Inocente Mulher

6 A Descoberta


Notas iniciais
"Sua voz... seu sorriso... seu jeito de menino... com olhar avassalador de homem lobo... impossível não te amar..." - Eliana Angel Wolf

Raul enfiou a última peça de roupa na mala aberta em sua cama. Fechou o zíper com um movimento rápido e impaciente, levantou da cama e carregou a bagagem até a outra sala. Deixou-a ao lado da porta, pronta para ser coletada pelo carregador do hotel. Mais uma hora, e ele estaria longe daqui.

E ele não via a hora de isso acontecer.

Desde o começo, Raul soubera que aquela viagem até a Inglaterra seria um inferno, mas a verdade é que jamais previra o quão seria infernal.

Aceitar a terrível notícia da morte de Lori, cuidar de todas as formalidades e preparar seu funeral já tinham sido coisas terríveis. Mas houve a tortura adicional daquele encontro com Emma e a descoberta de que fora seu irmão que...

— Não!

Raul acertou um chute violento na lateral da mala, enquanto tentava não pensar no acidente que matara sua irmã. A passagem de quatro dias desde que recebeu as notícias não ajudou a suavizar a dor daquela perda.

Esfregando as palmas das mãos sobre os olhos doloridos, desejou poder apagar da mente a memória dos últimos dias.

Julgara que nada poderia ser pior, mas o destino escondera um último truque na manga.

Porém, se ele não pensasse em Lorena, havia apenas outra trilha que seus pensamentos poderiam seguir, e esta não era mais confortável do que a primeira.

A imagem do corpo esguio e do rosto deslumbrante de Emma estava sempre pronta a se instalar em sua mente. Estivera em sua memória durante o dia, distraindo-o do trabalho, aquecendo seu sangue e deixando-o excitado no espaço de uma única batida de seu maltratado coração.

Raul ainda podia sentir o choque brutal que sentiu ao compreender o motivo pelo qual ela o beijou com tanta avidez. A desilusão instaurara-se rapidamente e a fúria que a substituíra fora fria e selvagem. O ódio que Raul sentia por ela antes não foi nada em comparação ao que sentia agora. Tivera de sair de seu apartamento antes que a raiva o fizesse perder o controle.

Durante a noite, as mesmas imagens de Emma mantiveram-no acordado. Quando ele enfim conseguira dormir, a visão de seu corpo nu abrindo-se debaixo do dele transformou seus sonhos em ardentes fantasias eróticas, tão reais que poderia jurar que ela estava ali de fato.

Acordava no escuro em meio a lençóis emaranhados, com a lembrança do sabor daquela boca e do perfume daquela pele. Esse tomento sensual fazia-o caminhar em círculos pelo quarto, ou vasculhar o bar em busca de algo forte o bastante para lhe dar uma chance de dormir.

Nunca funcionava, e, depois de duas noites longas em claro e dois dias frios e tristes, ele se sentia como um cachorro mal-humorado, rosnando e pronto para morder.

A gota d'água foi quando descobriu que perdera seu celular.

Ele nem notou isso até seu pai telefonar para o hotel, desesperado para saber o que estava acontecendo. Depois disso, Raul virou o quarto de pernas para o ar, esvaziou todas as gavetas, checou todos os bolsos, e mesmo assim não encontrou o aparelho.

Foi apenas enquanto fazia as malas para voltar para casa que lhe ocorreu onde o celular estava.

A última vez que usou o celular fora no apartamento de Emma, para falar com Carlos. Devia ter deixado o celular cair no sofá, talvez na fenda entre as almofadas. Maldição! Ele teria de mandar Carlos pegar o aparelho.

Raul estava caminhando até o telefone do quarto quando ouviu uma batida na porta. Devia ser o carregador, vindo pegar a mala.

— Um momento!

Pegou no bolso dinheiro para a gorjeta, caminhou até a porta, abriu-a e olhou para a pessoa do lado de fora.

A pessoa que acabou de preencher seus pensamentos com as mais indesejadas lembranças sensuais.

A pessoa que ele tentara esquecer e que não conseguira.

— Emma!

Era como se ele a houvesse convocado. Como se simplesmente pensar nela a tivesse trazido até lá. Como se ela tivesse saído de seus sonhos para a realidade.

E a realidade era muito melhor que o sonho.

Os cabelos de Emma estavam soltos e caíam suavemente pelo rosto, a pele pálida totalmente intocada por maquiagem, exceto por um pouco de rimei nos cílios e um toque de brilho nos lábios. Trajava um vestido verde-claro, com incontáveis botõezinhos fechando-o na frente. Raul quase ficou sem ar ao pensar na delícia que seria abrir cada um daqueles disquinhos perolados, em busca do tesouro que guardavam.

