Infindável

4 Capítulo 03


Acordei ás 02h00 da manhã ofegante e com o corpo banhado de suor. Quanto tempo fazia que eu não tinha um pesadelo? Fazia anos e agora estava tendo o pior de todos. Tentei fazer minha mente vagar pelas doces lembranças e sonhos que tive com o Damon, mas não veio nada. O dia anterior destruiu tudo em questão de minutos. Um Damon frio e raivoso levou apenas um dia para apagar o Damon doce da minha infância.

Rolei na enorme cama diversas vezes para tentar achar um lugar confortável, mas não estava conseguindo. Que ironia. Procurar na cama o conforto que precisava nos braços de certo garoto que estava tão ansiosa para rever. Senti meu estomago revirar e levantei da cama em um pulo e corri para o banheiro. Tal ato só fez meu estomago revirar ainda mais e cheguei na hora certo no banheiro. Levantando a tampa do vaso sanitário despejei tudo o que não tinha para vomitar. Minha garganta estava dolorida da força que fazia para vomitar e senti minhas lagrimas escorrem pelo meu rosto. Foi horrível e durou por longos e tortuosos minutos. Quando comecei a me sentir melhor, levantei e lavei meu rosto com água fria. Estava me sentindo fraca e não queria ficar sozinha naquele quarto imenso.

Lembrei da dificuldade que passei para meus pais me deixarem dormir ali e agora estava me arrependendo. Queria o colo da minha mãe que em momentos assim ficaria comigo a noite toda me fazendo carinho nos cabelos e sussurrando uma musica infantil como se eu fosse uma criança. Pensei em ir para o quarto de Caroline, mas sabia que acordar a loira de madrugada não seria algo agradável, então passo á passo fui até o quarto do Stefan.

Cheguei ao seu quarto e bati o mais fraco que conseguia, mas não recebi resposta alguma. Tentei chama-lo e novamente sem resposta. Abri a porta de seu quarto e fiquei surpresa por estar destrancada, e com nada mais do uma pequena fresta de luz entrando no quarto percebi que estava completamente vazio. Pensei em entrar e esperar, mas precisava urgentemente do meu amigo e resolvi procura-lo pela casa. Mas não demorei muito para encontra-lo.

Stefan estava na sala de estar estirado no sofá e com um copo de Whisky na mão, enquanto a garrafa praticamente vazia estava na mesa de centro. Senti minha garganta apertar, porque só tinha visto ele daquele jeito uma vez e foi mais que desagradável vê-lo naquele estado, foi triste e de dar pena. Me aproximei lentamente, de qualquer modo ainda me sentia fraca, e ele não pareceu notar minha presença.

— S-Stefan? – tentei chama-lo, mas ele não pareceu ouvir, então o chamei com mais convicção. – Stefan!

Ele levou um susto e olhou para mim com seus olhos vermelhos. Ele tinha chorado! Me olhou por mais um segundo até parecer notar que era eu quando tentou falar meu nome sua voz saiu rasgada.

— Porque está aqui Stefan? – perguntei enquanto me sentava ao seu lado.

Ele não me respondeu, apenas olhou para o copo em sua mão e o levou até sua boca, mas antes que pudesse beber segurei seu pulso e ele finalmente me olhou.

— Preciso disso, Elena! – ele puxou seu braço e tomou um gole da bebida.

— Stefan, por favor, não faça isso. De novo não, por favor! – senti novas lagrimas se acumularem em meus olhos e retirei o copo de sua mão lentamente.

— Esta doendo, Elena. Não quero mais essa vida. – ele sussurrou meio grogue e segurou minhas mãos, apertando-as. – Primeiro perdi meu irmão, depois meu pai e por ultimo minha mãe. Não tenho nada, Elena!

Meu peito doeu quando ouvi suas palavras e quando vi suas lagrimas virarem soluços grandes e dolorosos não pensei em nada quando o puxei para os meus braços.

Não pude acreditar em quão burra fui ao pensar por durante esses dois anos que Stefan estava bem, que apesar de tudo estava vivendo feliz. Em todas às vezes em que ele foi lá em casa me acordar ou me animar, não passou nenhuma vez pela minha cabeça o quão triste aquele garoto estava ou o quanto estava sofrendo. Eu fui egoísta e só pensei na minha tristeza. Me amargurando e lamentado com Stefan pensando ser eu a única que sofria. Minha ingenuidade me fez pensar que o Damon voltaria doce e feliz por estar em casa. Minha ingenuidade me fez pensar que Stefan era feliz, mesmo com todos os fatos mostrando ao contrario e eu apenas não queria ver.

