herdeiro


Notas iniciais
"No amor todos os caminhos acabam de forma igual - desilusão." - Oscar Wilde

— Chris não a matou!

Emma esforçou-se para controlar sua voz, para impedi-la de tremer a ponto de as palavras ficarem incompreensíveis.

— Ele jamais...

— Ele estava bêbado?

— Não. Ele não era assim.

De repente cônscia da forma como estava estendendo as mãos para Raul, aparentemente implorando para que ele a ouvisse, Emma deixou-as cair e enfiou-as nos bolsos da calça jeans para esconder o quanto tremiam.

— Então, como ele era?

Pelo menos, ele parará de andar de um lado para o outro.

— Foi um acidente. Um motorista de caminhão perdeu o controle e empurrou o carro deles para o canteiro central. Não foi culpa de ninguém. Apenas... Apenas...

— Apenas um acidente — completou Raul, em um tom de completa descrença. — Mas não foi acidente o fato que de Lori estar aqui, foi? Ela estava aqui porque vocês a convenceram. Lori jamais teria contrariado a minha vontade...

— Contrariado a sua vontade!

Emma secretamente sentiu-se aliviada por ele ter mudado de assunto, dando-lhe outro alvo para atacar com acusações que ela não poderia refutar.

— Você realmente acha que tinha o direito de impor a sua vontade a ela? Que você poderia interferir na vida dela e lhe dizer o que fazer? Que podia lhe dar ordens...?

— Eu queria ter certeza de que ela jamais se encontraria de novo com você. Ou com qualquer membro da sua família.

— E por quê? Por que eu não fui estúpida a ponto de aceitar sua proposta de casamento a sangue frio? Isso me torna desqualificada para qualquer tipo de associação a qualquer membro da sua família? Eu amava Lori.

— E assim a encorajou a vir visitá-la, para se encontrar com o seu irmão. E, por causa disso, agora ela está morta.

— Os dois estão mortos — conseguiu dizer Emma em tom seco, toda a emoção de sua voz exaurida. — Eu também perdi meu irmão.

— Seu irmão levou a minha irmã com ele!

Raul abruptamente se afastou dela, rosto franzido de raiva enquanto caminhava até a porta.

— Raul... — uma instintiva preocupação arrancou de seus lábios o nome dele. — Para aonde... Para aonde está indo?

— Para fora. Nem pense em me convencer do contrário — alertou sua voz selvagem.

Raul não poderia suportar ficar nem mais um momento com ela. Não precisava colocar isso em palavras, seu corpo inteiro passava a mensagem. Ele estava indo embora, e, se ela fosse sensata, deixaria.

Mas isso era algo que Emma simplesmente não podia fazer.

Não podia deixar que ele fosse embora — não desse jeito. Não enquanto Raul estivesse claramente se sentindo tão miserável quanto ela. Na verdade, até pior, porque ele acabara de descobrir a verdade sobre o terrível acidente, enquanto ela, ao menos, tivera alguns dias para se acostumar à dura realidade.

Lá fora, a noite era escura como breu, e ainda chovia torrencialmente. Ela não aguentaria pensar nele lá fora, na escuridão, sozinho, quando já estava tão sombrio e desolado.

— Oh, não...

Em um movimento rápido, ela saiu correndo, passando por Raul para alcançar a porta antes dele. Girando nos calcanhares, pressionou as costas contra a porta, em uma demonstração de que ele teria de passar por cima dela se quisesse sair.

— Emma... Saia da frente. — A voz de Raul saiu em um rosnado baixo de alerta, seu tom ameaçando repercussões terríveis se ela não obedecesse. — Nem pense em me deter.

A ferocidade de sua expressão e o perigo em sua voz deixaram-na muda, mas, de algum modo, ela se forçou a empinar o queixo enquanto fazia que não em silencioso desafio. Raul não precisava saber que, enquanto isso, seus joelhos ameaçavam desmoronar.

— Saia da frente...

— Não vou. Não posso!

— Não pode? — questionou cruelmente. — Como assim?

— Não posso deixar você ir. Não desse jeito. Não posso deixar você perambular por uma cidade que não conhece... Nunca em uma noite como esta.

— E você se importa comigo? — perguntou ele, em um tom subitamente menos agressivo.

— Claro que me importo,

— Sou adulto, Emma. Posso cuidar de mim mesmo.

— Não importa. Não posso deixá-lo ir. Você acaba de sofrer um choque. — Cuidadosamente, ela abaixou o tom de voz. — Não está pensando com clareza...