— Trouxe isto. — Ela falou em um tom seco, sem olhar diretamente nos olhos dele. — Você deixou no meu apartamento.

— Gracias.

— Eu o achei ao lado da poltrona. Você deve tê-lo deixado cair quando...

Emma se calou subitamente e seu rosto ruborizou, Raul compreendeu que ela estava lembrando o motivo pelo qual o telefone foi deixado na poltrona.

— Estava me perguntando onde ele estava. Tinha acabado de deduzir que deveria estar no seu apartamento. Já ia mandar Carlos ir até lá pegá-lo.

— Bem, agora você o tem de volta.

A resposta de Emma foi estranhamente seca. Ela era de novo a criatura abatida que ele viu no quarto de hospital no dia em que chegou à Inglaterra. Havia poucos vestígios da sereia sedutora que o beijou, e menos ainda da mulher furiosa que o expulsara de seu apartamento. Raul ficou surpreso em descobrir que era da mulher furiosa que ele mais sentia falta.

Viu-se surpreendido por sua consciência. Quase pôde ouvir a voz de sua falecida mãe exigindo saber o que acontecera com suas boas maneiras. Ele não aprendeu nada do que ela ensinara? Raul deu um passo para trás, abrindo mais a porta.

— Desculpe... Você não vai entrar?

O olhar que ela lhe dirigiu foi mais uma reprovação à sua consciência. E o breve lampejo de seus olhos verdes apenas deixou seu rosto mais pálido e abatido, realçando as olheiras.

— Você parece estar quase caindo em pé. Entre para descansar um pouco.

— Eu não acho...

Raul achava que estava sendo educado, que havia até acrescentado um toque de preocupação na voz, mas, a julgar pela expressão no rosto de Emma, ele parecia ter sugerido que ela cortasse a própria garganta.

— Eu sou capaz de ser perfeitamente civilizado — garantiu.

Vendo que ela ainda estava hesitante, Raul desistiu. Jogando as mãos para o alto em sinal de impaciência, caminhou de volta para o quarto, deixando a porta aberta para ela. Emma que tomasse sua própria decisão.

— Obrigada.

Para a surpresa de Raul, ela o seguiu, caminhando com os passos cautelosos de uma gata adentrando um território desconhecido. E, olhando para ela, Raul compreendeu que havia mentido.

Dissera que era capaz de ser civilizado, mas aquela mulher não o fazia sentir-se assim. Sempre que ouvia sua voz suave, sentia a pulsação acelerar, a mente conjurar pensamentos de uma cama grande, travesseiros macios, lençóis limpos e ela, quente e receptiva, deitada a seu lado. Atordoado pelo desejo, Raul precisou forçar um sorriso ao se virar para ela.

— Vou mandar Carlos levá-la para casa. É o mínimo que posso fazer para lhe agradecer. Por que não senta?

Ele fez um gesto na direção do sofá de couro no meio da sala de estar. Os olhos de Emma seguiram o gesto, mas ela silenciosamente balançou a cabeça e permaneceu onde estava.

— Não é neste ponto que eu devo lhe oferecer um café? — perguntou Raul, e, para seu espanto, viu um genuíno sorriso estilhaçar a máscara de gelo no rosto de Emma.

— Será que conseguiremos chegar a tomá-lo? Até agora, não tivemos muita sorte.

Emma não fazia ideia do que significava para ele ver seus olhos se iluminarem daquela maneira, ainda que por apenas um momento.

Ver aquela boca maravilhosa se curvar de um modo que ela muito raramente fazia quando ele estava por perto.

Raul devia dizer a si mesmo que odiava aquela mulher, que detestava o modo como ela o tratara, e que agora abominava toda sua família pela perda causada por seu irmão. Mas a verdade era muito mais complicada.

Raul simplesmente não conseguia tirá-la dos pensamentos. Ele estava viciado nela. As coisas que sentiu naqueles últimos dias lembravam muito a síndrome de abstinência de um viciado.

Ele precisara de sua "dose" de Emma, e seus sintomas tinham começado a diminuir no momento em que ela aparecera em sua porta. Raul sabia que havia apenas um alívio definitivo para seu corpo viciado: tomar aquela mulher nos braços e levá-la para sua cama.

Ou será que o desejo por ela apenas aumentaria depois que ele tivesse experimentado, em vez de simplesmente imaginado, o prazer que o aguardava em seu corpo maravilhoso?

— Certo, nada de café.

Mas ela não estava mais olhando para ele.

Sua atenção fora atraída pela visão da mala fechada que esperava ao lado da porta, então fechada. Emma estava olhando para a mala como se ela a fascinasse.

— Você está partindo.

