Meus pés me levaram até o ginásio de basquete. As luzes estavam acesas, não havia ninguém disposto pela quadra ou arquibancadas, mas pela bagunça do local, julguei que um jogo havia acabado recentemente ali.

Escolhi um lugar aleatório em meio aos vários bancos e sentei-me sem energia alguma no organismo. A vontade que tinha era de sumir, ir a minha casa e trancar-me no quarto por toda a eternidade. Mas até para ir embora daquele lugar me faltavam forças.

— Noite ruim?

Aquela mesma frase. Eu pude reconhecer sem dificuldades o tom calmo e levemente grave do rapaz que me fez companhia na sala escura há noites atrás. Meu olhar ergueu-se sem pressa em direção a voz e, de forma inesperada, encontrei a minha frente o mascote do nosso time: Uma marmota adorável usando roupas azuis e o símbolo da universidade.

— Desculpa, te assustei?

O rapaz murmurou por baixo da fantasia e, cuidadosamente, tirou a cabeça da peça, revelando seu rosto anguloso e o cabelo longo completamente molhado pelo transpirar de sua pele. Um sorriso, tão encantador quanto o que guardei em minha memória, surgiu em seus lábios. Meus olhos fitaram sua beleza em cada detalhe, dos olhos felinos aos lábios finos e os piercings prateados. Não esbocei reação alguma, ainda estava mal com toda a situação recente, mas eu definitivamente estava apaixonada pela sua beleza, que naquele momento enxergava detalhadamente sob a claridade.

— Não, eu só… fiquei confusa. — murmurei em resposta, voltando o olhar para o chão novamente.

— Uhm… — ele pareceu me analisar antes de sentar-se ao meu lado. — Ainda está chateada com aquele mesmo assunto?

Respondi com um acenar de cabeça.

— Não há nada tão ruim que não possa piorar. — proferi à ele.

— O que houve? Eu não soube de nada.

— Bem… Eu fui tratada como uma prostituta por alguém por quem já tive uma queda, e… acabei de descobrir que sou a suposta amante que passou clamídia pra um cara com quem nunca conversei. — um riso amargo tomou meus lábios.

Seu cenho franziu, o rapaz ficou em silêncio por alguns segundos.

— Como as coisas saíram tanto do controle?

— Não tenho ideia. — murmurei entristecida, minhas mãos cobriram meu rosto e soltei um suspiro longo e pesado.

— As pessoas desse lugar são nojentas. — o ouvi dizer, e mais alguns segundos de silêncio se passaram. Sentia seus olhos preocupados sobre mim. — Quer que eu te leve pra casa?

— Quero… — uma única palavra, que saiu falha e chorosa pelo nó que se formava em minha garganta.

Como ainda estava vestido de mascote e completamente suado, ele pediu que o aguardasse tomar um banho e trocar de roupa, e assim o fiz.

— Quer conversar sobre o que houve? — perguntou baixo enquanto caminhava ao meu lado, em direção aos vestiários.

— Não… Por enquanto eu… prefiro distrair a cabeça.

— Sem problemas. Estarei por perto caso queira desabafar. — me assegurou e o olhei mais uma vez, reconfortada pela forma como falava comigo.

— Obrigada.

— Entra. Não tem ninguém além de nós aqui. — pediu ele, abrindo a porta do vestiário masculino e permitindo minha passagem. — Só não se assuste com a bagunça, os caras daqui não receberam educação em casa.

— Tudo bem.

Assenti adentrando o lugar, que guardava um forte cheiro de desodorante masculino, além de estar com toalhas espalhadas por todos os bancos e com o chão completamente molhado. Acompanhei o rapaz até ele parar frente um armário e sentei-me em um dos bancos ali, observando todo o espaço enquanto tentava desviar meu foco das situações de mais cedo.

— Se importa? — ele perguntou e virei o rosto em direção a ele, ficando estática por milésimos ao ver suas mãos posicionadas para remover a fantasia.

— Ah, foi mal. — respondi rápido e virei de costas, aguardando enquanto o ouvia tirar as vestes e remexer no armário, ficando pensativa sobre ele e me recordando de algo. — Então, eu… eu ainda não sei seu nome.

— Hanse. Do Hanse.

— Hanse… — murmurei para mim mesma, querendo o fixar na mente.

— E o seu?

— Hwang Hyunjin.

— Prazer, Hyunjin. — ouvi sua voz mais distante, então me permiti virar o rosto, apenas a tempo de o avistar já de toalha na cintura e entrando na área de chuveiros.

— Prazer… — disse um pouco baixo. — … Eu posso te perguntar uma coisa?

— Claro.

— Por que você é mascote da faculdade? — perguntei, genuinamente curiosa.

— Preciso fazer parte do time de basquete pra manter minha bolsa de estudos. Eu sou péssimo como jogador, então…

— Oh…

— É, não dá pra conseguir um diploma sem se humilhar. — ele riu e o acompanhei com um sorriso pequeno.

— Isso eu tenho que concordar.

O aguardei pacientemente enquanto conversávamos, aos poucos esquecendo de tudo o que havia me causado uma enxurrada de sentimentos naquela semana. Logo que se viu limpo e vestido, Hanse me acompanhou até o estacionamento do campus.

— Você não tem aulas nesse horário? — perguntei logo que paramos ao lado de sua moto.

— Tenho. Mas uma falta não vai ser problema.

— Não pode perder sua bolsa por conta de faltas?

— Isso são detalhes. — disse em tom de brincadeira e pegou seu capacete, cuidadosamente o colocando sobre minha cabeça. — Já andou de moto antes?

— Já sim. Mas não é melhor você ficar com o capacete? — o encarei enquanto ele prendia a trava e ajeitava meus cabelos para trás dos ombros.

— Digamos que, se sofrermos um acidente, eu prefiro que você tenha mais chances de viver que eu. — subiu sobre a moto e me olhou enquanto a ligava. Eu o encarava perplexa com a fala. — O quê? Não se assusta, eu tava brincando… — ele sorriu e fiquei mais calma com isso, subindo na moto logo atrás dele. — … mas é melhor se segurar em mim.

Mal pude reagir ao seu aviso, apenas senti a motocicleta arrancando e, num ato reflexivo, me agarrei a sua cintura, a abraçando firmemente enquanto saíamos do campus. Apesar do susto, o medo não durou muito tempo. E logo estava me sentindo confortável com a proximidade da única pessoa que acalmou meu coração nos últimos dias. O vento contra meus cabelos tornaram-se agradáveis e pude apreciar a visão das luzes da cidade a noite, rapidamente passando por meus olhos.

Não demoramos a chegar a minha casa, então desci da moto e o agradeci com palavras carinhosas. Naturalmente trocamos números e, mais tarde, Hanse estava me confortando enquanto eu contava detalhadamente tudo o que havia acontecido.