Inn

23 Zack x Cody


Zack

Hoje eu estou aqui do bar do J.J., mas... eu ainda não consegui tirar da cabeça aquela loucura do Cody, quer dizer, de onde ele tirou essa ideia de que gosta de mim?

Voltando alguns dias, lá estava eu, olhando para o Cody, meio chocado. Sim, eu estava porque o ambiente ficou em silêncio e eu não sabia o que dizer, ele estava lá, sentado no banquinho, olhando para mim como se o que ele havia dito fosse nada demais.

Ele ficou lá, olhando para mim, com aqueles olhos enormes atrás das lentes, aquela expressão sem vida de sempre.

– Eu não acho que sou a pessoa certa para você, Cody.

– Por que?

– Por que... olha para você e olha para mim! A gente não tem nada a ver!

– Dizem... – ele disse abrindo o livro e olhando um parágrafo. – Que os opostos se atraem. – ele apontou para uma frase no texto.

Ah, fala sério. Peguei aquele livro e joguei para as minhas costas.

– Cody... não vai dar certo entre a gente.

– Você não gosta de mim?

– Não é isso... é só que, bem... – nem eu sabia explicar direito. – É, é isso, eu não gosto de você como você gosta de mim. Entende?

– Hm. – ele falou e desviou os olhos.

– Tudo bem?

– Me sinto triste. – como podia uma pessoa ser tão sincera assim? – É estranho. – ele continuou massageando o peito.

Eu, é... bem, dei dois tapinhas no ombro dele, o que eu devia fazer?

– Vai ser melhor... você vai ver. – eu disse tentando manter um tom animado.

Bem, depois desse dia parecia que nada tinha acontecido. Pelo menos para o Cody, na verdade eu me peguei realmente avaliando se fiz a escolha certa. Observei o Cody enquanto ele limpava as prateleiras e eu cheguei a conclusão que ele usa roupas um pouco maiores que ele mesmo, que o cabelo dele parece bem macio e solto, embora sejam naturalmente bagunçados daquele jeito, como um leãozinho, e se ele tira aqueles óculos ganha mais uns pontos de beleza.

Ele não é um garoto feio, longe disso, ele é até bem bonito do jeito quieto dele, mas se esconde no meio daquele monte de tecido e nessa fachada de gênio ‘não me toque’ que ele tem. Fora que ele parece não ter aprendido bem como se expressar, ele sempre usa a mesma expressão, eu não sei quando ele tá feliz ou cansado ou triste. O rosto dele simplesmente não muda.

Parei para pensar agora e... nunca o vi sorrir, não que eu seja a pessoa mais simpática do mundo, mas eu dou a graça dos meus sorrisos de vez em quando. Cody nunca sorriu.

– E aí, Zack? – J.J chegou para mim no bar, eu vim aqui para desopilar e falar com o meu amigo. Acho incrível as três pequenas irmãs dele ficarem correndo por aqui e fazendo amizade com os bêbados.

Sempre os mesmos clientes, a metade tem contas penduradas e assim vai ficando.

– Pois é... – eu respondi desenhando circulos no balcão com o fundo do meu copo.

– Muita coisa na cabeça?

– Nada demais... só, uns estranhos acontecimentos recentes.

– Sei. Tipo o que?

– O Cody disse que gostava de mim.

O J.J me olhou como se eu fosse a pessoa mais estranha do mundo. Viu? Isso é a reação certa.

– Esse moleque é doido ou burro?

– Eu sei! Foi exatamente isso que eu comentei!

– Vocês não tem nada a ver! Você está tipo, no topo da cadeia alimentar e ele é a presa, sei lá. Isso é muito estranho.

– Já sei.

– Claro que você disse não.

– Claro que sim! O que eu faria com alguém como Cody? É como uma preocupação 24h por dia!

– É, aquele menino não é muito normal.

– Se um cara apontar uma arma para ele, ele não vai saber que aquilo é ameaça, ele é ingênuo alem da conta!

– Vamos para algo mais prático... ele vive sendo perseguido pelos caras da faculdade. Nós mesmos já fizemos isso.

– É, eu não sei de onde ele tirou esse tipo de sentimento.

– Ele é estranho, eu não duvidaria... mas ele é bonitinho, Zack – J.J acrescentou, enquanto ele enxugava os copos com um pano duvidoso. – Talvez dê para passar o tempo... pelo menos deve ser menos promiscuo que o Kevin.

– Espera. Você acabou de dizer que ele era bonitinho?

