Inn
21 Léo
Notas iniciais
Léo
Estávamos sentados na sala, Eros e eu. Ele sentou-se em uma das poltronas a minha frente e eu tomei o meu lugar no sofá, ele descansou as pernas na mesinha de centro e apoiou o rosto com o punho da mão enquanto seu braço descansava no encosto da cadeira.
Só escutávamos o barulho do relógio do Andrei que fazia um tic-tac alto no ambiente escuro da madrugada. A casa estava silenciosa e eu estava me segurando para não subir e verificar o Alex pela milésima vez.
Eu acho que, assim que as coisas melhorarem... devemos tomar as medidas cabíveis! Mas isso depende muito do moreno lá em cima e ele não parece muito disposto, acho que vamos acabar deixando que o namorado dele faça tudo. O que é uma pena porque se eu pego o maldito que fez isso a ele...
Mas, o que no momento me ocupava a cabeça era a história do Téo. Eu concordei em ajudar o primo a ficar de olho nele. Calma, é claro que eu não vou reportar cada passo do garoto para o Ace, mas concordo que o Ace como primo e, visivelmente, responsável por ele morar sozinho, tem razão em querer saber como ele está e tudo mais.
Prefiro que seja eu a dar essas informações, acho que outro iria tomar demais a liberdade do garoto loirinho lá em cima.
Só que hoje eu não sei se exagerei, talvez o Téo estivesse realmente só se divertindo um pouco por aí na inocência, mas... é que esse caso do Alex me assustou um pouco e eu realmente quis ligar.
– O que você ainda está fazendo aí sentado?! – eu perguntei ao Eros que apenas ficara calado me encarando.
– Eu quero ver o que vai acontecer quando o garoto chegar e descobrir que você estragou a noite dele.
– Ele não pode saber, Eros. É que o primo dele quer mantê-lo longe de confusão e depois do que aconteceu com o Alex... quer dizer, o Téo não é de sair, não sei se ele sabe lidar bem com as situações la fora... já é tarde e ele não apareceu. E se aconteceu alguma coisa?!
– Eu não pedi para você se justificar. Vamos, não fique com essa cara de culpado.
Escutei um carro parar lá fora e alguns minutos depois a porta da frente abriu com um pouco de violência. Téo entrou e subiu as escadas chorando.
Aí meu deus, o que está acontecendo nessa casa ultimamente?!
Logo em seguida Ace entrou no pensionato suspirando pesado enquanto assistia Téo se trancar no quarto. Os olhos mel vasculharam o local e se detiveram em Eros, depois ele olhou para mim e de novo para Eros.
– Você mora aqui. – ele disse calmo. – Tinha esquecido.
– O que você fez a pobre criança? – Eros perguntou com um meio sorriso.
– Não é da sua conta. Pode se retirar? Eu gostaria de conversar com o Leo... a sós.
– Você está na minha casa. Tente falar em um tom diferente. – Eros provocou e eu só esperei.
– Vocês se conhecem?! – eu me meti.
– Ele é o meu coleguinha de faculdade. Infelizmente. – Eros me respondeu. Ah, fala sério, ele não ficou aqui só para provocar o Ace, ne?! Típico do Eros, talvez quisesse levá-lo para o quarto também!
– Escute Eros, eu estou muito cansado, já é praticamente dia e não estou com ânimo para os seus jogos. – Ace disse com toda a sua autoridade, isso me impressionava as vezes, tínhamos praticamente a mesma idade, na verdade, ele é mais novo que eu, mas parece ser maduro, mais velho, os traços principalmente, a vida dele está se refletindo em sua juventude. – Pode, por favor, me deixar a sós com o meu empregado. – desculpe, mas eu tenho um nome!
– Tentem não fazer muito barulho. Temos crianças morando aqui. – Eros disse levantando preguiçosamente. – Nem sujar o sofá, Edgar ia me culpar.
– É só uma conversa. – Ace respondeu sentando-se no lugar vago de frente para mim.
Esperamos que o Eros se distanciasse, Ace massageava as têmporas, minha nossa, estava escuro, mas eu conseguia ver as bolsas de cansaço embaixo de seus olhos. Ele passou a mão pelo rosto e falou:
– Obrigado por ligar.
– O que aconteceu?!
