Infinitely.
5 Fifth.
Notas iniciais
Acordei sentindo muita dor e satisfação.
A primeira com certeza era maior.
Podia sentir minha bochecha esquerda latejando. Deveria estar inchada. Mais do que isso, toda a minha cabeça doía. Talvez por isso o machucado parecesse apenas um formigamento natural por dormir de mal jeito. Pensei, pensei, e não me veio à mente nada que pudesse fazer aquela dor passar. A mente de ressaca parece funcionar mais lentamente.
Fechei os olhos e estiquei-me preguiçosamente. Senti um leve peso sob minhas costelas, e quando vi, era a mãozinha daquela preciosidade que comigo dormira. Virei-me para ele, cuidando para que não deixasse seu braço escapar de mim. Seu rosto adormecido era encantador em demasia, assim como seu suave ronronar, que assemelhava a uma música de ninar. Eu gostaria de fitá-lo para sempre. Era maravilhoso demais.
Com o cuidado de um boticário que manipulasse a flor mais rara do mundo, beijei sua bochecha. E, era, de fato, como a sensação de beijar uma pétala mais que perfeita. O perfume, a essência de seu corpo, ainda superaria o mais formoso buquê. Poderia enchê-lo de beijos, o quanto pudesse, até que minha vida chegasse ao fim. Poderia amá-lo além disso.
Levantei-me cuidando para que não o acordasse.
Em uma gaveta de meu guarda-roupa, achei um remédio que poderia ajudar. Não deveria ser o certo, mas se diminuísse a dor de cabeça, eu já me sentiria melhor. Peguei a caixa e separei dois comprimidos, um para quando TaeMin acordasse.
Também tratei de vestir-me e fui para a cozinha. Tomei a medicação e fui ao banheiro.
Estava levemente roxo, como presumi. Doeu quando toquei levemente. Não pensei em esconder ou algo do gênero. Aquela marca relembrava-me o quão apaixonado estava eu, e o quanto eu lutaria por minha paixão. Uma paixão que me machucava, que me fazia sofrer. E ainda assim, eu sorria.
TaeMin podia ser minha dor, mas ainda nutria meu amor.
Voltei ao quarto. Ele ainda estava lá, não fora só um sonho.
Toda a dominância e o perigo erótico que ele demonstrava ter pareciam completamente nulos naquela cena. Parecia indefeso. Parecia carecido de proteção. A proteção que eu queria dá-lo todos os segundos de minha vida.
Ah, TaeMin, como podes ser tão desguarnecido de defeitos?
Sentei-me, sem deixar de contemplar a visão que me era estimada. Meu peso afundou levemente o colchão e o fez remexer-se um pouco, me amaldiçoei por isso. Ele abriu os olhos, e senti-me tão culpado...
–Desculpe. – Foi tudo o que pude sussurrar.
TaeMin não respondeu-me. Fechou os olhos novamente e puxou meu braço para perto de si, fazendo-me deitar com ele novamente. O toque, em si, me preencheu de felicidade, mas o sorriso dengoso que vi em sua face, quando ele subiu sobre minha cintura e segurou meus pulsos ao lado de minha cabeça, valia mais do que toda a felicidade que já senti em minha vida.
Como esperado, sorri em resposta.
Ele parecia determinado a fazer algo, e eu não tinha ideia do que seria, mas aceitaria plenamente. A cena de tê-lo sobre meu corpo, nu, com os olhos semicerrados, em partes ocultos pelos desalinhados fios louros, era resplandecente. Afinal de contas, era aquele menino que caiu dos céus em meus braços. Aquele menino por quem meu coração derretia.
Ele me dominava. Ele me tinha por inteiro.
–Estou curioso. – Suas palavras insinuavam um jogo, e seus olhos fitavam de tal maneira que quase me obrigavam a aceitar antecipadamente.
–Diga. – Arqueei as sobrancelhas, divertindo-me. Não consegui especular o que ele queria.
Seu sorriso acentuou-se.
–Você é coreano, não é?
–Sou. – Respondi com naturalidade. – Por acaso suspeita das minhas pálpebras duplas?
Ele riu, e meus ouvidos deliciaram-se com o som.
–Não, não suspeito. Só estou confirmando que seu nome não é Romeu mesmo.
Ah, era isso que ele queria saber?
Encaramo-nos em silêncio. TaeMin esperava que eu dissesse, mas resolvi brincar um pouco mais com ele.
–Não, meu nome não é Romeu. – Desisti do silêncio, mas não do jogo.