– Eu observo, ora bolas. Ele é meio magrinho demais, mas eu tenho certeza que aquilo atrás das calças dele não é enchimento. Mas ele não faz meu tipo, faz mais o seu...

– Meu tipo? – nem eu sabia qual era o meu tipo, o que o fazia pensar que ele sabia?

– É, você sabe, garotos, mas baixinhos e mais compactos que você, algo meio twink... – parecia ser isso mesmo.

– E o seu tipo?

– Prefiro alguém da minha altura e corpo, eu penso que posso ser demais para filhotes como o Cody.

Não sei, de repente eu comecei a pensar que eu até respeitava bastante o Cody, quer dizer, até o J.J notou pontos fortes nele que eu nem imaginava existirem... até essa semana, pelo menos.

– Imagino que sim. – é J.J não era nada pequeno e modesto. Não que eu seja pequeno, mas sou menor que quase os dois metros dele.

– Como eu ia dizendo... ele pode servir para alguma coisa.

– Não, o Cody é diferente... ele com certeza não vai entender o que é uma noite de diversão.

– Bem, explique a ele.

Eu o olhei como se ele fosse idiota.

– Estaria bancado o canalha.

– Isso nunca te importou antes.

Eu não acredito que estou ouvindo isso. Quer dizer é o COdy, ele trabalha para mim e...

– Você já viu o Cody? Ele é inocente demais para esse tipo de coisa. E ainda deve ser virgem, sabe como eles são melindrosos e...

– Ah, pare de inventar conversa, Zack. Você tem um moleque disposto a ficar com você e receber todas as suas ordens. Ele já faz isso. Imagine o que você poderia conseguir que ele fizesse por você. – ele começou a ter aquele olhar pensativo no rosto. — Estou começando a considerar twinks agora.

Nah, a ideia é bem interessante, mas... é só que não me parece certo usar o Cody. Tá, quem sou eu e o que fizeram comigo?!

– Parece bom.

– É um plano excelente. – ele disse se vangloriando. – Onde ele está agora?

– Na loja... alguém tinha que ficar lá enquanto eu vinha beber por aqui.

– De acordo.

– E o Von? Ainda não desistiu aquela besteira...

– Na verdade não... hoje eles passaram por aqui para pegar o pagamento mensal de novo.

Agora eu gelei.

– Hoje?

– Sim. Eles não foram lá?

– Não apareceram o dia todo.

Ele me olhou sério e eu sabia o que isso queria dizer.

– Acho melhor você ir, Zack.

– Ah, merda!

Eu deixei minha conta pendurada, eu tinha que voltar seis quarteirões correndo, já era quase hora do Cody sair, por favor que ele tenha fechado mais cedo e ido embora! O que eu achava difícil, o moleque era malditamente certo e metódico.

Eu só queria que eles não encontrassem o Cody lá. Que droga! E ele ia estar sozinho!

Cody

Bem, o sol já tinha quase se posto no horizonte de construções sujas e mal cuidadas e todas as outras lojas ao nosso redor já tinham fechado. Eu olhei para o relógio e ainda faltavam sete minutos para as seis da noite. O Zack geralmente me libera mais cedo, mas hoje eu resolvi esperar por ele porque... eu quero vê-lo.

Eu sei que ele não gosta de mim, mas eu continuo gostando dele. Depois disso eu comecei a pensar o que poderia estar errado comigo, eu passei uns quinze minutos me olhando no espelho, mas não encontrei nada de errado. Mas eu continuo com essa sensação.

Coloquei a mão no meu peito.

E essa também, uma dor que parece que há algo errado com meu coração, mas é só suspirar que tudo fica melhor. E ainda assim, eu quero ver o Zack, eu me sinto melhor com ele, mas as dores pioram quando ele está perto.

Eu me vi debruçado sobre o balcão. Eu não sei como minha cabeça ficou tão confusa... au, au, au, au, suspira, suspira... ah, bem melhor.

O sininho da porta tocou, viu? Se eu não estivesse aqui teríamos perdido um cliente.

– Bem... vindos... – isso não podia estar certo. Tentei me manter calmo ao ver toda aquela gente na loja. Eles eram problema. Minhas mãos começaram a tremer e eu olhei para o líder deles por debaixo das lentes.

– Olá, acho que entramos na loja errada. – o rapaz ruivo comentou cruzando os braços e mantendo um sorrisinho nos lábios. – Finalmente venderam essa maldita loja?

