Inocente Mulher
11 Passeio no Jardim
Notas iniciais
O ar noturno ainda estava parado e quente depois do calor intenso do dia. Emma caminhava pelo terreno assombreado da casa, ciente de que, por mais tarde que fosse, não havia nenhum sentido em voltar até o quarto. Naquela noite, não conseguiria dormir.
— Descanse bastante, meu bem — foram as últimas palavras de sua mãe ao lhe dar um beijo de boa-noite. — Você vai querer estar muito bonita amanhã.
Emma sabia que qualquer descanso estava fora de cogitação, e, quanto a parecer bonita para o casamento, bem, ela não chegou ainda a uma conclusão a respeito disso. E era por esse motivo que estava naquele instante caminhando inquieta sob o luar, tentando forçar sua mente a uma decisão.
Além disso, Emma suspeitava que, se voltasse para sua cama, começaria a chorar assim que as luzes se apagassem.
No dia seguinte, seria o dia do seu casamento. Em menos de 14 horas ela deveria estar penteada, maquiada e arrumada no vestido lindo e delicado que Raul encomendou a um estilista mundialmente famoso, e preparada para entrar na limusine para que o chofer a levasse à imensa catedral medieval, onde Raul estaria à sua espera para tomá-la como esposa.
E esse era o problema.
Como poderia se casar com um homem que não a amava?
Emma sabia que ele queria se casar com ela pelo bebê, mas, naquela mesma manha, ela tivera a prova inegável de que, mais uma vez, seu corpo a havia decepcionado.
A dolorida sensação em seu ventre foi seguida, com cruel inevitabilidade, pela chegada da menstruação.
Mais uma vez, não havia qualquer esperança de um bebê para breve.
E, sem essa esperança, como ela poderia passar por uma cerimônia para se tornar esposa de Raul, fazendo votos sinceros enquanto sabia que não ouviria o mesmo da parte dele?
Emma disse a si mesma que poderia fazer isso, que seria capaz de lidar com a situação. Mas, agora, com o dia tão próximo, ela temia não conseguir.
E Emma não tivera coragem de dizer isso a Raul. Ela permitiu que ele mudasse suas coisas para o outro quarto aquela noite, em respeito às superstições de sua mãe de que dava azar o noivo ver a noiva antes do casamento, e ela aceitou seu beijo com uma tranquilidade que não estava sentindo.
E, com a meia-noite se aproximando depressa, todos na casa dormiam profundamente, sonhando com a cerimônia. E ela estava sozinha, perambulando pela noite, ciente de que não importava se Raul a visse antes do casamento ou não, porque aquele casamento já estava amaldiçoado antes mesmo de ser oficializado.
— Você também não conseguiu dormir? A voz, baixa, máscula e instantaneamente familiar, sustou-a ao chegar até ela através do ar noturno, vinda aparentemente de lugar nenhum.
— Quem é?
Girando nos calcanhares, ela olhou para a escuridão pasma, incapaz de ver quem havia falado.
— Raul?
— Aqui.
Das sombras de uma árvore alta, uma silhueta se destacou, vaga e quase invisível. Os cabelos e as roupas negras de Raul misturavam-se à escuridão da noite. Apenas sua tez clara capturava o luar, tornando-o visível enquanto caminhava até Emma.
— O que... O que você está fazendo aqui?
Raul notou que havia uma certa trepidação em suas palavras, mas o que estava causando isso? Era impossível saber como ela estava se sentindo, e seu rosto, olhos arregalados e desesperadamente pálido ao luar, não transparecia nada.
Nada, exceto que ela estava absolutamente chocada em vê-lo ali. Mas isso era esperado. Depois de eles terem se desejado boa-noite, havia uma hora, Emma devia ter imaginado que ele estava em um quarto no outro canto da casa. Com sorte, depois de passar o dia concentrado nos preparativos para o casamento, dormindo tão profundamente que jamais notaria que ela havia saído para um passeio noturno.
— Vim ver você.
— Mas...
Emma correu uma das mãos pelos cabelos sedosos, reluzentes no luar azulado, e ele teria de estar totalmente cego para não notar a forma como ela tremeu, o esforço que ela estava fazendo de tentar controlar sua reação.
Emma estava se sentindo assim em reação a ele, ou ao conhecimento do que ela havia planejado?
Fosse lá o que ela houvesse planejado! Por um breve momento, os dedos de Raul tocaram o bolso de sua calça jeans, onde estava escondida uma folha de papel dobrada. Emma não sabia que Raul a tinha, e ele não ia deixar que ela soubesse, não naquele instante em que tivera uma ideia melhor do que estava se passando dentro de sua linda cabeça.
— Por que... Como você sabia que eu estava aqui? — conseguiu perguntar Emma, fazendo um esforço imenso para não gaguejar.
