Pov Narrador

As aulas passaram de forma arrastada, Miyako não conseguia prestar atenção em uma palavra sequer, nem mesmo os demais alunos, que ainda comentavam sobre o ocorrido com Yagami. De certa forma Inoue se sentia culpada, mesmo não tendo culpa, ela julgava ter ido longe demais ao bater em Kaiser e humilhá-lo na frente de todos, ela que já era um louco se sentiu com mais sede de prejudicar a todos.

A garota mantinha seus âmbares fixos no, grande, relógio acima da lousa, sua mente estava um caos, nada podia fazer, em nada podia ajudar e só Kami sabia o quanto aquela posição de mocinha indefesa feria seu orgulho. Miyako sempre fora o tipo de garota afoita, dona da situação, mesmo afobada, desastrada, algumas vezes, ela gostava de ter as cartas do jogo e saber usá-las, mas agora estava desarmada.

Ichijouji, por sua vez, mantinha sua postura calma e serena, atento ao que os professores tinham a ensinar, era o único, pois sua classe estava em polvorosa com o ocorrido a Yagami, Takaishi e Motomiya eram os mais afetados, o loiro estava pálido e apático, enquanto o ruivo pareceu desconfiar diretamente dele.

A caçula Yagami permaneceu por um tempo na orientadora, somente até que seus pais fossem buscá-la, isso antes da saída dos outros alunos, para evitar mais constrangimento, o irmão da menina foi suspenso por uma semana, devido a ter quebrado o nariz de um colega e fraturado as costelas do outro. Um oficial de ciências tecnológicas, da polícia foi acionado para descobrir como as informações da garota foram lançadas em redes sociais.

Daisuke e Takeru estavam completamente abalados, a garota que ambos gostavam havia sofrido algo terrível e não tinha nada que eles pudessem fazer para ajudar. O fato era que Sr. e Sra. Yagami castigaram a filha lhe tirando o celular e notebook, enquanto o irmão foi castigado pela direção, sendo expulso do time de futebol, o mesmo acabou ficando sem seus aparelhos de comunicação. A família ficou profundamente abalada.

Pela janela da sala, Ichijouji, via os irmãos Yagami sendo levados até a portaria do colégio, a garota de cabeça baixa o tempo todo, ombros encolhidos, o irmão de punhos cerrados, atento como um galo de briga, o gênio insano, só conseguia enxergar menos peças em um tabuleiro e abrir um sorriso sarcástico.

No final das aulas, Inoue se encaminhou a seu armário de sapatos, os trocando, o colégio agora se dividia entre fofocas sobre ela e sobre sua amiga, não viu nenhum de seus amigos, na certa estavam em algum lugar tentando processar o que aconteceu com a castanha. Sentiu um toque em seu ombro e um calafrio lhe correu pela espinha “definitivamente, era ele.”

— Como foi sua aula “Miyako-chan”? — Soou debochado ao seu ouvido, deslizando dois dedos pelos longos fios lavanda. — Você parece cansada. Vou te acompanhar até em casa, como um bom namorado.

Raios! Foram tantas coisas ao mesmo tempo que ela nem se lembrou desse detalhe, ainda ontem namorava Izumi, fora para casa acompanhada por ele, como poderia chegar assim, do nada, em companhia de outro?

— Por favor, não.

— Como não? Que tipo de namorado, horrível, não acompanha sua garota?

Ela rangeu os dentes de ódio daquelas palavras debochadas.

— É que, eu não vou pra casa. Meus pais possuem uma pequena loja de conveniência e hoje é meu dia de ir trabalhar.

— Que seja, eu tenho tempo de sobra, posso te acompanhar.

Ela bem queria mandar ele ir se ferrar. Tempo de sobra? Óbvio, depois que ele começou a atrapalhar o fluxo natural do Mundo Digital o tempo de lá é diferente o dando enorme vantagem.

— Ok. — A violacea respondeu em um suspiro desanimado, recebendo um sorriso largo e debochado.

E mais uma vez, a garota sentiu o enlace incômodo de mãos com seu opressor, dessa vez ela encarou bem mais que os olhares dos alunos de seu colégio. Aquele era o horário de saída de muitas escolas, alunos com diversos uniformes circulavam pelas ruas, mas não só isso, os demais transeuntes também comentavam o inusitado fato de cruzarem com Ichijouji Ken e sua garota.

