Inn
25 Téo
Notas iniciais
Cinco dias se passaram depois do incidente do bar e o Seth tentou me ligar umas seis vezes por dia, mas eu não atendi. Eu sei que isso é errado e tudo mais, mas eu estou proibido de falar com ele.
Eu suspirei alto e profundamente. Essa situação ta acabando comigo.
Mais uma vez me olhei no espelho e eu estava pronto para ir para o colégio, desci as escadas e vi Cody tomando café da manhã com aquele olhar de tédio, enquanto Léo conversava com ele, dizia que já tinha feito um bico na polícia e conseguiu convencer alguns policiais a fichar o Cody, afinal ele não tinha culpa.
As vezes eu pensava que até o Cody vivia mais do que eu, quer dizer, ele já foi até preso e tudo mais e eu não conseguia nem sair para beber sem que meu primo descobrisse e alguma merda acontecesse. Mas eu estou pertinho de fazer dezoito e serei, tecnicamente, independente, o problema é que ainda terei que ir para faculdade e termina-la para ter um emprego estável.
Fora que, segundo a minha promessa, eu ainda teria que voltar para casa por um tempo. É assim tão ruim eu não sentir saudade da minha mãe?
Quando coloquei os pés para fora, o carro do Ace já estava lá me esperando. Era uma liberdade um tanto vigiada essa minha e eu não entendo o porquê de tanta preocupação, eu já estou bem.
Eu entrei e pela primeira vez ele não estava trabalhando em algum tablet ou qualquer coisa assim, ele me olhou e sorriu. Eu ainda estava bravo com ele, mas... ele era tão lindo. E vê-lo sorrir era tão raro.
– Bom dia. – eu disse quando me acomodei, mas realmente sem muita emoção, na verdade eu estava confuso entre meu coração palpitando e uma vontade imensa de pedir a revogação da minha proibição.
– Bom dia. Como você está?
– Bem.
E esse foi nosso diálogo o caminho inteiro. Eu tentei me animar pelo caminho, mas sabe... era difícil com toda aquela campanha de verão e o Seth espalhado por aí. Ele é um cara legal, talvez eu consiga convencer o Ace a tentar conhecê-lo melhor e tudo fique bem depois. Eu sinto falta do Seth.
Quando chegamos ao colégio eu percebi que o Ace estava muito pensativo. Ele me olhou e eu notei que ele queria me dizer alguma coisa.
– Quer me dizer alguma coisa? – eu perguntei e ele se debruçou sobre as pernas, ficou olhando um pouco para as duas mãos juntas e finalmente me olhou.
– Quero que volte para casa.
Eu fiquei meio sem saber o que fazer.
– O que? Por que? – acho que eu soei um pouco mais indignado do que eu queria.
– Sua mãe já voltou de viagem e ela sente sua falta, quer te ver.
– Você disse que eu poderia ficar até terminar o colégio.
Ele passou a mão pelos cabelos curtos.
– Téo, eu entendi na época que você precisava de um espaço urgentemente se não você ia enlouquecer com a maluca da sua mãe. Mas já chega, mais cedo ou mais tarde ela aparece aqui e faz um escândalo ou sei lá, então... só faltam uns dois meses para você se formar.
– Eu ainda tenho dois meses e eu gostaria de ficar na pensão até o fim do meu prazo!
O Ace suspirou cansado e me encarou fundo nos olhos, ele tem um olhar bem penetrante e hipnotizante. Mas no momento eu estava bem mais preocupado com meu futuro.
– Eu não aguento mais ela tagarelando sobre você no meu ouvido. Ela é sua mãe e se preocupa com você.
– Eu não quero voltar agora, Ace.
– Téo, eu tenho outras obrigações! Eu tenho um empresa inteira nas minhas costas, uma casa imensa para cuidar, uma faculdade por concluir, tenho que escutar sua mãe reclamar o dia inteiro sobre você, eu tenho que cuidar de você, não posso ficar atrás de você o tempo inteiro...
– Você não precisa cuidar de mim. – eu falei um tanto magoado. Eu nunca quis causar problema para ele, foi ele quem sempre tomou a responsabilidade para si.
– Eu me preocupo com você. Claro que preciso cuidar de você! Não lembra da confusão que você quase se meteu? E isso foi porque eu relaxei um pouco...
Agora eu fiquei com raiva.
– Eu não sou criança, você não precisa vigiar cada passo que eu dou! – eu sai do carro, já deu para mim. Eu o amo, amo demais... mas ser visto como um garotinho indefeso me dá nos nervos! Todos me tratam como porcelana!
