Inimigos Íntimos
63 Ruína
Notas iniciais
As madeixas lilases esvoaçavam juntamente com a brisa revolta de um alvorar descolorido, sombrio, nefasto. Nunca antes o Mundo Digital parecera tão assombroso como agora. As paisagens verdejantes pareciam ter desbotado. Era preciso estar atenta para auxiliar seu parceiro durante o voo, pois, as milhares de Torres Negras se estendiam nas alturas e ao longo do horizonte a se perder de vista.
O estômago da herdeira dos brasões do Amor e Sinceridade, se revirava e contorcia em nós, o peito apertava-se enquanto avistava a base inimiga. Era a primeira vez que Inoue vira o covil de Kaiser por tal ângulo. Teve sua resposta pelas coordenadas estarem sempre a mudar a cada visita sua; era uma fortaleza flutuante a vagar vagarosa pelos céus. Genial e obscura, como tudo que se encontrava a cerca dele, ela deveria saber.
Mirou ao redor e, viu-se cercada pelos companheiros de batalha cujos Digimons que possuíam a capacidade de voar, transportavam os demais. Atentou-se para o inoportuno resmungo de Daisuke a culpar o pobre V-mon por não ter tal habilidade. Apercebeu-se do misto de temor e determinação nos olhares de todos.
Era vasto o exército de Digimons que resistiram e se opuseram a Kaiser e que, com o auxílio de Izumi, conseguiram encontrar um esconderijo seguro onde estiveram a se preparar para expurgar aquele mal do Mundo Digital. Alguns muito conhecidos por ela, como Digitamamon, Andromon, Elecmon e mesmo os bizarros irmãos Roachmons. Todos foram pacientes em esperar que Koushiro desenvolvesse um aparelho inibidor do efeito das Torres Negras.
Tinha que admitir, chegaram até ali pela dedicação e genialidade do ruivo. Todos os veteranos os ajudavam a medida do possível, mas Izumi sempre estava presente chegando a muitas vezes negligenciar a vida social a se matar em pesquisas exaustivas pertinentes a queda de Kaiser e restauração do Mundo Digital. Segundo ao próprio, de nada adiantaria focar-se em construir um futuro no mundo real, uma vez que a crise dimensional resultaria na devastação geral.
Inevitavelmente, mirou cada veterano. Ninguém saberia dizer o motivo de terem sido praticamente libertos pelo poder místico daquele mundo. Talvez por já terem cumprido a missão para a qual foram designados. Todavia, lá estavam eles, em campo para lutar uma batalha que deveria ser do novo grupo. Obviamente, Yagami e Ishida não deixariam seus caçulas sem cobertura e, os demais ainda sentiam responsabilidade que os impeliam a agir.
Voltou a sua posição inicial quando sentiu a tensão pesar ainda mais entre os presentes. Os lábios de Daisuke se moveram minimamente a murmurar um “maldito.”Raios cruzavam os céus, ecoando um estrondar pavoroso. Uma neblina acinzentada estendia-se pelo ambiente. Das grotescas Torres Negras, emanava-se um brilho púrpura. Talvez fora efeito de sua visão alterada pelo atormentado psicológico, mas as nuvens enegreceram-se, o tempo turvou-se e os ventos intensificaram seu turbilhar e… Através da neblina, lá estava Kaiser de pé sobre Devidramon, como se estivesse a espera.
(...)
Amargou seu ódio e revolta por ela, mas não se deixou abater. Usou sua dor como combustível para dedicar-se a finalizar sua quimera. No processo, comandou seus escravos para que impedissem os inimigos da conquista dos Digimentals, sem sucesso. Não se irritou, com a finalização de Kimeramon, Kaiser tinha total certeza de sua vitória. Previamente, já podia degustar o sabor do momento em que cobraria seu acordo com Miyako. Em resposta a sua insídia, deixaria com que presenciasse a morte de todos os amigos e aliados. Gargalhou com o pensamento.
Wormmon se preocupou. Não conseguia entender o porque Inoue diria todas aquelas barbaridades. Em seu íntimo, duvidava da veracidade daquela transmissão, pois a Escolhida sabia que Ken tinha drones espiões em cada canto. Era explícito que Inoue amava Ichijouji e estava lutando para resgatá-lo das trevas. Os humanos e suas complicações emocionais sempre seria um incógnita para a antiga criaturinha. Não conseguiua entender como Kaiser semnpre sendo tão analitico e coerente, não raciocinou como ele… Talvez porque não fosse. Não era, constatou. Aquele garoto era inseguro e instável emocionalmente e, havia algo nas sombras, novamente se valendo de toda essa insegurança.
E mais uma de tantas vezes, a pequena larva sentiu-se impotente. Não conseguiu estabelecer comunicação com Miyako, nem mesmo obter um momento de atenção de Kaiser, para atentá-lo sobre as evidentes pontas soltas. Viu o gênio manter-se isolado em seu laboratório a descuidar-se do sono e alimentação. Paralisou-se com o assombroso poder das trevas, ao presenciar a coleta da última peça que faltava para completar a quimera; a cabeça de Devimon. Aconselhou o jovem, mas fora em vão. Ele queria poder fazer mais…
Com ‘olhos’ por todos os lados, prontamente Kaiser foi informado da agitação diferenciada. Alegrou-se, pois, sua quimera já estava finalizada. Constatou então, não ser mera coincidência que o escudo de camuflagem houvesse estragado poucas horas antes da notificação; era sabotagem. Tinha um inimigo a bordo. Com todas as suas distrações referentes a Inoue e aperfeiçoamento de sua quimera, ficou uma brecha para um traidor se instalar. Izumi Koushiro, foi o primeiro nome que lhe veio à mente, tinha certeza que ele era a cabeça por trás disso.