Inoue sentiu o peso do mundo em suas costas, nunca antes em sua vida, esteve tão em destaque, tão julgada, vários olhares, cochichos, comentários, opiniões, ela parecia estar no centro do universo, ou prestes a ser queimada em uma fogueira medieval em praça pública, julgada por ser bruxa ou promíscua.

— “Não posso acreditar que esse seja o tipo de garota que ele gosta.”

— “Ela é muito magra!”

— “Muita alta!’

— “Não é bonita o bastante pra ele.”

— “Tem seios pequenos.”

— “O cabelo dela é esquisito.”

— “Ela tem cara de choro.”

— “Quem usa um óculos tão fora de moda assim?”

— “Pelo uniforme surrado, dá pra ver que sua família não tem nenhum poder aquisitivo.”

— “O que ele viu nela?”

— “Como pode?”

Aquele dia parecia um pesadelo sem fim. Como toda adolescente Inoue tinha suas inseguranças, se sentiu péssima, sabia que seu corpo não era cheio de curvas, como as garotas de revista, que seu porte não era pequeno e delicado, como era preferência da maioria dos rapazes, sua família estava passando por uma fase difícil e seu uniforme era sim surrado, pois pertenceu anteriormente a Momoe, seus óculos deveriam ter sido trocados há anos, mas muitas coisas foram colocadas em primeiro plano, uma vez que seu grau não mudara e o estado de conservação das lentes era excelente, ela simplesmente negligenciou a necessidade de aderir a armações mais modernas.

Parecia um tanto egoísta sentir tanta dor, com todos aqueles julgamentos, apontamentos, com o mundo colocando o dedo em suas feridas mais íntimas e profundas, em um momento onde seu parceiro estava em risco, a honra de sua família jogada na lama, seus amigos sendo atacados de forma tão baixa, o garoto que ela amava… Ia explodir, a cabeça de Miyako parecia prestes a explodir.

Pessoas tirando fotos, gravando, pedindo autógrafo, aquilo era um inferno! Garotas dando seus números de celular, a ignorando do lado dele, não que ela se importasse, podiam levar de presente, mas aquela atitude somada a tantas outras, fazia seu sangue ferver e ela começava a ver motivos pelos quais o rapaz era tão lunático

Finalmente, aquele percurso torturante acabou. A loja estava fechada, sua mãe teve que sair, suas irmãs não estavam e para sua total sorte, Mantarou, também não.

— Bem… É aqui. — Disse ela, desfazendo por si, o enlace entre as mãos e colocando algumas mechas para trás das orelhas, e ele permaneceu olhando para ela por um tempo considerável. — Ichijouji-kun?

— Ah? É aqui? — Ficou um tanto sem graça por se perder em divagações, observou como os cabelos da garota adquirem um tom lindo sob o pôr do sol, pensava consigo como nenhuma daquelas meninas com o rosto rebocado de maquiagem e tantos enfeites e acessórios quanto vaquinhas de presépio, chegavam nem aos pés dela.

Ele não sabia dizer o porque teve uma súbita vontade de dizer a ela o quanto juntando todas aquelas, vadias de shopping, não daria meia dela, uma guerreira, estrategista que já o derrotou diversas vezes, corajosa, inteligente e… “INIMIGA”. Absolutamente, completamente, totalmente “inimiga”. Mas que raios ele estava pensando? Se Inoue se magoou com aquilo, ótimo, que se debulhava em lágrimas, ele nunca deveria esquecer de todas as humilhações que “ela” o fez passar.

— Pois bem, Inoue, terá o resto da tarde para fazer o que precisa, a noite eu entrarei em contato… — Disse de forma inexpressiva e deu as costas, rumando a estação para pegar seu metro para Tamachi, aproximadamente uma hora de viagem.

Ela ficou olhando enquanto ele se afastava, depois suspirou cansada, abrindo a loja e se preparando para trabalhar.

— Bakemon… — Sussurrou o gênio, em tom quase inaudível e pode ver o vulto de seu escravo. — Fique de olho nela!

— Certo, Kaiser-sama! — Respondeu o fantasma seguindo para perto de Inoue.

Pov Miyako

Não sei por onde começar, não queria ter que abrir essa loja e sorrir para clientes hoje, tantas coisas, loucas, acontecendo, coisas horríveis. Pra piorar não estou me sentindo bem, estou tonta e meu estômago dói muito. Sem sombra de dúvidas, é um dos piores dias da minha vida.