Será que ela não sabia o quanto estava entregando? A forma como estava deixando óbvio que alguma coisa estava muito errada?
Mas o quê? Uma parte de Raul o impulsionava a exigir saber, a mandar que ela lhe dissesse agora, antes que ele perdesse a paciência. Mas outra parte de Raul, uma parte mais racional, estava alertando para que esperasse e tentasse descobrir com calma.
— Fui ao seu quarto. Queria falar com você, mas, com o toque de recolher severo que a sua mãe estabeleceu, só pude fazer isso depois de ela dormir.
De algum modo, Raul conseguiu injetar em sua voz uma leveza muito distante de seu verdadeiro estado de espírito. Ao ouvi-lo, ela pareceu relaxar um pouco.
— Sobre o que você queria falar comigo? — perguntou Emma.
— Vou lhe dizer, mas antes vamos caminhar um pouco. Quero lhe mostrar uma coisa.
Ela começou a acompanhá-lo ao longo da trilha, mas mantendo uma distância que exigiria algum esforço se ele tentasse segurar sua mão.
Ele decidiu não tentar aquilo por enquanto. Decidiu não forçar nada, pelo menos até ter descoberto um pouco mais. E novamente correu os dedos sobre seu bolso, ouvindo o leve crepitar do papel em seu interior.
— Aonde estamos indo?
Emma ainda parecia agitada. Na verdade, nunca pareceu tão nervosa, embora estivesse tentando apagar a tensão em sua voz.
— Não muito longe. Na verdade... Chegamos.
— Aqui?
Desta vez, Raul notou confusão em sua voz. Emma correu os olhos à sua volta, buscando por algum indício do motivo para ele tê-la trazido ali.
— O que...?
Raul levantou um pé calçado com bota e o repousou no tronco oco de uma árvore caída que jazia quase escondido à margem da trilha.
— Isto. Eu queria que você visse meu lugar especial. Era para cá que eu costumava vir e sentar quando era criança. Ainda faço isso. Também era onde eu me escondia quando as coisas davam errado.
Inclinando-se, ele espiou dentro do enorme buraco dentro do tronco.
—Acredite se quiser, mas houve uma época em que conseguia entrar aí. Eu não gostaria de tentar agora.
Ele observou o desfile de emoções em seu rosto cautela mudando para diversão, compreensão e, finalmente, incerteza.
E, provavelmente, havia incerteza em seu rosto quando Emma olhou para Raul enquanto ele se empertigava de novo.
— Eu me escondi aí dentro quando me disseram que Rodrigo tinha morrido.
Emma estivera prestes a falar, mas as palavras morreram em sua garganta. Por duas vezes, ela abriu a boca, e em ambas as ocasiões fechou-a sem produzir um único som. Porém, Raul sabia qual era a pergunta que ela queria fazer.
— Ele era meu irmão.
Isso a fez arfar e balançar a cabeça, como se não conseguisse acreditar.
— Eu não sabia.
— Meu pai não queria que ninguém falasse sobre ele. Quando nós o perdemos, foi como se Rodrigo jamais tivesse existido. Ele teve meningite e ninguém notou na época. Ficou doente apenas durante alguns dias.
— Que idade ele tinha?
— Apenas seis. E eu tinha quatro.
— Você era o caçula! Eu pensei...
— Você pensou que eu sempre fui o herdeiro de tudo isto... — Com sua mão, ele gesticulou para mostrar toda a terra que os cercava, a casa escurecida ao longe. — Mas não. Fui o segundo filho... Até a morte de Rodrigo. Então, eu assumi esse papel..—E sempre me ensinaram que era meu dever prover outro herdeiro...
Raul esperava que isso a ajudasse a compreender. Mas qualquer que fosse a reação que ele esperava, não foi a que recebeu. Emma cobriu o rosto com as mãos e lhe deu as costas abruptamente, como se em choque.
— Oh, não! Não! Isso não vai acontecer. Eu não posso continuar com isso... Eu não posso! Raul, eu não vou me casar com você!
Então, a situação era tão ruim quanto ele previra!
Pior!
Raul temeu isso desde que foi ao quarto de Emma e o descobrira vazio. Ele esteve quase se virando para ir procurá-la em outro lugar, quando viu a folha de papel na escrivaninha. E seu nome no topo.
— Querido Raul... Sinto muito...
— Tudo bem...
Ele se forçou a reagir com calma e indiferença. Ele não queria tornar aquilo mais difícil do que precisava ser. Mais difícil para ela. Como previra que isso aconteceria, Raul conseguiria lidar com a situação... Por enquanto. E, depois que ela tivesse partido, como era óbvio que ela ia partir agora...
Tudo bem?
Tudo bem ?
