Inocente Mulher
10 Amante
Notas iniciais
Quatro meses, e nenhum sinal de bebê.
Emma suspirou enquanto olhava pela janela de seu quarto. Com os pensamentos distantes dali, não conseguia nem mesmo ver a silhueta magnífica das Montanhas no horizonte, bem além dos vinhedos que geravam a maior parte da riqueza da família Marcín. Quando ela chegou naquela imensa e antiga casa da família de Raul, as montanhas estavam cobertas de neve. Mas, à medida que o tempo passava, e que o sol ficara mais forte, a neve gradualmente derretera e desaparecera.
Como a neve, aqueles terríveis dias no começo da primavera, quando a tragédia do acidente de carro trouxera Raul de volta à sua vida, estavam desaparecendo. O tempo começava a curar as feridas. Emma aprendeu como tocar a vida adiante. Até mesmo a sua mãe pareceu encontrar uma maneira de superar a morte de Chris.
— Nós podemos curar as nossas famílias, Emma.
Mais uma vez, as palavras de Raul retumbaram dentro de sua cabeça, e, no íntimo de seus pensamentos, ela reconheceu o fato de que ele tivera razão em sua análise da situação. Quando ela contou à mãe que Raul lhe pediu em casamento, que estavam planejando casar o mais depressa possível e começar imediatamente a tentar ter um bebê, foi como se uma nova fagulha de vida acendesse no coração de Helena. Ela ainda estava de luto pelo filho, mas tinha uma razão para viver, uma razão para acordar todos os dias. E ela se agarrara a essa razão com todas as forças.
Assim como fez o pai de Raul, Matias. Quando Emma chegou e viu Matias pela primeira vez em dois anos, ficou impressionada com a forma como a passagem do tempo e o sofrimento pela perda da filha o haviam envelhecido. Ele quase chorou quando Raul lhe disse que esperava lhe dar um neto assim que a natureza permitisse. Ao ver lágrimas brilhando naqueles olhos, tão parecidos com os do filho, Emma percebeu que, ao menos por esse motivo, por causa do novo significado que seu casamento iria trazer para essas duas pessoas tristes e solitárias, sua mãe e o pai de Raul, ela estava fazendo a coisa certa.
E, se ao fazer isso ela poderia preencher a sua própria vida com o deleite de ter Raul a seu lado todos os dias, compartilhando sua cama à noite, com seu rosto sendo a primeira coisa que ela veria todas as manhãs e a última todas as noites, então isso seria suficiente. Aceitaria isso como a única coisa que ele era capaz de dar a ela, e não pediria nada mais.
Ou, melhor, ela tentaria não pedir mais nada. Mas, no fundo do coração, Emma sabia que havia apenas uma coisa que ela ainda desejava.
Essa coisa não era o amor de Raul. Ela não era estúpida a ponto de sonhar com isso. Mas ele iria se casar com ela para ter um filho. O desejado neto de seu pai da mãe de Emma. O herdeiro de todas as propriedades dos Marcín.
— Nós podemos curar as nossas famílias, Emma. Não podemos substituir o que perderam, mas podemos lhe oferecer o futuro. Um neto.
No entanto, quatro meses depois, ainda não havia qualquer sinal de um bebê.
E nenhum sinal de um pedido de casamento.
O pensamento cravou uma estaca no coração de Emma. Quatro meses antes, Raul estava impaciente, determinado a fazer os preparativos para o casamento praticamente da noite para o dia. Mas, naquele momento, havia a possibilidade de que ela já estivesse grávida, possibilidade essa que lhe dava ânimo e esperança.
Esperança que Emma também nutrira.
Mas, aparentemente, assim que ela permitiu que o sonho fincasse raízes em seus pensamentos, o destino o destruiu Não havia bebê algum.
— Não foi desta vez — dissera Raul, com inesperada calma quando fora informado por Emma. — Mas querer que desse certo tão rápido seria o mesmo que esperar um milagre. Nós temos tempo. E será divertido tentar de novo.