Passei meus braços ao redor de seu pescoço e senti os seus próprios rodearem minha cintura enquanto enterrava sua cabeça na junção entre meu ombro e pescoço.

— Você tem a mim, Stefan. Você é meu melhor amigo. Não posso perdê-lo também – passei minha mão em seus cabelos molhados, fazendo um pequeno carinho em meu amigo. Mas ao dizer essas palavras percebi o quão egoísta estava sendo. Eu novamente estava pensando em mim, porque não suportaria perdê-lo estava dizendo palavras carinhosas. Eu precisava dele e o manteria ao meu lado de qualquer jeito e só esse pensamento fez meu estomago se revirar novamente. – Me desculpe...

Ele ficou em silencio por tanto tempo que pensei que tinha adormecido, mas então ele disse numa voz baixa:

— Não é sua culpa.

Minhas lagrimas enfim começaram a se derramar silenciosamente enquanto um Stefan sofrido me abraçava e dizia que não era minha culpa. O que diabos tinha acontecido com a nossa vida? Nós éramos crianças felizes e cheias de sonhos, e agora éramos adolescentes que não sabiam o que fazer, que usavam os modos mais inescrupulosos para aplacar ao menos um pouco se não completamente a dor. Nossas vidas tinham dado um giro de 360º graus e não tinha mais volta. Pelo que diabos estávamos lutando tão arduamente?

Stefan se afastou minimamente de mim, fazendo seu rosto ficar próximo do meu. Seus olhos eram um reflexo do meu, só que mais triste. Ele realmente tinha perdido tudo, tinha perdido mais do que eu, mas sempre esteve ao meu lado me fazendo feliz, me animando e me irritando. Sorri em meio a lagrimas e o peguei olhando para minha boca, e, por um momento pensei que ele fosse me beijar, mas então seus lábios estavam na minha testa enquanto seus braços me puxavam para si.

Me aconcheguei ao seu lado passando os braços pela sua cintura e deitei minha cabeça em ombro. Ficamos sentando em meio ao silencio ao que pareceram horas e senti que estava começando a perder a consciência. Eu ainda tinha algo para lhe dizer, mas não estava conseguindo nem ao menos abrir a boca. Depois, eu pensei, antes de fechar meus olhos e cair na escuridão calma e aconchegante.

Em algum momento me senti flutuando, mas então em me mexi e senti algo solido e firme em minha volta. Stefan provavelmente estava me carregando. Gemi enquanto aproximava minha cabeça de seu pescoço e senti o cheiro maravilhoso de seu suor que parecia exalar sexo. Um cheiro natural que exalava sexualidade. Nunca pensei ou reparei que Stefan pudesse exalar assim. E algo naquele cheiro me aqueceu completamente e era reconfortante. Mas então eu estava eu algo mais confortável e macio.

— Stefan... Não... Não quero dormir... Sozinha... – murmurei sonolenta.

— Eu sei Elena. Estamos no meu quarto. Agora durma... – a voz de Stefan soou longe, como se ele estivesse afastado de mim, mas ainda podia sentir cheiro que seu corpo exalava. Tentei abrir os olhos para ver se ele realmente estava do meu lado, mas o sono era demais e acabei adormecendo.

Senti meu corpo se balançando para lá e para cá diversas vezes, seguida de uma voz calma que parecia dizer algo que aos meus ouvidos soava indiscernível. A voz soava cada vez mais irritada e então eu ouvi claramente o que a pessoa dizia.

— ELENA! ACORDA GAROTA! – Stefan, Stefan. Me fez sentar em um pulo assustada com seus berros.

— O que está fazendo, Stefan? – minha voz saiu irritada do mesmo modo que eu estava.

— O que estou fazendo? Estou te chamando há horas e você não levanta! Temos aula.

Ah, o colégio. Tinha me esquecido completamente. Olhei para Stefan, mas não parecia ter restos do Stefan da noite passada.

— Como você está? – perguntei enquanto me espreguiçava.

— Que pergunta é essa? Claro que estou bem. Levanta, Elena!

— Você sabe o que eu quero dizer. – olhei para ele com raiva, pois sabia que ele só estava querendo me distrair para não responder.

— Estou bem, Elena. Não se preocupe. – ele olhou em meus olhos e me deu um sorriso doce.

— Você promete que não vai mais fazer aquilo novamente? – sussurrei enquanto entrelaçava minhas mãos e olhava para as mesmas.