Emma não conseguiu acreditar em seus ouvidos. Ao escutar aquela palavra, pronunciada com absoluta indiferença, teve a impressão de que seu coração ia explodir de dor. Acabou de revelar que não iria se casar com ele, que não poderia, e tudo o que ele disse foi...
Tudo bem.
Emma sempre soube que ele não a amava, mas pensou que seu desejo por ela fosse digno de uma reação um pouco mais calorosa. Seu desejo por ela e seu sonho de dar um herdeiro aos Marcín, sonho que ela já compreendia bem melhor. Será que nem essas coisas eram capazes de fazer com que Raul protestasse? Fazer com que ele a ordenasse a ficar, a declarar, como fizera antes, que não podia deixá-la partir?
Não. A lembrança veio de repente, emendando essa linha, mudando uma única palavra. E parecia que essa única palavra fazia toda a diferença do mundo.
— Você pode sair correndo, mas nunca vai conseguir fugir. — A voz de Raul ecoou em sua cabeça. — Irei atrás de você. Não vou deixá-la partir.
Não posso perder você.
Não eu não vou deixá-la partir, mas eu não posso deixá-la partir! Foi como se alguém tivesse acabado de reiniciar seu cérebro e ela subitamente estivesse olhando para trás, vendo coisas que não tinha visto...
Ela ouviu esse tom de voz antes.
Duas semanas antes. No quarto deles. No dia em que Raul lhe trouxera rosas.
— Raul, — disse Emma, bem devagar, ainda pensando, ainda tentando extrair significado de tudo aquilo —por que você sentiu que precisava me dar rosas?
Ela achou que talvez ele não fosse responder, mas Raul só hesitou por um momento.
— Porque eu ia lhe contar que tinha feito os preparativos para o casamento. E não senti que precisava lhe dar rosas. Eu quis fazer isso.
— Você nunca me deu flores antes.
— Eu sei.
Ele enfiou as mãos nos bolsos e caminhou ao largo do tronco oco, ombro curvado como se um peso houvesse subitamente caído sobre eles. No fim da árvore, Raul parou e se virou para Emma.
Ao luar, seu rosto estava pálido e marcado em linhas rígidas e defensivas.
Linhas defensivas.
— Foi justamente por causa disso que lhe trouxe flores. Eu quis tentar começar tudo de novo. Fazer a proposta de novo. Estava disposto a me ajoelhar diante de você, se isso fosse preciso. E lhe dar as flores...
Alguma coisa no rosto de Emma o alertou, sugerindo cautela quanto ao que fosse dizer. Ele se calou.
— Raul, por favor! Não pare! Estava começando a ficar interessante!
— Não — disse, em um rosnado baixo e zangado.
Emma percebeu a tensão em sua voz, mas decidiu que valia a pena correr o risco de tentar ignorá-la. Se ela estava errada, então não havia nada a perder. Mas se ela estava certa, então tinha tudo a ganhar.
— Sim! — rebateu Emma, rezando para soar mais determinada do que estava se sentindo.
Movendo-se rapidamente até o lado dele, Emma segurou sua mão e o fez sentar-se com ela no tronco.
— Sim. Você precisa me contar o que ia dizer. É importante.
Seria apenas o efeito do luar ou ele estava com olheiras que ela jamais viu antes? Tudo o que podia fazer era esperar e torcer para que significassem o que ela esperava que significassem.
— Você ia se ajoelhar e... — instigou Emma quando ele ainda hesitou. Por um momento terrível, ela pensou que Raul não deixaria que ela o pressionasse.
Mas, então, ele pareceu chegar abruptamente a uma decisão. Raul deu com os ombros largos e começou a falar, lentamente no começo, mas ganhando ritmo à medida que as palavras fluíam apressadas.
— Eu ia pedir sua mão em casamento de novo, mas, desta vez, de uma forma decente. Eu ia me ajoelhar e, se fosse preciso, implorar para que se casasse comigo.
— Porque...
— Não apenas por causa do bebê, ou de nossas famílias. Mas por minha causa. Eu amo você. Eu sempre amei você, desde o início. Mesmo quando pensava que a odiava por ter me rejeitado, eu sabia que na verdade amava você. Ainda era amor, mas amor que foi distorcido ao longo do caminho. Não queria que continuasse achando que eu só a desejava por sexo ou porque precisava dar um herdeiro ao meu pai. Precisava que soubesse que eu queria você aqui, ao meu lado, pelo resto da minha vida.
Emma notou que Raul não estava percebendo o quanto estava apertando sua mão. Estava quase esmagando seus dedos. E ela não se importou com o pequeno desconforto porque ele era uma evidência eloquente da forma como ele estava se sentindo — da emoção que fervilhava dentro dele.
— E eu estraguei tudo ao lhe dizer que achava que você só queria... — Emma não conseguiu terminar a frase, mas ela sabia que Raul não precisava que ela concluísse.