Emma suspirou novamente e correu o dedo pelo peitoril de pedra da janela aberta, sentindo o calor do sol em sua pele.
Ela não tinha certeza se "divertido" era a palavra certa.
Tudo bem, sem dúvida nenhuma ela conhece o prazer nos braços e na cama de Raul. Prazer que jamais imaginou existir e que alcançava repetidas vezes. E Emma sabia que o apetite sexual de Raul por ela era tão forte quanto foi no início. Ele não demonstrava nenhum sinal de tédio ou mesmo indiferença por ela estar em sua cama todas as noites. Porém, ao mesmo tempo, ele não demonstrava sinal de sentir mais qualquer outra coisa. Raul dizia a Emma que ela era bonita, e murmurava elogios roucos e sedutores em seus ouvidos enquanto ela ficava deitada debaixo dele, entregando-se a ele.
Mas nunca, nunca, Raul disse uma única palavra a respeito de amor.
E, assim, o prazer que ela desfrutava sempre vinha acompanhado de um sentimento doloroso. Emma entregou seu coração a Raul desde o princípio, mas parecia que, naquele momento, ele a possuía totalmente, corpo e alma. Sem Raul, Emma seria apenas uma concha vazia.
Mas ele fazia amor com ela para "tentar novamente". Ele ia para a cama com ela porque a queria, era verdade, mas sempre, sempre, era no bebê que Raul estava pensando.
No entanto, até agora, não havia qualquer sinal dessa criança tão desejada.
E também nenhum sinal do casamento.
E isso era uma prova dolorosa: Raul pretendia se casar apenas se ela lhe desse um bebê. Sem bebê, sem casamento. Ele não precisava colocar isso em palavras. Era claro como o dia, sem que uma única palavra precisasse ser dita.
Emma esfregou os olhos para enxugar as lágrimas amargas que ela não ousava derramar. Temia não conseguir mais parar de chorar depois que começasse, quando Raul voltasse para casa de Madrid, onde foi passar o dia, ele iria encontrá-la com olhos avermelhados e pálpebras inchadas, e exigiria saber o motivo de suas lágrimas.
E ela jamais seria capaz de lhe dizer.
–
Quatro meses e nenhum sinal de um bebê. Raul conduziu o carro pelo pátio calçado de paralelepípedos e freou. Quatro meses durante os quais todo o propósito deste casamento parecia ter sido posto em suspenso. Simplesmente nada estava acontecendo. Quatro meses nos quais o tão necessário herdeiro da dinastia Marcín ainda não aparecera.
E era óbvio que Emma estava ficando impaciente.
Ela sempre parecia estar com os nervos à flor da pele, quase incapaz de manter uma conversa com ele, e sem jamais olhar nos olhos dele enquanto falava. E, frequentemente, encontrava alguma desculpa para não estar no mesmo cômodo que ele. O único momento e lugar em que os dois se comunicavam era na cama. Ali, não precisavam de palavras. Ali, o elo simples e direto era a ardente paixão que compartilhavam, unia os dois em completa empatia e instinto. E a satisfação que eles alcançaram todas as vezes era simplesmente enlouquecedora.
Na cama, tudo era perfeito.
Mas era mesmo?
Saindo do carro, ele abriu a porta traseira e pegou o grande buquê de rosas que estava no banco de trás.
Raul fechou a porta com o pé e pressionou o controle remoto para trancá-la. Então, caminhou até a entrada arcada para a casa, expressão melancólica sobrancelhas franzidas.
Na cama, tudo era fantástico. Mas perfeito? Emma certamente só era tão ardente porque estava desesperada para fazer este bebê, que iria significar muito para a sua mãe. O bebê que era o único motivo para eles estarem juntos.
Seu pai também estava ficando impaciente, admitiu Raul, enquanto galgava os largos degraus de pedra e adentrava o salão frio. Matias estava ansioso para saber quando o neto que desejava tanto iria dar o ar de sua graça. E, todos os meses, quando a resposta era "ainda não, padre...", Matias balançava a cabeça e murmurava alguma coisa.