Brilhante, tinha que admitir a sagacidade do êmulo, mesmo porque, ele não fazia idéia de quem era o suposto agente duplo. Outro detalhe interessante, estavam guiando Digimons através de suas Torres Negras, sem que estes se afetassem, mais um mérito do nêmesis. Estaria a blasfemar se não fosse a expectativa em exibir o apogeu de sua supremacia. Que viesse o exército de fracassados. Era isso que eles eram, ele duvidava que depois de todo estrago que fez no emocional daquele grupo, eles teriam forças para dar a seus parceiros.
(...)
Um longo momento de silêncio se estendeu. Era como se o som não existisse. De certa forma, não foi incalculado aos Digiescolhidos, que Kaiser estivesse à espreita. Um calafrio lhe subiu pela espinha, tensionando-lhe os ombros, a violácea puxou o ar com dificuldade, respirar parecia-lhe doloroso. Os punhos cerraram-se firmemente, os olhos arderam antecedendo as lágrimas involuntárias, que turvaram-lhe a visão. Não desejava que tivesse chegado a isso. Forçou o punho contra o peito, como se pudesse amenizar a dor lacerante. Não sabia o que pensar ou dizer, mesmo assim tentou cadenciar algo. Antes que ela abrisse a boca, Kaiser, envolto em um esvoaçar de cabelos revoltos e, ondular de seu sobretudo, estendeu seu chicote ao longe e o estalou, num comando para que seus escravos atacassem.
Ela pode ouvir Daisuke replicar a sua maneira. Em segundos, um cenário de guerra se instalou ao redor. Ambos permaneceram em posição inicial, ela com uma fala, um grito preso na garganta, ele com um diabólico sorriso a alargar-se na face.
Afrontoso, o gênio insano, estendeu uma mão sobre o peito, curvando-se numa reverência satírica e estendendo as mãos para as laterais, captado por Inoue como;“contemple o espetáculo.” Como ele ousava troçar de um momento como aquele? Chacotear de seus sentimentos? Ela finalmente deixou escapar o grito que estava preso, lançando-se na batalha a conduzir Holsmon por entre as explosões de energia e, decretar os ataques que melhor cabia a cada situação.
Kaiser enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo, a observar o caos instalado. Notou que tanto os Escolhidos, quanto a resistência, estavam lutando a sério, sem aquela tolice de tentar não ferir seus escravos e sim os libertar. No fim, eles não eram mais nobres que ele, sabiam que vidas inocentes deveriam ser sacrificada por um objetivo maior. Altivo, manteve-se intocado enquanto os oponentes se massacravam em campo.
O campo foi pensado para que Kaiser obtivesse vantagens, sobre as águas do oceano, usando um exército de Digimons psíquicos, aquáticos e aéreos. O fluxo das correntes induzia a amplificação da energia quântica,aumentando a expansão da matéria escura e, assim tornando seus escravos mais poderosos.
Pela água, Hida lutava junto a Submarimon, Joe com Ikkakumon e muitos outros aliados como MetalSeadramon, Whamon. Pelos céus. Miyako e Holsmon, Hikari e Nefertimon, Takeru e Pegasusmon. Mimi e Lilymon, Sora e Birdramon. Enquanto isso, com auxílio de Digimons voadores, Daisuke e V-mon, Taichi e Agumon e, Yamato e Garurumon, atacavam pela retaguarda conseguindo invadir a base de Kaiser, iniciando um confronto contra os que a protegiam.
Ardiloso, Kaiser gabava-se internamente, por saber os movimentos de todos e julgar que tudo estava sob controle. Enquanto os Digiescolhidos colocavam um plano elaborado por Izumi, em ação. Durante o confronto eles se empenharam em colocar pequenos aparelhos inibidores de matéria escura, em todos os CannonBeemons.
Koushiro sabia da habilidade de Kabuterimon em se comunicar através de ondas de alta frequência, instruindo-o a contactar os CanoonBeemons, pois seriam crucial para virar o jogo. Para tal, precisavam de uma boa distração para que Kaiser não antecipasse seus passos e colocasse empecilhos.
Izumi não queria ter que usar Miyako, julgava crueldade e descaso com sua história e seus sentimentos. Suspirou pesaroso ao não encontrar outra maneira. Se o inimigo era tão importante para a garota, ela também o abalaria de alguma forma e, precisavam desse trunfo agora. Mirou-a a lutar compenetrada comandando Holsmon e contatou-a pelo comunicador:
— Miyako-san? Pode me ouvir? — Sabia que as explosões dos inúmeros e respectivos, golpes ao redor, poderia interferir na comunicação.
— Alto e claro, Koushiro-kun.— A resposta veio quase imediata. Havia agressividade na voz dela e não era direcionada a ele.
— Preciso que deixe a batalha e vá confrontar Kaiser, agora. Acha que pode fazer isso? — solicitou hesitante.
— Pode ter certeza que eu vou. — respondeu resoluta.
— Ok. Vou pedir que te deem cobertura.— massageou as têmporas, preocupado. — Conto com você.
Visto que os amigos receberam o contato de Izumi, Inoue guiou o parceiro de encontro ao inimigo. Célere, partiu com tudo a fim de afrontar Kaiser, que petrificou por alguns segundos ao entender o que se passava. Com um aceno de mão, o gênio ordenou que os escravos ao seu redor, dessem passagem para a moça. Estabeleceram uma proximidade em que, mesmo com os ruídos do combate, seria possível a comunicação.
