Inocente Mulher
1 A Notícia
Notas iniciais
- Melissa Lambrecht
O relógio parecia não ter se movido durante todo o tempo em que Emma estivera sentada ali. Ela jurava que, a cada vez que olhava para o grande círculo branco pendurado na parede verde, o ponteiro grande e o ponteiro pequeno estavam exatamente na mesma posição, como se estivessem zombando do tique-taque a marcar a passagem dos segundos.
Tinha a impressão de que estivera ali a tarde inteira. E, mesmo assim, o tempo mal parecia ter se movido desde o momento em que ela sentara na velha cadeira no meio da sala. Dali, podia observar a porta. Podia ver a aproximação de qualquer pessoa através do vitral, e ficar preparada para quando a porta se abrisse e o homem por quem estava esperando chegasse.
O homem por quem estava esperando? Melhor seria dizer, o homem cuja chegada ela temia, admitiu Emma, com seus olhos verdes anuviando rapidamente.
Ela balançou a cabeça, fazendo os cabelos ruivos com tons dourados roçarem os ombros, mechas escapando do elástico preto com o qual as prendera antes de sair de casa pela manhã. Emma esfregou as costas da mão sobre os olhos em uma vã tentativa de reduzir a tensão.
Sabia que parecia pálida e abatida. O estresse e o sofrimento dos últimos dias lhe sugaram o tom rosado da face, as lágrimas apagaram o brilho dos olhos e as belas feições refletiam a tensão da semana de pesadelo pela qual passara. A calça jeans que vestira com uma camisa de malha preta de mangas compridas, simplesmente porque estava com a mente cansada demais para pensar em qualquer outra coisa, não contribuía em nada para sua aparência.
A roupa tirava mais ainda a cor da pele e a deixava com um ar de cansaço.
A necessidade de saber que sua mãe estava acomodada na casa de sua tia, fortemente sedada por causa do choque, fora muito mais importante do que qualquer vaidade.
Ainda assim, de que importava isso? O homem que viera ver não iria se importar nem um pouco com sua aparência ou a forma como se vestia. Ele não iria gostar de vê-la, e ficaria menos feliz ainda ao ouvir o que tinha a dizer.
— É claro, Sr. Marcín...
Um súbito burburinho no corredor do outro lado da porta a deixou em estado de alerta, o nome bastante familiar confirmando suas suspeitas. Não que precisasse de qualquer confirmação. Sempre que Raul Marcín estava por perto, tudo parecia explodir em atividade. O próprio ar em torno dele parecia ganhar vida, agitando e rodopiando de uma forma que deixava os outros, simples mortais, sem fôlego.
Emma já fizera parte dessa atmosfera de energia e potência gerada por Raul Esteban Márquez Marcín, dono de cabelos negros e olhos cor-de-bronze. Mas isso era passado. Desde que ela fugira desse mundo e de tudo que ele significava.
E ela estava completamente fora desse mundo.
Era um mundo de poder e dinheiro, mas também de fingimento e manipulação. Raul Marcín tomava o que queria das pessoas — das mulheres — e as usava para satisfazer seus próprios desejos, sem ligar para o sentimento dos outros. Fizera isso com ela. E também a teria descartado, sem dúvida alguma. Ele a teria jogado fora quando o propósito ao qual ela serviria tivesse acabado. No entanto, para a sorte de seu coração vulnerável, ela descobrira a tempo a verdade sobre aquele relacionamento. E essa verdade a libertara. Fugira o mais rápido possível, sem olhar para trás e sem querer ver Raul Marcín de novo.
E ela queria manter tudo assim. Só que agora não tinha mais escolha.
Nenhuma. Precisava enfrentar Raul Marcín de novo. Encará-lo e dizer-lhe coisas que, tinha certeza, ele não queria ouvir.
— Se você esperar aqui...
Abriram a porta, deixando passar uma corrente de ar, e uma voz masculina murmurou uma palavra de agradecimento, embora com um tom impaciente. Emma percebeu que suas mãos tinham se movido sozinhas para alisar os cabelos e ajustar a blusa. Recolheu as mãos, não queria que ele achasse que estava tentando parecer bonita para ele. Já havia se importado com isso antes. Houve um tempo em que a coisa que mais queria no mundo era que ele olhasse para ela e sorrisse com o desejo ardendo nos olhos. Mas isso ficara no passado. Agora, desejo era a última coisa que queria que Raul sentisse, de modo que não ligava a mínima em parecer malvestida e desmazelada, tal como uma das serviçais da imensa propriedade de sua família.
