Inerzia
16 La Destinazione

Aproveitando o frio paulistano que faz nas noites de primavera, Elaine usa a touca da jaqueta com pelos sintéticos nas pontas; óculos escuros, a fim de disfarçar seu rosto. Não quer arriscar que alguém a veja visitando Daniel e conte à Pâmela, principalmente depois da atitude da mesma durante a aula.
Deu uma desculpa qualquer à Carolina para não ir ao bar, foi se encontrar com o amante em sua casa. Chegando lá, toca a campainha três vezes. Algo combinado para que soubesse quem era.
Atende-a trajando uma calça de moletom e uma regata branca colada ao seu corpo. Está molhado de suor, sorrateiramente abre a porta, orientando-a para que entre ligeiramente.
— E então, gato... O que estava aprontando? — questiona-o, tirando o “disfarce”.
— Treinando um pouco! — pega sua mão, guiando-a até seu quarto, onde um saco de pancadas está instalado no centro. — Vou quebrar a cara daquele filho da puta do Thiago! — resmunga entre dentes, esmurrando o objeto.
— Ora, bebê... — passa as mãos em seus ombros delicadamente. — Esquece esse povo!
— Não mesmo! — vira-se em sua direção, encarando-a inconformado. — Acha que vou deixar barato a Pâmela me fazer de trouxa?
A loira rola os olhos. Um suspiro pesado escapa por entre seus lábios.
— Por que você insiste tanto nessa garota, hein? — pergunta irritada.
— Por quê? — aponta a cama, assentando-se. Ela faz o mesmo. — A conheci num momento em que todos haviam me abandonado.
— Como assim? — franze o cenho.
— Tudo começou quando eu tinha mais ou menos oito anos de idade...
O pai de Daniel discutia mais uma vez com sua mãe. Desde que se conhecia por gente, nunca o tivera presente. Nunca lhe ensinou a chutar bola, empinar pipa, jogar videogame. Era corriqueiro que chegasse bêbado, gritando, chutando seus dois cachorros.
Foi numa madrugada fria, que o presenciou agredi-la pela primeira vez. Não revidou. Seu olho roxo delataria a todos o quanto Valdecir era cruel, instável. Todavia, se recusava a entregá-lo às autoridades, pois o amava.
Pediu perdão. Disse que não foi por querer. Havia se exaltado mais que o normal, aquilo nunca mais aconteceria. Perdoou-o, beijou-o, abraçou-o. Requisitou que parasse de beber. Jurou que o faria.
A promessa só durou três dias. O final de semana chegou, saiu com os amigos dizendo que iriam pescar. Gisele sabia que era traída. Todos os seus vizinhos, colegas comentavam. Daniel ouviu isso na escola, entretanto, não se manifestou, porque queria defender seu pai, assim como sua mãe o fazia.
Presenciou mais e mais vezes agressões, até por volta dos seus doze anos.
Naquele dia foi diferente. Ela estava disposta a findar aquele relacionamento. Não aguentava mais apanhar, nem fazer sexo sem vontade. Não podia suportar mais um dia recebendo ameaças caso citasse a palavra “divórcio”.
Armou-se com uma faca de cortar carne. Estava amolada e era pontiaguda. Aguardou a chegada de Valdecir, que como sempre chutava os cães, anunciando sua presença.
Escondeu a arma atrás de si, virando-se de costas para a pia da cozinha, a fim de encará-lo. Daniel fazia lição de casa na mesa, porém foi orientado para que saísse de lá. Obedeceu-a, contudo, ficou no banheiro, ouvindo os passos dele se achegando.
— Gi... E aí Gi! — pôde ouvir seu pai soltar uma risada. — Vem cá mulher, que hoje tô cheio de desejo!
Saiu do banheiro, se aproximou da parede, ficando atrás da mesma para ver o que aconteceria.
— Chega Valdecir. Acabou! Eu quero me separar de você!
— Como é que é? — fez-se de desentendido.
— Você me ouviu bem... Vou pegar o Dani, arrumar minhas coisas e vou pra casa da minha irmã!
— Ah, mas você não vai mesmo, vadia! — correu em sua direção, com o punho cerrado para desferi-la um soco. No entanto, colocou a faca apontada para seu peito.
— Mais um passo e eu te mato! — afirmou com a mão trêmula.