— COMO VOCÊ PODE? COMO PODE ME ENGANAR DESSA MANEIRA? — Ela sentia-se ridícula por estar gritando aquilo, mas no fundo não era só uma forma de distraí-lo, era o que sentia.
— Devo dizer que essa é mais uma das muitas características que temos incomum; dissimulamos muito bem! — rebateu venenoso.
— É sério isso? Você está me acusando? Com que direito, sob qual perspectiva?
— Isso não importa mais. Você está fazendo todo esse drama, mas deveria estar agradecida. Lembro que me pediu para ter seu parceiro de volta e lutar dignamente ao lado de seus amigos. Vendeu sua alma por isso. Bem… aqui estamos. No fim, eu vencerei de qualquer maneira, então vá se divertir brincando de heroína.
— Vendi a minha alma? — cuspiu encolerizada. — COMO SE ATREVE?
— Não se comporte como se eu estivesse manchando sua honra. — Induziu Devidramon a fechar a proximidade, de modo que Holsmon se posicionou em alerta.— Não se comporte como se você tivesse alguma honra! — cuspiu as palavras, com escárnio.
Naquela altura o plano de Koushiro já estava quase concretizado, Kaiser fora absorto completamente pela gana de humilhar e subjugar aquela a quem ele considerava ser uma traidora. Fora tempo o suficiente para que todos os aliados saíssem da água e invadissem a base e, Kabuterimon juntamente com os CannonBeemons, preparasse um forte ataque elétrico.
— EU NÃO TENHO HONRA? — vociferou Inoue. — FODA-SE O SEU JULGAMENTO DETURPADO… EU ME SINTO HONRADA. NÃO IMPORTA O QUE VOCÊ DIGA, UM BRASÃO SAGRADO BRILHOU PRA MIM, TENHO AMIGOS QUE, MESMO NÃO ME ENTENDENDO, ME RESPEITAM E AMAM E, EU SEI QUE FIZ O MELHOR QUE PUDE PARA TE TRAZER A LUZ.
— NÃO SOU SUA OBRA DE CARIDADE! — descontrolou-se o gênio, mas em seguida recuperou sua pose altiva. — Não sou refém das trevas, eu às estudo, as decifro, me beneficio com elas. Tenho a coragem que nenhum de vocês possui. E não venha com essa conversa de boa garota. Destruí sua vida, é normal você tentar usar minhas fraquezas contra mim e virar o jogo.
— NÃO TEM JOGO, KEN! ISSO NÃO É UMA COMPETIÇÃO, NÃO É UM CABO DE GUERRA E AQUI NINGUÉM GANHA NO FINAL. DESTRUIR ESTE MUNDO E NOS MATAR, NÃO VAI TE FAZER SUPERAR OSAMU, NÃO VAI PREENCHER O VAZIO DA NEGLIGÊNCIA DOS SEUS PAIS! — bradou enfática.
Aquelas palavras revolucionaram o âmago do inimigo. Não bastava a maldita, ter burlado suas defesas, descoberto suas fraquezas, ousava propagá-las aos quatro ventos, o ridicularizando! Em um movimento ligeiro, estalou seu chicote contra a face da garota. Tudo se passou como em câmera lenta. O impulso infeliz, pesou em sua consciência de imediato. Não queria ter chegado a isso, pois já era o vencedor, mas Inoue sempre o levava ao limite, em todos os sentidos.
Uma violenta rajada de vento esvoaçou as madeixas lilases acompanhando o movimento do chicote e, quando o véu violáceo revelou a face ferida, um fio carmim fluía, maculando-a. Holsmon, ecoou um rugido colérico, investindo contra Devidramon, fazendo com que Kaiser, abalado, se desequilibrasse e caísse rumo ao mar... Paralelamente, Izumi deu o comando para Kabuterimon e os CannonBeemons que, lançaram um poderoso ataque elétrico contra as águas.
Um forte clarão emanou do vasto território aquático afetado. Hikari comandou Nefertimon em direção a Inoue e, audaciosamente saltou para o lombo do parceiro da amiga, a fim de dar suporte físico e emocional a ela. Izumi retirou um pequeno objeto esférico do bolso e lançou contra a água, o dispositivo quicou e retornou absorvendo toda eletricidade e energia, desativando todas as Torres Negras locais.
Incansavelmente, Izumi vinha trabalhando na Esfera Quântica, com a ajuda de Iori e outros escolhidos espalhados pelo globo, que, mesmo impossibilitados de entrar no Mundo Digital, quiseram contribuir de alguma forma. Convenientemente, um dos pais de um Digiescolhido, era cientista e também estudava polaridade quântica e matéria escura.
Coletivamente,a consciência pesou pelos escravos de Kaiser que, foram eletrocutados no processo. No fim, eram vítimas das circunstâncias, mas não se vence uma guerra e salva o mundo sem perdas. Condolentes, os Digiescolhidos e a Resistência, ao menos tinham certeza de que a Cidade do Principio os receberiam para um recomeço digno.
Um misto de expectativa e receio, tomou os Digiescolhidos. Dentro da fortaleza inimiga, os oponentes que enfrentavam Taichi, Yamato e Daisuke, petrificaram enquanto o brilho vermelho de seus olhos dava lugar a tonalidade normal e a Espiral Negra se desintegrava. Mas ainda havia subordinados que não eram controlados e seguiam Kaiser por escolha própria. Wormmon, por sua vez, não aguentava mais ficar impotente e decidiu ajudar no que poderia, a fim de deter o despertar de Kimeramon.
— Digiescolhidos? — chamou a pequena larva.
— Mais um lacaio de Kaiser! — vociferou Yamato irritadiço só em imaginar que mesmo o gênio causando desgraças ainda tinha seguidores fiéis..— Suma daqui, ou não teremos piedade.