– Não. – outro deles falou, aquele eu conhecia, era o amigo do Zack, o Von. Ele tinha um sorriso sádico no rosto e eu não gostei nem um pouco do que vi. Meu sensor me alertou. – Na verdade, ele é um funcionário do Zack... um nerd da faculdade.

– Faculdade? – aquele olhar de duvida ao qual eu estava acostumado surgiu no rosto do líder deles.

E aquela coisa estranha apareceu, aquele cara que parecia ter sido mutilado e olhava para tudo com muita raiva, parecia descontrolado. Ele me assustava, muito, muito mesmo.

– Ah, então a loja está bem assim a ponto de contratar um funcionário? – o Domy, acho que é esse o nome dele, continuou a conversar me encarando. – Onde está o Zack, garoto?

Eu estava mudo, minha voz simplesmente não saia. O que não ia adiantar se ela estivesse bem, porque eu não sei para onde o Zack foi, mas eu queria que ele voltasse logo.

– Domy te fez uma pergunta, nerd. – Von falou de novo, mas eu não conseguia responder. – Vamos ter que te obrigar a falar? – continuou com um sorriso iluminando seu rosto.

Ele começou a vir para perto de mim, minhas pernas se moveram sozinhas e eu me afastei mais para trás até sentir a parede, mas eu não tirei os olhos dele nem um instante.

– Qual é, Cody, não me dê trabalho.

– Eu não sei para onde foi. – eu respondi quando o Von se debruçou sobre o balcão. Eu não estava assustado com todos eles, eu estava assustado com aquele cara que estava derrubando uns livros das prateleiras e parecia ter uns sérios problemas psicológicos.

– Ótimo, eu volto para falar com ele depois. – o Domy disse se aproximando, os gêmeos conversavam entre si no mundinho deles e pastoravam as ruas. – Mas eu quero que você me dê o dinheiro que ele me deve. – ele se debruçou sobre o balcão também.

– Não tenho permissão para abrir o caixa. – eu não ia dar o dinheiro dos outros para ele. Não ia mesmo. – Você devia voltar amanhã e falar com o Zack. Já estamos fechando.

Ele me olhou como se não tivesse entendido nada do que eu tinha falado. Será que eu deveria repetir? Eu falo baixo, as vezes as pessoas não entendem mesmo.

– Acho que você não está entendendo a gravidade da situação, garoto. Ele deve dinheiro para o meu chefe, sabe?! Para manter a paz e segurança digamos... da vida dele, do pai e por que não a sua? Já que agora você frequenta o bairro e tudo mais. Me dê o dinheiro.

– Só o Zack tem acesso ao dinheiro. – eu respondi tentando bolar um jeito de fazê-los ir embora.

– Mentira. – Von disse logo em seguida.

– Achei que você fosse amigo do Zack. Por que faz isso com ele? – eu perguntei. Bem, eles eram amigos, mas ele não estava agindo como um e isso era errado, não lembro do Zack ser mau amigo com ele.

– Muito bem. – Domy falou antes que Von pudesse me responder. – Se somente o Zack consegue abrir o caixa, vamos todos esperar aqui por ele.

O ruivo sentou de frente para mim no balcão, acendeu um cigarro e ficou lá me encarando, os gêmeos não gostaram da novidade, apenas sentaram no chão. E o cara esquisito ficou andando de um lado para o outro como se estivesse impaciente.

– Vamos esperar pelo Zack até a paciência do Dogg estourar. – o Domy disse de novo olhando para o colega, que para mim já perecia muito impaciente, ele estava babando? Aquilo era baba? Os olhos não tinham foco, eles passavam pouco tempo em cada canto da loja.

O ruivo continuava olhando para mim enquanto jogava aquela maldita fumaça de cigarro em cima de mim. Espero que a minha asma não ataque agora.

– Você não parece o tipo de ajudante que o Zack contrataria. – o ruivo continuou quase terminando o cigarro, ele era como uma chaminé!

– O pai dele que me contratou.

– Ah, mas você parece gostar do trabalho.

– Zack o trata como um príncipe, ninguém chega perto. – Von comentou revirando os olhos.

– Mesmo? – Domy me avaliou de novo.

– São normas da loja. Ele não pode implicar comigo aqui. – eu respondi.

– Mas ele não faz mais nem na faculdade. – Von disse de novo já mais impaciente.

– É mesmo? – o líder comentou me avaliando de cima abaixo. – Sei... então, Cody, você não sabe mesmo aonde ele foi?

– Não.

O cara estranho que me dava nos nervos derrubou uma das estantes mais baixas do meio da loja, eu senti meu coração acelerar, ele respirava alto e grunhia feito um animal selvagem.