Guardo minha mochila e visto o uniforme da loja, abro a mesma, corretamente e me posiciono no balcão. Por enquanto não tem movimento algum, ainda bem, estou tão louca com tudo isso que pensei ter visto uma caixinha de suco voando. Era só o que me faltava, aquele maluco me deixou tão abalada, que estou começando a ter alucinações.

Penso na única coisa que me acalma, pego um chá gelado e ligo o som, musica me ajuda a relaxar. Bebo o chá e parece que uma pedra caiu no meu estomago, sinto ânsias de vômito. A energia daquele cara é tão negativa, tão carregada, que me faz mal até quando não está por perto. Ai que treva!

Embora não possa me comunicar com meus amigos, ainda posso saber o que está acontecendo, ao menos em partes. Pego meu celular e entro nas redes sociais, meu Kami! Fico sem palavras, noticias do meu “namoro” com Ichijouji, fotos, especulações, maldades, filmagens do confronto no refeitório entre ele e Koushiro-kun. Há uma hora dessas meus irmãos e até meus pais devem estar sabendo, parece o babado do momento, que vergonha, o nome da minha família está arruinado.

Me jogo no puff, colocando ambas as mãos contra meu rosto, Kami, o que vou dizer aos meus pais? Aos meus irmãos?

Algumas garotas, ainda uniformizadas, entram na loja, elas passam pelos corredores sem mal olhar as prateleiras, ouço risos e cochichos.

— Hei, atendente? — Uma delas me chama, sinto o tom de deboche. Me levanto e ando até elas.

— Pois não, em que posso ajudar? — Atendo da forma correta, mas vejo a zombaria em suas faces, uma dando cotovelada na outra, cochichos e meu sangue já está fervendo, então espero que não me provoquem.

— Você vende preservativos aqui? — Pergunta em tom alto e as outras começam a rir.

— Naquela repartição. — Aponto onde ela pode encontrar o que procura.

— Pode nos ajudar a escolher, sabe, dando dicas de tamanhos, sabores, efeitos? Fiquei sabendo que algumas tem bolinhas, afinal com dois namorados você deve ser especialista nisso. — Ah, mas essa foi a gota d’água! Eu já não estava em um bom dia, sorri e estralei o pescoço igual ao Goku e dei um sorriso psicótico.

— Vou te mostrar outras especialidades minhas que você nunca mais vai esquecer. — Em um movimento rápido, enlacei os cabelos da vadia a arrastando para fora, de forma que ela ia esbarrando nas prateleiras e os produtos iam caindo, eu pronta pra fazer com a garota o que queria fazer com meu novo “namorado”.

Quando me dei conta, já estávamos na parte externa da loja, arrebentava a cara dela contra a calçada, as amigas gritando para que eu parasse, algumas pediam socorro para os passantes, tanto que uma rodinha havia se formado.

— REPETE O QUE VOCÊ DISSE, SUA VAGABUNDA! — Eu sentei em cima dela, começando a socar sua cara. — COMO OUSA VIR AQUI NO MEU TRABALHO E ME OFENDER? NÃO ME PEGOU EM UM DIA MUITO BOM, VAI SE ARREPENDER DE TER ME INSULTADO. — A puxei pelos cabelos, arrancando um punhado, estava completamente possuída, descontando toda minha ira e frustração, fui puxada pela cintura e erguida do chão, de forma que fiquei esperneando. — DESGRAÇADA, VADIA, VOU ACABAR COM VOCÊ ARRANCAR SUA LÍNGUA FORA PRA VOCÊ NUNCA MAIS FALAR SOBRE O QUE NÃO SABE!

Respirei fundo, aos poucos fui me acalmando, vendo todo o caos que estava formado no local, alunos de várias escolas, se aglomeraram com celulares em mãos gravando e tirando fotos de toda a confusão, a garota estava caída quase sem forças para se levantar, com o rosto bem machucado e um filete de sangue saindo da boca, as amigas correram para auxiliá-la. Senti o aperto em minha cintura se afrouxar.

— Posso te soltar agora, leoa brava? — Ouvi a voz de Mantarou-nii, era ele quem me segurava, graças a Kami se não teria matado a garota.