–Que pena. Você tem cara de Romeu.
Ri.
–Só você deve achar isso.
Ele esperou.
–Não vai me dizer?
Fechei os olhos, sem nada dizer.
Senti-o soltar meus pulsos e ajeitar-se sobre meu corpo, deitando sobre meu peito.
Os segundos passavam-se cada vez mais interessantes ao lado dele.
Infinitely.
Passou-se um tempo que não me preocupei em contabilizar. TaeMin não insistira, e eu não cedi. Agora estávamos ambos envoltos pela água quente que continuava a preencher a banheira. Estava quase cheia. A espuma dos sais era densa e, obviamente, clara. Se não visse e sentisse suas costas apoiadas em meu peito, não poderia diferenciar a pele de TaeMin e as bolhas de sabão condensadas. Tanto pela cor quanto pela textura.
O aroma era agradável, e reduzia minha dor de cabeça. Certo momento, TaeMin afastou-se de mim para fechar a vazão, pois a água cobria-nos até seus ombros e pouco abaixo dos meus. Então ele voltou a recostar-se em mim, mas desta vez, o fez de lado, apoiando a cabeça entre meu peito e pescoço. A espuma subia de leve nas pontas de seu cabelo, e assemelhava-se a neve. Cada mínimo movimento que ele realizava era sentido e guardado por mim com um sorriso interno.
Talvez o melhor de tudo fosse saber que ele estava sendo sincero ao agir daquela forma. A doçura não era fingimento, ele agia daquela forma porque queria. Quem o conhecesse assim, mal poderia dizer que existia um fio de agressividade em sua alma. Era como uma pedra bruta, que em seu interior ocultava um raro diamante. E apenas eu via essa preciosidade.
Sua respiração acariciava meu peito gentilmente, agraciando meu coração com esta sensação. Eu não podia ver se seus olhos estavam fechados.
Então ele perguntou-me, com uma delicadeza alada:
–Quem é você, afinal de contas?
Ele parecia intrigado, ansiando por minha resposta. Mas eu tinha receio do que o faria se soubesse quem eu era; do que planejaria, usando meu nome. A quem contaria.
Mas eu também possuía minhas perguntas.
Retirei minha mão de dentro da água, e com ela, retirei um pouco da espuma que prendia-se aos cabelos de TaeMin. Deslizei minha mão por seu queixo, até sentí-la tocando atrás de sua orelha. Virei seu rosto, ele não renunciou. Voltei a seu queixo, erguendo sua face.
Seus olhos magnetizaram os meus, e não me deixavam nem piscar. Não sei o que vi em seu brilho; não lembrei de dar mais atenção à isso do que à sua beleza.
Reclinei-me um pouco, procurando encontrar meus lábios com os dele. Os meus o acharam, e senti sem pressa toda a maciez e textura daquela parte tão tentadora de seu corpo. Não ansiávamos por mais do que isso; Apenas um selar calmo, um novo sabor de nossos gostos, sem toda a tensão envolvida nas outras vezes que fizemos isto. Minha alma aquecia-se por dentro com a sensação. A dele, eu desconhecia, mas a mesma insistente esperança da noite anterior parecia agarrar-se ainda mais a mim, quando ele subiu as mãos para envolver minha nuca gentilmente em seus dedos.
Distanciamo-nos sem aprofundar o toque. Aquilo fora suficiente.
TaeMin não soltou minha nuca; Pelo contrário, prendia-me a si para que não me desvencilhasse. Minha mente esperava uma certa ação, e o que ele fez, foi outra.
–Vamos, eu quero saber. – Sussurrou, com a voz manhosa e quente.
Não respondi.
–Acha que está correndo algum risco?
–Não.
Respondi automaticamente, mas não sabia se era mesmo aquilo. TaeMin parecia determinado a conseguir sua resposta, e não apenas por curiosidade. Havia um verdadeiro “querer” em sua voz, mesmo que hesitando.
Eu queria saber o que realmente se passava na mente dele. E na minha.
–Você sabia meu nome sem eu nunca ter o dito. Você me tratou com um entretenimento barato naquela primeira noite, e no outro dia, me encheu o saco com um papo estranho, parecia até outra pessoa. Então me encontrou sem eu nunca tê-lo procurado, e agora age como se fôssemos namorados ou algo assim. Não estou entendendo o que você realmente quer, cara. Não estou entendendo quem é você.
Eu...?
–Posso não estar bem da cabeça, mas o que estou vendo em seus olhos, não é tão simples assim.
Meus olhos...?