– Ah, Dogg não gosta muito de ficar preso no mesmo lugar por muito tempo. – Domy me explicou quando olhou para trás. – Bem, isso também quer dizer que a paciência dele acabou. — o ruivo pulou para o chão. – O que eu faço agora...

– A gente pode mandar o Cody ir procurar o Zack. – o Von disse olhando para mim. Eu achei estranho porque me deixar ir não é algo que eu esperava desses caras, e pela cara do Domy ele também concordava com isso. – Mas nós temos que ficar com alguma coisa dele para garantir que ele volte para buscar.

– Como por exemplo?

– As roupas.

Todos eles sorriram animados pela ridícula brincadeira sórdida. Parecia aquele riso de garotos valentões de colegial! Que adoram implicar com os nerds e quebrar seus óculos essas coisas... e pelo visto eu vou ser o nerd. De novo.

– Ele vai procurar pelo Zack pelado por aí? – o Domy riu alto. Eu não vi graça. Nem um pouco.

– Essa é a ideia. – Von disse já estralando os dedos. – E só vai voltar quando encontrá-lo. Ele deve estar no bar do J.J.

– Por que não vamos lá e pronto? Eu quero beber e dormir. – um dos gêmeos falou sem muito interesse.

– Não, deixe o Zack ter uma surpresinha. – o Domy comentou indicando com a cabeça que o Von podia começar.

Isso. Não. Era. Bom.

Eu não queria andar nu pelas ruas, isso já era demais até para mim.

Ele veio para cima de mim e eu consegui escapar pela direita, depois pela esquerda, para uns homens grandes até que eles eram meio lentos e previsíveis. Quando eu estava perto da porta um dos gêmeos de alcançou e me segurou até que o Von pegou meu braço de novo.

– Fica quieto nerd maldito! – o Von falou enquanto arrancava o avental que eu usava para limpar os livros e não sujar a minha roupa. Ele conseguiu jogar isso no chão.

Quando eu vi que os gêmeos vinham me segurar eu puxei mais forte e saí para a rua deserta, corri eu corri como nunca corri na minha vida.

Ainda assim, dois segundos depois eu estava deitado no asfalto imundo, suando frio e com um cara enorme, com cabelo descolorido e com um olhar de pura diversão nos olhos. Von parecia que adorava me atormentar, mas não era só comigo, eu via como ele tratava os outros caras da faculdade. Ele é um grande idiota

Eu sentia o asfalto ainda quente nas minhas costas, mas minhas mãos estavam preocupadas em evitar que as dele removessem a minha blusa. Ele estava começando a ficar com raiva de mim.

– Já chega, Cody! Fique quieto maldito!

– Eu não vou deixar você fazer isso! – eu falei com todo o pouco de coragem que eu tinha.

Mas ela foi rapidamente drenada quando o cara estranho veio correndo na nossa direção, ele tinha um olhar doentio e parecia mais alegre que o normal. Ele chegou com tudo e jogou o corpo em cima do Von tirando ele de cima de mim e ocupando seu lugar.

– Tira ele de cima de mim! – eu meio que gritei, eu não sou de gritar, mas eu podia sentir o medo crescendo e crescendo, um desespero que eu não costumava sentir.

Mas ele rasgou minha blusa e arranhou meu peito com as unhas roídas, meio que sem querer, porque ele estava muito apressado e estava babando em mim! Que nojo, eu tentei afastar, ele estava suado e eu podia sentir a sujeira grudada no seu corpo.

– Tá maluco, Dogg? – o Von perguntou bravo e sem jeito, começou a levantar e vir na nossa direção de novo.

– Acho que ele pensa que o jogo é outro. – eu ouvi a voz do Domy gritar da calçada.

– Não, cara, sai de cima dele! – o Von disse tentando colocar autoridade naquela criatura, mas não estava funcionando, ele estava tentando arrancar o meu cinto!

Eu tentei chutar, mas eu percebi que já estava tremendo e que estava tudo meio estranho, agora não era hora para um ataque de pânico Cody, por favor, agora não! Mas eu queria esse cara longe mim, ele parecia sussurrar baixinho só para ele, no próprio mundo dele, mas já tinha arranhado toda a minha barriga. Eu já estava todo sujo e suado, prestes a ter o ataque de pânico e começar a chorar.

O Von tinha desistido e só estava lá assistindo como se fosse um show, na verdade ele parecia meio incomodado, olhava para onde estava os outros depois para a minha triste situação desesperadora. Por que ninguém faz nada?!