— Na-não. Na verdade, eu quero ajudar. Sei onde fica a fonte de energia que mantém toda a base e que será usado para despertar Kimeramon.
— KIMERAMON! — exclamaram em uníssono.
— Miyako-san falou sobre isso. — lembrou Taichi.
— Verdade, o monstro feito com partes de muitos Digimons. — emendou Yamato.
— V-mon e eu, iremos com ele. Vocês podem ficar e cuidar dos traidores sozinhos? — Daisuke prontificou-se.
Yagami e Ishida assentiram e, continuaram a lutar contra os aliados de Kaiser, dando o máximo de si, juntos a Greymon e Garurumon. Flamedramon regrediu a V-mon e seguiu Wormmon juntamente com Motomiya. Era prioridade encontrar e destruir a tal fonte e, impedir que Kaiser despertasse sua arma final.
...
Submarimon e Ikkakumon, regrediram a Upamon e Gommon, assim que os parceiros pisaram no covil de Kaiser, saltando para fora da água a tempo, os subordinados que os cercaram também voltaram ao normal. Neste momento, Bakemon surgiu com a planta da base em um dispositivo de holograma. Joe e Iori não quiseram perder tempo com o labirinto de corredores e invocaram Zudomon e Digmon para destruírem as paredes e chegarem direto a sala de controles.
Demolindo tudo o que viam pela frente, Hida e Kido chegaram ao destino rapidamente, invadindo o sistema central, movendo a base rumo a terra firme, onde mais aliados os aguardavam, inclusive os Digimons cujos parceiros não podem mais abrir portais mundo afora.
...
Quando o intenso brilho se apagou, ainda com visão afetada, os humanos e Digimons comemoraram. Por comunicação, Kido e Hida informaram estar no controle da fortaleza flutuante, solicitando serem seguidos até a margem.
Koushiro alegrou-se em ver que o plano deu certo. Contudo, preocupou-se em mirar Miyako, já em terra firme, acercada por Hikari, Takeru, Mimi, Sora e seus respectivos parceiros, a cobrir a face esquerda com a mão, cuja a luva branca, estava ensanguentada. Ligeiro, voou com Kabuterimon, apeando-se em frente a ela.
— Miyako-san… Aquele… Ele feriu você? — Chamou pesaroso. — Tudo bem, acabou. Os outros já invadiram a base e vão destruir tudo. Não existem mais escravos para impedi-los.— comunicou complacente. Sentia-se culpado por fazê-la confrontar o inimigo.
A verdade era que ninguém sabia bem o que dizer. A neblina estava densa quando Kaiser caiu de Devidramon no fatídico momento em que a água foi eletrocutada. Em seu âmago, Holsmon estava temeroso em ter sido o responsável pela suposta morte do inimigo e, o verdadeiro amor de sua parceira. Como ele poderia conviver com aquilo? Assim era a guerra, todos se tornam impulsivos e irracionais, ações e reações não são ponderadas por mais planejamento que se faça.
— Obrigada, Koushiro-kun, mas… Ainda não acabou. — murmurou Inoue, convicta do que sua intuição lhe apontava.— Foi apenas o começo.— ciciou abatida, enquanto Tachikawa tentava tratar seu ferimento.
Os olhos de todos se arregalaram, um mal agouro despertou a percepção do grupo. Uma gargalhada insana ecoou pelo local. Através da densa neblina, a silhueta do gênio flutuava no ar, tomando formas e cores ao se aproximar. Alguns esfregaram os olhos e se espantaram com a improbabilidade da conjuntura.
— Sacrificou meras marionetes pela sua causa.— Kaiser soou alto e claro, sem um ruído sequer para atrapalhar.— As marionetes que vocês chamam de vidas inocentes. Estou orgulhoso de você Izumi.— sorriu com escárnio. — Estou orgulhoso de todos vocês.”Os fins justificam os meios.”No fim, vocês se provaram mesmo adversários a altura.
— Esse sacrifício vai para a sua conta, Ichijouji!— confrontou Izumi, perdendo a compostura. — Assim como tantos outros crimes pelos quais você vai ter que pagar. Sua máscara caiu e seus truques de ilusionismo não me impressionam. Minha Esfera Quântica. — apontou para a esfera a qual controlava por um dispositivo, fazendo-a flutuar faiscante perto de si. — Desativou todas as suas Torres Negras. Você não tem mais escravos. Vai nos entregar seu dispositivo e vir conosco para o mundo real, encarar consequências reais. Eu só não encho a sua cara de pancadas porque você é um doente mental.
— Truques de ilusionismo? — os pés do gênio fixaram-se no solo. Ele riu-se desdenhoso. — Uau! Aí está você, sutilmente me ofendendo e me chamando de louco, se exibindo por essa invenção mediana e se iludindo que chegamos no fim do jogo. Quer provar alguma coisa para alguém, Izumi? Deixe-me adivinhar. — apontou o indicador para Miyako. — Para ela?— riu sarcástico. — Não adianta mais, não perca seu tempo, não passe vergonha. Ela é minha.
— COMO VOCÊ SE ATREVE. — Irritou-se Tachikawa ofendida pela outra. — ELA NÃO É UM OBJETO PARA SER SUA.
— Quer apostar.— o inimigo caçoou.
E pela primeira vez Inoue se calou e se encolheu, envergonhada demais para berrar verdades e calúnias, ela só queria que aquele pesadelo acabasse
— AGORA JÁ CHEGA! — Izumi irritou-se partindo para cima de Kaiser.