– Ele está andando com umas más companhias. Foi a um desfile e depois a um bar... um amigo dele é um encrenqueiro, fichado na policia por brigar e alguns outros delitos. Mas eu já falei com ele, ele vai se afastar.
– Tem certeza? Adolescentes adoram desobedecer.
– Téo sempre foi obediente e um bom menino.
– Você parece cuidar bem dele.
– É como meu irmão mais novo. Tento não deixar coisas ruins acontecerem com ele. Já passou por muito.
– Por que ele não mora em casa com você?
– Por causa da mãe dele. Ele precisava de um tempo ou ia enlouquecer.
– A mãe dele parece o tipo que enlouquece qualquer um. E o pai dele?
– Nunca mais o vimos, ele faz o tipo não preciso do dinheiro de vocês, minha arte vai me sustentar... ele é um bom musicista, mas não sabe aproveitar oportunidades.Eu não sei onde ele está nem quero saber. Tudo o que eu não preciso agora é o Téo querendo ir viver a vida instável com o pai dele.
– Você parece cansado.
– Não estou. – ele disse suspirando e tentando abrir mais os olhos de mel. — Terminou minha agenda de amanhã?! Que será daqui a alguns minutos, na verdade.
– Hm, sim. – eu disse levantando pronto para buscá-la, o que me pareceu ridículo, afinal eu estava em casa e o meu turno ainda não tinha começado... então eu resolvi fazer uma boa ação para uma pessoa exausta... e que não merecia tanto, mas eu sou um anjo, então... – Eu posso te mostrar agora e podemos mudar ou cancelar alguma coisa. Está lá em cima no meu quarto.
Seus lábios se curvaram em um sorriso, como se na verdade eu estivesse convidando ele para mais que uma avaliação de sua agenda.
– Eu sabia que você era do tipo que enganava rapazes inocentes com essa conversa mole.
– Ah, me poupe, eu não estou tão desesperado. – respondi prontamente enquanto ele levantava para me seguir. – E você não é inocente.
Subimos ao segundo andar e ele parou em frente a porta do Téo, parece que o Téo conversava com alguém, acho que ele ponderava se entrava ou não. Então ele suspirou e parecia uns dez anos mais velho.
– Vamos lá, deixe ele ficar um pouco sozinho. – não parecia fazer efeito, ele parecia distante de qualquer forma. – Ele não vai ficar com raiva de você, não se preocupe.
– Como você sabe?! – é, acho que eu achei o problema. Ele passou por mim e seguiu pelo corredor.
– O Téo não me parece do tipo que fica chateado com as pessoas, ele vai entender que era para o bem dele. Não se preocupe.
Passamos pelo quarto do Alex, Andrei estava sentado lá, nos olhou no corredor e sorriu para Ace.
– Boa noite. – Ace disse sem muita certeza, era madrugada então...
– Olá.
– É o próximo quarto, pode ir e me espere. – eu disse a ele que apenas observava o Alex dormindo, os olhos claro me fitaram um instante e ele seguiu para o meu quarto. – Não conseguiu dormir?! – perguntei para o homem de cabelos castanhos e óculos arredondados que sentava tão calmo na cadeira, apenas velando o sono do moreninho.
– Não. Eu meio que me sinto responsável por vocês e quando os problemas aparecem... – ele disse com a voz calma e linear. – Edgar também estava fingindo dormir. Então, ele vai perceber que você levou alguém para o seu quarto. – completou me sorrindo gentil.
– Não, ele é só meu chefe e estamos indo pegar a agenda dele no...
– Tente não fazer muito barulho, meu bem. Ele é bonito.
– Não vai rolar nada.
Alex deu um espasmo na cama. Jesus! Isso assustou demais a gente, depois ele se encolheu e Andrei apenas segurou a mão dele. Eu só... segui meu caminho. Foi engraçado na verdade, Ace estava andando de um lado para outro no quarto com os braços cruzados e observando toda a minha... bagunça. Ta, eu gosto das minhas coisas onde estão. Ponto. Meus livros, meus filmes, minhas roupas, meu cabide, as fotos na parede, os móbiles que as crianças me deram, os origamis. Minha mesa estava um pouco bagunçada, tudo bem, minhas canetas estavam por cima dos papéis e eu conseguia ver o couro da agenda lá por baixo.
Ele pegou um dos meus casacos que estavam pendurados em cima da cadeira... tinha mais dois por baixo.