– Tira ele de mim. – eu choraminguei de novo, mas eu sabia que era inútil, nunca tinha dado certo antes com gente do tipo desses caras e não seria diferente hoje. Eles se divertem com isso, pessoas como eu são os brinquedos e ponto final.

Tentei me virar mais foi pior! Ele puxou a minha calça! Qual o problema dele?

– MAS QUE MERDA! — o Zack gritou muito alto e intimidador, ao ponto do cara em cima de mim finalmente perder a concentração no que ele fazia. Mas foi meu tarde, o Zack o socou.

E foi algo bem forte, porque o estranho rolou para o outro lado, mas não deu tempo dele reagir ou se recuperar, o Zack já estava em cima dele de novo e deu um soco e mais outro e mais... eu sentei, olhei ao redor, e tudo meio que rodou. Não era hipotensão, não era, eu tremia, estava suando frio, eu me enrolei numa bola e tentei hiperventilar.

Não posso ter um ataque agora, eu não posso. Eu me concentrei, escutei gritos e socos, mas eu tentei me acalmar, não funcionou tanto assim, mas quando eu levantei a cabeça tudo parecia em seu lugar, nada girando ou falhando.

Procurei o Zack, o cara que a segundos atrás estava em cima de mim agora estava de quatro no chão segurando a barriga, com o nariz sangrando e cuspindo sangue. Meu estômago embrulhou.

O Domy segurava o Zack pela camisa, aquilo era sangue na blusa do Zack? O Domy deu um soco no Zack e eles pareciam discutir sobre alguma coisa, o Zack devolveu com um chute que fez o ruivo rolar para trás, as aí os gêmeos foram pra cima do Zack e seguram seus braços!

Isso não era justo! O Domy começou a socá-lo várias vezes. Eu tinah que fazer alguma coisa... mas o que alguém como eu pode fazer? Mas depois ele parou, o Zack parecia meio tonto... O ruivo colocou uma mão nas costas e eu vi a arma, um revolver no cós da calça dele. Não, não, não, nada de armas, por favor. Eu levantei, ele vai matar o Zack?!

Assim que eu me pus de pé faróis se acenderam atrás de mim e lá estavam dois policiais. Eles apontaram as armas para a gente, os gêmeos e o Von correram pelos becos, mas o Domy o cara esquisito e o Zack ficaram.

Os policiais apontaram as armas para eles.

– Mãos para cima, os três, vocês estão presos. – um dos homens fardados falou e se aproximou dos três.

Eles arrastaram o Zack até um dos carros e o deitaram sobre o capô para por as algemas, ele olhou para mim por um tempo.

– Tá tudo bem, ok? – ele me disse e eu só concordei. O que eu ia fazer? Um dos policiais chagou para mim, ele me olhava como se eu fosse culpado e me mostrou algemas.

– Não resista. – ele me disse e eu só lhe dei meus pulsos.

– Ele é vítima, idiota! Não dá pra ver?! – o Zack gritou para ele. — Não tem dezoito anos ainda!

– Fique calado, ninguém falou com você. – um dos policiais respondeu e nos colocou na viatura.

Eu sentei ao lado do Zack e os outros dois nas minhas costas. Olhei cuidadosamente para trás, o estranho estava mais preocupado com o nariz sangrando do que comigo. Mas a presença dele não me deixava relaxar, eu ficava olhando o tempo inteiro para trás.

– Quantos anos você tem, garoto? – o policial me perguntou depois de avaliar a minha situação e pararmos num sinal de trânsito, ele desistiu das algemas, meus pulsos passavam por elas mesmo.

– Dezesseis. – eu respondi depois de um tempo. – Mas já sou emancipado.

– Bom, vai poder passar a noite em uma bela cela. – o policial comentou suspirando.

Eu tentei encontrar botões na minha blusa que ainda não tinham sido lacerados pelo cara estranho. Tinha um perto do colarinho e outro acima do umbigo... hm, não fez muita diferença abotoá-los. Olhei de novo para trás.

– Não precisa se preocupar. – o Zack sussurrou para mim.

– Eu acho que ele está muito perto para eu não me preocupar.

– Se ele quiser te atacar vai ter que passar por cima de mim primeiro. – ele disse se aproximando mais de mim. – E dos dois policiais. – isso era verdade. – Pare de tremer, você já está seguro agora.

Eu estou tremendo?

Eu olhei para cima, a boca do Zack estava sangrando e o olho parecia meio inchado. Eu coloquei a mão no bolso e lá estava o meu lencinho de emergência. Geralmente o uso para segurar maçanetas de banheiros suspeitos, mas ele estava limpo.

