Infindável
5 Capítulo 04 – Viver ou Sobreviver?
Notas iniciais
Os passos arrastados estavam cada vez mais próximos. Ele estava vindo. Eu sabia que viria depois do que fiz, estava apenas esperando a hora em que descobrisse. Essa hora chegou. E eu só esperava que ele se cansasse rápido, pois não sabia se aguentaria sua fúria. Dessa vez tinha ido longe demais. Os passos pararam e escutei o barulho de sua fechadura de “segurança”. Ele entrou e em sua mão tinha dois objetos, um de ponta vermelha e para eu conseguir ver naquela escuridão só poderia ter algo relacionado ao fogo, o outro objeto parecia comprido e por um segundo brilhou. Engoli em seco e soube naquele momento que estava perdido.
A porta estava escancarada e achei estranho, mas então meu medo cresceu quando vi mais três pessoas entrando no cômodo escuro e sujo. Extintivamente me encolhi na grade enferrujada da cama. Estava com medo. Muito medo. Alguém devia ter ligado o disjuntor, porque a luz fraca iluminou o lugar. Pela primeira vez os vi. Todos estavam usando ternos escuros e pelo modo que se ajustavam ao corpo percebi que eram sob medida. Mascaras douradas sem qualquer adorno tapava quase o rosto completamente, deixando apenas a boca à vista. Eles tinham cabelos escuros e apenas um tinha o cabelo mais claro, entre o loiro e castanho que me lembrava alguém, mas então vi os objetos e esqueci de tudo.
Em uma almofada preta com detalhes dourado estava uma espécie de punhal e ao lado um ferrete. Um ferrete e um punhal. Eles só podiam estar querendo me assustar, certo? Aquilo era horrível demais para se fazer com uma criança. Mas então pensei em tudo que vinham me forçando a fazer e para eles aquilo não era nada mais do que uma forma de ganhar dinheiro e fazerem aquelas pessoas doentes se deliciarem o bastante para sempre voltarem. Tudo girava em torno do dinheiro.
Dois deles se aproximaram da cama e tiraram três pedaços de corda do bolso. Olhei para eles apavorado e quando pensei em perguntar o que fariam um deles me puxou com tanta brutalidade que soltei um gemido alto. O homem que me puxou me forçou a deitar de bruço no colchão velho e puxou um dos meus braços, começando a amarra-lo na grade da cama. Enquanto eu me debatia louco e inutilmente o segundo homem me segurou pela cintura me mantendo quieto enquanto eu era amarrado na cama.
— O-O que estão fazendo? – minha voz saiu baixa e tremida, um reflexo de como eu me sentia.
Eles nem fizeram questão de me responder, apenas riram e amarraram também meus pés na grade. Eu estava preso e em pleno desespero me debatia e puxava meus braços sem perceber que a fricção da corda com minha pela apenas me queimava. Lagrimas encheram meus olhos quando os dois outros homens se aproximaram. Um segurando a almofada preta, enquanto o outro pegava o punhal com um sorriso bestial nos lábios.
— Você sabe o que é isso? – ele perguntou, enquanto olhava admirado para o punhal. – É uma baioneta. Ela já é velha, mas pode fazer um ótimo estrago. Você sabe para que era usada? – ele ainda olhava para a baioneta, mas então seu olhar pousou em mim. – Me responda!
— N-não... Por favor... – ele pareceu satisfeito com minha resposta, pois balançou a cabeça positivamente. Mas ignorou minha suplica.
— Essa belezinha aqui é uma relíquia de família e por isso está desgastada. Essa baioneta era uma arma de caça entre o século XVII. As armas de fogo eram difíceis de carregar e o tiro poucas vezes certeiro podia colocar um caçador de animais em perigo. A baioneta então era um meio do caçador se defender de animais selvagens caso o tiro falhasse. Você entende onde quero chegar? Eu sou o caçador e você é só um animal. Isso não chega nem perto do que você realmente merece. Você deliberadamente estragou o corpo da minha querida menina e eu vou estragar o seu...
— Por favor...
—Você deveria sentir-se honrado, garoto. Você vai ser o primeiro a experimentar a textura dessa linda baioneta.
