Inimigos Íntimos

64 Depois da Tormenta.


Notas iniciais
Boa noite leitores! Que maravilha é poder trazer mais um capitulo para vocês. Hoje vamos ver o pós batalha e suas implicações nas vidas de nossa heroína. No final do capitulo eu deixaria o link de uma Kaiseryako ou Kayako que fiz de presente para minha querida amiga e leitora Miram Cadernas. Eu sou grata a você Miriam, por todo carinho e apoio, espero sempre mantermos contato. Não fiquem com ciumes, amo todos vocês e sou muito grata também. Vamos a leitura.

Pov Narrador.

A chuva lastimosa caia incessantemente a transtornar aqueles que careciam transitar pelas ruas. Desde o declínio do império de Kaiser e a desativação das Torres Negras, que os desastres naturais pararam de afetar os dois mundos. O grupo de Digiescolhidos assim como aqueles que lutaram ao seu lado, desfrutavam de um merecido descanso.

Cada qual, a sua maneira, recuperavam suas energias tentando descansar corpo e mente. Duas semanas se passaram desde a fatídica batalha e Ichijouji Ken permanecera em um profundo sono, como se estivesse em coma. Devido a toda peculiaridade da situação, a família Ichijouji mais uma vez encontrava-se perdida sobre a quem recorrer. Neste período Inoue permaneceu conectada a eles, tanto online quanto fisicamente. Miyako realmente não queria ter que recorrer a Izumi para aconselhá-la, mais estava tão confusa e perdida quanto os pais do jovem.

Izumi foi complacente em buscar contato com a entidade Gennai e apartá-lo de todo ocorrido, para que o mesmo lhe desse uma luz sobre o que deveria ser feito. Isso foi ainda na primeira semana de sono do ex imperador. Gennai esclareceu que cuidados medicinais do mundo humano não adiantaria em nada, pois a mente de Ken precisava se reestabelescer e aprender a “caminhar por si.” O que deixou claro para todos que as ações do jovem foram influenciadas nos seu tempo de império.

O que por um lado fora um alívio, por outro, era demasiadamente preocupante. Ninguém sabia bem o que esperar quando o jovem despertasse. A polícia já sabia que o rapaz havia regressado, a mídia já começava a perscrutar. A população ainda se recuperava dos muitos desastres naturais ocorridos pelo mundo e os agravos deixados por estes. Com certeza a aparição do jovem não era prioridade, mas certamente iria tomar destaque com o tempo.

Na sala da residência Ichijouji, os suspiros das mulheres foram quase que sincronizados. Sra Ichijoji já não tinha palavras para agradecer Miyako e toda sua prestatividade, agora também agradecia a Izumi e o homem do outro lado da tela do notebook do rapaz. O patriarca também se curvava em gratidão. Ele bem sabia quem era aquele jovem e todo o mal que Ken o fizera. Sentia-se constrangido diante de tanta benevolência vindo de uma alma tão jovem.

Koushiro realmente sentia-se compadecido pela situação da família. Não conseguia definir seus sentimentos em relação a Ken, mesmo que estivesse sob influência ele tinha lhe arremessado em um mar de agruras e desgraças e, não falando somente sobre roubar-lhe o amor de Miyako. Também não o odiava, embora não se arrependesse de quase tê-lo desfigurado. Não desejava nenhum mal e, na verdade, queria estudar e entender sobre “o que ou quem” o manipulara.

Inoue suspirou uma vez mais. Colocou uma mecha de cabelo para trás das orelhas. Prontificou-se a acompanhar o amigo até o elevador. Era difícil encará-lo. Não queria ter solicitado ajuda para um assunto que ela sabia que o machucava tanto, mas não tinha a quem recorrer.

— Hey, Miyako-san, não fica assim. Ele deve acordar em breve.

— E se não acordar? — Não, ela não queria ter dito aquilo, não para Izumi.

— Óbvio que vai.— Assegurou convicto, sorrindo melancólico.

Doía consolar a garota que ele amava, enquanto ela sofria por outro.

— Me desculpe por te envolver nisso tudo. — pediu envergonhada.

— Você não me envolveu, eu me envolvi...— suspirou exausto. — Só, Miyako-san… Se cuida um pouco.

— O que você quer dizer?