E tanto Matias quanto a mãe de Emma queriam saber quando o casamento aconteceria. Por que eles ainda não tinham uma data? Quais eram os seus planos?
Eles não tinham planos, reconheceu Raul, subindo a escadaria em direção ao seu quarto. Emma não demonstrava o menor sinal de interesse na cerimônia. Parecia estar satisfeita com as coisas como estavam. E a verdade era que ele também estava.
Havia anos, Raul não se sentia tão satisfeito. Ele tinha a mulher que queria em sua casa. Ela estava ali todos os dias quando ele voltava, ela estava em sua cama todas as noites.
Na verdade, não fosse pela idade de seu pai, ele ficaria satisfeito em esperar que o bebê aparecesse quando a natureza ditasse.
Mas Emma concordou em ter aquele bebê apenas pelo que isso significaria para sua mãe e para Matias.
Era a única razão para estar ali. E era óbvio que ela estava ficando inquieta com a possibilidade de que isso talvez jamais viesse a acontecer.
Ela estava à janela quando ele entrou no quarto. Estava de pé diante da ampla janela, olhando para as montanhas no horizonte distante, tão imersa em pensamentos que não o ouviu entrar. Por um momento, ficou parado olhando para ela, mais uma vez impressionado como se sentia tocado por sua beleza cada vez que a via.
Emma estava com um vestido verde-azulado, mais escuro do que aquele que usava no dia em que foi visitá-lo em seu quarto de hotel para lhe devolver o celular. O vestido tinha uma estampa que fez Raul pensar nas profundezas do mar quando o sol e as sombras se misturavam. Emma estava descalça. Seu único movimento era o tamborilar de dedos no piso, o restante de seu corpo esguio estava tão imóvel que ela podia ser uma estátua esculpida em mármore. Decerto, sua pele estava pálida o bastante para lembrar o mármore, mas tal pedra jamais tivera a cor rica dos cabelos que cascateavam em volta de seu rosto para desembocar naqueles delicados ombros. Raul sentiu os dedos cocarem de vontade de se enterrar nas mechas ruivas e douradas, para senti-las deslizar por sua mão, e enterrar o nariz naqueles fios sedosos para aspirar o perfume dela.
A forma como Emma estava debruçada contra o peitoril da janela pressionava seus seios sobre a prateleira formada por seus braços dobrados, revelando as curvas pálidas no decote do vestido. Simplesmente ver a discreta porção de seus seios revelada pelo decote, deixou-a salivando de desejo. Ainda não haviam se passado nem sete horas desde aquela manhã, quando tinham feito amor enquanto ela despertava em seus braços, e o corpo de Raul já estava faminto por ela como se tivesse estado afastado há sete dias... Sete meses.
— Raul?
Ele devia ter feito algum movimento que chamou sua atenção. Ela virou a cabeça para vê-lo de pé no pórtico. Os momentos de observação silenciosa, de liberdade de observá-la sem restrição, haviam se passado. Ele estava novamente olhando para o enigma que era Emma.
— Chegou cedo.
E, a julgar pelo tom rude em sua voz, ela não estava muito feliz em vê-lo. Preferia estar sozinha e não ser perturbada por sua companhia. Ainda assim, aquela era a mulher que jamais parecia saciar seu desejo por ele.
O que havia acontecido para transformar a mulher doce e inocente que ele conheceu há quase três anos nesta criatura estranhamente distante? Era como se Emma estivesse sempre escondendo alguma coisa, e ele não fazia a menor ideia do que essa "alguma coisa" poderia ser.
— Não esperava você chegar tão cedo.
— Buenas tardes, Emma. — Ele manteve o tom de voz o mais casual possível, não querendo que ela adivinhasse seus pensamentos. Entrando no quarto, deu um beijo rápido nos lábios macios de Emma, tocando sua face brevemente. — Não consegui ficar longe... Senti falta de você.