– Téo, eu não quero que você fique chateado comigo. Entre aqui e vamos conversar.
– Não. – eu falei e a expressão do Ace mudou, ele estava confuso, minhas pernas começaram a ficar bambas. Eu não sou muito de enfrentar as pessoas. Muito menos o Ace. – Eu não vou voltar antes do prazo e eu não preciso de você cuidando de mim, eu sei me cuidar.
– Você nunca falou comigo assim. Eu faço o que eu faço porque eu gosto de você e me preocupo com você.
– Eu sei, Ace, mas você me trata como se fosse quebrar e... – eu conhecia aquele olhar de cumplicidade. Eu não queria ver mais esse olhar no rosto do Ace, eu me esforcei muito para ele não olhar mais para mim assim e parece que não deu resultado. Aquele nó se formou na minha garganta.
– E não pode acontecer a qualquer momento?
Eu fechei a porta e entrei no colégio. Não adianta. Não ia adiantar eu dizer mil vezes que estava bem ele não ia acreditar e eu não queria falar com ele agora. Eu não queria passar pela vergonha de ter que chorar na frente dele de novo.
Sabe... eu passei pelos portões do colégio e todos estavam chegando e se dirigindo ao interior do prédio era só mais um dia normal e de repente eu me sentia só. Quer dizer, eu nunca fui bom em fazer amigos, não tenho nenhum, nunca fui próximo de ninguém o suficiente e aí apareceu o Seth e agora eu não tenho ninguém de novo.
Só percebi agora que parei no meio da passagem. O Seth não me ligou mais ontem...acho que finalmente ele desistiu de mim. Eu teria cansado também. O que eu faço agora?
Senti um braço rodear meus ombros e um corpo se chocar com a lateral do meu. Era o Alex.
– Por que diabos você está parado no meio do caminho? – ele me disse com aquele sorriso típico de pessoas cem por cento confiantes, o cabelo dele caia sobre os olhos cinza, precisava de um corte. – Como estão as coisas na pensão?
– Estão bem como sempre. — ele foi andando e me fazendo andar com ele. – E você, como está na casa nova?
– Ah... eu ainda não me mudei definitivamente. – ele disse olhando o caminho em frente.
– E por que não? Achei que estava morando com o seu namorado.
– Ele não é meu namorado. – Alex disse com um sorriso no rosto.
– Léo disse que para ele ter te aceitado ele finalmente tinha te assumido...
– Léo é um linguarudo e não sabe de nada. Nós temos um relacionamento aberto e eu estou bem com isso.
Eu pensei um pouco e de todos os ângulos isso me parecia errado.
– Isso não te incomoda mesmo?
– Desde que eu mudei para lá eu percebi... que realmente eu estou muito longe de ser o único. Mas eu pretendo trabalhar isso. Aqui estamos.
Alex me deixou na porta da sala e seguiu pelo corredor.
Eu fui sentar perto da janela, hoje não era um bom dia para assistir aula, minha atenção estava dispersa e meus pensamentos no mundo da lua. Eu não queria voltar para casa, não agora. Queria terminar o meu tempo morando sozinho.
A quem eu quero enganar. Eu sempre estive sob os olhos atentos do Ace e ele sempre esteve lá para mim, desde as minhas gripes a me deixar no colégio, quer dizer... eu só tenho dormido fora de casa basicamente!
Eu queria experimentar um pouco de toda a liberdade que o mundo oferece, sabe. Eu passei tanto tempo da minha vida trancado que eu simplesmente queria ver algo novo. Olhei para o quadro e eu tenho certeza que aquela aula era de matemática, mas tinha algo como tipos de relevo.
Eu suspirei bem fundo para ver se aquela sensação pesada saia junto com o ar. Costumava funcionar para me acalmar. Mas não adiantou muita coisa não, então o sinal tocou indicando nosso intervalo.
A sala foi ficando vazia e eu peguei um sanduiche que o Andrei tinha feito para mim. Estava bom, era o meu preferido.
De repente eu escutei alguém gritar no corredor e muita gente passar correndo pela porta. Geralmente eu não ligo, mas como eu não tinha nada pra fazer eu fui até a porta para saber o que era. Tinha muita gente ao redor de alguma coisa, ou alguém, ou uma briga. Eu tentei ver de onde eu estava, mas tinha muita gente na frente.
