Infinity
8 Capítulo 8
Segunda feira havia chegado cheia de animação e empolgação para Lilly. Em poucas horas ela teria um encontro maravilhoso com a companhia da professora Soraya. Por fora ela parecia estar muito calma, mas a verdade era a que Lilly não se aguentava de tanta ansiedade e nervosismo. O novo e o desconhecido a deixava assustada, não sabia ao certo o que deveria esperar daquelas pessoas. Elas poderiam ser gentis, como também rudes e chatas assim como Laura. Tinha que ser positiva e tudo daria certo.
Ela havia chegado mais cedo devido ao nervosismo. Torcia as mãos na tentativa de acalmar-se. Respirou fundo e entrou no prédio da companhia. Era um prédio de dois andares na cor creme. Mesmo sem ter entrado para analisar tudo com mais calma e precisão, ela tinha a sensação de que aquele lugar era mais do que sagrado. Seu corpo inteiro se arrepiava a cada passo que dava. Vários quadros com cartazes e fotos dos espetáculos enfeitavam as paredes. Troféus eram expostos com muito charme. Por um momento Lilly pensou em sair dali e voltar para casa, pois se fizesse parte daquela companhia teatral teria que assumir muitas responsabilidades. Dentre elas honrar o nome. Ao menos teria que tentar fazer algo de diferente em sua vida. Amava as artes acima de tudo e já que lhe fora dada a oportunidade iria agarrá-la.
Não demorou para que uma Soraya toda animada e vestida de preto se fizesse presente.
— Fico feliz que tenha vindo, Lilly! — exclamou Soraya recebendo-a carinhosamente — Não precisa ficar tensa, o pessoal aqui é de boa.
Com uma das mãos nas costas da jovem, Soraya a conduziu para mais perto do grupo. Eles estavam numa sala espelhada fazendo alongamentos com uma música bem relaxante ao fundo. Ao verem Lilly e Soraya juntas sorriram amistosos para elas. Estava sendo bem recebida, e isso era o que importava para ela. A professora esperou que os seus companheiros terminassem de se alongar para enfim lhes apresentarem devidamente. Um por um foi se aproximando e cumprimentando-a. Até num simples apertar de mãos havia uma energia muito forte.
— Não é fácil integrar uma companhia, Lilly. Todos pensam que temos muito tempo livre e que somos capazes de arcar com tudo o que planejamos, mas não é essa realidade que vivemos. Todos os dias cada um de nós temos que trabalhar num emprego normal, ouvir reclamações e fingir que nada daquilo é real. Ninguém nos respeita quanto a artistas — explicava Soraya — Antes mesmo de te fazer o convite conversei com o grupo e eles acharam conveniente que trouxesse alguém diferente para o nosso meio.
— Mas a senhora sabe que não possuo tamanha condição de arcar com tudo o que me for pedido. — murmurou Lilly triste pela ideia de nunca trabalhar com aquilo que ela tanto gostava.
— Compreendo a sua situação, Lilly. Mais do que você pode imaginar. Você possui um vasto conhecimento nessa área, já atuou em vários espetáculos e ainda escreve lindamente. — ponderava Soraya — Não posso permitir que o seu talento passe despercebido, Lilly. Conosco você só irá crescer. Basta ser uma pessoa frequente e nos ajudar sempre que precisarmos, ir na rua procurar um patrocinador, procurar uma costureira que entenda as nossas loucuras e que a sua mente brilhante nos ajude a produzir belos espetáculos.
Lilly passou os dedos pela testa, confusa.
— Eu não sei, Soraya! Parece que farei tão pouco. Não é justo com quem paga. — murmurou Lilly decidida.
— Pense a respeito, meu bem. Não queremos que se sinta forçada a nada. Siga o que o seu coração lhe disser. Fique à vontade para conhecer o nosso espaço.
Ela agradeceu por Soraya ter sido tão compreensiva e por ter lhe dado a oportunidade, mas se ela queria fazer parte de algo tão importante teria que lutar como todas as pessoas. Não gostava de ser privilegiada. Tentaria outros meios para ingressar naquela companhia.
*****
Na faculdade Estella estava preocupada pelo simples fato de sua amiga não ter comparecido a aula. Até mesmo Hunter fora lhe perguntar, mas ela não soube lhe responder. Esperavam que nada de ruim tivesse acontecido. Infelizmente Laura havia comparecido. Obviamente ela gostaria de saber algo a respeito.
Ela se aproximou com um sorriso arrebatador nos lábios. Coisa boa não poderia ser.
— Cadê a sua amiga, Estella? — quis saber Laura.
— Me erra Laura. O que a Lilly faz ou deixa de fazer não é da sua conta. — esbravejou Estella — Por que tanto apego por ela?