— Não me leve a mal, mas...— procurou as palavras com cuidado. — Desde o dia da batalha que você só foi em casa para pegar roupas. Não explicou nada direito para os seus pais, nem sobre o ferimento no seu rosto..

— Eu só… Os pais do Ken me pediram… Ele precisa de mim. — respondeu acabrunhada.

— Eles estavam desesperados, quando as pessoas estão em desespero tendem a ficar egoístas. Agora que Gennai-sama esclareceu tudo, eles ficaram mais aliviados. Miyako-san, você precisa ir para casa, dormir na sua cama, no conforto do seu quarto. Eu sei que você já é maior de idade, mas precisa conversar com seus pais. Poxa… Eles estão muito perdidos, preocupados.

— Meu Kami-sama… Você tem razão. Acho que fiquei meio obcecada. Eu só não quero per- — parou antes de completar.

— Não quer perdê-lo? Eu sei. — assentiu em concordância, como se aquilo fosse mais que óbvio. — E você não vai. Se ele acordar estará com outras duas pessoas que também o amam muito e irão cuidar bem dele. Além do mais, tenho certeza de que eles te avisarão prontamente.

— Eu sei. — sorriu secando as lágrimas.

— Então vá cuidar um pouco de si, porque você está péssima e, se Ichijouji acordar e te ver assim, ele vai virar para o canto e voltar a dormir. — brincou tentando aliviar o peso das palavras anteriores.

Ela o acertou um leve soco no ombro, em meio a risos e lágrimas. Era grata a Kami por ter o privilégio de ser amada por uma pessoa tão incrível que, realmente manteve sua palavra de que não importasse o que acontecesse eles seriam amigos e, somente sendo um amigo verdadeiro para lhe chamar a atenção daquela maneira.

…

Fechou o zíper de sua mochila e suspirou. Fora bem compreendida pelos Ichijouji’s, quando explicou sobre a necessidade de voltar para sua família, prestar esclarecimento e mesmo descansar. Dormira no quarto de Ken, em um colchonete posto a beira de sua cama a noite. Velou seu sono, conversou com ele, mesmo sabendo que não estava sendo ouvida. Foi companhia em tempo integral quando os pais do jovem não puderam deixar os respectivos empregos para fazê-lo.

Olhou-o uma vez mais, deslizou os dedos pelos delicados traços. As marcas do embate corporal contra Izumi já eram quase imperceptíveis. Sorriu melancólica ao lembrar-se de que o rosto do ex namorado não estava muito diferente. Penteou os fios índigos com os dedos e beijou-lhe a fronte, afetuosa.

— Volte para nós. Eu preciso ir agora, mas sempre estarei aqui pra você.

…

Hida Iori, fora prestativo em se oferecer para cuidar de Poromon no período em que Inoue esteve ausente. Por mais que já tivesse se desculpado com a amiga, sentia uma pontada de culpa por rechaça-la em um momento delicado. Já fazia algum tempo que sua família era ciente da existência dos Digimons. Seu avô sábio e, com percepção apurada havia descoberto quando o escolhido ainda era criança, mas preferiu que o mesmo contasse.

Não era incomodo algum passar as férias de verão a cuidar de Poromon. Upamon ficava até mais feliz e lhe dava longos períodos de paz. Quando a campainha tocou, fora um grande alívio ver que a amiga voltava para sua família para ter um pouco de descanso, ela merecia depois de tudo.

— Que bom que está de volta. — a recebeu atropelando os cumprimentos formais. — Entre. — cedeu espaço para que ela entrasse.

— Obrigada, Iori-kun… Por tudo, mas não vou entrar agora. Eu só vim buscar o...— antes que ela terminasse a frase, a pequena esfera rosada atirou-se em seus braços.

— Miyako! Que saudades. Você me abandonou. — choramingou enciumado, mesmo que em forma de brincadeira, pois na realidade ele sabia que o ex Kaiser precisava mais dela no momento.

— Não seja dramático. Nos falamos por chamada de vídeo todos os dias. — ela o acariciou o pequeno corpo.

— Hey, não fiquem aí na entrada, os vizinhos podem ver. — advertiu Upamon cauteloso.

— Upamon tem razão, entrem. — insistiu Hida.