— Pode me soltar, estou bem agora. — Informo e ele me arrasta pra dentro da loja, colocando-me sentada no puff. Ouço a voz do meu pai e da minha mãe dispersando o tumulto que se formou. — Ela veio aqui e me ofendeu, tem tudo gravado nas câmeras da loja. — Me defendi antes mesmo de ser acusada.

Nenhuma palavra foi dita durante o resto do dia, o atendimento seguiu normalmente, contudo, era notável o clima ruim que ficou no ambiente. O expediente se encerrou, meu pai baixou as portas da loja e minha mãe se manteve com os braços cruzados na frente do peito, com cara de decepção. Mantarou pegou minha mochila e todos seguimos em silêncio para casa, eu sabia que ia ouvir muito, mas não sabia o que diria a eles.

Entramos em casa, retiramos nossos sapatos e meu pai fez sinal para que eu me sentasse no sofá. Acatei de imediato, já sentindo meu rosto arder, sabia o que viria a seguir. Ele pegou uma das cadeiras da mesa de jantar e a trouxe, colocando-a à minha frente e se sentando, em seguida tirou seu celular do bolso.

— Miyako… Eu realmente não soube o que pensar, ainda não sei, para ser sincero. Hoje no meu horário de almoço vieram colegas de trabalho me parabenizar pelo namoro da minha filha mais nova e eu só consegui imaginar, como eles sabiam sobre seu relacionamento com Izumi-san? Um ótimo rapaz por sinal, sempre te tratou com todo respeito e carinho…

E meu mundo desmoronou um pouco mais a cada palavra dita, cheia de desgosto e vergonha, com aquele tom de “onde foi que eu errei”. Sentia meu rosto queimar, como se de fato eu fosse culpada por tudo aquilo, tinha vontade de gritar, de dizer tudo o que estava realmente acontecendo, mas não podia, acabei tendo que ouvir as palavras de meu pai calada, completamente humilhada.

— O que exatamente está acontecendo aqui, minha filha? — Me olhou no fundo dos olhos e senti a minha garganta queimar. — Ontem mesmo Izumi-san veio te trazer em casa e hoje recebemos essa bomba? Que tipo de comportamento é esse? Eu sei que adolescentes têm seus ídolos, mas filha, como você pode magoar uma pessoa boa como Koushiro-san? Com qual cara vamos olhar para os pais dele? Eles te receberam bem na família, te trataram como filha e esse garoto… Esse prodígio, queridinho da mídia, você não tem idéia de onde se meteu. Essas pessoas não têm vida, são vigiadas o tempo todo, tudo o que fazem é julgado e criticado, sofrendo sensacionalismo. Você sabe em que nos transformou? Nossa família agora é vista como pais e irmãos da namorada de Ichijouji Ken. Acredito que aquelas garotas te ofenderam na loja, não serão as últimas fique sabendo e portanto você está proibida de trabalhar no nosso estabelecimento.

— Miyako… — Minha mãe começou. — Sempre tentamos manter uma boa comunicação, não somos pais carrascos, tampouco extremos em termos de tradições, moralismos e coisas do tipo. Para nós o importante é que vocês sejam felizes, mas a coisa muda quando começam a esmagar sentimentos alheios. Filha você não pensou em nada e em ninguém e esse garoto, nós nem conhecemos; sempre mantivemos diálogo fluido aqui em casa então porque nos deixou saber dessa situação pela mídia? Tem noção do que nos expôs, ao que se expôs? — Ela foi categórica.

— Eu sinto muito. Sei que errei com vocês, com Koushiro-kun, eu lamento mesmo, mas não posso evitar, não consigo, tudo isso é maior do que eu, não consigo reagir de outra forma. — Do meu jeito, eu menti dizendo a verdade. — Entendo a decisão sobre a loja, eu realmente mereço isso.

— Gosta tanto assim desse rapaz, para enfrentar tudo e todos? Foi ele quem te pediu para esperar o momento em que abririam relacionamento a público? Estava com medo da nossa reprovação, ou nosso consentimento não faz diferença pra vocês? — Minha mãe me cobre de perguntas, uma mais complicada que a outra, em que esse imbecil, maldito, foi me enfiar?

— Desculpa mãe, não pensamos em nada disso e nem em ninguém, fomos egoístas, infantis, não foi por pouco caso.