— Sentiu falta de mim?— Ela pareceu não acreditar — Você esteve afastado apenas algumas horas.
— Horas durante as quais tudo em que eu consegui pensar era em como você parecia bonita quando a deixei hoje de manhã, deitada com os cabelos espalhados sobre os travesseiros da minha cama, e a pele ainda reluzindo depois de fazer amor comigo — respondeu Raul. — Eu não consegui me concentrar em nenhuma das reuniões que tive, e dirigi de volta para cá, correndo como um maníaco. Só parei para lhe comprar isto.
— Flores?
Emma fitou o enorme buquê de rosas que ele estava segurando para ela. No mesmo momento em que seu coração saltou de felicidade ao saber que ele lhe comprara flores, — e flores muito bonitas — outro sentimento cravou uma faca cruel em seu coração já vulnerável, enquanto sua mente absorvia o que ele acabara de dizer.
...tudo em que consegui pensar foi como você parecia bonita quando a deixei hoje de manhã, deitada com os cabelos espalhados sobre os travesseiros da minha cama, e apele ainda reluzindo depois de fazer amor comigo.
Esse "bonita" deveria tê-la deliciado, mas ele não fez qualquer segredo sobre o quanto se sentia atraído por ela, sobre o quanto a desejava. E ele ainda estava pensando nela em termos puramente sexuais, pensando na forma sensual com que eles tinham feito sexo de manhã enquanto ela acordava em seus braços.
E ele empregava apenas termos sexuais e profundamente possessivos: "em minha cama”... "sua pele ainda reluzindo depois de fazer amor comigo."
Ele podia ter perguntado se Emma queria ser sua esposa, mas ainda pensava nela apenas como uma amante. Uma amante que estava ali para lhe dar prazer no fim do dia, para aquecer sua cama e atender às suas necessidades. Uma amante que poderia ser descartada a qualquer momento, se e quando ele se cansasse dela. Se ela não atendesse aos termos de sua proposta.
Iria se tornar sua esposa apenas depois que tivesse cumprido sua parte no acordo. Primeiro, deveria ficar grávida do bebê que ele queria, e, então, e apenas então, ele selaria sua parte do acordo com uma aliança de casamento.
Se ao menos eu fosse a mulher que ele realmente quer como esposa, pensou Emma enquanto fitava os profundos olhos cor-de-bronze, vendo a forma como ele a estava observando, as leves rugas nos cantos das pálpebras. Se ela fosse a esposa que Raul realmente queria ter, então, este momento, quando ele voltava mais cedo para casa, seria especial para ela. Estaria deliciada em vê-lo, seria capaz de correr até ele, de se atirar em seus braços, de beijá-lo com ardor. De sussurrar seu amor no ouvido dele. Se ao menos...
Emma estava deliciada em vê-lo. Era o resto que estava no caminho, impedindo-a de dizer o que ela realmente queria responder.
Assim, ela moldou seu rosto em uma expressão de admiração, e esfriou a voz para espelhar o mesmo sentimento:
— Por que você me trouxe flores?
— Eu preciso de motivo para trazer flores para a minha... Para você?
A hesitação foi mínima, mas estava lá. E, como aquilo se aproximava de forma impressionante do que ela estivesse pensando, o breve silêncio doeu como sal em ferida aberta.
Raul não sabia como chamá-la. Nem lhe ocorreu chamá-la de esposa. Ela também não era nem sua noiva, embora sua mão esquerda portasse a aliança de noivado que ele insistiu em lhe dar em nome das aparências, como parte do plano para atenuar o sofrimento de seus pais.
Palavras emocionais, meu amor, minha querida, também não lhe ocorriam.
Então, como ele pensava nela? Será que ele pensava nela como uma "amante"? Sim, Raul poderia trazer flores à sua amante. A amante que ele deixava em sua cama naquela manhã, a amante com quem ele fez amor antes de sair da casa, e com quem estava ansioso para fazer amor assim que fosse possível.
Não.