Stefan não me respondeu ao invés disso me puxou para seu colo e eu me aninhei ali, enquanto suas mãos acariciavam meus cabelos. Estranhamente não senti aquele mesmo cheiro da noite passada, ao contrario, estava com o cheiro adocicado de Stefan de sempre. Balancei a cabeça levemente, ele ainda não tinha me respondido.

— Por favor, Stefan! Você promete?

— Elena...

— Você tem que prometer! Você é instável quando se trata de bebidas alcoólicas. Não quero ver você naquele estado novamente. Por favor!

Senti seu corpo se contrair quando terminei de falar e então ele me colocou na cama e se levantou sem me olhar nos olhos.

— Stefan... – tentei falar novamente, mas ele me interrompeu.

— Eu prometo, Elena. – ele se abaixou, beijou minha testa e foi para porta, mas então se virou e sem o sorriso de sempre continuou – Agora se arrume.

Fiquei olhando para a porta por alguns minutos e pensei no que eu poderia fazer em relação aqueles dois irmãos. Stefan estava sem duvidas instável. Os meses que passou na clinica pareciam ter sido concluídos com sucesso, mas só a menção de sua mãe para abalar todo resultado positivo que ele tinha conseguido. Tudo tinha começado com um simples copo de bebida alcoólica, que para um garoto de treze anos poderia ter sido fatal.

E tinha Damon. O garoto que me apaixonei ainda criança e que agora estava completamente diferente do meu Damon. Onde ele estava? Por que ele tinha voltado de repente do nada? O que tinha acontecido com ele? Por que ele mudou tanto? Eu sempre pensei que ele tivesse sido sequestrado, mesmo que seus pais nunca tenham recebido qualquer oferta de troca, mas agora vendo esse garoto eu não pensava mais assim. Ele estava forte, os músculos escondidos pela camiseta apertada eram prova disso e se ele tivesse sido mesmo sequestrado não estaria assim, estaria? Eu não tinha respostas e sem saber o que fazer, por hora decidi apenas tomar meu banho e me arrumar para o colégio.

O banheiro era enorme com tudo revestido de modo clássico e amadeirado de Fresno Negro, com pintura branca assumindo metade da parede. A banheira ficava do lado esquerdo do cômodo, com pequenas fontes de luz ao lado. Sob o armário ao lado da banheira estava uma muda de roupa e toalha. Até mesmo a banheira já estava cheia! Esse Stefan... Não esperei mais e me despi já entrando na água morna. Peguei um sabonete liquido e despejei completamente na água sem me importar de quem fosse. Afundei até a água bater no meu pescoço e fiquei ali por longos e relaxantes minutos.

Quando resolvi sair da água pude sentir meus dedos todos enrugados, sinal de que tinha ficado mais tempo do que imaginava e que Stefan provavelmente estava ficando irritado com minha demora. Vesti a calça skinny verde e a regata branca o mais rápido que pude. Apenas desembaracei meus cabelos e calcei o par de sapatilhas que estava ali. Quando sai do banheiro um Stefan emburrado me esperava de braços cruzados sentado na cama.

— Demorou!

— Demorei nada, tomei meu banho em tempo recorde.

Ele apenas balançou a cabeça e acabou se desfazendo daquela carranca horrorosa. Sorri para ele e o puxei da cama o levando em direção à porta.

— Você toma banho pra ir ao colégio Stefan?

— Claro que sim, Elena! Que pergunta é essa? – ele me olhou horrorizado e eu gargalhei.

— Bem, então você acorda de madrugada? Porque antes das 6h30min você está lá em casa me atormentando.

— Você é louca garota. Apenas vamos logo tomar o café da manhã e sair.

— Tem cereal?

— Não! Tem ovos, bacon, suco e torradas. Um café da manhã de verdade e não aquela porcaria que você come todos os dias. – ele fez cara de nojo e lhe uma acotovelada que o fez gemer e que me fez sorrir triunfante.

— Não é porcaria e você é um idiota por não gostar.

Antes que ele pudesse responder chegamos à cozinha e nos deparamos com um Damon olhando para a mesa, mas sem tocar em qualquer alimento. Ele ergueu os olhos para nós e um sorriso irônico brincou em seus lábios. Ouvi Stefan praguejar baixinho e percebi que ele não queria ver o irmão. Já eu não sabia o que fazer, não sabia como reagir sob aqueles olhos frios pregados em mim.