— Desculpe... – sussurrei, mas ele não parecia querer me dar ouvido e sem dar conta de segurar mais minhas lagrimas elas encharcaram meu rosto em questão de segundos. – P-Por favor...
— Agora rapazes, vocês podem ir. J.G e eu daremos um jeito no garoto. – enquanto os outros dois homens saiam, ele se aproximou de mim e meu soluço começou a crescer gradativamente. – Não se preocupe meu garoto, é para seu bem.
Em um rápido movimento o homem estava em cima de mim com a baioneta em punho e então eu senti o primeiro golpe. A dor inicial era pouco mais do que uma linha quente, mas então o segundo corte veio rasgando minha pele, soltando uma linha vermelha que escorreu até minhas costelas e com um grito desesperador a dor se fez presente. Nunca tinha sentindo tanta dor e agora preferia estar morto ao sentir tamanha dor.
A baioneta tocou em minha pele pela terceira vez em um longo e fundo rasgo. A ponta velha, mas afiada entrou em minha pele e subiu, rasgando-me sem hesitação. Gritei, gritei e gritei como nunca tinha gritando na vida. Meu Deus, a dor era enorme e não parava, não acabava. O sangue quente escorria pelas minhas costelas e encharcavam a cama.
Os cortes seguintes vieram sem nenhuma pausa, sem nenhuma hesitação. Longos e tortuosos golpes que pareciam atingir minha alma. Meu corpo pedia por socorro, por alivio em vão. Em minha mente se repetia “PARE! PARE! PARE!” sucessivamente. Chorei. Chorei como nunca chorei, porque era a única coisa que eu podia fazer. Ninguém me salvaria.
Uma agonia liquida e interminável. Lagrimas e sangue. Uma onde de sangue da qual não conseguia escapar, que me derrubava seguidamente. Estava me afogando em meu próprio sangue. E automaticamente meu corpo começou a lutar. Meu erro. Ao me debater a baioneta fez um corte em formato entranho em meu corpo e apenas senti mais dor. Minha garganta já estava doendo de tantos gritos esganiçados.
Não sei quanto tempo durou tudo, mas quando acabou meu corpo todo estava dormente e eu estava beirando a inconsciência. Eu não sentia mais nada, mas sabia que estava em uma poça do meu próprio sangue e meu rosto banhado de lagrimas. Quando o homem finalmente saiu de cima de mim, estranhamente, não senti o alivio que pensei que sentiria.
E eu sabia, ah como sabia. Ainda não tinha acabado. O ferrete estava ali, brilhando em toda sua gloria enquanto acabaria com um pedaço de minha pele. Mas, eu não sentia mais medo, não tinha medo do que eles fariam comigo e nem me importava. Eu nunca sairia dali, estava condenado no momento em que me pegaram. Em que me escolheram.
Quando o homem de cabelos claros se aproximou de mim com o ferrete em mãos, tentei pensar em Deus e em todas as coisas que a igreja pregava. Ele escreve certo por linhas tortas. Ele sempre protege seus filhos. E tudo que senti foi uma raiva crescer em meu peito. Onde está Deus quando chega a dor? Ele não vem. Tudo que ouvi, todas as pregações soavam agora como uma mentira descarada. Deus não existia, e, se existia estava preocupado apenas com a própria pele.
O homem parou perto de mim e tentei olhar em seus olhos porque eu sabia que conhecia aquela pessoa de algum lugar, mas aquele não era o momento ideal para me preocupar com isso.
Vi com horror quando ele foi aproximando o ferrete um pouco acima da cima da cintura, no lado direito da vértebra torácica. O contato não veio nem um pouco gentil ou mesmo hesitante. Aquele cara queria me marcar e seus olhos pareciam em adoração com isso. Quando ele tocou o ferrete na minha pele meu grito saiu estridente. Ele segurava o ferrete firme em minha pele e o cheiro de pele queimada encheu o lugar. Meus olhos se arregalaram e comecei a me debater inutilmente. Doía Deus, como doía. Se eu estava quase inconsciente antes, isso me fez despertar rapidamente. Preferia estar sendo fatiado a sentir isso. Minha lagrimas escorriam e saliva banhava toda minha boca e queixo.