— Resolverei isso imediatamente.
— Gracias — disse novamente a voz, provocando arrepios pela espinha de Emma.
Ela não iria se permitir sentir nada.
Não agora. Não depois de tudo que acontecera.
Ela o ouviu entrar na sala, sentiu sua presença, mas não teve coragem de levantar a cabeça e realmente olhar para ele. O arrepio repentino que percorreu por seu corpo retesou nervos que já estavam tensos, tornando a natural apreensão em uma coisa próxima à dor física. Precisou de todas suas forças para manter os olhos fixos no chão, concentrando-se no padrão verde e cinza do tapete ligeiramente puído aos seus pés.
— Perdón!
Raul percebeu de imediato a presença silenciosa de Emma no outro canto da sala. De rabo de olho, Emma notou que o corpo alto e magro dele ficou subitamente imóvel.
— Emma?
Deus, ela havia esquecido como a afetava ouvir seu nome ser pronunciado por aquela voz e com aquele sotaque!
Agora, era necessário olhar para ele. Não havia outra opção. Se não fizesse isso logo, ele iria deduzir o quanto a afetava.
— Olá, Raul — foi tudo o que conseguiu dizer. Ele era maior do que ela se lembrava. Ou melhor, Emma esquecera o quanto Raul era alto e imponente. E, aparentemente, a passagem do tempo apenas aumentara o impacto que ele gerava ao simples ato de entrar em uma sala. Ela não podia evitar o desejo de ficar sentada. A cadeira era baixa e compacta, fazendo que se sentisse desconfortavelmente vulnerável enquanto Raul se avultava sobre ela, avassalador, ameaçador.
Nos dois anos transcorridos desde a última vez que o vira, o tempo transformara-o de um rapaz em um homem maduro e dinâmico. Seu corpo poderoso tornara-se mais rijo e forte.
E os efeitos do tempo eram evidentes especialmente em seu rosto. O formato já fino e a ossatura pronunciada tinham sido enfatizados pela passagem do tempo, que cavara algumas linhas em torno dos olhos e da boca. As sobrancelhas pareciam mais escuras e densas e, a cada lado do nariz reto, os olhos cor-de-bronze ardiam como ouro derretido, ferozes em seu rosto.
Ao contrário dela, ele estava vestindo um terno elegante, bem cortado, combinava de modo perfeito com os músculos definidos, ombros largos e quadris estreitos. Esse terno e a camisa branca impecável que estava usando por baixo eram como uma segunda pele para Raul Marcín, refletiu amarga. Emma pouco o havia visto usando qualquer outra coisa além daqueles ternos de grife. Quase nunca usava roupas mais casuais.
E seu temperamento era igual. Sempre focado, sempre profissional. E, quando não estava trabalhando, sua atenção estava na outra coisa que importava para ele — o ducado de Marquez Marcín e toda a terra que a família possuía.
— Buenas tardes, Emma — cumprimentou, de maneira arrogante. — O que está fazendo aqui?
A indagação rude expulsou todos os outros pensamentos da mente de Emma, fazendo-a levantar-se abruptamente, apoiando as mãos nos braços da cadeira.
— O mesmo que você, presumo. Isto é um hospital.
— Mas eu... — Ele se calou de repente, engolindo em seco. — Alguém está doente?
— Meu irmão — respondeu Emma, balançando a cabeça, quase freneticamente, por temor de que ele visse as lágrimas em seus olhos. Ela encararia a verdade em breve, mas quem poderia culpá-la por precisar de um tempo para respirar fundo e se preparar? Para encontrar a coragem necessária para prosseguir? E especialmente quando era a este homem que ela precisava contar.
— É grave?
Quase foi derrotada por mais uma mudança de expressão, varrendo para longe toda a força que conseguira reunir. Aquele sentimento de compaixão, de compreensão, parecia tão genuíno que quase a deixou chocada, tanto no nível emocional quanto físico. Ela chegou a cambalear por um momento, dedos inseguros apertando a cadeira em busca de apoio. Ele aparentava realmente se importar, embora Emma soubesse que tudo não passava de uma máscara de educação, gerada por necessidade social.
Máscara que seria derrubada de seu belo rosto másculo depois de ela explicar melhor a situação.
— Muito grave.
O pior, ela teria dito. Mas como poderia dizer isso a ele, quando admitir o que acontecera traria tantas outras admissões, tantas outras complicações?
— Eu sinto muito.