A voz de Emma era gentil, notou Raul. Gentil como fora quando ela entrara na sala de estar, há alguns minutos, quando o resgatara das trevas. E, exatamente como aconteceu antes, a gentileza o sensibilizou. Assim, pela primeira vez em terríveis 24 horas, ele estava imóvel. Completamente imóvel. Até mesmo seus pensamentos torturantes haviam cessado.

Em meio ao silêncio, ele a observou afastar-se da porta e caminhar até ele. Mais uma vez, sentiu em sua mão a suavidade do toque de Emma.

— Fique até Carlos chegar — pediu Emma. Imóvel no silêncio, Raul assentiu lentamente com a cabeça. Mais uma vez, o silêncio era suficiente.

— Muito obrigada — disse Emma, da mesma forma como ele dissera "gracias" para ela alguns minutos antes. Então, ele soube, sem que ninguém lhe dissesse, o quanto ela também estava grata por ter alguém com ela, dividindo aquela dor.

Foi nesse momento que Raul sentiu o suave perfume de ervas, que provinha do xampu que ela usava. Mas sob ela havia outro perfume, mais quente, sensual e íntimo. Mais feminino. Era o perfume da própria Emma.

O perfume de seu corpo, de sua pele, de seu cabelo... Que atingiu os sentidos famintos dele como um golpe, dissipando com rapidez o entorpecimento de sua mente. Sua fome era tão poderosa, tão primitiva, que expulsou todos seus outros pensamentos da mente.

— Obrigada — repetiu Emma, e a mão que tocava a sua se moveu muito levemente, polegar roçando sua pele.

— De nada.

O beijo foi inesperado. Foi suave, macio, delicado. Apenas uma pressão dos lábios de Emma contra sua face, sem absolutamente nada passional ou sensual. E, então, o beijo se foi. Mas os sentimentos que ele deflagrou não eram nem um pouco suaves.

Eram ardorosos e famintos.

Depois da tempestade de raiva, rejeição e fúria cega — fúria contra o irmão dela, o motorista do caminhão de quem ela falara e o destino —, mais uma tempestade se formava no íntimo de Raul. Uma tempestade de calor e fogo. Uma tempestade que ele não conseguiria conter. De morto, perdido e vazio, ele começou a se sentir quente, vivo. O desejo corria por suas veias, despertando os sentidos.

Raul teve certeza de que ela havia percebido isso, na tensão de seu corpo, na forma como seu padrão de respiração mudou.

— Emma...

Raul disse seu nome em uma voz enrouquecida pelo fogo sensual que ardia dentro dele. Ele subitamente descobriu que estava farto da imobilidade, do silêncio. Queria cantar a luz em meio à escuridão, o calor em meio ao frio...

A vida em meio a morte.

Virando a cabeça, Raul capturou os lábios de Emma nos seus. Levantou as mãos para correr os dedos por seus cabelos sedosos enquanto clamava sua boca com paixão feroz. O desejo latejava entre suas pernas com tanta força que era quase doloroso. E, quando a boca de Emma se abriu sob a sua, sentiu a névoa vermelha do prazer encher sua mente, afugentando as lembranças ruins.

Era isso que ele queria — esquecer. Para parar de pensar, para se perder em sensualidade feroz e irracional. E aquela mulher sempre fora capaz de fazê-lo esquecer-se de tudo, menos dela.

Para que pensasse apenas nela e nas chamas selvagens que ardiam entre os dois.

— Emma... — repetiu, porém, desta vez, o nome foi um sussurro de sedução contra seus lábios. — Emma, querida...

Pronunciada com sotaque espanhol, a palavra querida retumbava dentro da cabeça de Emma enquanto uma torrente de sensações percorria cada célula de seu corpo, tirando-lhe a lógica e o controle, deixando em seu lugar apenas desejo.

Emma devia ter imaginado que era um erro aproximar-se de Raul.

Quando reencontrara Raul, Emma precisara apenas de conforto e apoio. Foi depois que havia se recuperado um pouco, quando estava calma o bastante para respirar, que percebeu seus outros sentimentos, que julgara mortos há muito tempo, enterrados logo abaixo da superfície, aguardando apenas um toque, um beijo, para abrir caminho através de suas defesas e deixá-la desejando mais.

Ela percebeu que estava em perigo ao sentir aquela sensação de perda quando Raul se afastara abruptamente, no momento em que tivera certeza de que ele iria beijá-la. Perda e decepção eram os sentimentos de uma mulher que ainda estava presa a este homem, apesar de todo o tempo que eles tinham passado separados. E apesar de toda sua determinação de expulsá-lo de sua mente e coração. Não queria estar presa a ele de forma alguma. Não o amava. Como poderia amar um homem que a vira apenas como um corpo, uma égua de reprodução para gerar os herdeiros pelos quais ele e sua família tanto ansiavam?

