Infinitely.
6 Sixth.
Notas iniciais
TaeMin POV
–Ei, garotinha... Por que está com tanta pressa?
–Vem cá, gracinha...
Meu coração parara de bater e por mais que eu tentasse, com o pensamento, obrigar meus pés a moverem-se mais rapidamente, eles não me obedeciam. Minhas articulações pareciam estar sendo, uma a uma, travadas. O horror começava a se espalhar lentamente por meu corpo. Mas ainda parecia imperceptível no momento em que um deles puxou-me pelo braço com força e arremessou-me contra o concreto dos muros de uma casa qualquer. Não me lembro se, a esse ponto, eu já estava chorando. Nunca controlei direito minhas lágrimas, mas naquele momento, tudo estava acontecendo rápido demais para eu perceber esse detalhe tão trivial. Sentia, sim, meus olhos ardendo, mas talvez fosse por conta da vergonha ao ouvir frases e palavras tão sujas e carregadas de malícia que eu nunca cogitei existirem.
Senti enjoo quando as baforadas de cerveja batiam contra meu rosto, e mãos ousadas tocavam meus braços e pescoço. Não tive coragem de olhar para cima e encarar aquela situação, porque minha esperança de que tudo estava sendo um pesadelo permanecia me impedindo de gritar. Grande idiota.
Senti um dedo sob meu queixo, tentei não erguer o rosto, mas logo a mão forçou-me a encarar seu dono. Era um homem mais velho do que eu. Seus olhos me encaravam, eu queria desviar o olhar, mas tive tanto medo que não pude fazer nada.
–Porra, não é uma menina... – Ele murmurou, ao tocar meu peito sob a camiseta.
Voltei à tona. Meu coração pulsava tão forte que me fazia sentir o corpo inteiro vibrar. Meus olhos doíam e eu estava rangendo os dentes com tanta força que meu maxilar também doía. Não conseguia imaginar nada para dizer àquela pessoa, não conseguia me ver fugindo, pois sabia que me pegariam. Estava fraco. Obviamente era mais fraco. E a cada segundo que se passava, meu medo parecia tomar mais de mim.
–Cê tá brincando?! – Outra voz disse, se aproximando. – É mais feminino do que muita guria por aí!
–Porque não descobrimos se ele grita como menina também? – Outra voz sugeriu.
Foi uma questão de nanossegundos até eu sentir um soco na barriga e cair, gemendo de dor. Tentei ao máximo conter minha voz, não queria dar a eles o que queriam. Logo senti meu cabelo sendo puxado com força e recebi um soco tão forte que pensei que fosse desmaiar. Isso não aconteceu, infelizmente.
Duas daquelas ardilosas mãos então puxaram minha camiseta, e a rasgaram num ímpeto. Abracei meu peito com meus braços, contraindo involuntariamente, mas aquilo só aguçou as intenções dos homens. Um deles puxou-me pelas costas, segurando meus pulsos contra elas enquanto outro desfivelava o cinto de minha calça e o amarrava para desocupar as mãos de seu companheiro. O que sobrara era também o rapaz que me vira, e ao ver seu olhar libidinoso e pervertido, eu desejei nunca ter ido sozinho à aula de noite, nem ter pensado em passar por aquela rua, deparar-me com aquela voz degradante, com aquelas pessoas degradantes.
Senti-me mais depravado do que nunca, ao ter minha calça abaixada. Em meus jovens 15 anos, nunca havia sequer pego na mão de uma garota. Meus pais foram as únicas pessoas que me viram nu. Jamais cogitaria mostrar-me para alguém que não amasse, para alguém do mesmo sexo. Mas fui forçado a fazer. Bem como fui forçado a baixar meu rosto, com o quadril empinado para cima por obrigação deles. O atrito do chão contra meu rosto bem parecia um carinho perto da agonia de ouvir mais palavras pervertidas e sentir aquelas mãos tocarem-me onde eu não queria que ninguém tocasse. Eu tentava, fracamente, me soltar. Não conseguia. Não havia fuga.
–Oh, céus, mas que bunda apertada!
Estava doendo muito.
O maior desejo, que tive em toda a minha vida, foi, sem dúvidas, morrer naquele momento. Queria que meu coração parasse. Nada mais valia à pena. Eles não sentiriam falta da minha vida – satisfaziam-se com meu corpo como se fosse uma casca vazia. Os segundos pareciam congelados e os minutos não passavam de sonhos distantes. Eu não ouvia minha própria voz. Eu gritava, chorava, mas ainda era inaudível. O som que eu ouvia era o som do desespero pela demora daquilo tudo. Pedi ajuda a Deus. Pedi para que me levasse.