Raul disse isso de modo automático, e, embora tenha percebido que soara frio e distante, não conseguiu reunir a energia ou a concentração necessárias para se corrigir. Sentia de fato compaixão pelo irmão adoentado de Emma, mas, ao fim deste longo e miserável dia, Emma era a última pessoa que precisava ver. A última pessoa que desejava ver agora ou em qualquer outro momento.
Quando Emma saíra de sua vida, 25 meses antes, ele ficara feliz em vê-la partir. Mais do que feliz. Sua vontade fora de nunca mais vê-la de novo.
Raul permitiu que Emma entrasse em seu coração de uma maneira que nenhuma mulher jamais fez antes. Na verdade, chegou perto de querer passar sua vida com ela. Chegou até mesmo a pedi-la em casamento.
Mas a resposta de Emma fora rir da cara dele.
— Por que diabos eu iria me casar com você? — perguntou Emma, com voz de desprezo, nítido na frieza de seus olhos, no sorriso zombeteiro de seus lábios. — Não foi para isso que entrei neste relacionamento. Foi para me divertir. E gosto muito do fato de que você seja tão rico. Mas se está pensando em algo mais sério, esqueça!
E foi quando ela lhe disse que já havia conhecido outra pessoa. Seu orgulho ferido ainda ardia como uma chaga aberta, e a presença de Emma naquele instante acabara de arrancar a cicatriz.
Ver aquela mulher era a única coisa que podia fazer com que Raul esquecesse por um segundo por que estava ali.
E essa era uma coisa que Raul não queria esquecer. Por ele, aquilo jamais teria acontecido, mas aconteceu. Se esquecesse, se afastasse aquilo de sua mente por um momento, então, inevitavelmente, em algum momento teria de passar pela agonia de recordar tudo de novo.
— Sinto muito — repetiu, sabendo que, embora sua mente estivesse carregada de raiva desde que Emma o deixou, se ela estava passando apenas um quarto do que ele passou, era completamente humano sentir compaixão por outra pessoa vitimada pelo mesmo horror.
— Obrigada. — Parecia quase tão atordoada quanto ele se sentia, mas esse era o estado de espírito esperado de alguém cujo irmão estava muito doente.
Isso explicava a aparência de Emma, pensou Raul, a mente atordoada e ferida enfim registrando mais do que o fato de que ela era Emma Redfern, a mulher que desejara não ver nunca mais em sua vida.
E agora que lembrou de como ela era, agora que seus olhos haviam se fixado em seu rosto, ele percebeu que não era capaz de desviar o olhar.
Ela parecia um reflexo pálido de si mesma. Era como se alguém a tivesse pintado em tons pastéis ou deixado uma fotografia sua desbotar ao sol. Todo o brilho do rosto desaparecera para deixar apenas uma imagem negativa do que estivera ali antes.
Apesar dos esforços em contrário, às vezes alguma lembrança de Emma invadia sua mente, e nessas lembranças seu rosto era sempre colorido e cheio de vida, com um sorriso largo e olhos verdes faiscantes. Mas, agora, até esses olhos pareciam ter desbotado. O verde brilhante de que ele lembrava desbotou para a cor do mar em um sombrio dia de inverno. Sua pele alva, que caracterizava a ascendência celta, estava agora acinzentada e repuxada sobre os ossos delicados do rosto.
Raul percebeu que ela também perdera peso. As curvas generosas das quais ele se lembrava bem — até bem demais — não mais estavam generosas. Em vez disso, Emma parecia magra, quase frágil. E os cílios compridos, que franjavam seus olhos amendoados, estavam pontuados por... lágrimas?
Lágrimas em um lugar como este, a unidade de terapia intensiva de um hospital, significavam notícias muito ruins.
— Emma?
Se o sentimento de compaixão que ela notara antes quase a destruíra, então esta mudança em seu tom, em sua expressão, quase puxara o chão de seus pés. Isso era, ao mesmo tempo, aquilo de que ela mais precisava, e mais temia. Era aquilo que a fraqueza em seu íntimo mais desejava: este tom de preocupação e apoio. Contudo, ela sabia que jamais deveria se permitir buscar apoio naquele homem, quanto mais aceitar ajuda. Porque, se o fizesse, ainda teria de lhe contar toda a verdade.
Assim, forçou a si mesma a se afastar da tentação, recuando os dois pequenos passos que dera na direção dele sem nem mesmo perceber que se movera.
— Quer tomar um café? — perguntou ela. — É horrível, mas...
