Innocence
2 Capítulo 2 - Forasteiro
Um vilarejo pacato de habitantes gentis, assim se falava sobre o Vale das Orquídeas. Recentemente acontecimentos estranhos contrariavam a reputação daquele lugar. Mortes inexplicáveis e desaparecimentos misteriosos. Por menor que fosse o vilarejo, boatos correm na velocidade da luz. Logo que soube a capital, conservadora, enviou um investigador o mais rápido possível.
Seu primeiro caso oficial, recém formado o jovem Jake não via a hora de começar. Era noite quando os galopes de seu cavalo cessaram, depois de cinco dias de viagem tinha finalmente alcançado seu destino. Antes de continuar, ele resolve dar uma última olhada em um pedaço de papel, uma carta:
Jovem Jacob,
com muita felicidade venho dizer que terá sua chance de ouro. Foi o mais brilhante na Academia e espero que seu talento seja usado nessa primeira missão. Acredito em você e em seu potencial. Seu pai foi um homem grandioso, mas não se prenda a limitações, ele era humano como você, não viva numa sombra. Sei que terá bom senso e será guiado por seus instintos, esteja um passo a frente, confie em si.
Obs.: Seu cão é demasiadamente animado e desordeiro. Você me deve por cuidar dele.
Tio Samuel
Repentinamente começa chover e o jovem investigador procura por abrigo, ele amarra seu cavalo em uma área coberta e corre para dentro do estabelecimento, carregando duas enormes e pesadas malas.
- Bem vindo à Estalagem do Vale, em que posso ser útil? Está à procura de um quarto? – diz uma senhora atrás do balcão, onde havia uma sineta e um livro de visitas.
Jake surpreendido deixa cair as malas. Uma delas se abre, revelando alguns pertences inclusive roupas íntimas. Ajoelhado, tentando reunir seus pertences, ele responde:
- Sim, um quarto, é um quarto, seria ótimo...
O jovem misturava nervosismo e timidez em sua fala. A velha mantinha a mesma expressão sorridente, mas era um sorriso vazio que não passava alegria.
Depois do pequeno vexame, Jake se acomoda em seus aposentos. Fora um dia cansativo, uma longa viagem e seu corpo pedia por uma boa noite de sono. Já deitado, o rapaz refletia sobre o que aconteceria a seguir. Gradualmente seus pensamentos se tornavam mais lentos, o sono tomava conta e por fim ele dorme.
Na manhã seguinte, Jake desperta, se aprontava para um novo dia. Desceu as escadas até a recepção da estalagem.
- Bom dia, a minha chegada ontem foi um tanto conturbada e não tive tempo de falar com a senhora. Sou Jacob McDrakke. – se apresentando saudosamente à velha que recebia os hóspedes.
Estranhamente ela conservava o mesmo sorriso inexpressivo, então diz:
- Bem vindo à Estalagem do Vale, em que posso ser útil? Está a procura de um quarto?
Soa familiar, Jake recorda que na noite anterior foi recebido com as mesmas frases.
- Perdão senhora, mas ontem nós nos conhecemos, lembra? Eu já tenho um quarto. – insiste ele em falar com a recepcionista aparentemente estranha.
Ela apenas estendeu a mão e ofereceu uma chave, exatamente como antes. Uma situação curiosa, Jake tirava algumas conclusões. Passados alguns minutos ele desiste de “tentar” ter um diálogo com a velha, saindo porta a fora.
Era uma manhã ensolarada, alguns habitantes circulavam pelo vilarejo. Até aquele ponto parecia uma rotina normal, conforme deveria ser.
Uma grande placa atrai a atenção de Jake, era o anuncio da livraria, hora de obter algumas informações pensou ele.
Alguns olhares curiosos são despertados pelo forasteiro. A sineta na porta anuncia a entrada de alguém. Havia livros por toda a parte, estantes e duas pequenas mesas. Um senhor franzino de óculos enormes e cabelos grisalhos estava concentrado em sua leitura quando é interrompido.
- Olá senhor, sou Jacob McDrakke, venho da capital a procura de uma pessoa. – aplicava uma das primeiras coisas que aprendeu, e era “nunca revelar realmente a que veio antes de obter informações precisas”.
Deixando o livro de lado e ajeitando o óculos, o velho olha para Jake.
- Um viajante! Que bons ventos o trazem? Ah, procurando alguém, é?
Percebia-se sua mania em mudar o tom de voz a medida que falava, suas ultimas palavras podiam ser ouvidas até mesmo do lado de fora da livraria.
Embora tenha achado o senhor um tanto excêntrico, ao menos era melhor do que a velha “incomunicável” senhora da estalagem.
- Era uma pessoa especial para mim, mas parou de responder minhas cartas... – Jake tentava fazer sua historia parece mais verídica possível.