Ocultos na névoa, revelaram-se três silhuetas trajando longas túnicas cerimoniais com capuzes, os olhos e a aura brilhavam num intenso e assombroso tom púrpura. Ligeiros, os Alchemistmons, transpassaram pelo campo de batalha, de maneira que apenas raios vermelhos eram vistos, abatendo vasto número de oponentes. Kaiser mantinha um sorriso psicótico e vitorioso, antecipando o embate corporal com Izumi. Em outras circunstâncias, não se rebaixaria a tanto, mas a verdade era que seu âmago clamava por aquele momento.
Enquanto os dois gênios se digladiavam da forma mais primitiva possível, valendo-se de socos, chutes e ofensas sujas, assombrando os Digiescolhidos e seus parceiros, o número de aliado foi drasticamente reduzido. Das celas da base, já tomada, projetos fracassados de quimeras, eram libertados, horrendos, pavorosos, com partes faltando, cores tétricas, algumas disformes, gosmas vivas a rastejar e atacar os Digiescolhidos.
— Que show de horrores é esse? — alarmou-se Taichi, cercado pelas aberrações.
— Eu não sei, mas são muitas e não param de surgir. — Greymon desferia consecutivos golpes, a maioria das criaturas eram fracas, mas numerosas, o que já estava o deixando exaurido.
Neste momento, Hida e Digmon chegaram com Bakemon e informaram a situação.
— O complexo de celas fica a esquerda e parece ter sido desativado por um comando que veio de fora da base, provavelmente por Kaiser. — explicou ofegante.
— Não sei se consigo manter essa forma por muito tempo, Iori. Foram duas evoluções seguidas, muitos combates e demolições, minhas energias estão fracas. — confessou Digmon, enquanto golpeava as criaturas.
— Por favor amigos, se esforcem, precisamos defender a passagem por onde Daisuke foi com V-mon e o lacaio de Kaiser. Se essas coisas os alcançarem, Kimeramon será despertado e estaremos na merda!— salientou Yamato, preocupado.
— Estou fazendo o melhor, mas também não me resta muito tempo.— Garurumon alertou, fadigado.
…
No campo de batalha, os Achemistimon já tinham eliminado quase toda a resistência, travando combate direto contra os Digiescolhidos. Inoue observou que todas as vezes que concentravam um ataque, um pequeno círculo de magia brilhava no peito dos oponentes. Comandou Holsmon para trocar sua evolução para Shurimon e, pelo comunicador, bolou um plano com os amigos.
Enquanto Sora e Birdramon, Mimi e Togemon, lançavam ataques combinados e consecutivos, auxiliados por Kabuterimon, Takeru e Pegasmon, Hikari e Nefertimon usavam o Laço do Santuário para prender os três. Uma vez presos, os inimigos receberam a combinação de todos os golpes, o que era mera distração para que as shurikens acertasse o símbolo reluzente e os desintegrassem.
— Parece que...— Koushiro fez uma pausa forçada, cuspindo sangue. — você está sozinho agora, Ichijouji! — enfatizou ao ver que seus amigos e parceiros eliminaram os Alchimistmons,
Ambos estavam imundos, desgrenhados e feridos demais para continuar a pancadaria, não que aquilo tivesse sido o suficiente para aliviar o ressentimento e rivalidade mútua. Em meio às dores dos golpes e hematomas, Kaiser ainda conseguia gargalhar em troça.
— Você deveria saber. Nada se destrói, tudo se transforma. — Gargalhou enquanto as cinzas e trapos de manto rodopiavam e criavam um Alchemistmon maior e mais pavoroso. — Esse é meu presente especial pra você, Izumi, e vai poder reconhecer que eu tirei tudo de você. ALCHEMISTMON USE “MATERIALIS CORRUPTIO,”ATAQUE O KABUTERIMON!
O sinistro Digimon começava a concentrar seu ataque no deformado dedo indicador, quando Miyako, que já conhecia os danos irreversíveis daquele ataque, esgoelou:
— KOUSHIRO-KUN, FAÇA ALGUMA COISA, SE KABUTERIMON FOR ATINGIDO, SERÁ CORROMPIDO, EM VEZ DE DADOS SE TORNARÁ MATÉRIA E MORRERÁ PARA SEMPRE!
Paralelo ao apelo de Inoue, Shurimon e os outros, golpeavam incessantemente, mas o aliado de Kaiser estava mais disposto a efetuar o ataque do que se defender. O gênio insano, gargalhava diante do tormento do rival. Koushiro não se via perdendo Kabuterimon para sempre, mas sabia que o parceiro não desviaria a tempo e nem teria bloqueio eficaz.
— Kabuterimon, me perdoe por isso, mas é o único jeito de nos vermos novamente.— decretou entre lágrimas desesperadas e emocionadas. — MODO DE AUTODESTRUIÇÃO, AGORA!
— MATERIALIS CORRUPTIO! — Alchemistimon disparou juntamente com o comando do ruivo.
Kabuterimon acatou o comando e prontamente concentrou um numeroso ataque elétrico, o qual não disparou, superaquecendo seu núcleo, ocasionando uma estrondosa explosão. Izumi concentrou toda sua fúria e dor pela perda do parceiro e, investiu novamente contra Kaiser, mas dessa vez foi barrado pelo poder psíquico de Alchemistmon, que em paralelo ao escudo continuava a atacar os oponentes.
— Não adianta mais, Izumi. Me socar não vai trazer seu parceiro de volta, nem sua garota ou a honra para seu precioso nome.— Kaiser levantou-se altivo a limpar o sangue do canto da boca e bater a poeira do sobretudo.— E é aqui que nos despedimos para sempre.
— Não...— ciciou Miyako, sabendo que a hora tinha chegado.— Não podemos perder assim. Shurimon! — comandou o parceiro em uma última e desesperada tentativa. Os amigos, entendendo sua intenção, deram cobertura.