Levei o lenço até a boca dele, ele se afastou e me olhou.

– O que está fazendo? – me perguntou desconfiado.

– Você está sangrando aí.

– Não precisa, estou acostumado com esse tipo de coisa.

– Eu sei... – mesmo assim eu tentei limpar de novo.

– Se você fica colocando essas coisa em mim dói mais!

– Mas está bem sujo aí.

Ele suspirou e olhou para mim.

– Tudo bem, mas vai com calma e devagar. – tentei limpar de novo. – Eu disse com jeito!

Ele foi reclamando o caminho inteiro como uma criança. Mas quando eu terminei ele estava bem mais apresentável.

Chegamos a delegacia, ela estava cheia de policiais, claro. E tinha almas pessoas suas peitas com algemas, algumas mulheres sentadas, outras saindo com os filhos e mais algumas pessoas sentadas em umas cadeiras esperando. Vários cartazes com campanhas e no meio de tudo, estava a gente.

Nós seguimos um corredor e eu fui o primeiro a entrar. Um homem que parecia um pouco desinteressado começou a fazer uma ficha com meus dados e... ah, droga, vou ser fichado na polícia?!

Eu fiquei olhando ao redor da sala branca com marrom, bem sem graça.

– Então... Cody, é isso? – o homem me disse. – Como você entra nessa história?

– Eu estava trabalhando e os caras da gangue chegaram para pegar o dinheiro que eles cobram mensalmente, mas o Zack não estava, então não podia dar o dinheiro...

– Esse Zack, é Issac Vince? Já foi fichado... oito vezes aqui, você me disse que ele é da gangue e...

– Não, não, Zack não é da gangue, ele foi convidado, mas ele recusou e não quis fazer parte dela...

– Certo, e como ele se encaixa na história mesmo?

– Ele é dono da loja assaltada todo mês.

– Sabe, garoto, é difícil acreditar que alguém fichado oito vezes é inocente.

– Mas ele não teve culpa, ele tem se comportado.

Ele ficou me encarando como se não acreditasse.

– E como você ficou nesse estado? – ele disse apontando para mim com a caneta.

– Bom, eles queriam que eu encontrasse o Zack e para garantir que eu voltasse, eles iam ficar com as minhas roupas. Aí o Von começou a tirá-las, mas aquele cara estranho subiu em cima de mim e começou a arrancá-las, mas ele me arranhou durante o processo, então...

– Então... tentativa de estupro, foi o Zack quem tentou te estuprar?

– O que? Não! Você não está ouvindo o que eu estou dizendo? Não foi o Zack, foi o cara esquisito que tá lá fora, ele não tentou me estuprar ele estava tentando tirar minhas roupas.

– Acredite, eu reconheço uma tentativa de estupro quando vejo uma. Começou com uma brincadeira, mas acabou que os seus amigos passaram dos limites.

– Não são meus amigos.

– Certo. – ele disse com total desinteresse.

– Vou fichar esse Zack.

– Não foi o Zack. O senhor é meio lento, não é?! – o homem me olhou confuso. – Não foi o Zack! Foi aquele cara com problemas lá fora! O que está com o nariz sangrando, o Zak tentou me ajudar, preste atenção na história.

– Cuidado com o que você fala para mim.

– Cuidado com o que você anota aí sobre o Zack. Ele não é culpado, não pode comprometer um inocente.

– Agora você está querendo me ensinar o meu trabalho.

– Não, quero apenas que o faça corretamente.

– Muito bem...

Cinco minutos depois eu estava de volta ao corredor. O Zack me olhou e os outros dois também. O esquisito já estava com o nariz enfaixado.

– Eles te liberaram para ir para casa? – o Zack perguntou, parecia meio ansioso.

– Não... parece que eu faltei com tratei mal a autoridade. Vou ficar em uma cela até virem me pegar. Mas eu deixei um numero para contato.

– Como você conseguiu isso, seu doido.

– Próximo. – um policial chamou o Zack e ele entrou. Eu sentei o mais longe possível dos outros dois e esperei.

Foi mais rápido do que eu. Depois que todo mundo foi entrevistado, eu e o Zack fomos levados para uma cela e os outros dois pareciam que iam ficar um pouco mais de tempo do que a gente.

– Pode ligar para alguém vir buscá-lo? – o Zack perguntou ao policial se referindo a mim. O homem sem muito interesse me olhou.

– Claro, mas ele vai esperar na cela como qualquer outro. Já é emancipado.