- Ah, desaparecimentos, ultimamente temos muito disso aqui.
Novamente o livreiro alterava o tom, dessa vez era preciso se ater para ouvir o que ele dizia, de tão baixo que falou.
Ele mordera a isca, Jake astutamente conseguiu com que começasse a falar dos desaparecimentos sem muito esforço.
- Muitos desaparecimentos, que terrível – Jake interpretava surpresa e demonstrava interesse casual pelo assunto, sempre tentando não despertar suspeitas.
Infelizmente quando o senhor tomava fôlego para falar o sino da porta é ouvido. Entra uma jovem pálida, cabelos e olhos pretos, usava um vestido azul meio surrado e trazia uma cesta consigo. Chegando próxima ao balcão seus olhos cruzam com os de Jake e por um momento sua mente esvazia por completo. A moça tímida dirige seus olhos para o chão e assim sua franja acaba tampando-os.
- Bom dia Sr. Andrew, trouxe algumas coisas para o senhor. – tão encabulada estava que por pouco a garota não gaguejou.
- Bom dia Annie, que gentileza a sua, tenho ótimos livros para você... Ah, que cabeça a minha, deixe-me apresentá-la a este jovem rapaz, Jacob McDrakke – o velho Andrew indicava Jake.
- Olá... – disse Jake.
- Olá... – Respondeu Annie, ainda olhando para o chão.
Cinco segundos de silêncio foram mais do que suficientes para tornar aquele momento constrangedor. A presença de mais alguém ali fez Jake pensar melhor e adiar a busca por informações.
- Mas já vai partir filho? – diz Sr. Andrew apreensivo pela súbita mudança de idéia do rapaz que há pouco parecia tão interessado em conversar.
- Perdão, me recordei de alguns assuntos pendentes. Até logo, Sr. Andrew, foi um prazer. Até logo Ann... – Jake receoso apenas sai sem completar a frase.
“– O que deu em mim? Aqueles olhos, intrigantes!” pensava o jovem investigador caminhando pelo vilarejo.
Perambulou por toda a parte, tentando descobrir mais sobre os mistérios daquele lugar, no entanto era como se os habitantes tivessem medo de falar sobre qualquer assunto relacionado aos desaparecimentos e mortes sem explicação.
Ao fim do dia, Jake se encontrava ainda no ponto de partida, não saiu do lugar em termos de investigação. Continuava intrigado com os olhos da jovem na livraria quando notou que havia escurecido, as ruelas estavam vazias e um vento gelado soprava.
- Desde que começaram a acontecer coisas estranhas ninguém se aventura a ficar por ai depois que o Sol se põe. – uma voz desconhecida falou.
Ao olhar mais atentamente Jake percebeu um indivíduo maltrapilho, sentado e encostado na parede com uma lata ao seu lado.
- A noite não me assusta, desde pequeno não temo mais o escuro. – responde ao mendigo.
- Mas não é do escuro que você deve ter medo e sim do que se abriga nele. – rebate o homem desconhecido.
Jake viu ali uma oportunidade, mas pôs em duvida a veracidade das palavras de uma velho morador de rua.
- Desculpe, mas o senhor não disse seu nome, o meu é Jacob.
- Sou Howard Hopkins, é um prazer. – com esforço o senhor se apóia na parede e levantar para cumprimentar Jake, mas retrai a mão ao olhar seu estado. – Melhor não, um jovem bem vestido como você não precisa tocar na mão suja de um velho tolo. – completa Howard.
Jake vendo o senhor encabulado estende a mão e diz:
- É sempre um prazer.
Um sorriso de gratidão é visto na face do mendigo que torna a erguer a mão e cumprimenta o jovem.
- Mas o que o senhor dizia? – pergunta Jake.
- É melhor você ir agora, vá garoto! – Howard olhava vidrado por cima dos ombros do rapaz.
Jake sem entender olha para trás e não encontra nada, quando vira o rosto novamente Howard havia desaparecido. Cada vez mais acontecimentos misteriosos, era fato, realmente tinha algo de errado naquele vilarejo, restava apenas descobrir o quê.
Solitário e sem opções Jake retorna à estalagem. Lá estava a recepcionista, imóvel atrás do balcão. O rapaz subiu até seu quarto ignorando a presença da velha e de suas frases “robotizadas”.
Enquanto escrevia seu relatório diário pensamentos invadiam sua mente, tudo era posto no papel, tentava encontrar uma conexão, mas com tão poucas pistas e informações ainda era difícil ligar os pontos. O sono chegou, mas Jake recusava-se a atender seu chamado, andava de ponta a ponta, escrevia mais tentando se manter acordado. Batalha inútil acabou derrotado e dormindo na escrivaninha.
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