Mas não é preciso amar para desejar, para sentir apetite por um toque, um beijo. Para ficar excitada quando esse homem a beijava, ou para sofrer uma sensação de perda quando ele a rejeitava.

Emma jurara manter distância de Raul. Para manter o controle sobre si mesma e sobre os sentimentos que parecia incapaz de apagar, juntamente ao amor que já sentira por ele. E ela teria conseguido se não tivesse vindo até ali e visto Raul com o porta retrato nas mãos, a terrível expressão de perda roubando-lhe toda a cor do rosto, enquanto fitava a fotografia de sua irmã caçula. A irmã que ele tão recentemente descobrira estar morta, assim como seu próprio irmão.

E ela não seria humana se não tivesse sentido compaixão e caminhado até ele para consolá-lo, para ajudá-lo da mesma forma como ele a ajudara ao abraçá-la no hospital, permitindo que derramasse lágrimas em seu peito forte.

Fora isso que Raul fizera por ela, e o que ela planejara fazer por ele. Mas Emma não possuía a força de Raul, o autocontrole e a indiferença que o mantivera distante, mesmo ao abraçá-la. Precisara apenas tocá-lo para se perder em um mundo de sensações onde o bom senso e a auto preservação não tinham lugar. A partir daquele momento em que sentira o calor de sua pele sob as pontas dos dedos, ela quisera mais. O perfume de seu corpo era ao mesmo tempo familiar e estranho, limpo e almiscarado, um tanto cítrico: intensamente pessoal, intensamente másculo... Intensamente Raul.

A fúria que o tomara quando ele descobrira a verdade havia obscurecido esse sentimento. Obscurecido, mas não destruído. E o beijo ressuscitara tal sentimento.

Emma disse a si mesma que aquele foi apenas um beijo de conforto, um gesto de simpatia, mas, em algum lugar no fundo de sua alma, ela soube que estava apenas se negando a ver a verdade.

E a verdade era que ela devia lutar contra a atração que sentia por Raul, contra a forma como seu corpo parecia chamar o seu. Mas ela não podia lutar contra si. Aquele beijo podia ter começado como um beijo de compaixão, porém, no instante em que os lábios de Emma tocaram os de Raul, sentindo seu calor e provando o sabor levemente salgado de sua língua, ela percebeu que estava perdida.

Toda a dor e toda a racionalidade foram varridas para o fundo da mente de Emma, deixando em seu lugar apenas um desejo ardente.

— R-Raul... — Ela pronunciou o nome dele em uma voz enrouquecida.

Emma sentiu-o sorrir contra sua boca. Ele estava com as mãos em suas costas. Mãos grandes, quentes e pesadas, dedos estendidos sobre sua espinha, queimando sua pele através da camisa de malha. Ele a beijou mais uma vez. E mais uma.

— Você é linda — murmurou contra seu rosto. — Linda.

As mãos de Raul não paravam de se mexer, sempre em movimento, sempre traçando eróticas linhas em suas costas, descendo sob a camisa de malha de Emma até alcançar a cintura, para ali queimarem sua pele. Emma não conseguiu conter um murmúrio de resposta enquanto arqueava o corpo para a carícia. A boca de Raul torturava-a com provocações, a língua dele roçava como seda em seus lábios. O fogo em seu sangue a privava de qualquer capacidade de pensar.

Ela queria... Desejava... Ansiava...

Ela precisava de mais.

Sempre quisera mais. Fora Raul que a contivera. Fora Raul que insistira que eles deveriam esperar. Orgulhoso aristocrata espanhol, ele a queria em sua cama intocada. Raul quisera saber se era o primeiro homem em sua vida, porque só uma noiva virgem poderia ser mãe de seu filho.

E essa era uma memória amarga o bastante para dissipar a névoa de paixão que pairava em sua mente.

— Não...

Ao menos, Emma conseguiu forçar a língua a formar uma sílaba. Ao menos, conseguiu forçar o corpo traiçoeiro a recuar, para longe dele, para longe de seu toque. Os poucos passos que ela conseguiu dar fizeram-na bater contra uma das poltronas, não tendo conseguido se afastar tanto quanto queria.

— Não... — Ela tentou novamente, mas com um pouco mais de convicção do que da primeira vez. Cada um de seus sentidos gritou em protesto. Cada nervo despertado exigia a satisfação que ela estava negando.

— Não? — retrucou Raul.