Mas foi entre o revezamento dos curiosos que eu vi o Alex no chão, encostado na parede e em forma de bola. O que aconteceu?
Eu fui até lá e tentei entrar na multidão, eu fui meio grosso porque não estava conseguindo driblar a barreira de olhos, até que eu estava basicamente em cima do moreno. E só de olhar eu sabia o que era aquilo.
Um ataque de pânico.
Eu desci até próximo dele e ele estava hiperventilando e tremendo.
– Agora fique calmo, Alex. Sou eu o Téo e eu vou ficar aqui com você, ok?!
– Eu... estou bem. – ele disse sem muita emoção.
Ótimo, ele estava se recuperando. O diretor vinha na nossa direção e dispersou a multidão, eu acompanhei o Alex até a sala do homem, qual foi minha surpresa ao ver o Seth lá, muito bem sentado.
Ele olhou na nossa direção e ficou me encarando.
– Oi. – ele disse e eu me assegurei que o Alex sentou na cadeira direitinho. Os olhos cinza estavam meio perdidos e ele estava pálido, fui até o bebedor e enchi um copo de água para ele. Mas ele só aceitou e ficou olhando o nada.
– Oi. – eu falei meio sem jeito. Sem olhar para o Seth.
– O que aconteceu com ele?
– Ataque de pânico.
– Hm...
– O... que você está fazendo aqui? – eu estava nervoso, com vergonha e sem saber o que fazer. A conversa estava tão casual que não parecia ele, ou eu.
– Bom, como você não me atendeu nem nada... eu pensei em vir te procurar aqui longe dos olhos do seu primo. – ele falou sem olhar pra mim.
– Olha, Seth, não é porque eu quero é que...
– Não precisa se explicar. Eu sei que você gosta muito dele e tudo mais. Eu quero que você venha comigo, ok?
Ele me estendeu a mão e os olhos amendoados me encararam sérios e com uma intensidade incrível, eu segurei a mão dele, mas... por que eu sou tão covarde?
– Eu tenho que ficar com o Alex. – eu falei, sem olhar para ele.
– Por mim você pode ir. – o Alex disse sem emoção alguma. – Já ligaram pro Luther. – por algum motivo ele não parecia gostar da situação.
– E as aulas?
– Pelo amor de deus, Téo, você deve ter o melhor currículo dessa escola inteira. – o Alex disse me olhando. – Vá se divertir um pouco. Acho que o seu amigo aí pode te proporcionar muita diversão.
É. É, por que não? Ia ser divertido. É, era disso que eu precisava, eu preciso de um pouco de diversão e de uma real liberdade.
Quando eu foi tocar a mão do Seth ele a tirou do caminho... mas o que foi? Ah, não, ele se irritou e vai retirar o convite, eu sou mesmo um idiota. Eu o olhei por entre os cílios, ele suspirou, mas não sorria.
– Eu só quero que você aceite se você quiser realmente ir. – ele me disse bem sério.
– Eu quero ir. – eu falei meio sem firmeza, mas ainda assim, sem dúvida.
E então o sorriso estava de volta, como se aquela expressão séria nunca estivesse estado lá.
– Ótimo. Siga-me.
– Hm... tchau. – eu disse ao Alex quando o Seth me puxou para fora.
A gente caminhou para fora ao mesmo tempo que os meus colegas voltavam para a sala, caminhamos pelo pátio em direção ao portão. Eu estava animado, meu coração estava disparado, eu nunca tinha feito nada assim antes.
E eu não estava me sentindo culpado, se o Ace me via como uma criança indefesa que ele tinha que manter o olho dentro de um cercadinho ele ia começar a repensar seus conceitos.
Nós quase esbarramos em um homem moreno que entrava pelo portão, estava com cara de poucos amigos e parecia que tinha sido acordado. Passou por nós como se nem existíssemos.
E lá estava o carro do Seth.
– Para onde vamos? – eu perguntei só para matar a curiosidade.
– O que acha de irmos à praia?! Soube que está tendo uma competição de surfe e tudo mais.
– Hm... ok. – eu falei, eu não costumo ir a praia então sou muito branco, por isso quando eu tiro a blusa o sol reflete e pode causar algum acidente de carro.
Eu só não sabia que era uma praia distante, dirigimos uma hora para chegarmos lá! Mas foi divertido, ele me contou como tinha sido a semana dele, algo como cheio de compromissos e de anúncios, mas em nenhum momento ele tocou no assunto de eu ter sumido da vida dele e tudo mais. Ótimo, ele não tinha se chateado.