– Ele não teve culpa!

– Vocês arruaceiros nunca tem culpa. – o policial saiu falando.

– Foi mal Cody, como diabos eu fiz você vir parar numa delegacia. – Zack falou esperando que a cela fosse aberta.

– Não foi sua culpa.

– Não foi minha culpa? – ele me olhou como se eu fosse maluco.

– Na verdade... eu sou o culpado de você estar aqui. Se você não tivesse brigado com aquele cara você não estaria aqui.

– Não distorça as coisas...

Ele me olhava tenso, eu não sei o que isso quer dizer, ele coçava a cabeça e olhava de um lado para o outro.

– Acha que vão demorar muito para vir te buscar? – ele perguntou, acho que estava preocupado. Eu sei que não sou a melhor companhia, mas...

– Acho que eles serão rápidos.

– Não quero que você entre nessa cela.

Não tinha problema, eu ia ficar com o Zack lá, então isso não estava me incomodando nem nada, eu ia ficar bem. Eu sabia disso. Finalmente eles abriram a porta para nós e nos mandaram entrar.

– Obrigado. – eu agradeci.

Não estávamos sozinhos lá, tinham mais seis homens, uns magrelas e outros fortões, baixos e altos, todos com cara de poucos amigos, alguns nos olharam rápido e ignoram, outros continuaram a nos encarar.

Ficamos sentados em um dos bancos mal feitos de madeira. Eu pensava que a madeira velha e desgastada ia quebrar quando um grandão sentou ao meu lado, eu achei essa cela meio sem graça e sem vida, mas tinha algumas pichações nas paredes e algumas marcas de sapatos sujos nas paredes.

E então eu senti uma mão grande ser posta no fim da minha coxa e vir subindo até o inicio dela.

– Eu sempre gostei dos pequenos e delicados. – o homem falou com sua voz gutural ao meu lado. Qual o problema com as pessoas hoje querendo pegar em mim?!

Zack bateu a mão dele para longe e me puxou mais perto.

– Dá o fora. – ele disse firme, mas sem agressividade.

Porém o grandão não pensou como eu e olhou raivoso para o Zack.

– Seu maldito punk, acha que pode...

– Algum problema aí? – o policial perguntou ao homem ao meu lado.

– Não. – ele respondeu e levantou, foi para o outro lado da cela e ficou encarando o Zack.

Zack só ignorou e suspirou, depois olhou para mim, como se buscasse um assunto para conversar.

– Está doendo? – ele me perguntou. Eu olhei para cima e ele me olhava normalmente, com os olhos pretos e profundos e um olho roxo, mas para mim ele ainda continuava muito bonito, fazia meu coração disparar.

– O que?

– Isso. – ele disse passando o dedo nas marcas de arranhões no meu peito. Como eu disse abotoar dois botões não servia de nada. Apenas os dedos dele tocando na minha pele, me lançou um arrepio estranho pela pele e eu senti meu sangue se acumular nas minhas bochachas.

– Não... só arde um pouco. – eu disse olhando para o chão.

Depois tudo ficou meio em silêncio, apenas o barulho de conversas distantes e telefones tocando da delegacia movimentada, meus olhos começaram a pesar e eu senti quando meu corpo caiu para o lado e se encostou no Zack, eu me apoiei na lateral do corço dele e senti seu braço passar pelas minhas costas.

Nunca senti nada melhor na vida, era aconchegante e quente.

Ele ficou acariciando minha mão com o polegar e eu dormi.

– Cody! Cody! – eu escutei uma voz conhecida distante, mas aqui estava tão bom. Era quentinho e tinha o cheiro do Zack. — Como puderam colocá-lo aí? Isso é um absurdo, ele só tem dezesseis!

– Cody? – eu escutei a voz do Zack me chamando baixinho e eu abri os olhos.

Era o Léo na porta da cela discutindo com o policial, logo em seguida apareceu o Andrei, bem preocupado, e o Edgar com aquela expressão de mau humor de sempre, já me acostumei, é da personalidade dele.

– Pare com isso, Léo, ou você vai ser colocado nessa cela também. – Edgar parou e o ruivo ignorou o policial.

– Oi, Cody, a gente veio te buscar! – o Léo disse me olhando bem preocupado e fungando. O Andrei já tinha voltado a sorrir quando me viu. – Abre logo essa cela, moço! – ele falou para o pocial que estava escolhendo a chave certa. Até que finalmente destravou a porta, o Zack me acompanhou até lá. – Ah, meu deus, olha para ele, tá todo sujinho e quem fez isso com as suas roupas! Isso são arranhões?!