Shurimon investiu contra Alchemistmon que, se concentrou em atacá-lo ao passo que se defendia de todos os demais golpes. Quando o ninja foi atingido explodiu em uma cortina de fumaça, revelando ser uma ilusão e distração, pois seu verdadeiro alvo era Kaiser. O campo de força poderia proteger contra humanos, mais já não era tõ eficiente contra um ataque de um Armor.
Da mesma forma que o gênio uma vez a deixara para morrer sem ar em uma de suas armadilhas, Miyako devolvia a mesma decisão desesperada. Seu amor era real, mas sabia que se Kimeramon fosse despertado não haveria esperança para nenhum dos mundos. Um ataque preciso com a shuriken poderia salvar a todos, mesmo que fosse letal a um humano.
Não deveria ser assim…
Não era assim que ela queria que acabasse…
Não cumpriria a promessa que fez aos Ichijouji…
Fechou os olhos antes que o ataque de Shurimon acertasse o inimigo, mas os mesmos se arregalaram ao ensurdecedor rugido de Kimeramon; era tarde demais. Os joelhos de Inoue fraquejaram-se e se dobraram e ela se deixou afundar no chão, em total desalento. Shurimon petrificou a centímetros de seu alvo, lentamente virando em direção a besta horrenda que planava sobre o topo da fortaleza.
— Contemplem minha cartada final. — gabou-se Kaiser.— Se apresente adequadamente, Kimeramon. Ataque com Heat Viper!
A besta composta, abriu a enorme boca e disparou seu Heat Viper, mudo e eficaz, sem dar tempo para os oponentes pensarem numa defesa, apenas protegeram seus parceiros, recebendo o ataque direto que os fizeram regredir a fase bebê.
O desespero nos rostos inimigos, era um deleite para Kaiser, que se orgulhava de sua criação, seu parceiro perfeito. A tão esperada hora de cobrar seu acordo com a escolhida de cabelos lilases, era chegada. Tranquilamente, andou até a garota e a olhou prostrada no chão a abraçar seu debilitado parceiro, trêmula de pavor.
— Então… Você sabe o que deve fazer agora, não é? — questionou triunfante, mas ela permaneceu com a cabeça baixa. — Vamos lá, Inoue. Eu cumpri a minha parte, você veio e lutou heroicamente até o último minuto. Vão se lembrar de você como uma amazona impetuosa e não como uma donzela indefesa, presa no castelo do vilão. Vamos?
— Me recuso.— murmurou.
— O que disse? — questionou incrédulo.
— O Koushiro-kun explicou, nossos mundos estão prestes a colapsar. Se você reativar as Torres Negras e cobrir o restante do Mundo Digital e, se usar os poderes dessa besta… Nossos mundos serão destruídos, não restará nada e se é pra morrer eu quero morrer com Poromon e meus amigos.
— IZUMI? SEMPRE O IZUMI! — Vociferou ínvido, odiava todo o valor que a garota dava a opinião do rival. — EU ESTOU DIZENDO QUE NADA SERÁ DESTRUÍDO, APENAS REINVENTADO… EU VENCI E VOCÊS FRACASSARAM, QUEM É IZUMI AGORA?
—Faça essa pergunta sem est campo de proteção. — debochou Koushiro.
— Você logo vai entender o motivo pelo qual estou em uma barreira, certamente não é por medo de um verme patético como você. — cuspiu a explicação, observando o rival tossir e cuspir mais um pouco de sangue.— Agora venha, Miyako, antes que seja tarde demais.— estendeu a mão para Inoue, que a estapeou em recusa.
— NUNCA!
— Não teste minha paciência! — vociferou entre os dentes, prendendo a falsa imperturbabilidade. De sobressalto, emaranhou os dedos nos cabelos lavanda, puxando Inoue contra si, fazendo com que Poromon fosse derrubado no arranque. — Não é como se você ainda tivesse escolha!
— POROMON! — clamou relutante, vendo a barreira de energia se fechar ao seu redor, separando-a do parceiro e amigos.— NÃO! — ela se debateu, tentou chutar, morder o inimigo, mas era inútil.
— Miyako! — Poromon saltitava se jogando contra o escudo de energia, se ferindo ainda mais.
— MIYAKO! — Todos chamaram preocupados, indignados, blasfemando contra Kaiser.
De dentro da barreira, Kaiser se divertia com o caos instalado, os inimigos indignados e jogados no chão a espera do golpe de misericórdia, embora não estivessem todos presentes. Toda ação se passava frenética, simultânea. Mas seu divertimento era amargado pelo comportamento relutante de Miyako. Em partes, sabia que não poderia mesmo domá-la, até gostava disso, mas podia aquietá-la apelando para a arma que ainda a feria.
— Entendo… Quer fingir que não temos um acordo, que não concordou com nada disso? Você está´envergonhada? — Brusco, prendeu os punhos da violácea, segurando-o com uma mão e, com a outra rasgou-lhe o colete, expondo a marca que a fizera entre os seios, para selarem o pacto.— Todo bom contrato é firmado com um selo… ENTÃO ABRAM BEM OS OLHOS E VEJAM A PROVA. — Ninguém sabia o que dizer. — Se vocês perdesse, Miyako ficaria comigo, para que eu os deixassem voltar com vida, obviamente se memórias desse mundo. Essa foi a condição para ela ter o parceiro de volta e regressar a equipe. Mas vocês perderam.
Inoue se viu exposta, imobilizada, humilhada e colérica.
— VOCÊ NÃO TINHA ESSE DIREITO! — dradou ultrajada, possessa.