Emma foi varada por uma punhalada de realidade cruel, que penetrou sua alma enquanto se forçava a encarar a verdade. Embora Raul chamasse o que faziam de amor, e ela própria descrevesse assim o que eles faziam naquele quarto, na grande cama com a imensa cabeceira de madeira, aquilo não era amor. Era prazer que eles davam um ao outro, mas não amor. Havia um elemento faltando, um desequilíbrio que colocava todo o amor no seu prato da balança e deixava os sentimentos de Raul perigosamente leves nessa área. E isso tornava o que faziam, com grande frequência e prazer, em "fazer sexo", e jamais na maravilha que era "fazer amor".
— Não? — questionou Raul em um tom de voz que ele jamais usava. — Não? Eu não preciso de uma razão ou você não quer as flores?
Emma levou um segundo para compreender que, no meio dos seus pensamentos, ela disse em voz alta aquele "não". Felizmente, Raul entendeu que ela falava sobre as flores.
— Não, é claro que você não precisa de uma desculpa para me trazer flores. Obrigada.
Quando se moveu para a frente com a intenção de dar um ligeiro beijo de gratidão em sua face, Emma captou um lampejo de alguma coisa em seus olhos, alguma coisa que, como aquele tom em sua voz, era novo e incompreensível para ela. Mas não teve tempo para tentar decifrar o que significara tal lampejo, porque, no segundo em que seus lábios se aproximaram do queixo forte de Raul, ele subitamente virou a cabeça. Assim, não foi com sua face que os lábios de Emma fizeram contato, mas com sua boca.
Sua boca quente, faminta e exigente. E, como um fósforo caindo em um arbusto seco, a fagulha virou uma chama selvagem que fez os dois se atirarem um sobre o outro.
O buquê caiu da mão de Raul, encontrando uma cadeira próxima em vez do assoalho apenas por sorte. Com as mãos livres, Raul puxou-a para si enquanto tomava sua boca em um beijo ardente que bloqueou todos os pensamentos.
Os lábios de Emma se abriram, convidando-o a aprofundar o beijo. Ele atendeu ao convite sem hesitar, em um turbilhão de desejo que a tirou da realidade para um mundo de sensações indescritíveis.
Ela passou os braços em torno do pescoço de Raul se entregou ao beijo, colocando nele toda necessidade toda solidão, todo senso de perda e desespero que sentira durante o dia.
E ficou chocada em receber em troca algo que em outro homem ela teria descrito como a mesma reação que a sua. Havia uma nova crueza no beijo de Raul, uma nova urgência na carícia de suas mãos. Foi como se ele tivesse ficado longe dela por dias, semanas, e não apenas por breves horas.
Emma foi tomada em seus braços, carregada até a cama, suas roupas arrancadas, assim como as dele. E, durante todo esse tempo, ele manteve a boca colada na dela — ou a dela na dele, Emma não tinha como saber — com uma fome selvagem e primitiva que estava além das palavras, além do pensamento, trancada apenas nos reinos da necessidade, da rendição total ao momento.
Eles se uniram com rapidez e fúria em uma tempestade de paixão e desejo ardentes. E, de algum modo, esses também foram alguns dos momentos mais íntimos que ela conheceu com aquele homem, o mais próximo que eles haviam chegado daquilo que ela considerava fazer amor. Ao contrário do sexo longo e lento que eles tinham feito naquela manhã, quando Raul saciara todos os seus desejos sensuais, e devolveu a ela o mesmo prazer multiplicado por mil, daquela vez a união foi dotada de uma nova qualidade. Uma qualidade que ela jamais conheceu, e a qual não entendia. Emma sentiu-se ser afastada da realidade enquanto gritava o nome de Raul e o mundo explodia ao seu redor, dilacerado em pedacinhos que ela instintivamente soube que nunca poderia reunir da mesma forma.
Era quase como...