— Outra hora. Iori-kun, muito obrigada por tudo. Agora eu preciso mesmo ir para casa. — esclareceu resoluta.

Despediram-se e seguiram rumo ao apartamento da família Inoue. Estava vazio. Os pais estavam trabalhando naquele horário e Miyako julgou que teria um bom tempo para descansar e se preparar para a complexa conversa que teriam mais tarde.

(...)

Dormira quase o dia inteiro. Em seu celular e D-terminal as pilhas de mensagens se acumulavam. Amigos, família e até colegas de Universidade. Todos preocupados com ela, os mais afastados rondavam a veracidade sobre as notícias do regresso de seu namorado. Ela selecionou os que mais importavam e enviou um simples “Estou bem, em casa e descansando. Agradeço a preocupação, assim que possível entro em contato. Abraços!”

Tomou um longo banho e se prestou a preparar o jantar com a ajuda de Poromon. Não tardou para que seus pais chegassem. Eles já sabiam que ela estava em casa, devido às mensagens, mas não esperavam encontrá-la animada a arrumar a mesa enquanto um delicioso aroma propagava-se pelo ar.

— Estamos em casa. — disseram em uníssono.

— Sejam bem vindos de volta. — respondeu animada, retirando o avental.

— Bem vinda de volta também. — Sra Inoue lacrimejou subitamente

Ah tempos que a filha exibia um comportamento atípico como se passasse por grandes mudanças que não pudesse revelar. Seus pais tentavam entender, ajudar, mas optaram por deixar que ela se abrisse no seu tempo.

Poromon, que buscou um esconderijo, também se emocionou com a cena. A família se reuniu a mesa para o jantar.

— Aquelas folgadas não vem jantar hoje? — referiu-se às irmãs.

— Não, elas foram para Kyoto. Mantarou também. — revelou a matriarca.

— Está sendo realizado um grande festival. — acrescentou o Sr Inoue.

— Eu entendo. Tinha me esquecido. — finalizou.

— E como está o seu namorado? — questionou a mulher.

— Está adormecido. — Miyako pigarreou, incerta.

— Como assim, adormecido? Repousando ou em coma? — Confuso, o homem perguntou, curioso.

— Querido. — advertiu a esposa, cuidadosa.

— Deixa ele, mãe. Já é hora de revelar toda a verdade e só não o fiz antes porque eu não podia. Poromon, pode aparecer!

E por um momento a garota pensou que seus pais fossem desmaiar. Foram tantas perguntas, tantas dúvidas. Ela precisou de um tempo para que eles aceitassem a veracidade dos fatos, até poder contar toda sua história, ou quase toda. Teve que escolher bem as palavras e ser madura em sua narrativa, ocultando certos pontos.

Ao fim do relato os pais não sabiam o que pensar ou sentir. Muitas vezes que estiveram com a filha em casa, a mesa, não era ela e sim uma criatura metamorfo em seu lugar? Como assim ela fora obrigada a servir de “escrava” realizando funções de uma doméstica, carcereira, enfermeira, secretária… Foi obrigada a terminar seu namoro com Koushiro e manter um falso relacionamento com Ichijouji?

O pior mesmo era absorver que ela o perdoou por todas essas mazelas e ainda diz ter conseguido enxergar que ele estava agindo sob influência do poder das trevas. Como assim poder das trevas? E essa tal batalha final, a chicotada que lhe marcou o rosto e o estado bizarro em que o gênio se encontrava no momento?

— Qualquer pai no meu lugar iria até esse moleque e o torturaria até a morte. — o patriarca cuspiu, angustiado.

— Eu sei pai, mas… Acredite em mim, ele também é uma vítima nisso tudo.

— Miyako, querida. Eu não quero ter uma filha envolvida em um relacionamento abusivo.

— Não, mãe. Não é este o caso. As coisas entre nós começaram bem ruins, é verdade, mas eu não deitei no chão e me permiti servir de tapete. A medida que o tempo foi passando… Bem, o Ken foi me mostrando um outro lado. Eu não sabia o porquê, mas sentia que ele precisava de ajuda.

— Pessoas envolvidas em relacionamentos abusivos sempre pensam isso. Sempre justificam a violência de seus parceiros com frases como “ele teve uma infância difícil’ ou algo do tipo.