Não se arrependia do momento em que selou o tal acordo, pois não suportaria ver a morte do parceiro e amigos, mas sabia que aos olhos deles poderia sugerir que, no fundo, ela duvidasse da vitória. Em sua concepção, aquilo deveria permanecer entre eles e, ninguém mais tinha o direito de saber, ela fez o que deveria ser feito, da maneira que pode.
— De fato. — girou-a ficando cara a cara com a inimiga. — Isso foi rude e desnecessário, assim como isso...— passou as pontas dos dedos na ferida da bochecha onde acertara com seu chicote.— mas eu queria te machucar, não só fisicamente. Eu queria te deixar marcas profundas e eternas.
Ela viu a mágoa e a escuridão profunda, quase palpável, vinda do gênio. Quase chegou a sentir a culpa que ele a impunha, mas não sabia o motivo.
— Não me olha como se não entendesse.— e neste momento ele não percebeu que deixou a máscara escorregar e falou com toda sinceridade.— Eu te deixei entrar e, você esteve mais perto do que qualquer pessoa na minha vida. E… eu te pedi tão pouco. Eu sou um monstro, mas você não é uma heroína, é uma pessoa horrível e merece ser punida. Vou deixar que assista meu Kimeramon matar seu parceiro e seus amigos e te deixarei viva para conviver com a dor e a culpa, afinal as coisas não chegariam a isso se não fosse pelos seus joguinhos.
— Por favor, não… — implorou chorosa.
— KIMERAMON, DESTRUA CADA DIGIESCOLHIDO E SEUS PARCEIROS, NESTE CAMPO! — Ordenou resoluto, mas Kimeramon hesitou por um tempo. — KIMERAMON, O QUE ESTÁ ESPERANDO, OBEDEÇA!
A besta encarou Kaiser como se o afrontasse e começou a destruir todos os aliados do imperador, como se lhe passasse uma mensagem, finalizando ao disparar um ataque potente contra Alchemistmon e pisoteá-lo após ser abatido. Kaiser ainda segurava Miyako, em total choque. Era sua criação, sua carta final, seu parceiro perfeito. Aquilo não podia estar acontecendo.
A besta rugiu ameaçadoramente, concentrando seu ataque e direcionando a Kaiser e consequentemente Inoue, mas ambos foram puxados por um laço de teias, agilmente lançado bem a tempo; Era Wormmon. Atrás da pequena larva, em meio a fumaça dos golpes e ao cenário caótico, Motomiya corria a gritar pelos amigos e paralisar ao mirar Kimeramon. O campo foi completamente encoberto por um brilho dourado e quando este amenizou, um Digimon misterioso trajando uma armadura dourada, travava uma batalha acirrada, contra o monstro composto.
— Ken-chan, Miyako-san, vocês estão bem? — questionou Wormmon, aflito.
Wormmon se acercou do parceiro e de Miyako, preocupado, enquanto Poromon voou ligeiro para os braços da garota, que, pranteava ao ter visto a vida por um fio. Paralelo a isso, Ichijouji estava abalado a ponderar que fora salvo por aquela criatura ínfima e, traído por aquele que o fez perder noites de sono em seu planejamento. No fim, talvez ele estivesse errado em subestimar a pequena larva.
Hida, Kido e Ishida, juntamente com seus parceiros, surgiram para amparar os amigos e explicaram por floreios, que aquele Digimon de armadura dourada se tratava de V-mon. A fonte de energia da base de Kaiser era um Digimental, que possibilitou a evolução milagrosa. Enquanto isso, Magnamon enfrentava Kimeramon, com todas as suas forças, mesmo assim, sua energia já estava se esvaindo, o brilho findando e a evolução oscilando.
Percebendo sua vantagem, Kimeramon desferiu uma sequência de seus golpes mais poderosos. Magnamon estava ciente de que era a última esperança, assim como seu parceiro, essa consciência acabou por deixá-lo sobrecarregado. No fim, Kaiser estava certo, ele tinha desconstruído o emocional de todos os Digiescolhidos e por isso obteve grande vantagem em campo.
O brilho de Magnamon se apagou por completo e, o guerreiro voltou um olhar pesaroso para aquele mundo devastado, recoberto por Torres Negras. De sua posição, era possível ver, onde antes existiam rios, lagos, florestas, campos verdejantes, transformados em terreno rochoso a se rachar e jorrar lava. Aquele mundo estava se destruindo.
— Daisuke, eu sinto muito...— Magnamon murmurou lamentoso, sem forças para revidar aos ataques.
E todos viram a última esperança se acabando. Do meio de sua inconformidade e confusão, Ken finalmente conseguiu entender que Wormmon, Miyako e todos os outros, tinham razão e, sua obstinação em fazer tudo a sua maneira e provar seu ponto, gerou o fim do mundo.
— Eu queria não ter sido inútil. — lamentou-se Wormmon. — Ter ajudado mais. Me perdoa, Ken-chan. Eu realmente não soube o que fazer este tempo todo, mas sei o que fazer agora.— uma energia dourada começou a emanar do pequeno corpo do Digimon.
— Espere, Wormmon...— alarmou-se o gênio. — O que pretende fazer? — engasgou-se ao fim do questionamento, pois, em seu íntimo sabia bem a resposta.
— Eu sinto muito...— voltou o olhar para Magnamon.— Magnamon, conto com você!
Wormmon, aos poucos, foi se transformando em partículas luminosas. Em um ímpeto inesperado, ken tentou segurá-lo, mas era tarde, seu parceiro fundiu-se a Magnamon.