Laura sorria vitoriosa. Jamais entenderiam o que se passava entre Lilly e ela. Realmente havia razões muito forte e sensatas para que ela agisse de tal maneira.
— Um dia você saberá tudo, meu bem! Não se preocupe e nem fique forçando o seu neurônio. Deixe ele viver por mais algum tempo.
Estella se armou na tentativa de voar no pescoço de Laura e quebrá-lo com as próprias mãos, mas foi detida por Hunter.
— Ei, relaxa! Depois eu converso com ela. A sua amiga nunca foi de faltar, não é?
Ela arrumou a mochila sob os ombros.
— Não. Espero que não tenha sido doença ou essas coisas. Não combina muito com o jeito da Lilly.
*****
Lilly caminhava tranquilamente de volta para casa. Prestava atenção a tudo que ficava para trás conforme tomava distância. Sentia o seu corpo pesado e a respiração ofegante. A sensação de ter que deixar de lado a vontade de fazer parte de um grupo de verdade lhe devastava por inteiro. Era como abrir mão de seus sonhos. Só precisava de seu lar e do calor de sua mãe.
Ao entrar na casa, ela foi diretamente para a sala. Sabia que sua mãe estaria por ali lendo a serie Perdida da Carina Rissi. Os olhos de Louis brilhavam com intensidade a cada parágrafo que lia. Sentia-se presente nas confusões causadas por Sofia e suspirava por Ian Clarke. Era uma visão maravilhosa de sua mãe.
Bastou apenas alguns segundos para que a senhora percebesse que sua filha estava há muito em silêncio.
— Filha, está tudo bem? — perguntou Louise ao ver a filha desanimada — Pensei que tivesse ido para a faculdade.
Lilly sentou-se no sofá ao seu lado deitando a cabeça no colo da mãe. Louise sabia que havia algo de errado acontecendo. Iria esperar até que a filha se sentisse confortável para contar o que lhe afligia.
O afago que recebia de sua mãe em seus cabelos a fez fechar os olhos e mesmo por contragosto uma lágrima lhe escapou.
— Ah minha mãe! — suspirou — Só fui resolver alguns assuntos com a Soraya. Fui conhecer a sede da sua companhia. É triste saber que o coração pede uma coisa e a razão nos faz escolher caminhos diferentes.
— Recebeu o convite para fazer parte do grupo, mas não pode aceitar. Por que recusou, minha filha?
— Não posso me dar ao luxo de sair dando despesas extras. A senhora já me ajuda com as mensalidades da faculdade e eu preciso ajudar a manter a casa. — murmurou Lilly.
— Meu amor, escute. Eu nunca reclamei sobre ter que trabalhar mais do que o normal, de ter que pagar a sua faculdade e nunca farei isso. Só tenho você na minha vida e quero que siga os seus sonhos e encontre a felicidade. Se exige algum sacrifício, lute.
A jovem parou para pensar um pouco e logo se levantou abraçando a mulher calorosamente. Sua mãe tornava o seu mundo cada vez melhor. Se não fosse por ela lhe mostrar os melhores caminhos a serem seguidos na vida, talvez Lilly já estivesse perdida e tomando conta de crianças. O apoio de Louise lhe fazia bem.
Ao se afastarem Louise ainda observava a filha com muita atenção.
— Tem certeza de que é só isso que está lhe perturbando, Lilly? — insistia a mulher.
— Tenho! São apenas preocupações com o projeto. Ainda há muito o que ser feito. Fico preocupada por não saber quando será o prazo de conclusão. Os professores foram loucos quanto a estipular prazos. Mas... — ela foi interrompida.
— Mas você se sairá bem e tente aproveitar o momento. Sei o quanto gosta de aprender com as pessoas, principalmente de observá-las com tamanha atenção.
Lilly sorria radiante para sua mãe.
— Eu a admiro muito e não é por ser a minha filha. Não deixe que ninguém tire os seus sonhos e os seus objetivos. Você é determinada para conseguir tudo o que quer e precisa, basta acreditar sempre.
— Eu te amo, mãe! — exclamou Lilly abraçando a mãe mais uma vez.
Louise riu divertida.
— Descansa um pouco, pois a noite o restaurante contará com a sua ajuda.
Lilly foi para o seu quarto, retirou os sapatos e se jogos na cama. Seu celular insistia em vibrar sem parar. Quem quer que fosse deveria estar louco por notícias, talvez fosse Estella com a sua preocupação descabida.
Ficou chocada ao ver que se tratava de Hunter. Não esperava que ele fosse insistir em manterem contato.
Hunter diz: O que aconteceu com você?
Ela encarou por alguns segundos aquela mensagem.
Lilly diz: Nada! Por que?
Dois minutos se passaram até que ela obtivesse alguma resposta.
Hunter diz: Não compareceu a aula. Ninguém sabia de nada.