Quando chegamos ao nosso destino, estava mais para um festival eu acho, tinha muitas barraquinhas e um numero razoável de pessoas. Parecia bem divertido e os surfistas ainda não tinham começado, ótimo, bem na hora.
– Eu só acho que a gente não está muito no clima. – Seth comentou apontando para as nossas roupas. — eu estava de uniforme, calça vermelha, blazer vermelho, a gravata eu deixei no carro. Ele estava de jeans frouxo. – Vamos comprar alguma roupa pra gente.
Ele saiu andando e nós encontramos um quiosque que vendia shorts e camisetas, eu escolhi um short azul marinho e branco e o Seth um vermelho, duas camisetas simples e era isso. Quando eu fui pagar o Seth não deixou, disse que meu primo podia estar de olho no meu cartão.
O que eu não duvidava de jeito nenhum. Eu estava começando a me chatear com isso.
Nós assistimos a competição, e tomamos sorvete, estava bem quente, então eu me sujei mais do que tomei sorvete. Tomamos banho no mar, apostamos quem ia ganhar a competição, mas como a gente não entendia muito do assunto, os nossos foram os últimos colocados.
O Seth tentou aprender a surfar, mas ele não levava jeito, ele podia ter um corpo atlético e tudo mais, mas simplesmente não era o negócio dele. Assisti-lo cair da prancha mil vezes foi a melhor parte do dia.
Ele atraía olhares, eu percebia, principalmente das garotas, eu escutei todos os comentários sobre ele e... era legal que ele tivesse esse tipo de atenção, mas eu me sentia muito bem por ser próximo a ele, mas não gostava de imaginar mais alguém se juntando ao grupo e dividindo a atenção dele. Isso é estranho?
Foi um dia divertido, mas o sol ia se pondo e nós ficamos lá deitados sobre a areia da praia, alguns dos presentes fizeram fogueiras. Mas a maioria já tinha ido, o vento estava ficando mais frio e o céu escuro, apenas com os leves tons de azul, vermelho e laranja. Algumas estrelas já estavam lá e a lua também, um pouco fraca, mas linda como sempre.
– Foi divertido. – eu disse para o Seth.
– É, eu concordo. Até que não é tão ruim sair com você.
– Isso soa como se eu fosse sua ultima opção.
– É, as vezes eu acho que você pensa a mesma coisa em relação a mim.
Ele ficou chateado.
– Não foi porque eu quis, Seth. Mas o Ace...
– Eu acho que esse seu primo quer controlar demais a sua vida.
– Ele só se preocupa comigo. – até demais.
– Eu sei, eu também me preocupo, mas eu não vou te impedir de sair com seus amigos porque algo pode acontecer com você. Nem vou te causar dano nenhum.
– Eu sei disso! Mas ele não sabe...
– Eu não ligo para o que ele pensa de mim. Mas realmente me incomoda o fato de que ele tem essa enorme influência sobre você.
– Também não é assim! – eu levantei com a areia deslizando das minhas costas.
– Claro que é. É só ele mandar que você o obedece.
– Claro! Eu não quero que ele fique com raiva de mim! – eu falei meio seco e olhando para o mar sem nem mesmo prestar atenção. Eu me apoiei nos meus joelhos, ele não precisa esfregar na minha cara que eu pareço um cachorrinho adestrado! Eu só sou obediente e além disso... eu quero me provar bom pra ele.
O Seth se ergueu ao meu lado e colocou um pouco das minhas madeixas curtas atrás da minha orelha, ele se aproximou e suspirou.
– Olha, Téo, eu não quero brigar nem quero que você se chateie. Eu sei que você faz tudo o que faz porque gosta dele e não quer deixá-lo com raiva. – ele guiou meu rosto para olhar para ele. O seth ficava bem melhor sem todos aqueles apliques longos dos pôsters, ele é realmente muito bonito, não sei porque ele perde tempo comigo. Ele sorria para mim e eu só sorri de volta, eu não consigo ficar bravo com ele de todo jeito. – Eu só quero que você saiba que tem opções.
Sua voz baixou alguns tons e o rosto dele foi chegando mais perto e mais perto. Meu coração acelerou, as minhas mãos começaram a suar e a areia grudou nelas, eu sentia a respiração dele perto de mim, meus olhos cresceram, eu estava bem assustado, mas eu não consegui me mover nem afastá-lo ou pará-lo ou...
