Inimigos Íntimos

27 Cada vez mais sua


Pov Narrador

Após uma noite e tanto na casa da família Inoue para o nosso casal, o domingo passou de forma confusa para os dois, ambos passaram o dia inteiro pensando no que tinha acontecido, principalmente no quase beijo que rolou entre eles.

Miyako não sentia-se nenhum pouco animada, seu humor não era dos melhores, após uma noite inteira repleta de sonhos, os quais julgava completamente bizarros, com Kaiser. Procurou ficar no quarto o tempo inteiro, alegou que estava indisposta, quando saia se deparava com as irmãs e todas as perguntas constrangedoras que faziam sobre a sua demora ao subir depois da despedida, chegaram até mesmo apostar, se tinha rolado algo a mais que um beijo, deixando a garota completamente envergonhada. Mantarou interviu pedindo para que a deixasse em paz, recebendo um tímido obrigado de sua irmãzinha; ele sentia que algo estava errado com ela, porém, por ora iria apenas observar as suas ações, antes de agir.

Ela procurava entender o porque do namorado agir daquela forma com seus familiares, achou estranhas demais as reações do garoto, tinha certeza de que estava atuando e fez isso com maestria, a deixando muito irritada. Fora que, não esperava que sua família tinha gostado tanto dele, para ela, ele não merecia 1% de toda receptividade calorosa que foi oferecia, não depois de todas as coisas cruéis que tinha feito a todos em sua volta.

Aliás, nem mesmo Kaiser sabia o porque tinha agido daquela maneira com a família Inoue, inicialmente era para fingir bem o papel como faz para a mídia, tentar ao máximo se sair melhor do que Izumi e conquistar todos os integrantes. Porém, com o decorrer da visita, as coisas foram tomando outro rumo, o clima daquela casa era completamente diferente do que vivia, não tinha a frieza que estava acostumado, tudo ali dentro era muito mais acolhedor, principalmente quando sentaram-se à mesa para jantar, não se recordava da última vez que fez isso com os pais.

Durante o trajeto de volta para casa, sua cabeça pensava muitas coisas, por um momento sentiu um pouco de inveja da garota, pelo fato de ter uma família tão presente em sua vida e pela forma como eles se davam bem, algo passou vagamente pela sua cabeça, se os seus pais agissem um pouco daquela forma, as coisas poderiam ter sido diferentes? Esse pensamento vago se dissipou ao chegar em casa e ver sua mãe dormindo no sofá, parecendo estar ali há algum tempo, balançou a cabeça negativamente, definitivamente, família comercial de margarina não combinava nenhum pouco com ele.

Seguiu para sua base, ficando por lá até praticamente o horário de ir a escola, dispensou Miyako de suas funções de escrava, queria ficar o máximo de tempo sozinho, sua mente lhe alertava para que ficasse um tempo longe dela, ainda mais depois do quase beijo que rolou entre eles. Estava nos planos brincar com a mente da garota e se divertir às custas dela, contudo, não estava planejado ela querer corresponder o beijo, por um momento sentiu um fio de esperança, dela relembrar de todos os momentos vividos naqueles trinta dias, só que BlackTailmon tinha sido bem específica, ela não lembraria de nada, o que fez imediatamente se afastar, sem antes se divertir com a expressão irritada que fez.

O domingo chegou ao seu fim, ainda sim, não encontraram respostas para o que as suas mentes pensavam. Os questionamentos internos se tornaram ainda mais intensos, por parte de Inoue, após mais um sonho que teve com Kaiser, o quase beijo no hall tinha acontecido, ela havia correspondido fervorosamente, transformando num intenso amasso. Acordou ofegante, praguejando o garoto por estar invadindo os seus sonhos e acabando com sua sanidade, para a garota, ele era um bastardo maldito que tinha acabado com a sua vida.