A dor era irreal e ao mesmo tempo real. Meu corpo todo queimava, quando era apenas um local a ser marcado. Doía demais por ser apenas um contato com a pele fina das minhas costas. Meu corpo inteiro tremia e eu já não gritava mais. Apenas não conseguia mais.
Senti minhas calças ficarem úmidas e sabia que tinha urinado em mim mesmo. E foi o momento em que o cara tirou o ferrete e se afastou. Ambos me olharam e começar a rir do meu estado. Tinha sido mutilado, marcado a ferro em brasa e agora estava sendo ainda mais humilhado. Era demais. Eu queria morrer, como nunca quis nada na vida. Queria apenas se livre daquilo mesmo que fosse no inferno. Por que pior do que aquilo era impossível.
Eles me desamarram e saíram do cômodo imundo me deixando ali. Sangrando, sentindo o fogo até nas entranhas, mijado e babando como um doente.
Eu tinha uma vida maravilhosa antes de vir parar nesse lugar e agora estava em uma cama deitado no meu próprio mijo e sangue. O fedor era insuportável e ainda tinha o cheiro de carne podre pra se misturar ao ambiente.
Tentei sentir raiva de tudo. Dos meus pais que estavam em casa vivendo suas vidas enquanto eu estava ali. Do meu irmão que estaria se divertindo com seus amigos ou até mesmo uma namorada. Da garota por quem eu me apaixonei. Das pessoas que me mantinham ali sem nenhum motivo aparente. Mas não consegui. Não estava sentindo nada. Não sentia mais nem meu próprio corpo.
Não sabia quanto tempo fiquei ali, naquele estado inerte. Mas quando fechei meus olhos para finalmente descansar me veio lembranças. Um Stefan sorridente enquanto lhe ensinava uma lição. Uma Elena com seu lindo e doce sorriso tímido que era somente meu, que apenas eu tinha visto. Seus lábios rosados e brilhantes, que eu esperava poder tocar novamente. Tinha sido pouco, mas que do mesmo modo acendeu uma pequena fagulha em meu peito que já tinha se extinguido. E então pensei no motivo que havia me levado a ficar naquele estado e senti um sorriso quebrado se formar em meus lábios. Meu peito se aqueceu completamente ao pensar na criança. Ela ficaria bem, não seria punida como eu tinha sido. Eu tinha que viver e ser forte por aquelas duas pessoas, porque assim como eu precisava delas, elas precisavam de mim.
Elena e Stefan eram as duas pessoas mais importantes na minha vida, na vida do Damon que conviveu com elas durante doze anos, mas agora eu tinha outras duas pessoas que eram mais ainda importantes para mim. Elena e Stefan estavam tendo uma vida fora desse inferno enquanto eu e as duas pequenas criaturinhas estávamos lutando cada dia para nos manter vivos nesse inferno que agora era nosso lar. O único que tínhamos.
Eu não podia mais ficar pensando na Elena e o quanto eu era loucamente apaixonado por ela. Isso tinha que acabar. Ela sempre seria meu primeiro amor. Isso nunca mudaria. Mas agora ela seria apenas um amor do passado. Alguém que não tive oportunidade de ter mais do que alguns beijos, mesmo desejando mais.
Eu estava marcado, literalmente. Marcado como deles. Mas essas marcas representavam mais do que uma punição. E com uma forte dor no peito eu percebi a verdade. Essas marcas por mais dolorosas que fossem – e mesmo as pessoas que as fizeram fosse por um motivo completamente diferente – significava que eu era daquelas duas pessoas que agora eram tudo que eu tinha. Elas eram um lembrete de que tanto meu corpo quanto meu coração pertenciam a Kath e Archer.
Eu aguentei toda a humilhação e dor, não por Elena e Stefan. Mas por Kath e Archer. Por que de certa forma, pensar neles era o que estava mantendo minha sanidade. Kath e Archer se tornaram minha base.
A questão era: Eu estava vivendo ou sobrevivendo?
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