TaeMin não estava brincando, ou falando sem pensar. Havia muitas verdades em seu pensamento, em sua fala.
Mas eu sabia que se revelasse que o amava, ele se afastaria de mim.
Levei minhas mãos a tocarem as dele, e as fiz soltar minha cabeça. TaeMin não parou de encarar-me, e eu também não desviei meu olhar. Puxei-o para mais perto, até nossos narizes quase se roçarem, então fechei os olhos e beijei sua bochecha, caminhando com os lábios até perto de seu ouvido.
–MinHo. Meu nome é MinHo. – Proferi baixo.
Ele sentiu um arrepio com isso, contraindo levemente os ombros. Inspirei seu perfume natural e deixei a testa apoiada levemente na pele perolada entre seu pescoço e seu ombro.
Acariciei suas costas e beijei a tez que alcançava, fazendo- relaxar um pouco.
–Saciei sua dúvida? – Perguntei.
–MinHo...
Sua voz enredou minha alma de prazer com sua entoação quase que divina. Ouvi-lo me chamar dessa forma, ah, por quanto tempo sonhei com este momento. Estava sentindo algo que imaginei jamais sentir.
–Há mais uma coisa que preciso te perguntar.
–Quitei parte de minha dívida com você. Não acha que tenho direito de fazer algumas perguntas também? – Contra-ataquei com um sorriso, erguendo meu rosto para encará-lo novamente. Seu olhar indicava que sua resposta seria afirmativa.
–Só se me responder também.
E assim confirmamos nosso jogo, conforme nossas regras, mesmo que nunca as tivemos dito. Fechei os olhos e afundei-me um pouco mais na água, abraçando meu anjo e absorvendo um pouco mais de seu calor e daquele sonho que me parecia real até demais.
Infinitely.
Eu o encarava bobamente, e ele devia saber disso.
A primeira pergunta de nossa mais recente brincadeira foi minha. Perguntei-lhe se não estava com fome. Ele não me respondeu, escolheu usar sua pergunta daquela rodada. “O que você me oferece?”, foi o que ele pediu. Enfim resolvemos nos limpar, e assim, saímos da banheira. Me vesti com roupas informais e emprestei uma muda de roupas para TaeMin também. Ficaram um pouco grandes em seu esguio corpo, mas achei lindo de qualquer forma. Sempre acharia.
O som da água fervendo da panela diante de mim não desviava meus olhos daquela bela pessoa sentada na mesa à minha frente. Prendera sua franja para trás, com um elástico de dinheiro. Parecia até uma garota. Mas com certeza, era mais gracioso, mais perfeito. TaeMin estava concentrado com a xícara de chá em suas mãos, inalando o vapor quase nulo que subia, penso que hesitando entre beber o chá ainda quente ou esperar esfriar um pouco. Tão adorável.
Por fim, ele decidiu experimentar. Sorri.
–Quente. E sem açúcar. – Ele desaprovou, com um bico.
Virei-me para a bancada, procurando pelo pote de açúcar. Peguei-o e coloquei na frente do anjinho doceiro. Enquanto isso, voltei minha atenção às panelas sobre o fogão, cuidando para que nada desse errado ou passasse do ponto. Meu convidado nada exigira para comer, mas eu fazia questão de servir-lhe algo apropriado. Optei por bibimbap. Mesmo que não tivesse muita confiança em minhas habilidades gastronômicas e ele já tivesse reclamado do simples chá, eu pensava poder ao menos agradar seu paladar.
TaeMin esperou pacientemente até que a comida estivesse pronta. Assim que a pus na mesa, ele não demorou a servir-se. Acompanhei-o, mas meu interesse era exclusivamente observá-lo. Ainda mais pela curiosidade de saber se minha comida estava boa.
Seu rosto não desaprovava, e me aliviou um pouco. Ele não comia com pressa, mas também não parecia desgostar. Abocanhei um pouco, com cuidado, para tentar entender o que ele deveria estar pensando. Não me pareceu que havia algo errado com a receita. Mas talvez ele não gostasse de algum ingrediente que pus.
Minhas preocupações foram jogadas ao alto quando ele estalou os dedos defronte a meu rosto, me surpreendendo. Sorri, e ele também. Sorri um pouco mais.
–O que achou da comida? – Arrisquei. Foi uma pergunta, o que significava que aquela fora minha vez na rodada. Minha curiosidade martelava incessantemente, a ansiedade corria solta por minhas veias. Minha expectativa bambeava nas alturas, prestes a cair ou a salvar-se.