— Dentro de uma hora.

Emma não conseguiria definir seus sentimentos. Estava chocada e confusa pela súbita pontada de dor que sentira ao ver a mala. Seria a noção de que ele estava de partida que a perturbava tanto? O fato de que, se não tivesse vindo, neste exato momento, não o teria visto nunca mais? Raul teria feito as malas e partido, e ela nem saberia. Será que ela realmente se importava?

A quem estava querendo enganar? Ela se importava. Sempre se importou. Podia ter tentado parar de amá-lo. Podia ter passado dois longos anos rezando para que os sentimentos que nutria por Raul desaparecessem, mas bastou que ele retornasse à sua vida para que ela se apaixonasse de novo. Não era por causa disso que estava ali, depois que dissera a si mesma — e a ele — que nunca mais queria vê-lo novamente?

— Não tenho mais nenhum motivo para ficar aqui — respondeu Raul. — Já cuidei de tudo...

Emma sentiu-se grata ao ver que Raul estava concentrando sua atenção no celular. Ele o ligou e estava checando o registro de mensagens, de modo que não viu seu rosto mudar em reação ao seu comentário de que não tinha "mais nenhum motivo para ficar ali".

— Perdeu algum recado importante? — perguntou, tentando manter a voz o mais neutra possível.

— Quase todos os recados são de meu pai. — Raul ainda estava correndo os números de telefone. — Ele quer um relatório a respeito de tudo.

— Deve estar sendo muito difícil para Matias — disse Emma, lembrando o estado em que sua mãe se encontrava, incapaz de acreditar que seu amado filho havia morrido. Helena não comeu nada desde o acidente e, naquela mesma manhã, declarou que não tinha motivo para continuar vivendo. — Ele perdeu a filha.

— Ele perdeu mais do que isso — respondeu Raul, pousando os frios olhos cor-de-bronze em Emma.

— Como assim?

— Você não sabe? — perguntou desconfiado Raul, como se achasse que ela estava fingindo.

— Não sei o quê? — Mas ele não respondeu nada, limitando-se a manter o olhar fixo em Emma. — Diga, Raul.

— Você está alegando que não sabia? O seu precioso irmão não lhe disse? Era um segredo que ele não revelou?

— Raul, do que você está falando?

— Do bebê. — As palavras atingiram Emma como um tiro de revólver, rápido e letal. Raul jogou o celular na mesa, sem se preocupar com qualquer dano que poderia causar ao aparelho. — Você sabia sobre o bebê?

— Que bebê? Bebê de quem? Você está dizendo...?

Raul assentiu vigorosamente com a cabeça, confirmando seus temores. Mas ela ainda precisava dizer as palavras para ter certeza se eram a verdade.

— Lo...Lori estava grávida? — Mais uma vez, veio aquele aceno curto e frio, muito mais aterrorizante do que se ele tivesse perdido a calma e gritado com ela. — Mas como...?

Um olhar penetrante lhe disse o quanto ele achava estúpida aquela pergunta. E essa era realmente uma coisa que ela não precisava perguntar. Só havia um homem que poderia ter sido o pai do bebê de Lorena.

— Chris... Com quantos meses ela estava?

— Os médicos disseram que ela estava grávida de quase dois meses.

— Eu não sabia.

Mais uma vez, aqueles olhos negros brilharam na direção dela, alertando-a de que Raul não acreditava nela.

— Eu não sabia!

Houve um silêncio longo e terrível. Finalmente, quando ela achou que Raul não iria dizer mais nada, ele meneou lentamente a cabeça.

— Não, eu não acho que você soubesse. Você teria me dito quando... Quando me contou todo o resto.

— Sim, eu teria—disse Emma, baixinho. — Mas, se isso ajuda em alguma coisa, eu acho que ela estava planejando contar a você, ou ao menos ao seu pai. Os dois disseram que tinham um segredo, mas que eu teria de esperar um pouco para saber o que era.

Emma pensou que eles iam contar que estavam noivos. Mas talvez tivessem planejado isso também. As lágrimas queimaram seus olhos, mas, surpreendentemente, nenhuma caiu. Pela primeira vez em dias, ela se sentiu completamente sem lágrimas para umedecer os olhos doloridos.

— Mas eu suspeito que minha mãe soubesse — acrescentou Emma.

Isso poderia ser mais uma explicação para a mãe ter reagido tão mal às notícias da morte de Chris. Agora, finalmente, ela compreendia por que Helena ficou murmurando a respeito da forma como seu futuro lhe fora roubado, junto com seu filho. Na hora, aquilo fizera sentido apenas em parte.