Olhou para a janela, viu que tinha amanhecido, o sol, preguiçosamente aparecia, as nuvens faziam de tudo para tapá-lo, deixando seus raios fracos tocarem tudo em sua volta. Olhou no relógio do celular e viu que faltava cinco minutos para o despertador tocar, decidiu se levantar e ao fazer isso, sentiu a brisa cortante passar por sua pele, deixando-a arrepiada, indicando que o frio tinha chegado e que precisaria se agasalhar bem para a escola.

A garota fez as suas higienes matinais e colocou o uniforme, seguiu para sala, dando bom dia a todos e tomou seu café em silêncio, só pensando em como seria o seu dia, ainda mais vendo Kaiser após o jantar, achou um milagre que não havia a chamado para ir ao Mundo Digital, agradeceu a Kami por isso ter acontecido, um dia a menos convivendo com ele era tudo o que precisava, só se preocupava com o bem estar do seu parceiro.

Terminou de se organizar, pegou os obentos e despediu de sua família, saindo de casa e seguindo para escola, naquele mesmo horário cedo, para não correr o risco de cruzar com seus amigos, ainda mais Takeru, sentia-se envergonhada por ele ter a visto e presenciado aquele momento constrangedor que aconteceu no hall. Depois do rompimento dramático com Koushiro, sua imagem com os amigos já não era a melhor, e depois daquilo, que com toda certeza o loiro contaria ao grupo, as coisas tenderiam a ficar ainda mais intensas entre o relacionamento deles.

Chegou na frente da escola e se dirigiu ao costumeiro local, no qual sempre espera por Kaiser, estranhou o fato de algumas coisas estarem diferentes, a cor do portão de entrada estava mais viva, assim como as das paredes. Não foi só isso que chamou a sua atenção, notou que algumas colegas de sua sala já haviam chegado e estavam em seus grupos, observou que elas tinham caracteristicas bem diferentes da semana anterior, umas tinham os cabelos mais compridos, outras pareciam ter engordado um pouco, chegando a conclusão de que todas estavam diferentes do que conhecia.

Aos poucos os alunos foram chegando e o estranhamento dela foi aumentando, o que estava acontecendo naquela escola?! Como as pessoas poderiam estar tão diferentes da sexta-feira? Estava tão perdida em seus questionamentos, que nem percebeu a aproximação de Hino e suas amigas, formando uma roda entre ela, só foi mesmo se dar conta delas, quando sentiu um liquido jogado em seu rosto, seguido de diversos tipos de selos, e orações para espantar espíritos malignos.

— Defendei-nos do poder das trevas, que os maus espíritos, como esse demônio em minha frente, se afastem de mim e que os bons me sirvam de proteção contra eles! Em nome de Kami! — Hino gritou fervorosamente, colocando mais um selo em Miyako, só que dessa vez em sua testa.

— Uau Hino, achei que você fosse mais discreta, era só ter chegado e ter dito que não gostou do penteado, não precisava fazer esse circo todo. — A garota debochou, retirando o selo de seu rosto e colocando no nariz da garota, deixando-a vermelha de raiva.

— Ora sua demônia, pare de se fazer! Pensa que me engana?! Rá, sei muito bem quem você é, descobri a sua verdadeira identidade na semana passada! — Hino berrava descontrolada, suas amigas perceberam a vergonha que a garota passava, aos poucos foram se afastando, deixando ela e Inoue frente a frente.

— O que eu sou?! Verdadeira identidade? — A violácea cruzou os braços, arqueando uma das sobrancelhas, sem entender nada do que a morena afirma.

— Pesquisei bem na internet, agora sei bem quem você é, Inoue Miyako, ou melhor, Yamamura Sadako! — Retirou mais um selo de seu bolso e tocou na garota, a qual se segurava para não rir da situação ridícula criada por Hino.

— De todas as coisas bizarras que ouvi até hoje, comparar a minha namorada com a personagem de um filme de terror é demais. — Ken se aproximou das garotas, entrelaçou sua mão com a da namorada e retirou o selo de seu rosto, o amassou e colocou no chão.

— Ichijouji Ken-san! Bom dia! — A expressão de Hino mudou radicalmente, agora se portava como uma garota meiga, chegando a fazer uma voz mais doce.