— Isto não vai acontecer. Não é isto que eu quero.

— Não é o que você quer? — indagou, a voz carregada de cinismo. — Perdoe-me se não acreditar em você. Não sei se você sabe o que quer.

— Sim, eu sei o que quero! — exclamou Emma. — Eu sei.

— Então, o que é? Que diabos você quer?

— Eu quero... Eu quero... — Desesperadamente, ela se agarrou à única coisa que lhe veio à mente: a lembrança do assunto sobre o qual eles estavam falando antes que isto acontecesse. O motivo que a fizera convidá-lo a subir ao seu apartamento.

— Eu quero que você perdoe o meu irmão. Eu quero que você reconheça que ele e Lorena se amavam. E... E...

Ela se calou, à beira do pânico. Necessitando dizer alguma coisa, falara sem pensar. Agora, diante da expressão furiosa de Raul, as palavras lhe fugiam novamente.

— E... — instigou Raul com frieza.

— E eu... Nós deveríamos sepultá-los juntos. Nós gostaríamos que você nos desse permissão para enterrar Chris e Lorena na mesma sepultura, onde eles poderiam... Onde eles poderiam estar...

Juntos.

A palavra soou dentro de sua cabeça, mas ela não encontrou forças para pronunciá-la. Não teria conseguido dizer mais uma palavra nem se sua vida dependesse disso. E, no silêncio que se seguiu, ela teve a impressão de uma janela ter sido aberta pela força do vento lá fora, deixando entrar o frio e a umidade. Seu corpo tremia como se a temperatura dentro de seu apartamento tivesse caído para abaixo de zero.

— Você quer que eu perdoe o seu irmão...

O tom de Raul estava tão calmo, tão desprovido de emoções, que Emma ficou confusa ao ouvir sua voz.

Seria possível que ele estivesse mesmo disposto a ser razoável a respeito disto? Mas ela não podia ler nada em seu rosto, nenhum sentimento.

— E você quer que eu deixe minha irmã aqui... E você acha que vai conseguir me convencer disso me seduzindo?

— Seduzir você? — perguntou Emma, espantada. — Mas eu não... Eu não estou tentando seduzir você! Como pode dizer uma coisa dessas?

Um zumbido baixo interrompeu o protesto de Emma, assustando-a e fazendo-a olhar em volta meio atordoada, procurando pela fonte do som.

Raul, contudo, reagiu imediatamente, soltando uma das mãos para tirar seu celular do bolso do casaco. Sentando em um braço da poltrona, atendeu ao celular.

— É Carlos... Carlos. É claro.

Os trinta minutos que Raul estipulara para que seu chofer viesse pegá-lo haviam acabado.

Então Raul iria embora agora, conforme ele planejara originalmente? Ela sentiu uma pontada no coração ao pensar nisso. Estava indecisa. Queria que ele fosse embora e que permanecesse ao mesmo tempo.

— Um momento — disse Raul, ao celular. E, então, ainda segurando o aparelho perto do ouvido, olhou para o rosto ultrajado de Emma. Por um instante, ele simplesmente a observou, olhos estreitados em análise fria, e, com um curto meneio de cabeça, voltou sua atenção para o telefone.

— Sim — continuou, falando de propósito em inglês. — Sim, eu acabei aqui. Estou mais do que preparado para ir embora. Estarei aí em um minuto.

Raul estava indo. Estava partindo, e nada iria detê-lo, estava completamente claro no seu tom, na sua expressão, no brilho frio de seus olhos. Ele estava partindo e... Foi apenas até aí que o pensamento de Emma conseguiu chegar. Ela não teve tempo nem para terminar o que pensava antes que Raul desligasse o celular e, ainda com os olhos fixos em seu rosto, guardou-o de volta no bolso do casaco. Então, lenta e silenciosamente, mantendo o contato visual com Emma, ele se levantou e alisou o vinco das calças.

— Meu chofer está esperando — disse ele, e Emma arfou alto porque foi como se o gelo em sua voz tivesse sido real, atingindo-a brutalmente no rosto enquanto falava. — E já passou da minha hora de ir embora.

— Mas... — tentou Emma, sabendo que ele não podia deixá-la sem uma resposta, embora em seu coração ela soubesse qual seria, alguma coisa que foi confirmada pela expressão que brilhou naqueles olhos cor de bronze.

— A resposta é não, Srta. Redfern. — Ela recuou de modo rápido, estremecendo ao ouvi-lo usar com formalidade o seu nome. — Em hipótese alguma eu deixarei minha irmã aqui para ser sepultada junto ao homem que a matou.

