Inimigo, Inimigo
1 Capítulo 1 - Eeehh?
Notas iniciais
Foi a sensação mais esquisita da minha vida. Começou como se um choque tivesse percorrido meu corpo, de ponta à ponta. Passou tão rápido que nem serviu para doer, mas deixou uma confusão de sensações: calor, frio, tremeliques e repuxões, até cosquinha, cada coisa em um ponto, e passava tão rápido que, quando eu me dava conta, já estava sentindo em outro lugar. Percebi que meus olhos estavam abertos quando o que quer que fosse que estava vendo começou a chacoalhar e mudar de brilho e contraste, me obrigando a fechar os olhos antes que ficasse tonta. Ao mesmo tempo, senti uma gama de cheiros e gostos que me deixou enjoada. Então percebi que estava de pé, prester a perder o equilíbrio, mas consegui achar meus joelhos e dobrá-los, agachando, antes que caísse.
Eu não fazia a menor ideia do que estava acontecendo, mas tinha por certo que estava passando muito mal. Por um segundo, achei que fosse o meu fim. Passado o segundo, descobri que estava engada: eu estava bem. Aliás, perfeitamente bem. Pelo menos fisicamente. Da confusão restou a pergunta: que diabos está acontecendo?
Aliás, ao abrir os olhos, o que não me faltou foi pergunta. A última coisa que me lembrava era de ter caído no sono, na minha cama, numa tarde quente de domingo. E agora, aparentemente, estava agachada num lugar, cercada por... neve? Apesar de nunca ter visto neve ao vivo na minha vida, estava certa de que era disso que se tratava aquilo no chão. Estendi a mão para examinar melhor, mas parei abestalhada para encarar aquela luva que eu não reconhecia.
Então, um som distinto me chamou a atenção: eram passos na neve. Virei-me e dei com um par de sapatos cujo dono, um homem jovem, entre seus 20 e 30 anos, de olhos puxados, curvou-se em minha direção e estendeu uma mão. Nessa hora dei-me conta da minha situação, agachada, quase em posição fetal, no meio da neve, e não pude deixar de me sentir embaraçada. Mesmo assim, aceitei a ajuda, aproveitando para dar uma espiadinha na minha roupa, só para ter certeza que não estava mais de pijamas.
–- Tudo bem? –- entendi o estranho perguntar, segurando meu braço com delicadeza. Digo que entendi porque o que achei ter ouvido foi outra coisa, "daijōbu", palavra em japonês que conhecia dos meus tempos de obsessão por animes e mangás. Estranhei, obviamente, mas respondi que sim, com a cabeça, ao que ele respondeu com um "então vamos" que novamente soou como outra coisa, "saa, ikō".
Dito isso, ele saiu andando, e eu o seguindo, de olho nos arredores. A rua por onde andávamos era estreita, com casas de um lado e um campo coberto de neve do outro –- de onde tínhamos acabado de sair. O sol se encontrava um pouco acima do horizonte, eu não sabia se nascendo ou se pondo.
Passamos por uma placa que dizia: FIRE HYDRANT — 消火栓. Essa eu não teria dificuldades para entender, tinha um hidrante ali. Mas do outro lado do campo pude ler um letreiro grande que dizia 火の用心. Isso eu já não saberia, meu japonês se limitava a palavras soltas, mas de alguma forma eu entendi. Cuidado, [risco de] incêndio.
A essa altura eu tinha um palpite muito forte de que estava no Japão. São Paulo que não era. Como? Quando? Por quê? Perguntas, perguntas... Só não estava mais perdida porque já esperava por coisas extraordinárias desde os eventos da semana passada. Bom, não sabia se o que eu pensava ser semana passada ainda o era. Outro palpite meu era que eu tinha perdido a memória.
–- Por aqui –- ouvi o homem dizer, embora, como antes –- e como seria por todo o tempo em que passaria ali –- ele estivesse de fato falando em outra língua.
Ele havia virado à esquerda, entrado em outra ruela, por onde seguimos. As casas dos dois lados, em geral, eram de dois andares, mas não pareciam muito grandes e eram quase coladas uma na outra. Entramos em uma dessas casas. Ele largou os sapatos na entrada, e eu fiz o mesmo, embora as botas que eu usasse não saíssem tão fácil. Aliás, belas botas. Eu continuava com bom gosto.
Assim que pude, fui atrás dele, no segundo andar. A escada dava num cômodo pequeno, com três portas e uma mesa que ocupava quase todo o espaço. O japonês, se é que era japonês, mexia em alguma coisa na mesa. Virou-se para mim rapidamente e disse um: "senta aí". Sentei-me de frente para ele.
Ele aumentou o volume do rádio onde estivera mexendo e em seguida largou-se na cadeira, tirando o gorro. Passou a mão nos cabelos pretos, curtos, afrouxou o cachecol e coçou seu projeto de cavanhaque. Também tirei o gorro que usava e verifiquei que meus cabelos continuavam do mesmo tamanho, um pouco abaixo do ombro, lisos e castanho-escuros.
–- Uma pena incomodar os vizinhos tão cedo, mas nada como uma música enka para dar interferência –- disse ele, olhando pro rádio.
Eu não disse nada, embora perguntas não faltassem. Para começar, eu ainda estava digerindo a ideia de que eu entendia japonês, mas ainda não sabia como falar em japonês.
Meu anfitrião, no entando, não deixou que o silêncio constrangedor se instalasse. Expirou em voz alta e disse:
–- Então... Não sei se você já sabe, mas meu nome é Hank. Você deve ser Amanda, certo?
Amanda? Eu fiz que não, meu nome é Cecília. Hank curvou-se na minha direção, me olhando nos olhos, com o dedo na têmpora. Tive a impressão que uma luz piscou atrás de seu olhos, mas foi rápido demais para ter certeza.
–- Quê?! Que estranho... Mas você é a parceira do Petri, não é?
Ah! Finalmente um nome familiar no meio de tanta coisa estranha. Deixei soltar um "Ah, o Petri!", mas me surpreendi ao ouvir minha voz dizer: "Aa! Petori-san!"
–- Mas... Você nem chegou a fazer o treinamento ainda?
–- Eu... –- arrisquei falar. E, sim, mesmo pensando em português, quando eu falava saía em japonês. Coisa mais estranha. –- Eu não sei, não lembro. Acho que perdi a memória ou coisa parecida.
Ele retesou-se, parecendo incomodado.
–- Você não sabe nem o que está fazendo aqui?
–- Não...
–- Bom... –- Ele fez uma pausa. –- Vai ter que aprender na prática, então. Mas isso é com o Petri. Ele vem hoje pro Japão, acho.
Japão! Eu sabia! Aí sim, não fosse a voz melancólica do cantor enka, reinaria o silêncio. Eu estava começando a me situar, ainda que um tanto confusa. Seria essa uma missão? Na minha cabeça eu repassava os eventos da semana passada, tentando lembrar de qualquer coisa que pudesse ser importante que eu tivesse esquecido. Bom, tudo começou, se não me engano, numa terça-feira...
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