–Gosta disso, não é, pirralho? Gosta de sentir meu pau na tua boca? Ou vai contar pra mamãe depois, hein?
Eu queria morrer. E eu não morria. A tortura não parava.
Então os movimentos cessaram. Fui empurrado, senti toda a minha pele esfolar contra o chão frio, e não parecia doer tanto. Havia algo escorrendo de mim. Mais do que as lágrimas, ou a saliva, ou quem sabe o sangue. Algo sujo. A sensação era terrível, mas não pior do que a dor latejante. Ela parecia ainda mais lenta do que o tempo. Senti-me imundo.
Estava fraco, tão fraco.
Eu tentava pensar em algum jeito de me matar, mas minha fraqueza me impedia. Tentei morder a língua diversas vezes, mas não tinha força suficiente. Até tentei segurar a respiração. Não consegui, como sou fraco. Não havia mais nada que pudesse fazer, além de esperar minha prece ser atendida. Esperar algo que não aconteceria.
Nada me fazia pensar em viver – não mais. Viver parecia crueldade. Eu não fiz nada para meu coração continuar batendo, mas ele continuava, me prendendo, me torturando.
Percebi que não ouvia mais as risadas ou os berros desconexos daquelas pessoas. Imaginei que estivesse ficando surdo, porque era mais provável do que pensar que eles haviam ido embora. Então ouvi barulhos e falas baixas, concluindo que ainda havia gente ali. Seriam mais? Não era improvável.
Alguns baques. Gritos. As vozes mais controladas. Queria saber o que estava acontecendo, mas minha visão estava embaçada. O som parecia vir de trás de mim. Não durou muito do tempo que já se normalizava. Ou eu poderia estar acostumado àquela lentidão. Quem sabe?
–Caras, tem uma criança aqui. – Ouvi uma voz mais próxima dizer. Não consegui me virar.
–E está viva?
Senti uma mão fria empurrar de leve minhas costas, ofeguei. A diferença entre nossas temperaturas era muita. Eu temia que ele reparasse que eu respirava. Não queria passar por aquela angústia novamente.
–Deixem-me vê-lo.
Esta voz era diferente das demais. Parecia mais dócil, mais inofensiva. Eu tinha certeza de que era de um homem também, mas minha consciência insistia em imaginar que aquela pessoa queria meu bem, enquanto, por outro lado, ele poderia me fazer mal. Eu não poderia fugir, de qualquer forma.
As mãos do provável dono da voz me tocaram sem hesitação e me elevaram. O toque era acolhedor. Doeu quando ele apertou-me levemente contra o peito, mas não foi ruim.
–Não precisa ter medo. Não vou lhe fazer mal.
Eu não teria como contrariá-lo, de qualquer forma.
Ouvi um suspiro, e finalmente consegui abrir os olhos. Vi um sorriso perfeito.
–Desculpe por chegar tarde demais.
Ele podia ser um anjo. Ele podia estar me levando para longe dali.
Minha consciência me abandonou à mercê daquela pessoa. Daquele anjo.
Infinitely.
–Não importa quantas vezes eu tente tirar aquelas lembranças da minha cabeça, elas sempre voltam, de uma forma ou outra. – Comentei, amargurado. – O dia em que conheci Onew foi o melhor... E também o pior de todos os dias da minha vida.
Eu não imaginava que MinHo perguntaria algo tão oculto em mim mesmo. Não eram muitas as pessoas que sabiam sobre aquilo, e por mais que eu também tentasse esquecer memórias tão repugnantes e ordinárias, elas nunca me deixavam em paz. Nem um único momento.
Ainda doía, como naquela noite.
–Não é algo que lhe diga respeito. – Murmurei.
Eu não disse nada a mais, e ele também não protestou. Voltei ao quarto, me vesti, e saí, sem dizer nada. Ele também permaneceu em silêncio.
Infinitely.
MinHo POV
Silêncio.
E quantas vezes manti-me em silêncio. Há coisas que não podem ser ditas. Mas o quê? O quê você não pode me dizer? Poderia escrever? Poderia eu, supor? Eu caçaria, caçaria até cansar. Mas, minha presa, és tão frágil.... Por isso obrigo-me a manter este silêncio.
Silêncio.
Há, no teu silêncio, uma angústia que não quer revelar-me, mas por quê? Acolher-te-ei, você sabe. Há algum receio, algum ardor? Não sei, você está em silêncio.
Da Vinci já dizia que as mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.
Mas você não me olha.
Você sabe, seu silêncio leva-me à loucura.
À loucura.
Na verdade, não quero me calar. Não quero manter o silêncio. Não, não, não.