— Tome. — O garoto lhe entregou um papel, e saiu de sua frente, caminhando com a namorada para dentro da escola.

— Ai não acredito! Finalmente ele reconheceu o meu valor! — Pulou dando um gritinho de vitória, suas amigas trataram de se aproximar. Ao abrir o papel se deparou com um endereço e telefone, deu um sorriso malicioso, achando que finalmente tinha dado certo seus planos. — Ei Ichijouji-san, pode deixar que vou ligar! — Gritou, fazendo com que os alunos todos olharem na direção do gênio prodígio.

— Faz muito bem, é um ótimo psiquiatra, vai conseguir identificar o seu problema bem rápido e te indicar uma ótima medicação. — Parou no meio do caminho e falou em alto e bom som, Miyako deu uma discreta risada, e voltaram a caminhar se dirigindo para entrada da escola.

Mais alunos haviam chegado e presenciaram toda a cena, as risadas e piadinhas em relação a loucura de Hino foram demais, alguns tinham o celular em mãos, gravando toda humilhação que a garota passou, novamente seus planos deram errado, não tinha sido dessa vez que tinha conseguido nada com o garoto prodígio e pior, foi chamada de louca por ele na frente da escola inteira.

Nem as amigas escaparam, riam junto, procurando ao máximo serem discretas para morena não perceber. O que restou Hino fazer? Recolher as suas coisas e entrar na escola, bufando, completamente furiosa, jurando vingança a quem se metesse em seu caminho.

Quem tinha presenciado toda a confusão entre as garotas foram os digiescolhidos, mesmo a violácea não falando com nenhum deles, todos acharam um absurdo o que Hino fez com a garota, principalmente Mimi, que por pouco não se aproximou para tirar satisfações, faria isso, até mesmo para conseguir trocar alguma palavra com a amiga, só que Ken chegou bem na hora, a fazendo recuar.

Nesse mesmo embalo, Takeru acabou contando em detalhes o que tinha presenciado no final de semana, dando a entender que Ken havia jantado na casa da família Inoue, e principalmente o que tinha rolado no hall de entrada, a forma íntima como os dois estavam perto, parecendo que algo a mais tinha rolado ali. Essa informação deixou a todos impressionados, principalmente a Koushiro, cada dia que passava a violácea apresentava uma nova atitude, totalmente distinta do que realmente era.

O ruivo não queria ouvir mais nada do que Takeru dizia, pediu licença ao grupo de amigos e se retirou, entrando na escola sob olhares desconfiados de alguns alunos. O loiro se deu conta do que tinha feito e acabou se sentindo mal por ter contado aquilo aos amigos na presença do escolhido da sabedoria; era nítido a todos o quanto ele estava triste, aquelas palavras tinham o machucado muito, por mais que não falasse, seus amigos sabiam que ainda gostava muito da garota e que sentia demais a sua falta.

Durante o caminho, Koushiro foi ouvindo piadinhas maldosas ao seu respeito, recebeu empurrões e ameaças de alguns garotos, procurou ignorar todas as provocações, tinha noção de que sofreria tudo isso quando retornasse de sua suspensão. Ao chegar em seu armário, se deparou com uma folha, nela estava escrita diversas ofensas a seu respeito, e uma promessa de que apanharia na hora da saída de um grupo do primeiro ano.

Ignorou o papel, o amassando e colocando dentro de sua bolsa, respirou fundo, enquanto trocava os seus sapatos. Ao fechar o armário, paralisou ao escutar uma risada conhecida bem perto de si, há quanto tempo não ouvia aquele riso?! Sentia falta demais dele e dos efeitos que causavam em si. Virou na direção do som e se deparou com Miyako e Ken rindo de alguma coisa, parecendo bem íntimos; imediatamente sentiu seu peito doer, mesmo passando um mês longe não havia deixado de pensar nela e principalmente, a última lembrança que tinha dela era da forma como estava triste naquele dia, deles tocando os dedos, enquanto ele ia para diretoria, e das palavras que tinha proferido: “Eu acredito em você!”

