Inimigo, Inimigo

2 Capítulo 2 - Contrato


Não importa se era dia de semana, já passavam das 11 e eu lá, dormindo. Uma das vantagens de "trabalhar" exclusivamente com internet — e de morar sozinha — é que eu podia dormir até cansar. Nesse dia, especificamente, levantei assim que acordei porque estava curiosa quanto ao resultado de um leilão de um item ultra épico no mmorpg no qual eu vivia 1/3 do meu tempo. Só para descobrir que estava sem internet.

Segui todo o ritual de resetar o modem, o roteador, reiniciar o pc, e não deu em nada. Restava ligar para a assistência técnica, coisa que eu odeio fazer. Resolvi dar um tempo, comer, talvez arrumar alguma coisa — a bagunça da casa já estava começando a me estressar, e a faxineira só viria semana que vem. Quem sabe dali a algumas horas a conexão não voltasse.

Fui para a cozinha ver o que arranjaria para comer. Abri a janela para dar uma arejada e entrou um cheiro tão bom de comida! Há quanto tempo eu não comia "comida de verdade"? Eu podia sair para comer... Talvez outro dia. Resolvi pedir comida chinesa. Não é o mesmo que arroz, feijão e batata frita, mas dá para o gasto. Eu só precisava ver se o dinheiro dava.

O lado ruim de trabalhar com internet é que às vezes (no meu caso, na maioria das vezes) o dinheiro é curto. Só não estou à mingua porque a aposentadoria do meu pai paga as contas da casa, do asilo e ainda dá para uma compra básica do mês. Sim, papai mora no asilo, mas, antes que me julguem, não fui eu quem o colocou lá. Ele que decidiu ir, num momento já raro de lucidez, quando descobriu que mamãe estava doente e precisava cortar um dobrado por causa de seu alzheimer. Foi difícil no começo, mas garanto que estamos melhor assim. Sempre visito ele ao menos uma vez por mês. Quanto à mamãe, ela se foi quatro meses depois da sua internação.

Bom, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que nem cheguei a procurar o dinheiro. Antes mesmo que eu saísse da cozinha a campainha tocou. Fui olhar de curiosa — se não era delivery, o carteiro, ou campanha contra a dengue, o que poderia ser?

A cozinha tinha uma janela que dava para a fente por onde eu podia ver sem que me vissem. Tinha um homem ao portão. Loiro, alto, camisa social de manga curta. Para mim parecia um mórmon, embora eu nunca tivesse visto um na vizinhança. "Não encomendei nenhum gatinho", pensei (porque eu sou ridiculamente boba algumas horas). Fiquei admirando sua careta, visivelmente incomodado com o sol batendo no rosto, por mais um minuto e então resolvi ir contar meu dinheiro.

Assim que saí da cozinha ouvi batidas na porta da sala. Eu quase tive um treco.

–- Cecília?

Quem? Como? Como sabia meu nome? Como passou do portão? Novas batidas na porta.

–- Cecília? Sou eu, Petri. Posso entrar?

Mas que Pet-AH! De repente eu lembrei de uma conversa que tive na madrugada anterior, na bendita hora em que tudo faz sentido, com um tal de Petri. Eu nem lembrava quem era, ou de onde o conhecia, mas logo a conversa ficou tão divertida que esqueci de perguntar. Conversamos um monte de besteira sobre organizações secretas, viajar pelo mundo, espionagem, armas e por aí vai. Mas não lembro de ter dado o meu endereço. Aliás, nunca faria isso. Por ser sozinha e medrosa eu tomo muito cuidado com minha privacidade.

Tomei coragem (sim, eu sou tão medrosa que precisei de coragem só para me aproximar da porta) e espiei pelo olho mágico. Lá estava o cara do portão, com cara de cachorro perdido. Parte de mim estava curiosa e quis chamar ele para dentro. Parte estava histérica gritando o quanto isso era perigoso e que eu devia era chamar a polícia. Minha parte mais inútil sussurrou que não é todo dia que um gatinho bate à porta — essa foi a mais fácil de ignorar.

Ainda sem saber o que fazer, corri para pegar o telefone, para já tê-lo em mãos caso precisasse ligar para o 190. Assim que peguei o aparelho, ele começou a tocar. Tocou duas vezes antes que eu conseguisse me recuperar do susto e então, juro que não apertei nenhum botão, o telefone atendeu sozinho.

–- Alô? Alô, Cecília?

–- Alô...

–- Ah, oi! Sou eu, Petri. Tudo bom?

Não exatamente.

–- Tudo, mas...

–- Não lembra de mim? Falei com você ontem.

–- Lembro, mas...

–- Ah, então. Eu falei que vinha.

–- Eu achei que fosse brincadeira — eu disse e ri. Mais de nervoso do que de graça. Ele riu também.