— Estamos profundamente, decepcionados com você, com a atitude que teve conosco e com Koushiro-san, não vamos te castigar, pois seu maior castigo vai ser sua exposição a este publico cruel. Definitivamente não pense em trazer seu novo namorado aqui, tão cedo, pois pelo menos por enquanto, nós queremos processar as informações.— Meu pai deu seu veredito final, se levantando e dando o assunto por encerrado.

NÃO! Meu Kami amado! Aquele demônio dentro da minha casa, se fingindo de amigável e enganado minha família, era só o que me faltava, pai eu espero que isso nunca aconteça. Fiquei ali sentada, destruída, arrasada, mais do que já estava. Parabéns Kaiser você me arrasou de todas as formas, o mundo me odeia, me difama, me persegue, virei uma messalina mais famosa que Maria Madalena. Amigos, vizinhos, família, desconhecidos na rua, colegas de escola, a situação está tão crítica que daqui a pouco os pássaros vão fazer cocô na minha cabeça, enquanto ando pelas ruas.

— “O mundo não é um grande arco íris. É um lugar sujo, é um lugar cruel, que não importa o quanto você é durão. Vai botar você de joelhos e você vai ficar de joelhos pra sempre se não fizer nada. Ninguém vai bater tão forte como a vida, mas não se trata de bater duro, se trata do quanto você é capaz de apanhar e seguir em frente, o quanto você é capaz de continuar tentando. É assim que a vitória é conquistada.” — Eu pensei ter dito apenas para mim, mas vi que não foi, quando Mantarou continuou o diálogo do filme.

— Eu sempre vou amar você acima de tudo, não importa o que acontecer. Você é meu sangue. — Me virei em sua direção e dei um sorriso amargo. Queria dizer a ele o quanto a vida me pôs de joelhos naquele momento, o quanto estava difícil levantar e continuar lutando.

Me levantei e agradeci meu irmão com um breve menear de cabeça, segui para o meu quarto, peguei algumas roupas confortáveis e fui para o banho por onde fiquei por um bom tempo, deixando a água cair sobre o meu corpo, como se a mesma pudesse levar aquele mal estar, aquelas tristezas, até minha mãe me chamar a atenção. Quando sai, dispensei o jantar e fui direto para o meu quarto, mal abri e porta e me D-Terminal apitou com mensagem daquele lunático.

“Aguardo sua presença imediatamente.

Digimon Kaiser!

“Ainda não fiz as lições de casa, preciso entregar amanhã.

Inoue Miyako.”

“Nada te impede de fazê-las aqui. Venha agora.

Digimon Kaiser”

Bufei irritada, desgraçado, como pode ser tão arrogante? Liguei o computador e haviam novas coordenadas. Ue? Porque novas, será que vai me receber fora da base? Em algum lugar medonho, terrível? Antes de acatar suas ordens havia uma certa urgência em resolver algo. Eu era muito fã de Ichijouji Ken, escrevia e lia Fanfics sobre ele, as que eu escrevia sempre fora água com açúcar, mas as que eu err… Algumas nem tanto. Corri para apagar minha conta no site de Fictions, exclui todas as minhas histórias idiotas. Limpei meu computador das milhares de coisas, bobas, que possuía sobre ele. Ai que ódio, que nojo, que vergonha! Espero que ele não tenha mexido em nada disso ou que kyaaaaaaaaaaaaaa! Que vergonha!

Depois de excluir tudo, saco meu D-3 e abro o portal, é hora de encarar aquele monstro e ver o que ele tem pra mim. Não sei se posso vencer, mas posso morrer tentando! Fecho meus olhos e quando abro novamente, estou em sua sala de controles. Como assim se as coordenadas eram outras? Como pode um único legar ter coordenadas tão diferentes?

Olho para as minhas roupas e… Filha de uma… Como ele ousa me vestir de empregada?

— Então, Inoue, gostou das surpresas do dia? Emocionante não? — Ouço sua voz debochada e olho em sua direção, vejp uma cadeira grande e confortável, estilo vitoriana, porém tecnologicamente modificada, pois ele a gira. Estava parecendo o “Garra” de Inspector Gadget, só faltou estar acariciando um gatinho.

— Eu tenho muita lição pra fazer. Preciso entregar amanhã.

— Pois faça logo, ora essa. Que, raios, você está esperando?

— Mas aqui não tem um lugar onde eu possa fazer.