Lilly diz: Precisei resolver algumas pendências logo cedo. Não havia com ir de qualquer forma, depois eu tento recuperar o dia perdido.
Hunter diz: O dia foi um saco sem a sua presença. A Laura não quis saber de nada a respeito do projeto. Fiquei mal com isso.
Lilly diz: Sabia que ela agiria desse jeito, mas não precisa se preocupar com o projeto. Tenho tudo sob controle. Pelo menos por enquanto.
Hunter diz: Como você é engraçada hahaha. Saiba que eu levo os meus trabalhos muito a sério, Lilly.
Lilly diz: Somos dois. Preciso fazer algumas coisas e depois nos falamos.
Hunter diz: Temos que conversar, querida!
Lilly diz: Okay Hunter.
*****
Era pouco mais de seis da tarde. Lilly já estava a postos ajudando os garçons a servirem as mesas. Estava radiante e distribuía sorrisos a todos os clientes, talvez fosse o fato de ter sua mãe por perto. Com ela nunca havia o medo de fazer algo fora do normal. Era uma noite tranquila, pelo menos até aquele momento. Ao cruzar a entrada, Lilly ficou sem reação e sentia o seu corpo inteiro queimar.
Hunter entrou no restaurante com um belo sorriso nos lábios. Aquele que era capaz de desarmar qualquer garota. Ele caminhava em sua direção, aprecia tão leve e despreocupado.
— Preciso falar com você a respeito de uma ideia que eu tive, Lilly! — exclamou Hunter animado exibindo o seu sorriso mais sincero.
Lilly hesitou em se aproximar.
— Você está bem, Lilly? — quis saber ele mantendo uma distância mínima.
— Estou sim, me desculpa. Foi só um choque de realidade.
Ele riu baixo.
— Conversando com alimentos? — tentou adivinhar.
Ela levantou a sobrancelha.
— Não. Se você continuar a me encher com esse assunto nunca mais falo com você.
Ele apontou em direção ao escritório. Todo o falatório de clientes e funcionários cessou ao fechar a porta. Lilly nunca estivera ali. Ele se apoiou na mesa a observando cautelosamente. Havia um brilho diferente naquela garota. Não conseguia distinguir, mas sabia que era bom.
— Que ideia foi essa que você teve Hunter? — quis saber Lilly curiosa.
— Estava pensando em colocar música ao vivo. Alguém tocando piano e cantando músicas clássicas.
Ela pensou por alguns segundos. Ele estava com medo de que Lilly rejeitasse a sua ideia.
— Por que você mesmo não toca? — sugeriu ela divertida se aproximando dele.
Ele deixou os braços caírem com a proposta. Lilly só poderia estar louca.
— E por que eu faria isso?
— Porque eu sei o quanto ama estar no palco, o sentimento que te domina por completo e te deixa louco. — Lilly brincava passando os dedos pelo tórax de Hunter como provocação. — Não diga que estou errada.
Ele se deu por vencido.
— Você nunca erra, Lilly. Só acho que não posso fazer isso sempre. — murmurava ele — Em algum momento eu terei que levar os negócios ainda mais a sério.
— Eu sei, mas enquanto a responsabilidade não te deixa louco, pode tocar. — ela sorriu docemente fazendo todo o corpo dele se arrepiar — Garanto que os seus pais e os clientes irão gostar dessa novidade.
Ele baixou a cabeça, confuso.
— Só confie em mim, Hunter.
Ela saiu da sala deixando-o ainda mais pensativo. Se tinha algo que Lilly conseguia fazer era deixá-lo com algo a pensar.
*****
Dias se passaram desde que Lilly fizera uma visita a sede da companhia de Soraya. A sua vontade em fazer parte de algo muito importante. Finalmente tinha tomado uma decisão, e essa faria a sua vida mudar por completo. Era isso que importava, lutaria até o fim pelos seus sonhos. Saiu de casa bem cedo e não comunicou nada com Soraya a respeito da visita que faria. Teria que ser uma surpresa para ambas. Esperava ser mais fácil do que imaginava e que por fim aquela mulher ainda a aceitasse de algum modo.
Ela parou diante do enorme prédio sentindo todas as suas forças crescerem dentro de si. Estava pronta para dar o grande passo da sua vida. Não quis ser anunciada e assim foi direto para a sala como da última vez. Bateu na porta e adentrou. Um sorriso aberto iluminava o rosto de Soraya.
— Confesso que estou surpresa com a sua visita, Lilly! No que posso ajudá-la? — Soraya a anallisava com muita atenção.
Lilly soltou um longo suspiro de alivio, finalmente diria o que tanto sonhara.
— Não posso mais lutar contra essa minha vontade de fazer parte de algo importante e maior que eu. Desde muito cedo sempre fui apaixonada por artes e não posso cntrolar esse meu desejo de ficar onde é o meu lugar. E ele é aqui com cada um de vocês. — contou ela de uma vez por todas — Quero ser mais do que uma aluna na universidade, quero ser uma artista ao lado de quem me valoriza.