–- Eu sei. Você não ia acreditar de qualquer jeito. Mas... aqui estou eu.

–- ... — Eu não sabia nem o que pensar, quanto mais o que dizer.

–- Posso entrar? Eu explico tudo.

–- Mas como... Como você sabe meu endereço?

–- Eu... Na verdade eu não sei. Fui mandado direto para cá. Não se preocupe, eu vou explicar tudo.

–- É que... eu não estava esperando. Eu tô de pijama ainda — confessei, tentando ganhar tempo para botar as ideias no lugar.

–- Ah, entendo.

–- E se você vier outro dia? É que eu ainda nem almocei.

–- Oh. — Ele fez uma pausa. — É que eu não posso... Uh... E se eu voltar daqui a meia hora? Pode ser?

–- Uma hora?

–- Ótimo! Até logo — ele disse, logo antes de desligar. Pareceu satisfeito.

É por isso que eu nunca gostei de falar ao telefone: eu não consigo pensar direito e depois fico achando que me precipitei, que me deixei manipular ou que cedi muito fácil.

Agora que a conversa tinha acabado, eu precisava conciliar minhas partes e decidir o que fazer. Parte de mim dizia que era loucura, uma burrice sem tamanho, confiar no tal do Petri. Outra dizia que essa podia ser uma oportunidade única de fazer algo da minha vida. Viver uma aventura. Francamente, gostei dessa ideia. E se fosse verdade? E se eu fosse mesmo viajar pelo mundo, resolvendo casos, como nas séries de tv? (Sem falar que, há quanto tempo não conversava ao vivo com um gatinho?) Eu bem sabia que podia ser algum golpe — era até mais provável que fosse. Mas estava bastante confiante de que saberia me cuidar.

A primeira coisa que fiz foi correr para o computador para procurar o log da conversa de ontem e, se possível, caçar o Petri no google. Não achei o log em lugar nenhum, o que é estranho, já que são sempre salvos por default, e ainda estava sem internet, embora, só com o nome, seria inútil tentar procurar qualquer coisa. Respirei fundo e fui me preparar para o compromisso.

Levei mais tempo do que gostaria para me arrumar. Em seguida, corri para dar um jeito na casa, pelo menos na sala. Catei tudo que estava jogado e enfiei num quarto, tirei o pó e varri. Quando fui levar a poeira para fora — surpresa! — acabei achando um Petri encostado no muro do quintal.

Ele sorriu para mim e se aproximou, todo simpático.

–- Ah, desculpe ter entrado assim, mas lá na frente eu estava chamando muita atenção.

Como ele passou pro quintal? Resolvi ignorar e deixá-lo entrar. Estava decidida a manter a cautela, mas sem me deixar tomar por paranóia. Aceitei o aperto de mão e o conduzi até a sala

Petri seguiu-me até a sala de jantar onde, sem cerimônias, colocou a pasta que carregava sobre a mesa. Eu espera recebê-lo na sala de estar, mas tudo bem. Fui abrir as janelas, mas ele me disse:

–- Não, deixa assim. Senta que você vai adorar isso!

Enquanto eu sentava, meio hesitante, ele puxou um coisa do fundo da pasta e colocou na minha frente. Depois de um barulinho frouxo, "tziiiiiu", uma globo terrestre em 3d pulou na minha frente.

–- Uaaaau! É um holograma?

–- É sim — ele respondeu. Deu pra sentir o entusiasmo da sua voz.

Nos próximos minutos ficamos em silêncio enquanto uma voz de narrador em surround me explicava que eu havia sido escolhida para fazer parte da WOP, uma organização secreta de elite que resolvia casos que estavam aquém ou foram ignorados pelas polícias seculares, enquanto sobre a mesa rolavam cenas que poderiam muito bem ter saído de um filme de ação. O holograma ressaltou que era uma grande honra servir para o bem maior do mundo e, de forma sutil, deixou bem claro o caráter secreto do trabalho.

Quando acabou, Petri correu para acender a luz, perguntando:

–- E aí?

–- Quando é que eu começo?

–- Há, é esse é o espírito — disse ele, animado, indo até a sua pasta onde apertou alguma coisa que fez um "tic-tic" e cuspiu um papel. — Primeiro você tem que ler e assinar isso daqui.

O papel era timbrado com elegância. Fiquei um tempo só admirando as letras prateadas e o brasão da Worldwide Occult Police, bem como meu nome completo. Comecei a ler, mas não consegui me focar na leitura, de tão excitada que estava. Dei uma espiadinha no Petri. Ele estava sentado ao meu lado, parecendo ocupado com alguma coisa que tinha na mão, um bloquinho, mas não necessariamente de papel, no qual mexia com uma caneta. De repente ele levantou os olhos azuis e me pegou olhando. Parou o que estava fazendo e sorriu, simpático.