— WORMMON! — Ichijouji socava o chão, em prantos, ao se dar conta que perdera o único que sempre esteve consigo em todos os momentos. — EU NUNCA VOU TE PERDOAR… NUNCA VOU TE PERDOAR… Nunca vou ME perdoar...— finalmente o gênio pode reconhecer sua culpa.
Comovido, Magnamon prontamente sentiu-se super energizado e honrando o sacrifício de Wormmon, desferiu o golpe final, desintegrando Kimeramon. Exaurido, o Digimon regrediu a Chibimon, perdendo a consciência, sendo acolhido nos braços do parceiro.
Ken arrancou os óculos, os atirando para longe, como se rejeitasse tudo que construira até alí. Sua cabeça doía insuportavelmente, enquanto ele repetia palavras desconexas sobre ser o fim do jogo, o fim de tudo, sobre não ter ouvido Wormmon desde o começo.
Com os parceiros nos braços, todos observavam a cena, sem saber o que fazer. Uma aura negra começou a se formar em volta do inimigo, enquanto raises rubras reluziam de seu corpo. Os presentes sentiram um mau agouro, um frio, uma impotência. Miyako ainda não entendia o que era aquilo, mas já tinha visto antes. Sob protestos das amigas, caminhou até o gênio e parou frente a ele.
— Eu não posso te ajudar mais, Ken. Por Wormmon, pela sua família, por você e...— baixou a voz, oscilante. — Por mim, lute contra, seja lá o que for isso e se liberte.
Do meio de toda sua confusão mental, dor física e emocional, ele se agarrou as palavras da garota. Não sabia bem o que fazer, mas desejou de todo seu ser, voltar a ser como antes, a ser o Ken que Wormmon nunca deixou de ver em si, uma pessoa melhor para aqueles que esperavam por ele. Era como se lava corresse por suas veias, adagas lhe rasgasse a pele e seus gritos de agonia se tornavam rugidos, enquanto as mãos agarravam-se aos cabelos.
— Que porra é essa? — questionou Yamato abismado, verbalizando os pensamentos de todos.
O brilho púrpura se tornou intenso na nuca de Ken, assim como a dor lancinante, mas ele sabia que tinha que aguentar, dessa vez era sua vez de lutar por si mesmo e se livrar daquelas trevas. Seu estômago se revirou e ele expeliu uma quantidade espantosa de energia escura. O brilho púrpura finalmente se apagou.
Enquanto isso, o Digimental que possibilitou a evolução de V-mon para Magnamon, começou a reluzir no bolso de Daisuke e, se elevou, flutuando lentamente até Ken, que, o segurou, confuso.
— Bondade! — exclamaram todos, surpresos.
“— Você é uma pessoa boa, Ken-chan. Eu sei que é?” Era como se ele pudesse ouvir a voz da pequena lava. Prostrou o rosto sobre as palmas, molhando o brasão com suas lágrimas, mas aos poucos foi sentindo-se exaurido e perdeu a consciência.
— E agora? Ele morreu? — perguntou Agumon, inocente, fazendo Taichi tampar sua boca.
— Seja lá o que aconteceu aqui, parece ter esgotado ele. — Observou Sora, ainda em choque.
— Sabe o que rolou, Koushiro-kun? — Indagou Tachikawa. — Parecia sessão de descarrego das igrejas evangélicas ocidentais.
—É, eu já li sobre essas coisas, mas… — Izumi coçou o queixo pensativo. — Acho que não é esse o caso.— caminhou até Ichijouji abaixando-se e retirando seu bracelete.— De qualquer forma, vou me empenhar em descobrir. — seguiu rumo aos óculos e também os recolheu para análise.— Sabem me informar se ainda temos aliados vivos, que possam tomar conta da base?
— Kido e eu, implantamos o aparelho que você nos entregou e baixamos todos os dados do comando central. Creio que podemos destruir esse troço.— concluiu Iori.
— Temos que comer, dormir, descansar e depois voltamos para resolver tudo. — alertou Takeru.— A Cidade do Principio está sem Elecmon e vai estar muito cheia daqui a uns dias, quero ajudar.
— Também temos que decidir o que fazer com ele. — Daisuke apontou para Ichijouji.
Enquanto os amigos cuidavam dos detalhes pós batalha, Miyako ajoelhou-se próxima ao ex imperador. Não teve medo de julgamentos quando estendeu a mão para afagar-lhe os cabelos.
— Está acabado, mas e agora? — mirou toda destruição ao redor e, não só isso, sabia das penalidades reais que o esperavam do outro lado do portal.
— Tenha fé, Miyako-chan.— ciciou a vozinha cansada, de Poromon. — Estou orgulhoso de você. Agora pode descansar, menina.
— Ainda não, Poromon. Tenho uma promessa para cumprir.
(...)
Em consequência de uma mensagem de Miyako, os Ichijouji’s deslocaram-se de seus respectivos empregos, chegando esperançosos em casa, para o retorno do filho. Seguindo as instruções da violácea, ligaram o computador do quarto de Ken.
Foi um tanto assombroso quando Inoue surgiu através de um brilho na tela, seguida por dois amigos que traziam Ken inconsciente. Miyako prontamente pediu calma e explicou que ele estava apenas desmaiado.
Os Digimon ficaram com Hikari, sendo alimentados e tendo o merecido descanso. Daisuke e Takeru, apenas deixaram Ken em seu leito e também se despediram. Para Miyako, além do cansaço físico e mental da batalha, restou a missão de explicar tudo o que se passou.
Tudo era tão surreal; outros mundos, poder das trevas, sacrifícios e perdas. Não era como se os mundos fossem se concertar num passe de mágica. Kaiser não existia mais, mas os danos causados ainda assolavam ambos as dimensões, enquanto Ken dormia...
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