Tua voz, TaeMin. Eu a quero.
Por que achas que mantenho o silêncio?
Tua voz é minha musa grega, tua voz conduz minha razão, de tua voz provém meu silêncio.
Tua voz, teu silêncio, tudo.
Tudo leva-me à loucura.
Ora, sou louco, então? Por que ninguém neste mundo, ninguém entre os anjos, ou os deuses, ou os demônios, ninguém pode amar alguém tanto, ninguém pode manter algo tão surrealmente possível ou realmente impossível, ninguém pode ser tão louco de amor por você, como eu posso.
Então sim, sou louco sim.
Olhei para os lados, já havia se passado algum tempo. Mas o silêncio que eterno parecia ser, cortado fora pela minha loucura.
–Meu silêncio não lhe basta. – Murmurei para meu coração.
Sim, loucos falam sozinhos.
Infinitely.
–KiBum, quer sair para beber?
–Agora? – Ele respondeu-me, do outro lado da linha. – Tem algum motivo em especial?
–Preciso conversar contigo.
Prometi que buscaria KiBum em sua casa dali a 20 minutos. Em meu carro, percebi que TaeMin havia esquecido um maço de cigarros e a arma que usara ontem. Eu não sabia o que fazer com aquelas coisas, mas com certeza era melhor não deixar KiBum ver. Escondi-as do meu lado do banco.
Peguei-o e fomos a um bar próximo e não muito movimentado. Sentamo-nos em uma mesa mais reservada, KiBum exigiu-me que pagasse a conta para ele por chamá-lo para beber em plena tarde de domingo. Não recusei-me. As causas sobrepujavam as consequências.
–Então... O que precisa falar comigo?
Respirei fundo.
–Key. Você conhece muita gente. Por acaso já conversou pessoalmente com Lee JinKi?
Kibum pareceu deliberar um pouco, enquanto aguardávamos as bebidas.
–Já, sim. Por quê?
–Conhece Lee TaeMin?
–Hum.... É um garoto bem jovem, que está sempre com Onew?
Assenti.
–Conheço. Nunca falei com ele, mas conheço.
–Sabe como conheceu JinKi?
Antes que Key respondesse, um garçom chegou com os drinks que pedimos. Key não demorou a bebericar o dele, nem eu. Eu esperava que, com sua mente mais embriagada, ele pudesse contar-me o que talvez fossem segredos. Mas tinha que cuidar com o meu controle também.
–O mascote do Onew. – Disse como se fizesse referência a uma mercadoria. Seus olhos ariscos encararam os meus profundamente, sem deixar-me escapar. – Diga-me, MinHo, de que esta informação lhe é importante?
Vacilei. Deveria contar?
Meu silêncio não lhe basta.
–Eu.... Amo demais essa pessoa. Amo demais Lee TaeMin, KiBum. É por isso que preciso saber.
Key arregalou os olhos.
–Está realmente apaixonado por um garoto? Por esse garoto?
–Sim. – Respondi, determinado.
–Sabe dos problemas em que ele está envolvido?
–Não de tudo, mas sei que está tudo relacionado a Onew. É por isso que lhe pedi que me contasse o que sabe sobre eles.
–Ah, entendo. – Ele comentou brevemente. – MinHo, sabe que eu sempre quererei o melhor pra você... E sugiro que se afaste desse rapaz. A reputação dele é mais suja do que parece ser.
Não respondi.
–Já faz algum tempo que me contaram isso... Não tenho certeza se é verdade. Disseram que esse menino foi encontrado depois de ser estuprado por uns caras que tinham problemas com Onew. Obviamente, os caras saíram do mapa e o garoto passou a seguir e ajudar Onew com o que quer que fosse. Também não sei se é verdade, mas ao julgar pela forma física dele.... Eu diria que é verdade que esse garoto usa drogas e não parece ser muito controlado com relação a “relacionamentos”. – Ele disse, frisando a palavra. – Ele aparenta ser o mais novo entre os amigos de JinKi e provavelmente fugiu de casa. Ele não tem futuro. Para seu próprio bem, não invista nessa pessoa, Min. É claro que não te impedirei, mas é o que eu penso.
–É claro. Eu compreendo. Mas, me desculpe, não posso ouvi-lo. TaeMin levou minha alma consigo, mas não desistirei de trazê-la de volta, junto com a dele. Não vou deixar meu anjo afundar-se no Inferno criado por Lee JinKi. Irei recuperá-lo.
Talvez eu não estivesse pensando ao certo no que estava dizendo, mas meus olhos estavam longe, vidrados no Céu que eu criaria para amar TaeMin. Eu não desistiria de tê-lo. Nunca.
Fale com o autor