Miyako suspirou aborrecida, entendia a preocupação. O fato era; Ken teve sim uma infância dramática. Não tinha como desenhar todas as nuances do seu relacionamento. Só ela sabia o que viu nos olhos dele, nos pedidos mudos de socorro, em seus momentos de declínio e carência.

Não que ela quisesse uma justificativa para as barbáries cometidas pelo ex Kaiser, mas ela não só viu o expurgo do que o dominava, como sentiu diversas vezes o peso e, o frio abismal do gigantesco poder das trevas que o envolvia. Aquilo não tinha como transmitir em palavras.

— Confiem em mim e na criação que me deram. Não estou submissa a um amor abusivo. Eu juro. — balançou a cabeça negativamente, enfatizando. — Em campo de batalha eu ordenei a Shurimon que tirasse a vida de Ken, isso me doeu, mas vocês e a humanidade inteira estavam em primeiro plano. Graças a Kami-sama, não chegamos a este extremo.

— Isso é verdade. — Poromon apoiou a parceira.

— Mesmo assim, talvez fosse sábio consultar um psicólogo. Também não podemos descartar a possibilidade da Síndrome de Estocolmo.— insistiu a matriarca.

— Consultar um psicólogo? E contar tudo? Abrir a verdade sobre monstros digitais e batalhas em outro mundo? — a escolhida acabou debochando sem se dar conta. — Me perdoem, eu não queria…

— Não, você tem razão. Em todos estes anos de convivência, durante a sua criação você nunca presenciou sua mãe e eu sendo desrespeitosos um com o outro. Nunca demos maus exemplos e sempre tivemos diálogo aberto com todos vocês. Você já é adulta e embora ainda more conosco, já toma suas próprias decisões. Só peço que seja prudente — Afirmou Sr Inoue.

— Não posso concordar com isso.— interrompeu a genitora. — Te criamos com todo amor e carinho, sofremos quando você sofreu, seja com febre, dores de barriga...— suspirou inconformada. — Não posso aceitar que você escolha este estilo de vida. Eu tenho certeza que se você desse uma chance ao Izumi-san…

— Não é assim que funciona, mãe. Muitas vezes as pessoas mais difíceis de serem amadas, são as que mais precisam de amor. — ela não era de usar frases feitas, mas aquela saiu naturalmente.

— Não...— a mais velha levantou a mão em sinal de ‘basta” — Eu não quero mais ouvir nada. Você esteve se colocando em perigo esses anos todos ao lado dessa coisa. — Olhou para Poromon que arregalou os olhos, ofendido. — Depois servindo de empregada pra um moleque que queria brincar de rei.— rosnou encolerizada. — Meu Kami-sama, você podia ter sido violada! Perdido algum membro ou até morrido! — Colocou os dedos na fronte, resfolegando. — E ficaríamos no escuro. — Levantou-se abruptamente e deixou o local, a prantear.

Miyako fez menção de levantar, mas seu pai não permitiu. Assinalando para que ela permanecesse sentada.

— Entenda o lado dela. Confesso que também me assombra a idéia de você ter estado em perigo em um mundo desconhecido. Até porque você é nossa caçula, até ontem estava a brincar pela sala e espalhar todo material escolar pela mesa e carpete.

— Eu realmente sinto muito por isso, mas sobre ir lutar no Mundo Digital e me submeter à chantagem de Kaiser, eu não tive outra escolha, mas sobre meus atuais sentimentos… Eu sei o que parece, mas eu realmente não quero e não vou desistir do Ken.

O homem coçou a cabeça e suspirou derrotado.

— Só lembre-se de amar a si mesma antes de tudo. — aconselhou pesaroso. — Essa situação de ter que ir para este tal Mundo Digital, acabou?

— Infelizmente não. Precisamos destruir as inúmeras Torres Negras restantes e, devolver o equilíbrio aos dois mundos. — Foi sincera. — Estamos apenas aproveitando as férias, para descansar.

— Aconselho que se prepare para o seu futuro de intensas batalhas e, não estou me referindo somente aos seres digitais. Aqui neste mundo Ichijouji cometeu diversos crimes virtuais que prejudicaram a vida de muitas pessoas. Elle tem contas a acertar com a justiça. Como está decidida a ficar do lado dele, deve estar preparada para enfrentar este escândalo e uma batalha contra a mídia nacional.