— Já que você decidiu que o seu lugar é aqui conosco, fico muito feliz. Antes de aceitá-la por completo terá que fazer um ritual.
Lilly já ficou assustada ao imaginar o tipo de ritual que Soraya mencionara. Se fosse algo que envolvia sangue e cortes ela logo desistiria de tudo aquilo.
— Não é nenhum ritual do qual está acostumada a ouvir. — começou explicando Soraya — Considere como um batizado, apenas uma prova para si mesma de que está preparada para as nossas propostas e que não dará ouvidos a tudo o que disserem.
Agora mais do que nunca é que Lilly estava encrencada. Toda aquela falação estava deixando-a nervosa como nunca. Haveria algo que ela realmente seria capaz de fazer para ser parte daquele grupo? A resposta era única e simples: SIM. Teria toda a coragem do mundo. Seu lado artista gritava para ser explorado e colocado para fora. Faria por ela mesma, sem ninguém fazer pressão alguma.
— Qual é a missão, Soraya? — perguntou ela decidida.
A mulher sorriu vitoriosa. Pelo seu olhar de felino, Lilly já imaginava que Soraya só estava esperando por ela para finalmente realizar alguma de suas loucuras. Levaram-na para uma espécie de camarim e lhe entregaram diversas roupas para que pudesse experimentar. Lilly estava achando tudo confuso para um ritual. A verdade é que Soraya não parecia muito bem, gargalhava feito uma louca e falava sozinha.
— Achei! Achei! Achei!— gritou a mulher animada sacudindo uma peça de roupa quase minúscula cheia de brilhos.
Lilly corou ao notar que Soraya estava caminhando em sua direção trazendo consigo aquele pedaço de pano. Passaram-lhe todas as informações necessárias e foram para o local escolhido. Tudo o que ela mais desejava naquele momento era poder voltar para casa e fingir que nada daquilo estava para acontecer.
Ao chegar ao local escolhido o nervosismo tomava conta dela. Lilly não sabia de onde havia tirado coragem para aceitar a ideia de Soraya. Não compreendia como é que ela fora capaz de colocar uma roupa muito justa ao seu corpo. Agradecia pelo fato do sobretudo esconder parte do seu traje. Não era feio, mas ela não estava acostumada. Conforme os minutos iam passando ela sentia a sua coragem indo embora. Ninguém daria atenção ao que aconteceria de diferente e provavelmente envolveriam a polícia.
Soraya permitiu que o grupo se acomodasse sem que dessem alguma evidencia de que estavam todos juntos. Algumas pessoas olhavam curiosos para Lilly, afinal sua maquiagem estava bem elaborada e quase irreconhecível. Passaram por algumas estações até que Soraya lhe fez um sinal de que deveria levantar.
Lilly respirou fundo antes de se levantar. Havia poucos passageiros ocupando aquele vagão. O que era bom por sinal, assim poderia executar o seu trabalho com maestria. A música começou a tocar despertando aos poucos cada uma daquelas pessoas. Os olhares que lhe eram dirigidos queimavam sua pele, mas para começar a coreografia ela colocou a máscara repleta de brilho que Soraya lhe entregara. Ninguém a reconheceria tão facilmente.
Retirou o casaco e permitiu que a música a conduzisse junto com os seus parceiros. O nervosismo foi apenas de início, pois logo ela já estava dominando o espaço que lhe era disposto. Um verdadeiro espetáculo para todos os passageiros. Assim que o trem estava a próxima parada, ela pegou o casaco e o vestiu ainda enquanto dançava e assim todos os membros da companhia desembarcaram.
*****
Quando a noite chegou, Llly estranhou o fato de Oliver e Hunter estarem bem entretidos com alguns vídeos. Eles riam e comentavam a cada minuto que se passava, como se realmente fossem bons entendedores do assunto. Era ao mesmo tempo curioso e irritante. Por um momento ela conseguiu ter uma visão do tipo de vídeo que assistiam e se surpreendeu ao notar que era relacionado ao ritual que ela havia feito. Sentia suas pernas ficarem moles.
— Eles dançam muito! — exclamou Hunter admirado com o espetaculo de dança — Essa daqui tem uma tatuagem. Que droga! — ele socou a mesa — Não dá pra ler.
Lilly passou lentamente por eles como se não quisesse nada. Ainda se perguntava como é que eles haviam conseguido aquele video. Não poderia estar no youtube. Já estava feito e não poderia voltar atrás. Só desejava que os rapazes esquecessem aquele video e focassem em algo mais importante. Eles não poderiam descobrir que era ela a comandar a coregrafia.
Fale com o autor