– Então... – eu disse e ele tirou a mão prontamente e me olhou na porta. – O que acha do meu pequeno pedacinho do céu?!
– Eu acho que o seu pedacinho do céu precisa de uma organização urgente. Um pouco mais de espaço talvez. Como você consegue relaxar aqui.
– Hm, não é todo mundo que pode pagar por um lugar maior. – ainda bem que ele não abriu meu guarda roupa. Fui até a minha escrivaninha e peguei a agenda com um lápis. – Sente-se.
Eu disse e ele ponderou se sentava ou não na minha cama. Está limpa. Esses riquinhos... Ele sentou olhou ao redor de novo. Ele estava desconfortável?! Olhou para a colcha.
– Bonita colcha de cama.
Eu olhei a colcha entre as minhas pernas. Era uma bordada que a minha vó fez assim que entrou no asilo/hospital que eles estão hoje.
– Minha avó quem fez para mim.
– Como eles estão?! – ele estava tentando ser agradável comigo?! Ou é só o cansaço?!
– Bem... o salário que você me paga tem ajudado muito.
– Bom.
– Hm, eu vou beber água, por que não deita um pouco aqui.
– Melhor não.
– Já volto.
Eu bebi água e voltei. Ele estava desmaiado na minha cama. Como eu disse, ele estava bem cansado. Tirei os sapatos dele... já tirei coisa pior. E o deitei na cama. Olhei para a minha máscara de dormir. Não, acho que ele não precisa dela. Desci as escadas de novo e dispensei os seguranças e o motorista, eles eram caras legais, mas precisavam descasar também. Assim que Ace acordar eu ligo para eles.
Quando eu voltei, sentei em um espacinho na cama e ele estava tipo... com a cabeça enfiada no meu travesseiro, ele não estava sufocando?! Deixa ele dormir de qualquer forma. O sol começou a aparecer lá fora e eu folheei a agenda, ele tinha apenas dois compromissos pela manhã e eram com representantes de vendas, já fui um representante de venda e eu sei que somos dispensáveis as vezes. Como ele precisa descasar eu vou desmarcar e remarcar.
Foi isso que eu fiz quando deu seis da manhã. Eu deixei ele dormir, sentei na minha cadeira habitual e fiquei lá olhando o corpo morto em cima da cama. Pelo menos meus lençóis iam ficar cheirando a Armani.
Meus olhos bateram mais duas vezes e em seguida eu estava ouvindo uns sons tipo...
– Ei, ei. – abri os olhos e ele já estava de pé, não me parecia satisfeito, eram apenas sete e dez. E meu nome é Léo.
– Meu nome é Léo, não “ei”. E pode dormir, eu desmarquei seus compromissos da manhã.
– Você o que?! – ele perguntou incrédulo. Bem, eu senti um frio na barriga depois disso.
– Eram só representantes... não se incomodaram em ir vê-lo outro dia.
– Não é cancelando compromissos que eu vou provar ser digno de conduzir a empresa. – ele ficou lá resmungando.
– Ah, você já faz muito. É praticamente você que conduz essa empresa, cuida da casa, cuida do seu primo... eu nem vi o seu pai ainda, para falar a verdade, e você ainda da conta da faculdade! Você precisa descansar. Anda, deita aí.
– Tenho coisas para fazer em casa. E na empresa.
– Você já se olhou no espelho?! Olhe aí. – eu apontei para o meu espelho pendurado no quarto, ele tinha umas coisas fru-fru de uma festa que eu fui uma vez, mas dava para ver.
– Creio que ele deva estar embaixo dessas...
Eu levantei e tirei as coisas da frente. Qual é?! Ele ia implicar com tudo no meu quarto agora?!
– Aqui. – eu disse apontando para o reflexo das olheiras. – O que você vê?!
– Um homem trabalhador, que precisa ir para casa colocar algumas coisas em dia antes que a semana realmente comece.
– Eu vejo um rosto cansado, essas olheiras enormes deformam seu rosto lindo. E como você vai se encontrar com os homens de negócio nessas condições?!
– Hm, meu rosto lindo?! – ele disse com um belo sorriso torto.
– É, para algumas pessoas sim.
– Não para você?!
– Não.
– Hm.