— Vejo que estão se divertindo. Mas me digam a noite de ontem foi muito quente? – sua voz saiu carregada de ironia e senti meu rosto esquentar com o que ele disse e olhei para baixo. Ele sabia. Ele sabia que eu tinha dormido com Stefan, mas como? E porque fazer uma piada horrível dessa?

— Não é da sua conta Damon. – todo o bom humor do Stefan tinha evaporado e ele estava irritado.

Damon não pareceu se incomodar em irritar o irmão, apenas sorriu e se levantou, mas quando foi passar Stefan segurou seu braço o impedindo de sair. Damon ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada só ficou olhando o irmão.

— Espere. Você vai...

A expressão divertida de Damon desapareceu e ele pareceu com raiva, mas eu não podia ter certeza, não conseguia entender as expressões daquele garoto. Ele soltou seu braço em um puxão indo em direção à escadaria, antes de subir ele olhou por cima dos ombros e disse com uma voz sem um pingo de emoção:

— Já resolvi minhas coisas com você irmãozinho. Se continuar se intrometendo não serei tão compreensivo assim.

E ele saiu sem esperar por resposta. Olhei para Stefan, tentando entender o que o Damon quis dizer, mas nada passava pela minha cabeça.

— Stefan? – o chamei, hesitante.

— Não é nada Elena, vamos comer se não chegaremos atrasados.

Não insisti na pergunta mais. Stefan estava nervoso e não precisava de mim o importunando. Esperaria quando estivesse mais calmo para perguntar. Então tomamos o café da manhã em silencio, quer dizer eu tomei o café da manhã, Stefan por sua vez apenas tomou um copo de suco e pediu licença para fazer a higiene matinal. Quando voltou parecia um pouco relaxado, mas não totalmente e até chegarmos ao carro não dissemos uma palavra. O pequeno trajeto até o colégio o acalmou completamente e resolvi perguntar sobre o que o Damon se referiu.

— Não é nada. Não se preocupe com isso Elena.

— Por favor, Stefan! Logicamente vocês estavam falando a respeito de algo. E eu quero saber! Você pode imaginar como me senti quando ele me tratou daquela forma na noite passada só pra depois continuar hoje? Estou machucada Stefan. Aquele Damon que eu estava louco pra reencontrar desapareceu completamente. Eu preciso saber o que está acontecendo. Por favor! – Não queria dizer essas coisas para ele, porque já bastava os seus problemas para resolver. Stefan não precisava de mais nenhum peso para si, mas algo tinha acontecido entre ele e o Damon e eu queria saber. Precisava saber.

Stefan não disse nada, mas suas mãos apertarem fortemente o volante. Ele dirigiu o resto do trajeto sem dizer uma palavra e eu queria insistir para ele me contar o que era, mas eu só o irritaria e depois de vê-lo bebendo na noite passada não queria que ele fizesse qualquer besteira. Mas a frustração parecia exalar dos meus poros e preencher todo o carro. Perdi a conta de quantas vezes suspirei até que ele pareceu se cansar.

— Tudo bem! Eu vou falar Elena. Não queria te contar pelo seu próprio bem, para não machuca-la mais. – ele suspirou dessa vez e seu rosto se transformou em uma mascara de dor e estremeci com medo do que ele diria.

— Ontem, depois que você foi dormi eu tentei conversar com o Damon, mas não deu certo, ele me expulsou do seu quarto e eu fiquei com raiva e magoado. Meu próprio irmão não queria falar comigo e por isso acabei na sala e o resto você já sabe. Mas hoje fui tentar falar com ele novamente, era bem cedo quando entrei no seu quarto e o vi sem camiseta. Suas costas Elena. Suas costas estavam completamente marcadas. Enormes cicatrizes por toda suas costas, Elena. Quem quer que tenha feito aquilo com meu irmão não é normal, não é humano. Tinha algumas que nem estavam cicatrizadas, estavam sangrando e quando vi seu olhar ele não parecia sentir qualquer dor. Sabe por que Elena? Talvez por ter passado por aquilo tantas vezes ele já nem sentia e sente mais dor. Mas não vi somente isso Elena, em sua pele estava marcada um símbolo. – Stefan me olhou e vi toda sua dor naqueles olhos esmeraldas.

— Marcada como, Stefan? E que símbolo? — Fiquei com medo de ouvir o resto, mas ainda assim perguntei e engoli em seco quando descobri. Minha cabeça girou e senti que vomitaria a qualquer momento.

— Ele foi marcado como um animal, Elena. Marcado com ferrete quente. Sua pele branquela foi marcada com ferro em brasas. O Damon foi marcado com um símbolo sexual.