— Como não tem lugar? Como pode ofender minha sala dessa maneira? Olha quanto espaço, o chão é amplo, se ajeita por aí. — Abriu um sorriso largo. — A propósito, muito obrigado pela ideia da nova configuração dos seus trajes, vai combinar bem com as funções que tenho pra você, nada de muito importante, cozinhar, lavar, passar, limpar o chão, coisas de mulherzinha.

Machista, desgraçado, como ousa dizer que vai me fazer de empregadinha, na primeira oportunidade e taco veneno na sua comida, seu babaca, vou te mostrar o que a “mulherzinha” é capaz de fazer.

— E não pense em fazer nenhuma besteira, tenho câmeras e escravos te observando em todo lugar. Como já combinamos, você faz e seu “idolatrado” parceiro, paga. — Se esticou pegando uma ampulheta e a colocando de cabeça para baixo. — Anda, Inoue, vai ficar ai me admirando ao invés de fazer sua lição? Te darei meia hora, contando, seu tempo está correndo. — Girou a cadeira, ficando de costas, começando a digitar ligeiramente.

Além de tudo o imbecil parece ler pensamentos. Olhei para aquela sala mal iluminada e procurei um canto, cuja luz dos monitores me ajudassem mais. Sentei no chão e apoiei o caderno nas pernas, comecei a tentar resolver as questões, mas estava me sentindo muito mal, meu estômago, assim como minha cabeça, estavam doendo muito, a iluminação era muito baixa e como eu já tinha chorado muito, meus olhos ardiam, tanto que várias vezes tirei meu óculos, para esfregá-los.

Além de tudo, meu lápis resolve cair, rolando em meio aquela escuridão toda. Ai que treva! Coloquei o caderno sobre o chão, para começar a procurar, mas uma criaturinha fofinha, tipo um Digimon lagartinha, veio até mim, saído das sombras, trazendo meu lápis em sua boca. Olhei bem para o seu corpinho e não detectei nenhum Anel Negro. Sem Anel Negro, por que?

Enquanto me perdi analisando, o pequeno se aproximou mais e me entregando o lápis, seus grandes olhos azuis intercalaram seu olhar entre mim e Kaiser. Peguei o objeto e ele ia voltar de onde veio.

— Hey? — Chamei e ele parou onde estava, virando-se e olhando para mim. — Obrigada… É?

— Wormmon. Eu sou Wormmon. Foi um prazer ajudar, digiescolhida. — Sua vozinha era baixa e fininha, tão doce e meiga, assim como ele.

— Pode chamar de Miyako. — Sorri o achando fofo.

— Miyako-san? — Repetiu de um jeito meigo.

— Me diga, Wormmon, o que uma coisinha linda como você, faz com um maluco desses? — Perguntei divertida, entre sussurros, mas tive a impressão de ter escutado um pigarro vindo da direção onde Kaiser se encontrava.

— Ele não é tão ruim depois que você conhece melhor. — A criaturinha fofa, o defende, por medo talvez?

— Aham, sei. Pra mim esse papo de “ele não é mau, apenas incompreendido” é coisa de doramas ou filme teen dos anos 80. Esse cara é doente, falta todos os parafusos, é lelé da cuca, rasga dinheiro, é do tipo que mora sozinho e foge de casa, ainda deixa um bilhete para si mesmo. — Arranquei um risinho daquela coisinha fofa, o acompanhei na graça.

— Seu tempo já acabou Inoue! — Kaiser se levanta, falando entre os dentes e vejo a criaturinha tremer de medo e voltar para a escuridão de onde veio.

— Não acabou nada, a areia não está nem na metade. — Aponto para ampulheta e ele a pega, jogando-a no chão e pisando em cima.

— Oh, caiu? Agora acabou, minha cara. — Sorriu debochado e andou até mim, me puxando pelo braço. — Ah, você está se divertindo tanto, eu quero participar de tanta diversão, vem se sentar e ver as coisas hilárias que algumas fãs minhas tiveram a capacidade de fazer. Na verdade tem algo que eu quero que você leia pra mim. — Me levantou em um puxão e saiu me arrastando, me jogando em sua cadeira. — Olha para tela! — Ordenou e eu obedeci e… Meu Kami! Não acredito, ele salvou minhas Fanfics, minhas montagens ridículas, eu queria sumir. Imagine o que é ter algo tão vergonhoso seu, jogado na sua cara. Parecia aqueles pesadelos onde você está pelado na escola ou no meio da rua, mas era real. — Leia para mim, Inoue.