– Venha, vamos tomar café da manhã. – Andrei não ia se importar, afinal era meu chefe e primo do Téo.
– Prefiro ir tomar café em casa. Afinal, meus homens estão lá fora esperando.
– Não. Eu os mandei para casa.
– Você o que?! – ele parou no corredor.
– Os mandei para casa. Eles precisam descansar também, achei que você ia demorar mais para levantar.
– Eu tenho afazeres que não podem atrasar.
– Tá, tá, claro.
– Vou ligar para eles virem me buscar. Téo tem uma aula agora também se não me engano. Darei carona para ele.
– No fim de semana?!
– Algo como uma aula extra de preparação para os exames da faculdade. Estão chegando.
– Ah... ok. – eu falei aparecendo na cozinha onde o bom cheiro de ovo frito e pão novo invadia o meu nariz.
Quase escorreguei no tapete ao ver Edgar sentado lá na mesa, tão cedo, me encarando como um chefe da máfia. Logo os olhos negros se dirigiram ao Ace que entrava ajeitando o botão do punho da blusa.
– Bom dia. – Ace disse sentando-se a mesa.
– Bom dia. – a voz grave de Edgar o respondeu enquanto ele me acusava com o olhar. Mas eu não fiz nada!
O café da manhã correu bem até o Alex aparecer na cozinha, ele vestia uma blusa de mangas e um short frouxo, o mesmo com o qual eu o vestira na noite passada. Ele só abaixou a cabeça e sentou-se a mesa também. Ace ficou estudando o moreninho enquanto terminava uma xícara de café.
– O que gostaria de comer Alex?! – Andrei perguntou do outro lado do balcão da cozinha. Alex apenas negou com a cabeça e pegou um copo com água. – Qualquer coisa, um pão com queijo... você precisa se alimentar, querido.
– Não tenho fome. – ele disse saindo da cozinha.
– Que horas você vai ver o seu namorado?! – Edgar perguntou, Andrei o repreendeu com o olhar, eu só me admirei, Edgar nunca admitiu a existência de algum relacionamento entre Alex e o cara mais velho.
Alex só se encolheu um pouco.
– Eu não vou ver o Luther.
– Você disse que ia. – eu completei. – Ele está esperando, deve estar preocupado, pelo menos ligue...
– NÃO! ELE NÃO ESTÁ PREOCUPADO! E ME DEIXEM EM PAZ! – ele gritou e subiu as escadas de volta ao quarto.
– Devo ir ver como ele está?! – eu perguntei para as pessoas na cozinha.
– Não. Deixe ele se acalmar. – Andrei disse voltando para o fogão.
E aí veio a outra parte da manhã. Téo veio tomar seu café com os olhos inchados e o rosto bem triste. Deu para ver que o Ace ficou bem rígido na cadeira, principalmente depois que o Téo olhou para ele hesitou um pouco sobre entrar na cozinha.
– Bom dia. – Ace foi o primeiro a dizer ao primo.
– Bom dia. – ele respondeu normalmente e pegou um pão e coisas assim, Ace olhava dele para mim, que clima pesado! O que estava acontecendo por aqui ultimamente?!
– Então, Ace está te esperando para ir te levar para sua aula, Téo. – eu disse porque, porque eu não consigo ficar calado.
– Hm, não precisa. Eu vou de metrô, é bem menos lotado nos fim de semana.
– Ainda assim é melhor ir de carro com seu primo, certo?! — ele não me respondeu. – Bem, então vamos todos de metrô.
Ace me olhou como se eu fosse louco. O que? Eu estou tentando ajudar.
– Metrô?! – Ace me perguntou em um tom impassível.
– Ace não anda de metrô, Léo. – o loirinho disse molhando seu pão no café.
– Ele vai conosco hoje. – eu disse animado e direcionando o olhar para que Ace falasse alguma coisa.
– Claro. – ele disse meio incomodado. – Era uma das grandes experiências que eu queria na minha vida.
– Ótimo! Vou me aprontar. – eu disse e saí da cozinha.
– Por que não posso ver o Seth mesmo?! – ou melhor não, melhor eu voltar. A voz do Téo era como se desafiasse uma grande autoridade, era insegura, meio triste.
– Por que eu me preocupo com você e ele não é uma boa influência para você. – Ace respondeu calmamente. Acho que é seguro eu ir.