— Estou ciente. Estou preparada pai, sinto que posso passar por tudo isso e ainda encontrar um futuro feliz.

Ele apenas anuiu, processando a dimensão de todo aquele relato e a complexidade acerca de sua caçula. Mesmo assombrado, não pode deixar de sentir uma pontada de orgulho. Tinha diante de si uma mulher decidida, destemida e audaz diferente da garotinha que sofria constantes ataques de pânico.

(...)

Nos dias que se seguiram, Miyako só descansou. Sempre mantendo contato com os amigos e a família de Ken. Optou por não entrar em redes sociais e passou longe de noticiários e programas de fofoca, optando por streamers. Também ouviu músicas nostálgicas e organizou seu closet. Decidiu abrir algumas das muitas caixas de brindes que lhe foram enviadas. Eram marcas famosas ou iniciantes com a ambição de serem promovidas pela “namorada de Ichijouji Ken”. Algumas coisas foram do seu agrado, outras ela deixou para suas irmãs.

Era uma manhã de sábado. Da janela de seu quarto Miyako observava o belo céu azul que se fazia. Era como se levasse o ar mórbido do pós batalha. Suas narinas detectaram o aroma de pão feito na hora e doces. Poromon se agitou feliz, ao captar o mesmo cheiro.

— Miyako-chan, você está sentindo? — questionou empolgado.

— Estou sim. Vou a padaria comprar pães e doces. — revelou animada, ja arrumando os cabelos.

Mal ela colocou a mão na maçaneta e, a campainha tocou, fazendo Poromon se esconder em sua sacola. Quando abriu a porta, Daisuke e Iori a esperavam.

— O que fazem aqui tão cedo?

— Bom dia para você também magrela. — pentelhou Motomiya.

— Bom dia meninos! — cantarolou debochada. — O que fazem aqui tão cedo?

Poromon saiu do esconderijo e se misturou a Upamon e Chibimon.

— Viemos te convidar para ir a praia. — Informou Iori, direto.

— Praia? — Questionaram Miyako e Poromon.

— Sim, o Shin-kun convidou a Jun-nee e, ele tem uma Van com mais lugares e disse que eu poderia chamar vocês. E aí, o que me diz de levar essa bunda seca para fora daqui? — completou Daisuke.

Poromon se animou de imediato, mas entendia a delicadeza da situação e portanto aguardou a resposta da parceira.

— É complicado… Quero dizer, diante de tudo o que houve eu não sei se devo.— ponderou pensativa.

— Você acha que é injusto se divertir e relaxar um pouco enquanto o seu...— Motomiya coçou o queixo procurando a palavra. — Sabe lá o que vocês são! Enquanto o Ichijouji está daquele jeito.

Miyako piscou algumas vezes, sem resposta.

— Sabemos como se sente, mas não queremos te ver trancada o verão todo e só com preocupações na cabeça. Além disso, a praia escolhida é bem deserta, se não eu seria o primeiro a recusar. — acrescentou Hida.

— Oh! Certo, certo… Nós iremos com vocês. — anunciou se dando por vencida.

Poromon, Upamon e Chibimon se embolaram saltitando em uma comemoração. Iori assentiu e Daisuke ergueu o polegar, esboçando um largo sorriso vitorioso.

E lá se foi Miyako a revirar seu closet na procura de uma roupa de banho. Jogou vários biquínis sobre a cama, mas não se sentiu confortável em usar nenhum. Olhou-se no espelho e observou a marca feita por Kaiser, aquilo chamava muito a atenção e deixaria todos desconfortáveis.

Revirando algumas caixas de peças enviadas de presentes pelas lojas, encontrou um maio que lhe cobriria bem o corpo, contudo… Ela tinha certeza que Daisuke iria rolar no chão de tanto rir daquela estampa. Parece que a moda daquela estação eram estampas com tema de animal e a peça lembrava justo uma vaquinha holandesa.

—--

O segundo líder bem sabia todo o caos que a amiga estava passando, estava feliz que a convenceram de passear com eles. O sol brilhava, o céu estava azul, assim como o mar. O silêncio só era rompido pelo quebrar de ondas na areia, as gaivotas a cantar e a algazarra feita pelos Digimons.