Sentiu que os seus olhos queimaram, vê-los daquela maneira foi a constatação da veracidade das palavras de Takeru, não que o amigo estivesse mentindo, ele não queria acreditar que aquilo fosse verdade, não ela, a garota que um dia achou que conheceu, que tinha se transformado em uma pessoa totalmente desconhecida a todos.

Ver aquela cena só estava lhe fazendo mal, saiu dali o mais rápido que podia, não querendo chamar a atenção do casal, procurando ser o mais discreto possível. O que ele não sabia era que estava sendo observado, e era por Mimi, que soltou um suspiro ao olhar para Miyako, uma coisa era certa, a castanha não desistiria de tentar chegar perto da garota, daria um jeito de falar com ela e seria ainda durante a semana, nem que tivesse que tomar medidas drásticas.

A pergunta que não quer calar, o que o casal tanto falava e ria para Koushiro ter ficado daquela forma? Bem, pela primeira vez eles estavam conseguindo ter um diálogo civilizado em público, sem trocar farpas, sobre o vexame de Hino na entrada da escola.

— Foi memorável a cara que ela fez, devíamos ter gravado! — Miyako comentava rindo, enquanto guardava os seus sapatos no armário.

— Isso vários alunos fizeram, aliás, o vexame dela já está espalhado nas redes sociais. — Ken mexia em seu celular, abrindo o vídeo e mostrando para a garota.

Os dois riram muito, principalmente da seriedade das palavras de Hino, como se Miyako fosse um ser sobrenatural, sabiam que obviamente seria taxada de louca por todos, por acreditarem que aquilo não existisse, só o casal sabia muito bem do que se tratava.

— Ai, a criatividade não tem limites, conseguiram fazer em pouco tempo um vídeo deal with it! — A essa altura, a barriga de Miyako doía de tanto que ria, chegava limpar as lágrimas que caiam no seu rosto.

— É, parece que os Bakemons andaram se divertindo por aqui. — Ken comentou desligando o vídeo e atualizando a página, se deparando com memes criados com o rosto dele e um óculos escuro, e da morena, com as caras que fez.

— Bakemons? Quando foi isso? — A violácea questionou, arqueando uma das sobrancelhas, sem entender o porquê do uso dos fantasmas.

— Foi quando você caiu e bateu a cabeça, você não estava em condições de ir para a escola, mandei os dois no nosso lugar. Naquele mesmo dia, Hino tinha armado uma armadilha para te agredir, só que ela não contava que não fosse você, e bem… — O garoto conseguiu relatar pouca coisa sobre o ocorrido, pois o sinal de entrada tocou bem na hora e eles precisavam seguir para sala. — Vem, a gente não pode se atrasar. — Enlaçou as suas mãos, a puxando, para seguirem as suas aulas.

— Aaaah, não acredito! Você vai me deixar curiosa a manhã inteira? É isso mesmo?! — Miyako bem que tentou persuadir o namorado, o máximo que conseguiu dele foi riso nasalado, por ter a deixado curiosa.

— Termino de te contar no almoço, a história é longa. Você vai gostar. — Falou num tom um pouco mais alto, devido a ter visualizado os digiescolhidos perto deles, que estavam olhando para eles, observando suas atitudes.

Ken abriu um sorriso de canto, enquanto caminhava pelos corredores, constatando que valeu a pena ficar trinta dias longe, os Bakemons fizeram um trabalho excelente, seus planos na escola tinham dado muito certo. O bônus de tudo foi o vexame de Hino, logo no início da manhã, mal a segunda-feira tinha começado e o circo já estava pegando fogo, bem do jeito que ele gosta.

(...)

O dia foi passando, Miyako parecia um pouco perdida nas matérias, por mais que os professores explicasse, parecia que falavam outro idioma com ela, sabia que precisaria estudar um pouco a mais para correr atrás do prejuízo. Durante o almoço, Ken lhe relatou sobre as ações do Bakemon na escola durante o período em que esteve em descanso, por conta da “pancada” que sofreu, arrancando boas risadas dela, sobre o que aconteceu com Hino e suas amigas.