– Acho que é algo com essa casa, os meninos não se envolvem com boas pessoas. Deve ser uma maldição. – Edgar disse ao jornal e Andrei só revirou os olhos.
Eu me aprontei rápido e cheguei lá fora.
– E não se toca mais nesse assunto. Entendeu?! – Ace estava na calçada e parecia ter começado a discussão de novo. Mas o tom dele era autoritário dessa vez. Téo engolia com dificuldade, mas não chorou.
Bem, vamos lá.
– Então vamos indo.
O garoto não deu um pio o caminho todo até a estação. Chegando lá o Téo se virou e Ace ficou observando, compramos nossas passagens e esperamos o trem a estação.
– O que está pensando? – eu perguntei ao meu chefinho que estava muito centrado no primo algumas pessoas a frente de nós, ele resolveu manter uma distância segura da gente.
– Que talvez ele tenha crescido um pouco. Amadurecido e eu esteja exagerando nessa história toda.
– Sobre o amigo dele?! – ele me olhou como se eu fosse meio lento. Num gostei não.
– Não. Sobre o amigo dele eu estou impassível. Sobre ele ser tão indefeso, não saber se cuidar a te certo ponto.
– Uhum. Entendi.
– Eu só não quero que ele se machuque.
Eu achei isso muito fofo, talvez a fera que não goste de relaxar nem sorrir tivesse um coração mole em algum lugar.
Nosso vagão chegou e realmente não estava lotado como na semana, apenas cheio.
– Agora, segure-se. – eu avisei para o viajante de primeira viagem.
O metrô começou a andar e Ace caiu por cima de mim, sem muito equilíbrio, ele ficou possesso. Não deve ser bom alguém que tenta se manter perfeito quase cair desajeitadamente num metrô. Eu tentei não rir, vai, ele era meu chefe, não vamos abusar da sorte.
Ele olhava de vez em quando para o Téo, mas o loirinho estava tentando não ser visto.
– Dê um tempo para ele, ok?! Ele não vai e odiar, ele vai perceber que você só quer o bem dele. Você não é um mal primo, você se esforça muito e tem um mundo nas costas, ele sabe disso. E ele tenta não te preocupar.
Agora Ace estava encostando contra uma das portas do metro e eu estava a sua frente. Ele cruzou os braços e me olhou profundamente nos olhos e isso sempre me deixa ,meio sem jeito, porque ele é assim, ele emana poder e isso me faz sentir submisso, eu não gosto, não gosto disso, eu sempre tomei as rédeas da minha vida e nunca deixei alguém assim me intimidar.
De repente ele segurou na minha blusa e me puxou mais para perto, mais perto e ele me beijou, eu senti os lábios dele nos meus, alguns movimentos, leves, porém famintos.
E a única coisa que eu pensei foi: como seria ter o Ace cuidando de mim.
O que foi ridículo porque eu me afastei no mesmo instante.
– Por que fez isso?! – foi a única coisa que saiu. Não é a primeira vez que ele fazia lago do tipo comigo. Nem seria a ultima, eu espe... eu tenho certeza!
– Eu tive vontade. – foi só o que ele respondeu.
Não vimos o Téo sair, fomos direto para a mansão. Ace disse que gostou de andar de metrô e ver todas as propagandas que a sua empresa era responsável pelas estações e colocadas nas paredes do metrô, ele ficou satisfeito.
O resto do dia foi calmo, calmo assim, eu encontrei um mistério naquela casa. Tudo aconteceu quando eu fui levar um lanche para Ace em sua sala, eu estava apertado, então segui um pouco adiante no corredor para ver se encontrava um banheiro, encontrei sim, um quarto. Eu sempre via aquela porta ali, mas achava que era um banheiro! Pela extensão, quando me aproximei, parecia mais um quarto.
Mas ele estava trancado. Nada naquela casa era trancado.
A mãe do Téo fazia questão de tudo limpo e brilhando. O mais estranho foi quando eu perguntei ao Ace, ele me fuzilou com os olhos e disse.
– Não é da sua conta. Aquele quarto está proibido.
Eu disse tudo bem. Mas não está tudo bem. São quase sete da noite, já roí todas as minhas unhas das mãos e eu estou encarando aquela sala a algum tempo. O que tem lá?! O que tem?! Eu me aproximei e olhei pela fechadura. Estava escuro, era melhor ter tentado isso de manhã. Estava me sentindo Mary do O Jardim Secreto. Ah, eu queria saber!