–- Se tiver alguma pergunta...

–- Na verdade eu tenho –- disse, sorrindo de nervoso. Até me acostumar, sempre fico meio nervosa de conversar cara a cara com moços, em especial quando são bonitos. Ainda mais quando são tão simpáticos e bonzinhos. Mas inspirei o nervosismo e perguntei: –- pra começar, por que me escolheram?

–- Oh. Provavelmente porque você é sozinha. –- ele disse e logo em seguida pareceu desconcertado com a própria resposta. Aliás, eu tinha a impressão de que conseguia ler tudo o que o Petri sentia. Ou ele que era aberto assim mesmo. –- Quero dizer, é um algoritmo de um computador lá que tem um banco de dados com as pessoas do mundo. Não entendo bem do processo.

–- Aah –- respondi com um sorriso, tentando aliviar o nervosismo evidente dele. –- Entendi.

–- Você não tem nenhum animal de estimação ou namorado ou alguém próximo assim, não é?

–- Não tenho –- respondi. "E você, tem namorada?", pensei, e isso me fez corar, então voltei a tentar ler o papel, mas o que ele disse ficou na minha cabeça, até que decidi perguntar: –- mas por que? Não posso ter?

–- Não, pode sim. Complica um pouco, mas sempre dá-se um jeito.

–- Ah.

–- Você vai poder casar, ter uma família e tudo. Mas aí tem que ter um emprego de fachada, com viagens de negócios e, ah, dá mais trabalho. Mas não se preocupe com isso agora.

–- Ok. Só queria saber mesmo.

–- Uhum.

Eu voltei a ler o contrato. Falava um bocado sobre confidencialidade e outras coisas que eu já esperava, mas eu estava mais preocupada com outras coisas.

–- Escuta...

–- Oi?

–- E se... e se eu não der pra isso? Quero dizer, eu sou bem sedentária e... não sei se eu tenho sangue frio, sabe? Não sei se eu vou dar conta.

–- Ah! Não se preocupe com isso –- ele respondeu, animado. Até se remexeu na cadeira. — Você ainda vai passar pelo treinamento todo. Você vai ver.

–- Uhmm...

–- Bom, se ao final do treinamento você não quiser continuar, achar que não é o que você quer você não precisa se efetivar.

–- Ah, então eu posso sair? Vou poder deixar a WOP quando quiser?

–- Vai. Tem todo um protocolo, sabe? Você não pode sair sem dar satisfações. É como diz aí no contrato.

–- Ah, eu ainda não... cheguei nessa parte.

–- Tudo bem –- ele sorriu, simpático. –- Pode perguntar qualquer coisa. Eu to aqui pra isso.

–- E eu vou trabalhar com você? –- deixei escapar, mas logo em seguida fiquei com medo de pegar mal. Petri, no entanto, continuou sorrindo, simpático.

–- Espero que sim –- ele respondeu, com tanta naturalidade que descartei segundas intenções. –- A ideia é essa.

De repente o sorriso no seu rosto sumiu e ele se levantou, sério, quase parecendo assustado. Virei para trás e havia um homem ali, um senhor alto, de terno. Como eles fazem isso?

–- Senhor Bujak –- cumprimentou Petri.

–- Boa tarde, Sr. Rehn. Cecília.

Petri murmurou um boa tarde e eu fiz o mesmo.

Não fui com a cara dele. Tinha o maior jeito de executivo esnobe (e a reação do meu novo amigo não ajudou também).

–- Achei que o senhor não poderia vir, por isso comecei o procedimento –- explicou-se Petri. Fiquei com dó dele, parecia meio nervoso, meio culpado.

–- A princípio eu realmente não podia e esperava, como de praxe, que você remarcasse para um dia em que eu não estivesse ocupado. Como amanhã, por exemplo. Mas consegui resolver algumas coisas mais rápido do que esperava e... aqui estamos. A que pé estamos? Ela já assinou o pré-contrato?

–- Estava... lendo... –- disse Petri. Todo vermelho, coitado.

–- Não tenha pressa –- disse o Sr. Bujak para mim, com um sorriso intimidador que me dizia o contrário. Definitivamente, não fui com a cara dele.

–- Sim, senhor –- respondi. Respirei fundo discretamente e voltei a ler o contrato. Ele que esperasse eu ler tudo com calma (mas já tinha lido quase tudo não e não tinha encontrado nada de mais).

Quando terminei e tirei os olhos do papel, vi que o coroa estava arrumando um dispositivo com uma ampola com um líquido denso, metálico, e, não sabia o que era, mas tinha uma agulha no meio. Não gostei nada disso.

–- Uou, o que é isso? –- perguntei.