O que estava dizendo? Oferecendo-lhe café e dizendo-lhe o quanto era horrível! Ela estava parecendo... Ela não sabia com o que estava parecendo, apenas a forma como tagarelava demonstrava o quanto se sentia nervosa, e que isso alertaria Raul para o fato de que alguma coisa estava profundamente errada.
E se ele começasse a fazer perguntas...
O estômago de Emma se contorceu fazendo o coração descompassar.
— ...café, gracias.
Pelo menos, foi isso que ela julgou ter ouvido de Raul, mas as palavras foram abafadas pelo som do sangue pulsando em suas veias, que parecia um trovão dentro de sua cabeça. E ela logo percebeu que, por algum motivo, não conseguia parar de falar, por mais que se esforçasse em contrário. Era como se, ao retirar a mordaça que mantinha seus lábios fechados para poder falar o mínimo, ela tivesse libertado um jorro de palavras, que saíam sem lhe dar tempo para pensar se queria proferi-las ou não.
— Eles tentam deixar este lugar confortável para fazer com que os parentes e amigos que vem visitar os pacientes, ou aguardar notícias, sintam-se em casa. Mas é claro que isso não é possível, é? Quero dizer, quem gostaria se de sentir em casa na recepção de uma unidade de terapia intensiva?
O copinho de plástico que ela segurava sob o bico da garrafa térmica estremeceu e estilhaçou com a força da mão descontrolada.
— Droga, droga, droga!
Dolorosamente cônscia da forma como Raul a estava observando, com seus olhos dourados atentos para cada movimento que ela fazia, Emma jogou fora o copinho quebrado, sem se importar de ele não ter chegado nem perto da cesta de lixo metálica. Ela pegou outro copo.
— E quem se sentiria confortável aqui? Quero dizer...
Emma deixou escapar um grito de susto e frustração quando, ao pressionar com força excessiva a tampa, a garrafa térmica despejou líquido quente em uma velocidade que encheu o copinho em segundos, chegando até a borda e transbordando antes que ela tivesse chance de impedir.
— Oh, droga!
Ela sabia que devia pousar o copo na bandeja de metal, mas as lágrimas amargas que faziam arder seus olhos agora transbordaram por completo, borrando sua visão de uma forma que ela agora não podia mais ver o que estava fazendo. Se tentasse, poderia errar a bandeja, assim, permaneceu imóvel, incapaz de decidir em que direção se mover.
—Emma...
A voz de Raul soou surpreendentemente suave. Mãos grandes e macias se estenderam até ela. Uma segurou seu pulso para mantê-la onde estava, enquanto a outra retirava o copo cheio de café de seus dedos trêmulos, para pousá-lo com firmeza no tampo da mesa. O calor do corpo de Raul envolveu Emma, o aroma ligeiramente almiscarado da pele dele enlouquecendo seus sentidos. Emma se deu conta de que, se desse meio passo para trás, colidiria com ele, sentindo aquele corpo musculoso contra suas costas.
— Você vai me dizer agora o que está acontecendo? — disse ele, com um sotaque belíssimo.
— Você queria café...
Será que sua voz revelava para ele, assim como revelava para si mesma, o quanto ela estava à beira de um ataque de nervos?
— Eu não quero café — asseverou Raul. — Já bebi café o suficiente hoje, e certamente não quero tomar esse café.
Ele gesticulou em desprezo para o copinho de plástico, ainda cheio até a borda com um café de cor nada agradável.
— Mas você disse...?
Emma foi tomada por uma nova onda de pânico. Será que ele tinha, na verdade, dito que não queria café?
— Desculpe, entendi mal — conseguiu dizer Emma, com esforço.
Ao compreender que havia demonstrado fragilidade, Emma sentiu uma agonia terrível, como se toda sua pele estivesse sendo pinicada por alfinetes e agulhas. Seu coração estava pesado não apenas com dor, mas também com a percepção cruel de que, caso isto tivesse acontecido dois anos antes, Raul teria sido a primeira pessoa a quem teria recorrido em busca de ajuda e apoio.
E ela teria ido para seus braços como um passarinho procurando pelo ninho, voando direto para sua segurança, pensando que ali estaria a salvo. Acreditando que os braços daquele homem seriam uma segunda casa, um lugar onde ela poderia permanecer para sempre. Mas a dura realidade ensinara-lhe que esse senso de segurança tinha sido falso, uma verdadeira desilusão. A verdade era que esse santuário fora, emocionalmente, o pior lugar onde ela poderia ter estado. O mundo real, com toda sua tristeza e amargura, ainda era um lugar melhor.
