Innocence
1 Capítulo 1 - A Chegada do Inesperado
Era uma noite fria e escura, feixes de luz escapavam pelas frestas da velha cabana. Alguém tinha acendido a lareira que há muito permanecia apagada.
Um clima inóspito predominava naquele lugar. Quem seria o louco que se atrevera a percorrer um bosque tão sombrio, quem estaria buscando abrigo naquela cabana de madeira apodrecida, um mistério intrigante que atravessou a noite.
O primeiro raio de Sol é prenúncio do amanhecer, junto à escuridão também se dissipa o mistério.
Negros eram seus longos cabelos tais como seus olhos, sua expressão vazia atenuava sua aura medonha. Era macia e suave sua pele pálida, contrastava com seus lábios rubros num vermelho tão intenso quanto uma rosa.
Via-se um corpo desnudo e nada além. O vento atravessava suas madeixas e a cada passo era acompanhada por gotas de sangue que escorriam desde seu rosto até os pés.
Era figura de uma mulher, que se dirigia a um riacho nas proximidades, deixando pegadas, rastros de sangue, marcava o local de uma tragédia. Ela adentrou as águas gélidas e aos poucos as manchas da desgraça eram lavadas de seu corpo, restando apenas uma carcaça inerte que boiava sem vida corrente abaixo.
Um grito estridente ecoa, de tom fino e agudo, pássaros fogem assustados, em seguida o silêncio volta a reinar.
Descendo o rio havia um vilarejo de povoado pacífico e gentil, onde todos se conheciam. Lar de Annie, uma menina doce, feliz e de grande sorriso, irradiava alegria. De verão a verão brincava e tinha uma vida normal. Mas o que estava por vir era tão sombrio quanto a noite mais escura, uma viagem sem retorno.
Tudo mudou, a notícia da morte de sua mãe foi recebida de forma brusca e inesperada por todos, principalmente por Aaron, seu pai. Annie foi vítima de sua ira, como não se bastasse a perda de sua mãe agora tinha que aturar os atos desmedidos e violentos de seu progenitor, que em conseqüência da morte de sua amada caiu em desgraça, procurando vícios, como bebida e jogos de azar.
A menina de apenas dez anos se resumia a tristeza e olhos vazios, era tudo o que restava para ela, nada.
Mais uma vez fugindo das agressões de seu pai, Annie, se encolhia as margens do rio, abraçando as pernas, murmurava:
- Pequena Annie, pequena Annie, por que choras pequena Annie?
Aos poucos as palavras incorporavam melodia e logo uma música de ritmo angustiante se formara. A sinfonia de lamento, uma dor sem tamanho, um sofrer implacável.
A vida seguia e aos poucos o assunto foi sendo varrido para de baixo do tapete. Exceto para a pobre Annie, aquilo continuava recente, como se ainda estivesse acontecendo. Presa a correntes indestrutíveis ela acostumou-se a rotina. Seu pai a machucava inúmeras vezes, e o pior é que suas maiores feridas não eram físicas. O olhar de desprezo, o silêncio, a ignorância, a falta de carinho se tornaram companheiros, estavam lá dia após dia.
De hematomas a marcas, de feridas a cicatrizes, seis anos se passaram.
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