Eu senti os lábios macios nos meus, eles eram delicados e gentis, era estranho e bom. Era relaxante, fechei os olhos para me concentrar em sentir apenas. A mão dele seguiu delicada ao meu rosto e acariciou a minha bochecha, mas era divertido como os lábios se moviam, era estranho, mas era bom, eu senti a língua dele com a minha... será que era para eu ter feito isso?
Acho que sim, eu senti a língua do Seth entrar na minha boca e realmente vasculha-la como podia, o ritmo acelerou e não consegui mais acompanhar, ficou quente, estava difícil respirar e acompanhar aquilo, eu podia ouvir o som a minha respiração, até que eu não aguentei e me distanciei.
Ele me olhou nos olhos e me deu um beijo na testa. Um bem demorado, eu só coloquei minha mão em seu peito.
– Desculpe-me. – ele me disse.
– Hm... não tem problema. – eu não sabia o que dizer, nem como reagir, mas eu não vi problema nenhum com aquilo.
O coração dele estava acelerado, senti quando coloquei a mão em seu peito, tão acelerado quando o meu. Ele se afastou e olhou para o mar, parecia um pouco preocupado, ou seria perdido? Eu espero que seja a segunda opção porque eu também não sei o que fazer.
– Hm, isso fez parte do treinamento? – eu perguntei enquanto cavava buracos no chão.
– Queria poder dizer que sim.
– O que quer dizer?
– Um dia eu te digo. Mas agora acho melhor irmos, não é seguro dirigir por essas estradas de noite.
Ele levantou e me estendeu a mão. Eu a segurei, mas eu não sabia o que fazer depois, eu levantei e continuei segurando, depois seus dedos se fecharam nos meus e parecia tudo tão bom, tão legal, eu estava gostando daquela sensação.
Eu não sabia o que falar nem ele puxou assunto, então eu comecei a cantarolar. Fazia séculos que eu não cantarolava. Eu fui o caminho todo desse jeito e meio avoado olhando para a estrada, eu me sentia tão leve.
– Que música é essa? – o Seth me perguntou casualmente.
– Eu não sei. Você gostou?
– Parece bonita. Quer dizer que você é bom em inventar músicas.
– Mais ou menos.
Parecia que nada tinha acontecido, mas minha boca ainda estava bem quente.
E quando nós chegamos a frente do pensionato, eis que estavam Ace e Léo na porta. Meu primo não estava nem um pouco satisfeito, principalmente quando viu o carro do Seth estacionar na rua sem saída.
– Eu vou falar com ele. – eu disse já pensando em como eu ia lidar com aquela situação.
– Não, eu falo. – o Seth disse descendo do carro. Não, não é uma boa ideia.
Nos aproximamos juntos, o Ace segurava a minha mochila e me olhava acusadoramente. Eu tinha esquecido que ela tinha ficado no colégio, ele a estendeu na minha frente e eu caminhei para recebê-la.
– Onde você estava? – ele me perguntou em um tom ameno.
– Eu estava na praia. Tinha um campeonato de surf e eu estava com vontade de assistir.
– Isso não foi ideia sua. – ele falou impassível.
– Foi minha. – o Seth falou atrás de mim, mas foi ignorado.
– Eu pedi para você não andar mais com ele.
– Mas ele é uma boa pessoa, se você o conhecesse...
– Ninguém que sequestra meu primo, o deixa incomunicável, o persuade a faltar aula em prol de um lazer, é fichado na polícia por baderna, me parece uma boa pessoa, Téo. Se depender de mim você não vai andar com as pessoas erradas.
– Vamos acalmar os ânimos. – o Léo disse em direção ao Ace.
– Ele não me sequestrou! Eu fui porque eu quis!
– E isso deveria melhorar a sua situação?! Só mostra que ele está o levando para o caminho errado!
– Só estou dando um pouco de liberdade que você nega a ele. – o Seth se meteu e o Ace o encarou furioso.
– O que? Você não sabe o que diz! Só sabe arrastar os outros em suas confusões.
Eu fiquei observando os dois cara a cara, peito a peito, o Ace era um pouco mais alto que o Seth, mas eu não queria que eles começassem uma briga.
O que eu faço.
– Eu só quero que você o deixe crescer e pare de ser tão super protetor! Chega a ser ridículo. – Seth cuspiu.
– Não se meta nos meus assuntos! Da minha família cuido eu!
– Eu vou mandar a real pra você, super pai... junte-se a mim ou você vai perder.
– Tente.