— E agora...
Ainda presa em seus próprios pensamentos infelizes, Emma não tinha nenhum poder para resistir à mão que segurava forte seu pulso, girando-a para obrigá-la a encarar Raul.
E estava mais perto do que havia imaginado. Ela quase deu com o rosto contra seu peito. Emma estava de nariz nivelado com o botão superior de sua camisa, fitando a pele macia e bronzeada de seu pescoço, vendo a forma como os músculos retesavam e relaxavam quando ele engolia.
— Agora conte-me o que está acontecendo. Conte-me tudo.
— Tudo...?
A palavra saiu em um suspiro de Emma, enquanto os dedos compridos e bronzeados de Raul seguravam seu queixo e levantavam seu rosto para forçar seus olhos a fitar os dele.
— E antes que você diga "Tudo o quê?", e tente me convencer de que nada está errado, saiba que não acreditarei em você.
Como Raul soubera tão precisamente o que ela estivera prestes a dizer? Ele era adivinho agora?
— Por que não?
Ele abaixou a cabeça e, por um segundo, Emma pensou que Raul fosse tocá-la, que ele fosse repousar a testa contra a sua, como costumava fazer num gesto de afeto quando os dois eram namorados. O pensamento fez Emma sentir um aperto no coração. Mas ele parou a poucos centímetros de fazer contato com ela. Em vez disso, pousou as mãos em seus ombros, segurando-a tão forte que ela perdeu qualquer vontade de se afastar.
— Porque eu a conheço e sei como se comporta...
— Faz dois anos que você não me vê!
— Dois anos não é tanto tempo. E alguém como você... Eu jamais poderia esquecer.
Jamais poderia esquecer... E, agora, como ela reagiria a isso?
Se estivesse conseguindo pensar mais claramente, talvez conseguisse interpretar Raul com exatidão. Contudo, sua cabeça ainda estava zumbindo em desespero, e ele não lhe deu tempo para pensar mais um pouco.
— Eu sei que, por mais que esteja tentando esconder, está despedaçada por dentro. Você está caminhando e falando como um robô. Mas um robô ao menos agiria com um pouco de lógica, e você está agindo sem nenhuma. Além disso, estas olheiras... — Ele correu o dedo pelas olheiras escuras de Emma. — Elas revelam muita coisa. E então, Emma? O que aconteceu com Chris?
Em uma série de choques, aquele foi mais um que ela não esperava. Levantou o rosto, olhos arregalados em surpresa.
— Chris... Você lembra do nome do meu irmão?
— Eu me lembro de tudo — respondeu Raul, em um tom de voz que fez correr um arrepio pela espinha de Emma, abatendo ainda mais seu autocontrole. — Então, você vai me dizer agora o que houve? O que aconteceu com Chris?
Como um coelho acuado, Emma ficou hipnotizada pelo calor daqueles olhos maravilhosos. Ela podia sentir seu domínio sobre o que estava acontecendo começar a evaporar, deixando-a trêmula e confusa, sensação piorada pela forma com que as mãos de Raul apertavam seus ombros, dedos rijos afundando na carne macia sob a camisa de malha preta.
— Conte-me — disse ele. Aquilo era um comando, e ela sabia o risco que correria se desobedecesse. Apenas a verdade iria satisfazê-lo, e Raul perceberia se ela lhe contasse qualquer coisa que não fosse a verdade.
— Chris...
Ela vasculhou a mente em busca de uma maneira de dizer isso, mas que maneira haveria além do fato cruel e frio que ela vinha tentando absorver nas últimas 24 horas?
— Meu irmão... Chris se foi. Ele está morto.
E, ao dizer essa palavra final e assustadora, tudo que restava de seu autocontrole se dissipou por completo. As lágrimas que tinham sido contidas pelo choque afloraram com força total. Sem nenhuma força, nenhuma capacidade de lutar, Emma se rendeu à dor e ao sofrimento.
Cegada pelas lágrimas, sentiu os braços fortes de Raul a envolverem, puxando-a para perto, segurando-a com força. E, na escuridão e no desespero de sua perda, Emma não tinha meios de compreender se esse gesto era a coisa mais maravilhosa da Terra, ou se a coisa mais perigosa que já lhe acontecera.
Sabia apenas que, sob suas faces encharcadas com lágrimas, contra a debilidade repentina de seu corpo, havia agora a força e o apoio de que ela precisava. Assim, Emma enterrou o rosto molhado no tecido delicado do paletó de Raul e se permitiu extravasar tudo o que sentia.
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