–- Ainda nem explicou para ela o procedimento? –- perguntou para Petri, ao que o jovem respondeu balançando a cabeça negativamente. –- É fluido de picochips de redesignação remota. É o que vai torná-la uma agente.

–- E você vai... injetar... em... no-no meu... organismo?

–- Exatamente.

Como assim!? Por essa eu não esperava. Injetar essa coisa estranha em mim? Com agulhas?

–- Mas... mas eu não ia passar pelo treinamento antes de virar agente?

Bujak pareceu impaciente.

–- Sem isso não tem treinamento. Agora, se fizer a gentileza de assinar o contrato para podermos prosseguir.

Olhei para Petri, buscando ajuda, mas o homem simpático e solícito no momento parecia fechado no seu próprio mundinho, rabiscando intensamente seu bloquinho com a caneta.

–- Eu... Eu queria um dia, pelo menos, para pensar e decidir.

–- Sinto muito mas é agora ou nunca. E se for dar para trás é melhor dizer logo que o procedimento de apagar a memória é chato e demorado.

–- Apagar a memória?

–- Claro! Você já sabe demais.

Eu estava me sentindo acuada, sem escolhas. Nenhuma das opções parecia boa. Eu só queria ficar na minha, com a minha integridade física. Então, senti Petri me cutucar com a caneta. Ele sorria um sorriso diferente, desanimado, enquanto me passava a caneta, dizendo:

–- Tudo bem, isso aí faz parte do processo. É estranho, mas é necessário.

Não foi o suficiente para me deixar 100% tranquila, mas ajudou. Respirei fundo, passei de novo o olho no contrato e assinei. Em seguida, Bujak prendeu o dispositivo no meu braço, mais ou menos como se prende um medidor de pressão. O aparelho fez um ''bzzzt" baixinho e um facho de luz azul varreu meu braço até parar num ponto. Petri me chamou a atenção bem na hora, e não vi quando a agulha entrou (mas senti e doeu). Em seguida, um contador no visor do negócio começou uma contagem regressiva, enquanto a ampola do líquido prateado ia esvaziando. "Bom, não tem mais volta", pensei, com um aperto no coração. Mas ainda era melhor do que passar por um procedimento "chato e demorado" que mexesse com a minha memória. Apeguei-me na ideia de que agora eu ia ser uma agente da WOP e ia viajar pelo mundo em missões secretas. Como numa série de tv. Com meu próprio parceiro fofo, hehe.

Enquanto isso, Bujak contava os possíveis efeitos colaterais que eu poderia sentir nos próximos dias: sono, cansaço, agitação, ondas de frio ou calor, tremores, alteração na urina, zumbido no ouvido e outras coisinhas. Lista longa, mas nada muito sério. Ele também recomendou que ficasse longe de microondas e wi-fi, que evitasse sair de casa, se possível, e que me alimentasse bem. Eu deveria manter meus hábitos e rotina (como se eu tivesse uma) e continuar conversando com quem eu mantivesse contato. Só estava, obviamente, proibida de comentar qualquer coisa com qualquer um.

–- E como eu entro em contato, se precisar? –- perguntei, quando estavam prestes a ir embora.

–- Nós entraremos em contato com você –- respondeu Bujak. –- Em breve viremos buscá-la para o treinamento.

–- Eu falo com você depois –- disse Petri, com um sorriso fraco, mas reconfortante.

Finalmente, os dois foram embora. Sem usar a porta. Uma hora estavam ali, na outra não estavam mais. Não sabia como faziam isso, mas estava confiante de que seria questão de tempo até eu mesma poder fazer.

Às vezes eu tinha dúvidas se tinha agido certo, ou até mesmo se a coisa toda era pra valer. Não havia evidência nenhuma da presença deles pela casa, mas algumas coisas faziam sentido. Nos próximos dias, nem meu microondas, nem meu wi-fi funcionaram (eu tinha internet no pc ainda porque ele ficava conectado direto ao modem) e eu tive todos os sintomas chatos que Bujak havia listado. Acabou que nem saí de casa. Não comentei nada com ninguém, mas tentei pesquisar a WOP no google. Neu próprio browser, no entanto, se recusava a enviar a pesquisa.

Todo dia eu torcia para encontrar o Petri, como da outra vez, e nada. Tava um saco ter que esperar o tal do treinamento.

No domingo, tudo parecia já ter voltado ao normal. Eu já tinha me desencanado um pouco e me sentia super bem há uns dois dias, o dia estava lindo e eu resolvi dar uma volta, passar na padaria e na banca. Enfim, sair de casa um pouco. No entando, foi só eu trocar de roupa que bateu um sono violento e eu tive que deitar. A tarde estava quente, mas eu comecei a sentir tanto frio que cheguei a pensar em pegar uma coberta, mas só tive forças suficientes para me enfiar embaixo do edredon. E então adormeci.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.