– Ok, ok. – o Léo falou e passou por mim, assanhou meu cabelo e separou os dois. – Escutem aqui rapazes, o gramado está cheio de testosterona, e vamos parar por aqui. Primeiro, qual é o seu problema, Ace?
– Meu problema é um maldito loiro arruaceiro que quer levar o meu primo para o caminho errado.
– Ótimo. E qual o seu problema meu jovem?
– Meu problema é um executivo engomado que não sabe o que é liberdade porque vive sobre as rédeas curtas para atingir todas as expectativas impostas a ele. E ele quer o mesmo futuro infeliz pro primo.
– Seu filho de uma pu...
O Ace ia partir para cima do Seth.
– Não! Calma. – o Léo disse tentando segurar o Ace no canto.
– Deixa ele vir, aposto que o derrubo. – o Seth provocou.
– Agora, rapaz, comporte-se. – o Léo falou sério. – Finalmente, você querido, que está no meio do fogo cruzado, qual o seu problema?
O Léo disse olhando para mim.
– O meu? – o Ace e o Seth me encararam. – Eu... queria poder sair com o Seth sem deixar o Ace chateado.
Eu sou muito burro mesmo. Não era exatamente isso, mas no fim acho que pode ser uma forma de dizer.
– Como podemos resolver isso, rapazes? – o Léo perguntou e os dois pareciam pensar.
– O problema é só com esse cara. – o Seth disse dando de ombros.
– Não acho que sair para passear com o Téo como você fez hoje seja exatamente correto. – o Léo disse e o Seth ficou calado.
– E se eu... voltar para casa. – eu falei finalmente e todos olharam para mim. – Eu volto para casa e você vai ter menos preocupações, Ace, mas em troca eu quero ter passe livre para receber e sair com o Seth.
O Ace ficou andando de um lado para o outro, por um tempo e parecia resolver um complito interno. Finalmente ele suspirou e olhou para o céu.
– Com o horário que eu estipular. – meu primo falou depois de olhar para o Léo, que só lhe sorriu simpático.
Isso era ótimo, eu ia poder ver o Seth agora!
– Melhor do que nada. – o Seth falou me sorrindo.
– Ótimo, e um aperto de mãos? – Léo forçou a barra e o Seth estendeu a mão. O Ace a apertou. – Excelente, dois amigos. Isso não é ótimo?
– Cale a boca. – Ace falou vindo na minha direção. – Vá arrumar as suas coisas, então. – o tom dele se amenizava quando falava comigo.
– Isso pode demorar. – eu respondi, tinha muitos posters, jogos, roupas, minha nossa, minha coleção de mangás!
– Ótimo, porque eu estou morrendo de fome. – Léo falou puxando o Ace. – Você pode me levar para comer um sanduiche enquanto o Seth ajuda o Téo na mudança! Voltamos em algumas horas.
O Ace apenas revirou os olhos e seguiu o Léo. O que eu acho muito estranho, eu sei que o Ace conheceu o Léo na faculdade, mas eles parecem muito amigos agora.
– Quer ajuda? – o Seth me perguntou e eu respondi que sim.
Demorou umas quatro horas para arrumar tudo, mas estava tudo bem e só faltavam duas caixas para serem postas no porta malas do carro. Bom, é isso. Eu olhei ao redor do quarto e me despedi. Eu senti um vazio enorme ao deixar aquele lugarsinho.
Foi bom morar aqui por um tempo, sabe. Eu me despedi do Andrei, do Edgar e do Cody. Eu não vou chorar eu não vou chorar.
Quando eu cheguei lá fora, dei um tchausinho para o Eros que nos observava da janela do quarto, ele piscou para mim e eu senti meu rosto ficar rubro. Que bobagem, ele faz isso de propósito.
O Seth se despediu de mim, me entregou a ultima caixa, estava pesada, me deu um beijo na bochecha e se dirigiu ao carro.
Eu fiquei paralisado, eu lembrei do beijo na praia e meu coração acelerou. Aquele foi meu primeiro beijo. O beijo que eu tinha guardado para o Ace! Mas não parecia errado, na verdade foi muito bom, eu nunca pensei... ah, minha nossa o que vai acontecer agora? E se o Ace descobre? Ele vai pirar? Ele vai ficar com ciúmes? Não vai nem ligar?
– Vamos? – o Ace disse quando se despediu do Léo e me olhou confuso.
Eu balancei demais a cabeça eu acho. Quando eu dei um passo, o fundo da caixa abriu. Tudo meu foi ao chão.
Ah... que merda!
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