O período da tarde estava preguiçoso e seguiu sem grandes novidades, os alunos pareciam cochilar sob os livros, até mesmo Ken, devido a não dormir direito nas duas últimas noites, exatamente o tempo em que Miyako tinha voltado para sua casa. Se deitava, tentava fechar os olhos, e conseguia tirar um cochilo de poucos minutos, só que ao acordar, o cheiro dela se fazia presente nos seus lençóis, pousava a mão no outro lado e o sentia vazio.

Era duro de admitir para si mesmo, Inoue fazia falta ao seu lado, algumas coisas mudaram dentro de si nesse tempo em que passou convivendo com ela, fora que, tinha se acostumado a dormir bem, sem precisar do auxílio de mediação, e receber muitos beijos e alguns carinhos, nos quais não estava acostumado; isso, sem dúvidas, era o que ele mais sentia falta.

Aquele quase beijo que rolou no sábado ficou em sua mente, o clima que eles se encontravam e, principalmente todas as ações que o corpo da garota demonstrou, fez ligar uma luz vermelha em sua cabeça, será que o seu corpo o reconhecia? Será que ela o corresponderia? Precisava tirar aquelas dúvidas de sua mente, e seria à noite, quando estivesse em sua base.

Os alunos agradeceram a Kami quando o sinal de saída tocou, o casal se encontrou nos armários, fizeram a troca de sapatos e saíram da escola, sem silêncio, seguindo o caminho costumeiro, despedindo-se perto da estação. Ken avisou que dentro de duas horas a chamaria para ir ao Mundo Digital, devido às inúmeras tarefas que tinha em sua base; antes que ela abrisse a boca para contestar algo, ele deu as costas, seguindo o seu rumo, deixando-a para trás, esbravejando por ter tão pouco tempo para colocar a matéria em dia.

Miyako seguiu em passos rápidos para sua casa, por milagre, conseguiu chegar em pouco tempo, constatando que estava sozinha, uma realidade na qual vivia, por não trabalhar mais na lojinha de seus pais. Foi diretamente para o seu quarto, retirou os materiais de suas mochila e caiu de cara nos livros, relendo algumas vezes toda a matéria dada em aula, todas as dúvidas que sentiu na explicação do professor foram se dissipando à medida que foi resolvendo as listas de exercícios.

Estava tão entertida, que só se deu conta que o tempo havia passado, só foi prestar atenção em algo, quando escutou seu terminal apita, anunciando ser uma mensagem de Kaiser, com as coordenadas para sua base. Suspirou desanimada, nem ao menos havia tirado o uniforme e pior, nem tinha dado tempo para tomar algum banho, sabia que deveria ter feito isso quando chegasse, só que a necessidade de colocar a matéria em dia era bem maior do que isso.

Ligou o computador e abriu o portal, um clarão surgiu na tela e o seu Bakemon surgiu por ele, já tomando a sua forma; ela atravessou e, em questão de cinco segundos, já se encontrava na base de Kaiser, usando seu traje, só que dessa vez as configurações eram diferentes, a cor havia mudado para um tom royal, tal qual a roupa do imperador.

O imperador se encontrava sentado em sua cadeira, digitando rapidamente no teclado, nem precisou se virar para perceber que a garota já estava ali, o seu cheiro se espalhou por toda a sala de controles. Inalar aquele aroma fez com que a sua concentração fosse para o espaço, precisava tirá-la dali por hora, não tinha como parar o que fazia naquele momento. Inoue deu alguns passos, se aproximando dele e colocou seu Digivice em cima da mesa, fazendo um ruído baixo, o suficiente para ele virar sua cabeça e dar uma rápida olhada nos trajes, não podia se perder muito por ali, sua mente já criara todos os tipos de devaneios profanos em relação a escrava.