Os rapazes já tinham erguido a tenda e montado as cadeiras, mesmo uma mesa onde colocaram os coolers com a comida. Já estavam de roupa de banho e repousando sob o sol, a relaxar. Motomiya engasgou e cuspiu uma certa quantidade de suco em si mesmo quando viu os trajes de banho das garotas.

Não somente Miyako parecia um cosplay de vaca holandesa, como Jun vestia um biquíni com estampa de tigre. Era moda, ele sabia, mas estava ridículo e jamais deixaria de zombar. Obviamente apanhou em dobro. E o silêncio daquela paisagem pacífica fora completamente violado e deu lugar a gritaria, correria e agitação.

Iori permaneceu recostado em sua cadeira, mas não pode evitar se divertir com a confusão. A partir dali o dia foi agitado, a água estava gostosa, a comida variada e as brincadeiras diversas. Quase no fim da tarde todos fizeram um círculo na areia e foram brincar de rebater a bola.

Daisuke ouviu seu D-terminal apitar e interrompeu a brincadeira, correndo até o dispositivo.

— Houston, temos um problema. — chamou atenção do restante que se reuniu à sua volta. — Parece que Takeru, Hikari-chan e Mimi-san foram passar as férias nos EUA só que lá apareceu um Digimon perigoso.

— Tão perigoso que eles não dão conta? — questionou Miyako incrédula, afinal os amigos lutaram contra um exército, não tinham motivos para temer um único inimigo.

— Não é só isso… Pelo que eu entendi da mensagem, o tal Digimon misterioso fez a Mimi-san desaparecer como mágica e, sumiu em seguida. Pior! Parece que os veteranos todos desapareceram.— Emendou Hida, lendo a mensagem completa em seu D-Terminal.

— O QUE? — Questionaram em coro.

Miyako buscou seu celular e começou a ligar para todos, mas nenhum atendia.

— Takaishi e Yagami estão seguindo um rapaz que parece estar seguindo esse Digimon e, misteriosamente sempre parece saber onde ele vai aparecer. Mandaram uma foto. — O segundo líder apontou para o loiro fotografado, o mesmo tinha um Digimon consigo.

— Ele tem um Terriermon! — exclamou Chibimon.

— Então não é parceiro do Digimon inimigo. — observou Poromon.

— Temos que ir para lá. — ponderou Upamon.

— Como assim? Vocês estão falando de ir para outro país e não a um bairro vizinho? — observou Jun, cruzando os braços frente ao peito.

— Nós sabemos, mas...— começou Daisuke. — Não podemos ficar aqui parados. Teremos que viajar!

— Ou usar os portais. — sugeriu Inoue.

— Pode ser perigoso. — ressaltou Iori.

— Temos que pensar rápido. — atentou-se Motomiya.

…

Descartando a ideia de viajar pelo portal, os escolhidos decidiram contar com o apoio dos Tachikawa, que se prontificaram de imediato, afinal a filha deles poderia estar em apuros. Dessa vez, Miyako optou por não ocultar nenhum detalhe de seus pais e deixou claro o motivo de sua viagem repentina. Os mesmos não receberam bem a notícia, mas não se opuseram.

Marcou de encontrar os amigos no aeroporto. Tinha um lugar onde queria passar antes. Sem floreios, explicou a situação para a Sra Ichijouji, não por obrigação, mas queria deixar claro que não estava viajando a passeio em um momento como aquele.

Cautelosa, girou a maçaneta e adentrou silenciosamente, acendeu a luz e caminhou até a cama onde Ken repousava em seu sono profundo. Era agoniante não saber o que esperar quando ele despertasse. Com as pontas dos dedos, Inoue acariciou-lhe as maçãs do rosto.

—Vou sair em missão. Quando eu voltar, desejo que você tenha despertado para que assim possamos recomeçar nossa história, agora da maneira certa. — pressionou suavemente seus lábios contra os dele em um beijo terno. — Eu te amo...

Guardou aquele momento em sua memória e o repetiu várias e várias vezes enquanto seu voo decolava para uma nova missão. Seu coração fragmentava-se por ter que deixá-lo, mas tinha obrigações com seus amigos e com os dois mundos.



Fanfic Kaiseryako aqui