— Isso explicaria por que ela está tão desolada. Se ela perdeu não apenas meu irmão, mas também seu sonho de ter um neto, não é de espantar que esteja tão arrasada. O que é compreensível se eles lhe contaram isso antes de partirem.

— Quanto a mim, ainda preciso contar a meu pai. Preciso dizer a ele que, quando o seu irmão morreu, ele não apenas levou sua filha, a minha irmã, mas também a coisa que ele mais queria em todo o mundo: um neto para segurar nos braços.

A aspereza de sua voz comunicou o quanto ele julgava que essa missão seria difícil.

Por impulso, ela caminhou até o bar, encontrou uma garrafinha do conhaque que Raul tanto gostava e virou metade dela em um copo. Sem dizer uma palavra, estendeu o copo para Raul e o observou tomar tudo em um só gole.

— Gracias.

A compreensão a fizera agir assim, e a compreensão a estava mantendo perto dele. Emma sabia o que ele estava sofrendo, porque passou pelas mesmas coisas. Sabia o que pusera as olheiras em seu rosto, a coloração cinzenta em sua pele. E sabia o quanto ele devia estar com medo de contar ao pai. Matias Marquez Marcín tornara-se pai tarde. Ele já estava na casa dos quarenta quando seu filho nasceu, e dez anos mais velho quando a segunda filha, Lorena, chegou ao mundo. Há muitos anos, sua saúde estava abalada, e a perda da filha devia ter sido um golpe duro.

— Seu pai ainda está doente?

Raul fez que sim com a cabeça, as olheiras e a expressão melancólica revelando mais do que a resposta deliberadamente controlada.

— Ele teve outro derrame um pouco antes do Natal. Está tão frágil que parece poder desmoronar com um sopro.

— Haverá outros netos.

— Meus?

A palavra foi proferida com amargura, e os olhos cor-de-bronze arderam acusadores. Ele não disse que os netos que esperara dar ao seu pai tinham sido os filhos que planejara ter com ela, o único motivo pelo qual a pedira em casamento, mas não precisava proferir as palavras.

— Duvido que venha a me casar... Certa vez sugeri isso, mas decidi que não era para mim. Não vou colocar o pescoço nesse laço novamente.

A expressão no rosto de Raul disse a Emma que, como ela, ele estava pensando na proposta de casamento que lhe fizera.

— Meu pai sabia que, se quisesse herdeiros, deveria esperá-los de minha irmã — prosseguiu Raul. — Pelo menos se ele quisesse ter netos enquanto ainda tivesse forças para segurá-los. E, mesmo que eu venha a ter filhos, eles chegarão a tempo?

— Rezo para que sim.

Sem pensar, ela estendeu a mão e a repousou no poderoso antebraço de Raul, onde a forma como enrolara a manga havia exposto a pele bronzeada, levemente salpicada de pelos negros. A pele de Raul era quente e macia, e o toque em seus músculos provocou uma sensação parecida com um choque elétrico, que subiu pelas pontas de seus dedos e atingiu cada um de seus nervos.

Ela o viu remexer-se levemente, viu seus olhos descerem para onde os dedos de Emma repousavam em seu braço, e então subirem de volta para seu rosto.

— Emma... — disse ele, apenas urna vez, pousando o conhaque na mesinha ao lado sem desviar os olhos dos dela.

De repente, o tempo pareceu parar. Era como se o resto do mundo tivesse se dissolvido em uma névoa ao redor dela, e tudo mais houvesse parado de existir.

Aqueles lindos olhos pareciam ter perdido toda a ferocidade, no lugar deles, havia profundos lagos dourados. E, quando ele levantou a mão e a pôs sobre a dela, pressionando suavemente seu braço, tudo pareceu acontecer em câmera lenta. O mesmo se deu com o movimento de sua cabeça ao abaixá-la de modo a apontar a boca para a de Emma.

E Emma reagiu sem pensar, levantando o rosto na direção do dele, lábios separando-se levemente, esperando por um beijo.

— Emma — repetiu, o calor de seu hálito beijando sua boca antes mesmo que ele fizesse isso.

Notas finais
Olá meus queridos, desculpe pela ausência mas é que eu tive um mês bem turbulento, trabalhando muito e estudando mais ainda, acreditem que eu demorei esse tempo todo pra escrever? rs. Mas enfim, sei que estou em dívida com vocês sobre esse capítulo, mas espero que o mesmo seja tão bom que poderia ter valido a pena esperar rsrs. Comentem sobre o que acharam e mais uma vez desculpa pela ausência, vou tentar me dedicar mais, de verdade. Mil beijos e me mandem suas críticas ( e que sejam construtivas, por favor) caso achem que devo mudar alguma coisa e diga como seria no seu ponto de vista. :) Bom FDS a todos!