— Faça primeiro a limpeza no meu quarto, quando acabar, quero um lanche e depois volte aqui, tenho algo especial para você. — Deu um sorrisinho de canto, para logo em seguida virar a cabeça e voltar a sua atenção no que fazia.

— Miyako-san, venha comigo, pode começar pelo quarto. As coisas estão lá. — Wormmon surgiu das sombras em frente a garota e fazia sinal com o corpo, para que o acompanhasse.

A dupla seguiu pelos corredores escuros da base, nos primeiros tempos Miyako sentia-se em pânico por andar em meio aquela escuridão, depois de tanto tempo convivendo ali, já estava acostumada, porém, não deixava de achar aquilo tudo horripilante demais. Antes de entrar no quarto, Wormmon lhe passou algumas recomendações de seu mestre e se retirou, ao abrir a porta, teve a surpresa de encontrar Hawkmon sentado na cama, a aguardando; soltou um de seus gritos e o abraçou, a saudade que sentia dele era demais. A ave informou que Kaiser havia o autorizado a fazer companhia, só que não poderia ajudar em nada, caso contrário, seria punido.

Só de ter o parceiro por perto deu mais energia para fazer a limpeza do dia, antes de começar a faxina, pegou seu celular e colocou no aplicativo de músicas, escolheu seus artistas preferidos e em modo aleatório iniciou-se a música, uma de suas favoritas, diga-se de passagem, fazendo com que soltasse um gritinho animado, seguido de muitos pulinhos.

— Oh, oh, my love is on fire. So don’t play with me boy… — Ela cantarolava uma música, enquanto fazia a vassoura de microfone.

Mesmo com a ordem de não poder ajudá-la,Hawkmon acompanhava cada passo de sua parceria, aquela sim era a garota que conhecia, a verdadeira Miyako; a mesma que cantava alegre cada faixa que tocava, fazia escândalo e dançava quando a música era bem animada, dava gritos quando via uma coisa que odiava, reclamava e dramatizava por toda sujeira que tinha de limpar.

Finalizou a limpeza e se jogou em uma cadeira, fechou os olhos e se abanou as mãos, todas aquelas tarefas tinham dado calor. Descansou um pouco e levantou, seguindo para a segunda tarefa do dia, fazer um lanche para Kaiser, dessa vez prendeu os cabelos antes de começar, para evitar possíveis surtos vindos dele, já que estava de muito bom humor, o que era estranho, pois no mínimo deveria estar aprontando uma para ela.

Ao retornar a sala de controles, se deparou com uma mesa lotada de papéis coloridos e caixas, um grupo Gotsumons surgiu trazendo mais coisas, chegando a colocar no chão. A garota ficou boquiaberta com a quantidade de coisas que tinha ali, o que Kaiser estava tramando? Quem seria o louco de mandar tudo aquilo? Ou os loucos?

— Ah, não… — Miyako murmurou segurando firme a bandeja de comida.

— Até que enfim você voltou, espero que tenha ficado bem limpo, por conta de sua lerdeza. — Kaiser surgiu das sombras, deu alguns passos e sentou em sua cadeira, virado de frente para ela.

— Pode ter certeza que ficou um brinco. Agora quer fazer o favor de me explicar o que é isso? — A violácea questionou, enquanto colocava a bandeja ao lado do teclado.

— Lembra que eu disse que tinha algo especial a você? — Devolveu com outro questionamento, recebendo um balançar de cabeça afirmativo, o que fez com que abrisse um largo sorriso. — Surpresa, escava, achou que limpar meu quarto e me fazer um lanche faria com que se livrasse de mim tão rápido? Nananinanão, temos muito que nos divertir, principalmente agora. — Apontou com o dedo para a outra mesa. — Pode começar, quando acabar, está liberada para ir embora.

Miyako olhou incrédula para o imperador, teria de responder às cartas e e-mails das fãs, assim como abrir todos os presentes e dar um destino a eles. Levaria horas para acabar, era uma montanha de papel sem fim. Sentiu seu rosto esquentar, respirou bem fundo contando até dez para respirar, só que…