–Fazia tempo que não comia comida caseira. – Disse ele, e por sua face, ainda não sabia dizer se era de seu agrado ou não. Até que por fim, meu anjo sorriu e levou mais uma garfada à boca, mastigando-a com vontade. – Está gostoso.
Meu coração batia como um tambor, sua pulsação alvoroçada seguindo um ritmo de felicidade. Quase forçava-me a gritar que o amava.
–É a sua vez. – Falei.
–Sei, só estou pensando. – TaeMin respondeu, encarando o distante atrás de mim. – Tem cerveja?
–Não, não tenho. – Respondi, rindo.
–Ah, isso é uma pena. – Ele deu de ombros. – Sua vez.
Durante alguns segundos, deliberei.
–Quantos anos você tem, TaeMin?
Ele ergueu os olhos e me encarou, como se tentasse ler alguma coisa.
–Logo faço 17.
Nada respondi. Eu imaginava que falta de senso deixaria os pais de um garoto de apenas 16 anos viver sozinho, beber álcool e usar drogas como ele. Mas poderia não ser culpa de seus pais. Preferi não especular mais do que aquilo.
–E você? – Ele indagou, com uma clara curiosidade.
–Tenho 18. – Respondi-o. – Hm... Vou te dar uma pergunta extra, já que você está só refazendo as minhas.
TaeMin riu. Tão sublime.
–Acho justo. – Ele cruzou os braços. Terminamos de comer, quase sem notar. Agora poderíamos manter a atenção completamente centrada um no outro. – Bom, aqui vai. Você me conhece de antes daquela festa, MinHo?
Hesitei. Estava sentindo a confiança cair, mas não podia deixar transparecer.
–Não.
Eu poderia jurar que não fora nada convincente. TaeMin encarou-me como se não houvesse sido, mas então pareceu não se interessar muito.
–É sua vez.
Assenti, respirando fundo, procurando alguma coragem.
–TaeMin... Você não sente pena do seu próprio corpo?
Não tive qualquer dúvida de que minha pergunta havia chocado-o. Eu não queria tê-lo magoado, porém meu coração gritava por protegê-lo da dor e do sofrimento, e via tudo aquilo lhe fazendo mal. Senti-me um verdadeiro idiota, mas por outro lado, era meu amor. Um amor que talvez ninguém sentisse por ele.
–Estou acostumado a isso.
A resposta pareceu simples e apática. Não era assim que eu via.
TaeMin suspirou e levantou-se. Congelei de imediato.
Ele levou o prato até a pia.
–TaeMin, eu... – Tentei chamá-lo, mas fui interrompido.
–É simples, não é? Ter pra onde fugir. Mesmo que isso seja temporário, mesmo que isso me cause muitos outros problemas. Esses... Esses problemas não passam nem perto do que eu realmente tenho que suportar. – Sua voz mediava entre a raiva e a dor, e me atingia em cheio a cada palavra. Era mais do que ver o diamante, era como se eu visse por dentro dele, cada corpúsculo que o compunha, que o dava beleza. Mas estes também guardavam suas dores mais intensas, suas verdades mais escondidas. Querendo, ou não, TaeMin mostrara-me esse lado.
E sua dor e paixão pareciam muito similares às minhas.
Eu não queria pensar, de forma alguma, que ele amava JinKi. Era doloroso demais.
Virei lentamente. Pensei que talvez ele fosse estar chorando. Preparava-me mentalmente para acolher sua dor da forma mais discreta possível, mesmo sem saber como agir. TaeMin estava virado para minha direção, e quando encarei-o nos olhos, vi algo que não parecia dor.
Nossa distância não me permitia enxergar tudo.
–É sua vez de perguntar.
Ele sorriu, sentando-se em meu colo, o nariz quase roçando no meu.
–Te darei uma pergunta de bônus. – TaeMin disse, me dando um beijo estalado.
Sorri e afundei seu corpo junto ao meu, abraçando-o profundamente. Como se nunca mais fosse largá-lo. Por alguns segundos, minha intenção era essa.
–Quero que me responda, mas não se sinta obrigado. É algo que perguntei quando nos conhecemos. – Murmurei devagar, como se o pedisse para absorver palavra por palavra, entendendo cada um de seus significados existentes.
–Pode dizer.
–O que você tem com aquela pessoa?
–Ah... Aquela garota?
–Lee JinKi.
Eu sei que não é simples, TaeMin. Você não precisa se fazer de forte. Irei protegê-lo.
Apenas me aceite. Aceite meu amor. Aceite, meu amor.
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