— Não, não, por favor, isso foi… Isso não era sério, foi uma fase, eu…

— LEIA ESSA PORRA DESSA HISTÓRIA AGORA! EU QUERO OUVIR DA SUA BOCA!

“ POV Mia

Nunca tive boa convivência com meu pai, sempre fui criada com a minha avó desde o falecimento da minha mãe, mas agora ele tinha se casado e estava de família nova, infelizmente minha avó não estava com a saúde muito boa e acabou falecendo. Cogitei a possibilidade de morar sozinha, mas para uma garota de dezesseis anos, isso é bem perigoso. Não tinha mesmo jeito eu fui obrigada a ir morar com meu pai.

Meu pai era muito ocupado e quando eu estava no tré, recebi uma mensagem dizendo que não poderia me encontrar, pois teve que viajar a negocios com sua nova esposa e que o filho dela iria me buscar. Affs, bufei irritada, já começou mal. Assim que desci do trem , fiquei perdida com minha mala azul e mochila vermelha, olhando para todos os lados, imaginando quem poderia ser o tal filho da esposa do meu pai.

A coisa mais surreal aconteceu… Vi Ichijouji Ken, surgindo ofegante, com uma plaquinha na mão, onde estava escrito meu nome. Eu fiquei parada, com a boca aberta, admirando seus lindos olhos índigos e os cabelos lisos, dançando com a brisa, sua pele era tão alva, sem nenhuma manchinha, como pele de bebê e seu sorriso, sereno como tardes de outono… Ele deveria ser preso por cometer o crime de roubar toda beleza do mundo só para si. Quando viu que fiquei sem reação, ele se aproximou e me perguntou “Ah, você deve ser a Mia? Acho que você sabe quem eu sou, não é?”. Só consegui assentir, hipnotizada pela sua beleza e doçura “Pois bem, a partir de agora serei seu novo irmão e vou cuidar muito bem de você!”

— Uau! Quanta devoção, estou emocionado. Então eu deveria ser preso por roubar toda beleza do mundo para mim? — Ele gargalhou debochadamente, repetiu a frase várias vezes. — Sorriso sereno como tardes de outono hahahaha! — Continuou rindo de chegar a lacrimejar. — Se continuar assim você vai acabar me matando com tanto besteirol e vai poder dizer aos seus amigos que me venceu. — Continuou rindo. — Que desperdício, eu sou tão lindo hahahahah. Ridícula, patética eu tenho pena de você, garota obtusa! — Se recompôs das crises de risos e começou a mudar os arquivos. — Ah! Essa! Eu quero essa, acho que sou seu tio aqui, se entendi bem a sinopse. — Fiquei um tempo sem conseguir responder, secando as lágrimas de humilhação, desejando ter o tempo que perdi, escrevendo essas coisas, de volta. — LEIA LOGO, QUE EU NÃO ESTOU POR SUA CONTA!

Que ódio! Que humilhação! Por sorte aquela tinha poucos capítulos e eram curtos, mas…

Desgraçado, com tantas Fanfictions que escrevi, porque justo essa ele foi escolher? E para piorar ainda mais a minha situação, esse é um dos capítulos mais quentes dessa história. Maldito! Desgraçado! Senti meu rosto queimar a cada palavra lida, os risos debochados, comentários indiscretos que ele fazia, eram os piores possíveis, Kami só pode estar contra mim.

— Repita esse último parágrafo, Inoue.

— O que? Você só pode estar brincando comigo…

— Brincando? Eu? Você não percebeu ainda que aqui o Bobo da Corte é outro, melhor dizendo, outra? Vamos, cumpra sua função, criatura deplorável, me divirta, me faça rir e serei bonzinho em mandar alimentar seu parceiro. — Estalou os dedos duas vezes, me apressando.

— Droga. — Praguejo, respirando fundo, com o coração disparado e as mãos tremendo. — Nunca titio, tenho medo de beijá-lo porque não sei fazer isso. — Meu Kami, quero um buraco para me enfiar e nunca mais sair de lá. — Aquele dia na piscina foi o meu primeiro beijo, pois achava que era o Kouji…

— Não tinha um personagem menos bundão, não?! — Ele debochou da minha cara, caminhando de um lado para outro. — Viu bem qual é a data desse arquivo né? Eu deveria pegá-lo e mandar diretamente para o Izumi, mostrando quem realmente você é…

— Não faça isso, por favor. — Me desespero com a possibilidade de Koushiro-kun ler qualquer coisa que escrevi em relação a Ichijouji Ken, ainda mais capítulos dessa história. — Eu já escrevia essa Fanfiction há muito tempo, não podia deixar os fãs dela sem um final.