— Mas ele não... — Emma tentou mais uma vez, mas Raul a ignorou, agindo como se nada tivesse acontecido.

— Minha família e a sua jamais deveriam ter tido qualquer contato. Deveríamos ter ficado em pontos opostos da Terra.

— Por quê? Porque minha família simplesmente não é boa o bastante para se misturar com os aristocratas da dinastia Marquez Marcín?

Emma não se importava mais com o que estava dizendo. Tudo o que ela queria era atacá-lo, feri-lo como Raul a estava ferindo. Fazer com que ele sangrasse como ela estava se sentindo sangrar por dentro.

Não sabia mais se a dor que sentia era por ela própria, por seu irmão ou pela pobre Lorena.

Sabia apenas que precisava deixar extravasar a agonia ou desmoronar completamente.

— Bem, eu quero que você saiba que eu gostaria que jamais tivéssemos nos conhecido. Você foi a pior coisa que já me aconteceu. O pior dia da minha vida foi aquele em que nós nos conhecemos.

Se Emma esperara que ele reagisse a essas palavras, então ficou muito decepcionada.

— Então, o sentimento é totalmente mútuo — retorquiu Raul. — Eu posso lhe assegurar que me sinto exatamente da mesma maneira. Queria muito jamais ter conhecido você... Jamais ter visto você...

— Você...

Por duas vezes, Emma tentou acrescentar alguma coisa a essa palavra. Mas em ambas as vezes ela abriu a boca e teve de fechá-la de novo porque não saiu nada. Raul simplesmente ficou parado, observando-a, mãos cerradas em punhos e pressionadas com força contra seus quadris estreitos.

— Você queria jamais ter-me conhecido — finalmente conseguiu dizer. — Então, por que você queria se casar comigo?

Por que ela não se calava? Por que ela precisava continuar apunhalando-o, forçando-o a responder alguma coisa ainda pior?

O que ele, obviamente, acabou fazendo.

— Você sabe por quê. Porque eu precisava de um herdeiro.

Bem, ela sempre soube disso. Só não esperava ouvi-lo dizer de forma tão rude.

Raul notou um lampejo de inquietude no rosto de Emma e compreendeu que ela ficara chocada com suas palavras.

— Ora, vamos, Emma — zombou com crueldade, — Você achava que eu ia dizer que a amava? Você não podia ter esperado isso.

Desta vez, ela não teve qualquer dificuldade em achar as palavras, ou a força de proferi-las para ele.

— É claro que eu não esperava! — gritou Emma. — Jamais esperaria qualquer coisa decente da sua parte. Você me enoja. Além disso, duvido muito de que você saiba o que significa amor. Com certeza, não é um sentimento que seria capaz de experimentar por qualquer mulher, ainda mais uma que recusou seu pedido de casamento...

— Nisso eu preciso concordar com você — disse Raul, friamente. — O amor não é confiável para servir como base para a escolha de uma noiva.

— Não. Você dá mais importância a outras coisas, como o fato de nenhum outro homem ter dormido com ela.

— Bem, você atendia a esse pré-requisito, mas isso não durou muito, não é verdade? — zombou Raul. — Assim que a pedi em casamento, você entendeu que não havia nascido para a monogamia e tomou providências para corrigir esse erro.

— Pena que eu não tenha podido corrigir o erro de ter namorado você!

Queixo erguido, Emma passou por ele e saiu para o pequeno corredor, abrindo a porta com um gesto selvagem que a fez bater com força na parede oposta.

— Agora, eu quero que vá embora. Seu chofer está à sua espera, e você não deve perder mais o seu precioso tempo comigo. E, desta vez, ficarei grata se permanecer longe... Para sempre.

— Não se preocupe.

Raul caminhou até a porta de uma forma que teria sido definitivamente insultante, caso Emma ainda tivesse espaço em seu coração para tal.

— Eu não vou querer voltar. Vai nevar no inferno o dia em que eu quiser ver você ou qualquer membro da sua família outra vez.

— Por mim, está ótimo — gritou Emma para Raul, enquanto ele marchava até a porta. — Acredite em mim, se eu for forçada a vê-lo de novo, certamente será no inferno que você mencionou.

Emma bateu a porta com força depois que Raul saiu. O som ecoou por todo o apartamento enquanto ela afundava contra a parede, seu corpo inteiro tremendo com os efeitos colaterais da tempestade emocional que lhe abatera.

Notas finais
Olá minha gente, como vocês estão? Enfim, eu espero que gostem desse capítulo, comente e digam o que estão achando, é sempre bom saber do que vocês acham da história. Mil beijos da Dream