Inocência e Desejo
22 Capítulo 22
A manhã seguinte começou fria e cinzenta. Em sua casa, Renesmee estava sentada à mesa da cozinha com uma xícara de chá intocada entre as mãos. As olheiras profundas e o olhar perdido denunciavam que não havia conseguido dormir nem por um segundo. O beijo da noite anterior continuava ecoando em sua mente como um incêndio silencioso.
O som da campainha quebrou o transe. Nessie caminhou até a porta e, ao abri-la, encontrou Quim. A amiga trazia uma expressão séria e um olhar pesado de quem carregava uma notícia inevitável.
— Quim... entra — disse Nessie, abrindo passagem.
Quim deu alguns passos para dentro e virou-se para a amiga, segurando as mãos de Nessie com força antes de falar.
— Nessie, eu precisava vir aqui antes que você ouvisse de outra pessoa na cidade. O meu irmão ligou para mim hoje cedo...
Nessie sentiu o peito contrair instantaneamente. A respiração trancou na garganta.
— O que aconteceu com o Jacob, Quim?
— A Claire está grávida — revelou Quim, a voz saindo em um tom suave, porém doloroso. — Eles descobriram ontem à noite. O Jacob vai ser pai.
A notícia caiu sobre Renesmee como um golpe devastador. O chão sob seus pés parecia ter sumido. A esperança louca e secreta que renascera em seu peito após o beijo na livraria foi sumariamente esmagada. A realidade se impôs de forma cruel: Jacob agora tinha uma família em formação.
Nessie levou a mão à boca, tentando sufocar o soluço que rasgou sua garganta. Os olhos castanhos transbordaram em lágrimas violentas. Quim a puxou para um abraço apertado, e Renesmee desabou, chorando desesperadamente nos ombros da amiga, soluçando anos de dor, amor reprimido e a dura certeza de que o futuro que um dia sonhou com Jacob estava morto para sempre.
— Me desculpa, Nessie... Me desculpa — murmurava Quim, acariciando os cabelos da amiga enquanto choravam juntas no meio da sala.
Horas mais tarde, Renesmee estava nos fundos da livraria, na sala de estoque iluminada apenas por uma lâmpada fraca de parede. Ela tentava se focar na conferência das caixas de livros para não pensar no vazio que consumia seu peito.
O som pesado de passos no corredor fez seu corpo congelar. Ao se virar, encontrou Jacob parado sob a penumbra. Ele parecia exausto, com as feições conturbadas e os olhos negros carregados de uma culpa dilacerante.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou Nessie, a voz embargada, recuando um passo até encostar na bancada de madeira. — A Quim já me contou tudo. Você não devia estar aqui.
— Eu precisava te ver — disse Jacob, a voz rouca, dando passos rápidos na direção dela. — Eu não consegui pregar o olho, Nessie. A minha cabeça está um caos. Eu olho para a Claire, vejo a felicidade dela com o bebê... mas quando eu fecho os olhos, é a sua boca que eu sinto. É em você que eu penso!
— Não fala isso! — pediu ela, as lágrimas voltando a queimar seus olhos. — Não faz isso comigo, Jacob!
— Eu não consigo controlar! — desabafou ele, encurtando a distância e segurando o rosto dela entre as mãos grossas. — Eu tentei te odiar por quatro anos, mas ontem à noite... ontem à noite eu entendi que eu nunca deixei de te amar!
A declaração dele atingiu o coração de Nessie com a força de uma tempestade. Jacob aproximou seus lábios e a beijou com um desespero avassalador, faminto e cheio de uma paixão sufocada. Nessie cedeu por alguns segundos, entregando-se àquele beijo profundo e doloroso nos fundos da livraria, sentindo o gosto amargo das próprias lágrimas que escorriam entre as bocas coladas.
Porém, a imagem de Claire radiante e da criança que nasceria veio à sua mente como uma lâmina.
Usando todas as forças que ainda lhe restavam, Nessie apoiou as mãos no peito largo de Jacob e o empurrou com firmeza, quebrando o beijo. Ambos arfavam pesadamente na penumbra do estoque.
— Chega — disse ela, o tom de voz mudando para uma firmeza cortante, embora seu corpo todo estivesse trêmulo. — Chega, Jacob.
— Nessie, por favor... — pediu ele, dando um passo à frente com o olhar em súplica.
— Não! Escuta bem o que eu vou te dizer — cortou ela, limpando o rosto com as costas da mão e encarando-o com uma dignidade inabalável. — Eu nunca vou ser a sua amante. Eu nunca vou aceitar ser a mulher escondida nos fundos de uma livraria enquanto você constrói uma família com a sua noiva. Esse beijo... tudo o que existia ou poderia existir entre nós dois, acabou exatamente aqui e agora.
— Nessie, eu estou confuso, eu preciso de tempo para entender o que fazer! — argumentou Jacob, desesperado ao ver o olhar definitivo dela. — Você não pode simplesmente fechar essa porta depois de tudo o que a gente sentiu ontem e hoje!
— Eu posso e eu vou! — disparou ela, a voz subindo de tom, carregada de uma dor absoluta. — Você vai ser pai, Jacob! Você tem uma mulher que te ama e um bebê a caminho. Honre a escolha que você fez! Honre a família que você está criando! Eu não vou destruir a vida de uma mulher inocente e de uma criança por um fantasma do nosso passado!
— Nessie...
— Sai daqui, Jacob! — gritou ela, apontando para a saída, as lágrimas escorrendo sem parar. — Sai da minha livraria e nunca mais encoste em mim! Vai embora!
Jacob travou diante da determinação devastadora de Renesmee. Ele viu nos olhos dela que não havia mais volta, não havia margem para barganha. Engolindo a seco, com o peito arfando de angústia, ele deu dois passos para trás, olhou para ela uma última vez com o coração despedaçado e girou sobre os calcanhares, caminhando rapidamente para fora do prédio.
Assim que o som dos passos dele sumiu e a porta da frente bateu, o silêncio caiu pesado sobre o estoque.
Renesmee perdeu a sustentação das pernas. Ela escorregou pela lateral da bancada até o chão frio, abraçou os próprios joelhos e caiu em um pranto convulsivo e doloroso, deixando a dor daquele adeus definitivo ecoar no vazio da sala escura.
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