Eu girei e suspirei. Meu chefe disse não, não olhe. Estava difícil não saber o que era. Na verdade, estava difícil um monte de coisa, ultimamente, eu tenho que admitir. Tinha horas que o Ace me dava nojo, mas tinha outras que... nossa, eu só queria que ele me jogasse em cima da mesa e fizesse o que quisesse comigo.
EUTENHO QUE ME CONTROLAR! EU TENHO!!!
– Léo? – eu escutei a voz feminina atrás de mim.
– Olá, Ellie. – eu falei tento a consciência que estava parecendo um maluco. – O que tem naquela sala?! – eu não sei nem disfarçar!
– Naquela sala?!
– Isso.
– Hm. Já perguntou ao Sr. Ace.
– Sim, mas ele não me diz.
– Então também não tenho a permissão de contá-lo. Isso é coisa de família.
– Tipo, um segredo?!
– É. Ele não deve sair dessa casa, quanto menos pessoas souberem sobre ele, melhor. E se o chefe não confia em você para contar-lhe, não serei eu quem dirá.
Um segredo de família é?!
– Tem a ver com o Téo e a mãe dele?!
– Tem a ver com todos dessa casa, toda a família.
– Hum.
– Mas o garoto Téo tem uma grande parcela no conteúdo do quarto. – ela me disse com um sorriso diabólico, ela sabia o que estava fazendo aos meus nervos. Ela sabia!
– Não pode mesmo me contar?! Eu não digo a ninguém.
– Ela não pode, Léo. – eu ouvi a voz grave atrás de mim e meus cabelos se arrepiaram. Eu virei para ver o Ace atrás de mim segurando alguns papéis, com um sorriso de pura maldade no rosto.
Ele sabia que eu ia ficar assim, ele sabia que eu ia ficar curioso.
– Você não pode mesmo me contar?!
– Você precisa ganhar minha confiança antes. – disse entrando no escritório e eu fui logo atrás o seguindo.
O que seria?! Ele colocou os papeis na mesa e eu comecei a organizar sem nem mesmo perceber. Será que lá estavam corpos de pessoas, será que lá estava uma sala de tortura e eles torturavam o Téo?! E se eles mal tratavam o Téo?!
Espera. Ele não confiava em mim? Isso magoou.
– E quando eu vou conseguir essa confiança?!
– Isso depende de você. – disse encostando-se na mesa a minha frente, bem próximo a mim.
– Vai depender mais das minhas ações? – eu disse caminhando lentamente para ficar cara a cara com ele.
Os olhos cansados me avaliaram e sorriram, eu senti as mãos na minha cintura e em seguida na minha bunda.
– Pode ser um modo. Tente de várias maneiras.
Hum.
Meus lábios repousaram em um beijo em sua testa e ele ficou sem entender.
– Eu vou arranjar um jeito de descobrir sozinho.
Retirei as mãos dele de mim e lhe desejei uma boa noite, ele só me assistiu sair. Esse riquinho mimado, acha que pode qualquer coisa, suborno! Pois a confiança dele vale muito pouco. Aliás, vale muito se o preço for a minha pessoa.
Ahhh, ele me irrita, as vezes é tão maduro, as vezes é tão infantil, as vezes tão.... insuportável. As vezes tão irresistível. E esse maldito portão da frente que não chega?!
Um carro preto parou ao meu lado, era um carro da mansão, claro, porque estava do lado de dentro da mansão. Então o motorista baixou o vidro e me sorriu.
– O chefe disse que já estava tarde e mandou que eu fosse te deixar em casa.
– O que?
– É perigoso.
– Ah. – ah, não preciso disso, eu posso ir para casa de metrô sem precisar dos favores com preço alto dele. – Não, obrigado.
– Ah, Léo, vamos lá. Ele só está cuidando de você. Isso é raro, geralmente ele nem liga para os funcionários, acredite, eu já pedi um aumento e ele não me deu.
Eu ponderei. Sei, cuidando de mim?! Ele já tem problema demais para me incluir na lista e... o que eu estou pensando?! É só uma carona.
Só uma carona. Eu vou aceitar. E vou descobrir o que tem aquele quarto.
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