— Minha tentativa de contar isso a você não deu certo, mas achei que isso não importava. Droga, eu iria me casar com você de qualquer jeito. Poderia esperar algumas semanas para lhe contar quando você já fosse minha esposa. Mas esta noite eu descobri que não poderia esperar. Com o casamento tão próximo, eu sabia que não poderia subir ao altar e colocar a aliança no seu dedo sem saber por que você iria se casar comigo. Eu precisava saber. Foi por causa disso que fui ao seu quarto...
Com um suspiro, ele correu a mão livre por seus cabelos. E, de repente, Emma compreendeu o que acabou de acontecer. Ela começou a escrever uma carta para ele, explicando como se sentia, o fato de que acreditava que precisava cancelar aquele casamento. Mas, então, sabendo que seria covardia dizer isso a ele em uma carta, ela a abandonou depois de escrever umas poucas linhas, e saiu para o jardim para tomar a coragem necessária para dizer tudo a ele, olhando em seus olhos. E, então, Raul a encontrou.
— Você viu a carta.
Em silêncio, ele fez que sim com a cabeça e enfiou a mão no bolso para tirar a folha de papel dobrada. Ele a abriu, estendendo-a sobre seu joelho ao luar.
"Querido Raul... Sinto muito...", ele leu em voz alta. A dor patente na voz atravessou seu coração como uma flecha, fazendo-a contorcer os dedos nos dele, de modo que, naquele momento, ela estava segurando sua mão, e era ela quem estava apertando forte.
— Tenho medo de nunca conseguir lhe dar um bebê — disse Emma, sua voz apenas um leve sussurro, tão baixo que ele precisou curvar a cabeça até a dela para ouvi-la. O movimento fez Raul encostar a fronte na dela enquanto seus olhos ardiam de paixão.
— Tentamos durante meses, e hoje... Eu... Nós... Ainda não foi desta vez... — finalizou, as palavras terminando em um soluço.
— E você acha que eu me importo com isso? — perguntou a ela em um tom grave, forte e tão sincero que não deixou qualquer espaço para dúvidas na mente de Emma. — Além disso, por que você acha que a culpa é sua? O problema pode ser tranquilamente meu. Se houver um problema. Sim, eu adoraria dar ao meu pai e à sua mãe o neto que os dois tanto querem. Isso significaria muito para mim. Mas o que é mais importante para mim é ter o seu amor. Se eu tiver isso, serei capaz de enfrentar qualquer coisa.
— E você tem o meu amor, Raul. Você tem o meu coração e tudo o que ele contém. Eu amo você, Raul. Amo mais do que posso colocar em palavras...
— Então, não tente dizer — murmurou, aproximando-se mais para fazer com que as palavras fossem proferidas contra os lábios dela. — Apenas me beije. Apenas me mostre o que sente.
— Não há nada que eu queira fazer mais. — Emma se entregou ao beijo dele, sentindo seus braços se fecharem em torno dela, segurando-a forte. Recostada em seu peito musculoso, ela estava ouvindo as batidas fortes, e lágrimas de alegria arderam nos olhos com o conhecimento de todo o amor que aquele coração forte, honrado e masculino nutria... Por ela.
Emma não teria como precisar quanto tempo eles permaneceram ali, perdidos nos beijos um do outro, ocasionalmente murmurando palavras de afeto, embora na maior parte do tempo as palavras não tenham sido necessárias. Eles enfim estavam unidos. Enfim, haviam alcançado o ponto onde não eram duas pessoas separadas, mas um ser inteiro e preparado para se mover rumo ao futuro.
Relutante, Raul deu um último beijo nos lábios sorridentes de Emma e olhou o relógio.
— Já são 23h55 — disse baixinho. — Se a sua mãe está certa, é melhor voltarmos correndo para casa antes da meia-noite.
— Quero ficar aqui! — protestou Emma. — Não acredito em superstições.
— Nem eu, querida — disse Raul, levantando e estendendo o braço para ajudá-la a fazer o mesmo. — Mas, neste caso, abrirei uma exceção. Amanhã, vou me casar com você, e não quero correr riscos. Quero que, desta vez, tudo seja perfeito. Amanhã, começaremos o resto das nossas vidas juntos. Para assegurar que nada estragará nossa felicidade, podemos sacrificar alguns minutos em nome de uma superstição. Além disso...
Ele tomou seu rosto e, fitando profundamente seus olhos, pressionou mais um beijo longo em sua boca com a promessa de mais por vir na vida inteira que os aguardava.
— Você precisa dormir um pouco. Porque amanhã irá se casar. E eu prometo que, depois do casamento, dormir será a última coisa que vamos querer fazer.
E, deitando os braços em seus ombros para puxá-la para si, Raul se virou para caminhar com ela de volta para a casa e rumo ao seu futuro.
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