– Calma, Léo! – Andrei falou assumindo a liderança. – Não precisamos de um ataque seu no meio da delegacia. Vamos indo Cody. – ele me disse e olhou para o Zack de novo. – Devo acreditar que você o ajudou de novo?

– Acho que dessa vez foi mais a minha culpa. – Zack disse e o Andrei concordou.

– Eu sabia, eu sabia que eu devia estar louco quando deixei o Cody trabalhar para você! Era suicídio... eu sabia! – Léo começou a falar para as paredes.

O Zack apenas rolou os olhos e me encarou sorrindo.

– E você? – eu perguntei quando o policial ia fechar a cela.

– Não se preocupe comigo. Não é a primeira vez que eu passo a noite aqui. Meu pai me tira daqui amanhã.

– Amanhã? – só amanhã?

– É... ele diz que não vai paerder uma noite de sono vindo aqui, porque eu fiz por merecer.

– Mas não foi sua culpa.

– Acontece que as outras oito vezes foram.

– Você quer que eu fique aqui com você?

Ele me olhou e riu um pouco.

– Você é doidinho, Cody. Quero que você vá para casa.

– Tem certeza?

– Tenho.

– Zack! – o Léo disse chegando ao meu lado. — Depois eu quero conversar com você! Como pode meter o Cody nas suas confusões?!

– Mas ele me ajudou... – eu o defendi.

– Eu duvido muito! – o Léo respondeu com raiva. – Você colocou ele nessa confusão.

– É e eu já me desculpei.

– Desculpou, desculpou?! Ele agora é fichado na policia por sua causa! Fora que... olha para as roupas dele. O que foi que aconteceu?

– Eu estou bem. – eu falei, mas fui ignorado.

– Eu não aguento mais outro acidente desse naquela pensão.

– Não foi porque eu quis, ok?! – o Zack falou um pouco mais bravo.

– Ainda bem que não foi!

– O que você quis dizer com isso, Léo?! – eles iam brigar aqui?

– Que você não é boa companhia para o Cody!

– Eu sei, já disse isso a ele!

– Por favor, vocês não vão ficar fazendo cena no meio da delegacia, vamos para casa, o Cody está cansado, você pode conversar com o rapaz depois o quanto você quiser, Léo. – Andrei falou com um pouco de autoridade com a voz baixa.

– Tudo bem! – Léo disse dando as costas e seguindo o Andrei.

– Vamos indo, Cody. – o Edgar falou e esperou que eu começasse a segui-lo. Eu deu três passos e voltei.

– O que é? – o Zack me perguntou com a cabeça entre as grades, ele parecia chateado.

– Quero dizer uma coisa. – ele abaixou um pouco.

E eu o beijei rapidinho e de leve, ele estava machucado, depois eu me afastei e já estava pronto para ir para casa. Eu não sei porque fiz isso... eu entendi que ele não gostava de mim, mas é difícil, afinal eu ainda gosto dele.

– Hm... tchau. – eu virei para voltar antes que eles viessem ver porque eu demorava tanto.

– Cody, espere ai. – Zack me puxou de volta e ele parecia com raiva, eu fui longe demais?! – Pare de me provocar... ou faça direito.

Eu não entendi, até ele me beijar, diferente do que eu fazia, era bem diferente, até porque eu sentia um pouco do gosto de ferro, mas... estava longe de ser ruim. Quer dizer tinha mais movimento e eu senti a língua dele tocar os meus lábios...

– Cody? – o Léo gritou perto e o Zack me afastou.

– Vá para casa. – ele me disse sério, mas eu ainda estava meio... aéreo sabe?! Estranho. Meu coração parecia que ia sair pelo peito.

– Vamos indoooo. – o Léo disse empurrando as minhas costas, eu fui sento arrastado pelo caminho sem nem notar, até chegar a parte de fora do prédio. – Coitadinho, tá tão traumatizado que está até atordoado! Culpa do Zack! Aquele delinquente, eu vou ter uma longa conversa com ele depois.

Entramos no carro e nos dirigimos para casa... eu estava feliz, estava tão feliz que podia explodir... acho que podia passar por tudo o que eu passei hoje de novo!

– Como você está Cody? – Andrei me perguntou do banco da frente.

– Eu estou maravilhoso. – respondi genuinamente.

Ninguém entendeu, todos me olharam por um tempo e ficaram em silêncio. Mas eu não liguei, para mim estava tudo muito, muito bem.