— Hum, sem desculpas Inoue, continue contando a história, estou curioso demais para saber qual é o final dela…

— Er… O final dela, bem, eles acabam se beijando e… — Que situação mais constrangedora, meu rosto se aqueceu cada vez mais, a medida que o sorriso em seu rosto vai se alargando. — Um amigo do personagem, no caso você, acaba chegando e atrapalhando tudo. — Kaiser sai do lugar onde se encontrava, se aproxima lentamente de mim, a tal ponto que deixa os nossos rostos rentes, os seus orbes azuis opacos encarnado os meus.

— Atrapalha o que? — Sussurra ameaçadoramente, com seu hálito quente, exatamente como o personagem da Fanfiction, minha mente relembra toda a cena escrita, não consigo abrir a boca para falar qualquer palavra para ele, é constrangedor demais.

— Atrapalha… bem… — Começo a gaguejar, sentindo a minha cabeça girar, a visão embaralhar, a tal ponto que enxergo Kaiser em duplicidade.

— Na hora de escrever foi bom o devaneio né, deve ter ficado toda molhadinha só de pensar na possibilidade. O que foi? Não consegue falar, tá com vergonha, querida? — Sinto um arrepio percorrer por todo o meu corpo, tanto que me balanço um pouco, fazendo ele olhar para os meus braços. — Sua per-ver-ti-da! Estou bem curioso para que você leia essa parte e, sabe porque? — Dá uma risadinha insana, dando dois tapinhas leves no meu rosto, se divertindo de toda a minha desgraça.

— Porque? Eu admirava você, pensava que era uma pessoa doce, gentil, alguém que poderia tornar o mundo um lugar melhor, minhas amigas do site todas te admiram, mas foi tudo um grande engano...

— Isso mostra e deixa bem claro, o quanto você e todas essas garotas ridículas são infantis e idiotas, por escreverem coisas irreais, fantasias, com alguém que as despreza profundamente. O que vocês tem na cabeça? Merda? — Ele se afastou de mim, dando-me as costas, voltando para o lugar onde se encontrava. — Continue, Inoue, quero que acabe de ler essa história, estou me divertindo bastante com as ilusões de vocês, garotas bobinhas.

— Como ousa? — Sussurrei em meio as lágrimas de indignação e humilhação.

— Como é? — Se voltou afrontado, em minha direção.

— COMO OUSA TRIPUDIAR ASSIM DAS PESSOAS? Você capturou meu parceiro, me fez sua escrava, atrapalhou meu namoro, fez minha família ficar contra mim, meus vizinhos, amigos, o mundo, me expôs, me fez ser apontada e julgada por todos e agora ousa debochar dos sonhos que eu tinha, A única pessoa ridícula aqui é você… — Estravazei toda minha ira, me levantando daquela maldita cadeira e o encarando, sem pensar em mais nada. — Você não tem o direito de rir de mim, das minhas amigas, das nossas ilusões… Você é uma fraude e… Essa pessoa sobre quem escrevemos, ela não existe, porque você é um monstro, maníaco, nojento, opressor, incapaz de despertar amor em alguém...

— Vamos, continue. Despeje toda sua ira. — Andou ficando próximo a mim.— Você me odeia? Quer me bater, não quer? — Apontou o dedo para o próprio rosto. — Não se reprima tanto, bata! — E ao dizer isso um monitor ligou sozinho, mostrando Poromon. — O que te impede? Vamos, bata como fez com a garota na loja!

Eu congelei a centímetros de enfiar a mão em sua cara debochada. Meu estômago doeu ainda mais, minha cabeça girou e minha visão começou a ficar turva, ele continuou falando alguma coisa, rindo debochadamente, enquanto que eu, não conseguia mais sentir os movimentos do meu corpo, não sabia mais de nada, só sei que as minhas pernas se amoleceram e os olhos reviraram-se, fechando aos poucos.

— Inoue… — Foi a última coisa que ouvi antes de apagar por completo.