Ela se perdeu antes que a mente pudesse completar a frase, caindo em uma névoa de esquecimento da qual se recuperou muito devagar. Mais devagar do que em qualquer outro momento de sua vida. Foi apenas quando sua mente clareou e seus pensamentos afloraram até a superfície da racionalidade que Emma viu o duro mundo real.
Era quase como... ela havia pensado. Se ela tivesse conseguido terminar o pensamento, teria sido: foi quase como se ele me amasse.
Mas isso foi um delírio. O tipo de fantasia faminta que sua mente lhe oferecia no auge do êxtase, quando conseguia acreditar que todos os sonhos podiam se realizar. Naquele instante, estava de volta à cruel realidade. E a cruel realidade via as coisas de forma muito diferente.
Foi quase como se ele tivesse decidido que este era o fim. Foi como se ele tivesse decidido que já havia esperado demais, e que, como as coisas não estavam correndo conforme planejara, era hora de acabar com tudo.
E, depois do momento de gloriosa ilusão, do momento em que ela pensou que todas as coisas eram possíveis, a decepção foi como uma série de garras selvagens rasgando seu coração. A angústia foi ainda pior porque não havia como expressá-la, não havia como admitir para Raul que ela fora estúpida a ponto de se permitir acreditar...
— O que foi? — Raul sentira sua abrupta mudança de humor. — O que está errado agora?
—Eu estava pensando até aonde vai tudo isso. Em como vai acabar.
Ao lado dela, o corpo longo e poderoso de Raul enrijeceu, cada músculo retesando como o de um animal selvagem sentindo um invasor entrando em seu território.
— Quem disse que precisa acabar?
Raul ficou meio sentado, corpo sustentado em um cotovelo, cabeça repousada em uma das mãos. Emma sabia que ele estava olhando para ela, mas se recusou a olhá-lo, preferindo fitar o teto pintado de branco.
— Bem, nós dois sabemos que precisa acabar em algum momento — disse Emma. — Não existe nada para nos manter juntos, e nós dois sabemos disso. Eu sou apenas um útero que você vai alugar por nove meses, e depois...
— E depois o quê! — murmurou Raul, com ironia. — Acha que eu vou descartá-la? Depois de ter ficado saciado de você?
Como era exatamente isso que Emma mais temia, por um momento ela não ousou responder, preferindo simplesmente dirigir para ele um olhar furioso. Um olhar furioso e cego.
Ela não ousava olhar direito para seu rosto porque temia o que poderia ler nele. Sabia que estava falando a verdade, mas não queria ver a verdade na expressão dele, lê-la em seus olhos.
— Eu não sei. Como poderia saber? — disse ela, quando ficou claro que ele estava determinado a esperar por sua resposta. — Eu não sei o que está acontecendo dentro dessa sua cabeça. Por que você não me diz o que planejou?
— O que eu planejei... — Raul se levantou da cama e caminhou até a janela para olhar para as montanhas no horizonte, assim como Emma fez há alguns instantes. — Eu planejei um casamento.
Essa era a última coisa que ela esperara ouvir. As palavras giraram em sua cabeça, repetindo-se sem jamais fazer qualquer sentido.
Eu planejei um casamento. Mas por quê? Por que agora? Por que quando não havia nenhum sinal de um bebê?
Virando-se, ele pegou o buquê de rosas na cadeira na qual ele caíra e o jogou para ela em um gesto furioso, sem se preocupar com o dano que as pétalas delicadas poderiam sofrer ao cair na cama.
— Foi por causa disso que lhe trouxe as flores. Enquanto eu estava em Madrid, finalmente concluí todos os preparativos. Está tudo pronto, e tudo o que você precisa fazer é escolher seu vestido e ir à igreja no dia certo.
— E quando é o dia c-certo? — balbuciou Emma, totalmente incapaz de acreditar que estava ouvindo direito. Será que ele havia mesmo providenciado o casamento? Será que ele iria se casar mesmo com ela?
Mesmo sem o bebê?
— Dia 14 — disse Raul, secamente. — Sua vida de solteira termina em apenas duas semanas. A partir do dia 14, você será Dona Marcín.
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