O homem travou. Abaixou a guarda. Respirou fundo.
— Gi, nós podemos conversar... — passou a mão nos olhos. — Precisamos ficar juntos! Temos um filho pra criar...
— Você nem se importa com o Daniel! — cuspiu as palavras em meio ao choro. — Ele vivia perguntando por você, implorando sua atenção. Mas você só liga pros seus amigos! Pras suas amantes! Você não se importa mais com a gente já faz muito tempo.
— Pelo amor de Deus, Gi... Larga essa faca! — suplica. — Nós somos um casal, vamos conversar!
— NÃO EXISTE MAIS “NÓS”! — bradou. — Acabou!
Passou por ele, dando-lhe as costas. Contudo, foi surpreendida, quando a puxou pelos cabelos e lhe deu uma chave de braço, que começava a lhe tirar o ar.
Correu para ajudar sua mãe, implorando para que a soltasse. Todavia, havia cólera explícita em seus olhos. Não ouvia, nem enxergava mais nada.
Num momento de fraqueza, puxou a faca das mãos de sua esposa e cravou-a em sua barriga.
— MÃEEEEE!!! — correu na direção da mulher, mas foi empurrado pelo pai, que o lançou contra a parede.
Deitando o corpo da mulher no chão, esfaqueou-a mais seis vezes. Parou somente ao notar seu corpo gelado e sem cor.
— E-Eu não q-quis f-fazer isso! — gaguejou, tentando se justificar ao garoto, que só conseguia chorar, gritar.
Fugiu levando todo o dinheiro que tinha guardado. Nunca mais foi visto.
Iracema, sua tia, não permitiu que a história fosse divulgada na mídia. Cuidou dele até que completasse a maioridade.
— Até hoje ninguém sabe de nada disso. Nem Pâmela. — complementa, com os olhos molhados.
— Por que tá me contando tudo isso? — ergue as sobrancelhas.
— Acho que você merece entender por que me sinto tão culpado de tê-la agredido. Quero que saiba também, que nunca farei nada com você! — segura sua mão.
Acaricia seu rosto, secando algumas lágrimas que caem. Enreda-o e conforta-o.
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Thiago vai à cozinha, oferece a cadeira para Pâmela, que prontamente se assenta, apoiando os braços cruzados sobre a mesa, enquanto o observa.
— Gosta de café?
— Amo! — sorri.
Retribui o gesto pegando um bule, um coador e uma vasilha. Deposita cuidadosamente o pó, após pôr a água para ferver. Posteriormente, se senta de frente a ela.
— Enquanto esperamos, me diga o que aconteceu?
— Minha vida está uma droga. Não que já não fosse antes, mas agora tudo desmoronou! Perdi meu emprego, meu príncipe encantado é oficialmente um babaca, tenho uma doença quase incurável, não confio nas minhas amigas, meus pais estão endividados... Será que tem como piorar?
— Bom, se o Rodrigo estivesse aqui com certeza te mandaria calar a boca. — balança a cabeça. — Ele diz que cada vez que você pergunta se tem como piorar, a vida entende isso como um desafio e realmente piora. — gargalham.
— Gosto do Rodrigo. É uma figura! — expressa, colocando uma mecha atrás de sua orelha. — Você e ele são meus alívios. Mesmo que nos conheçamos há pouco tempo, tenho um carinho enorme por ambos. — exprime.
As palavras parecem faltar naquele momento. Finalmente entende que seu sentimento é recíproco, não há como lutar contra a volúpia que surge dentro de si cada vez que aqueles olhos esverdeados o miram.
O que experimenta ao vê-la é diferente do que sentia por Bruna. Tinham algo casto, puro. Ousa até dizer que a amou desde a primeira vez em que se viram. Porém, a ruiva à sua frente lhe desperta os desejos mais insanos, o instiga a pensar besteiras, a querer conhecer e provar seu corpo. Nutre uma paixão ardente, somada a uma atração intensa, que o faz ter sonhos quentes de vez em quando.
Sem raciocinar, aproxima-se da jovem, debruçando-se sobre a mesa, até que alcance seus lábios. Com uma das mãos por trás de sua nuca, puxa-a para mais perto.
Atreve-se a passar suas unhas por cima de seu peitoral desnudo, constatando que tem um físico enlouquecedor. Já reparara isso no dia em quem o viu lavar o carro e Elaine gritou o envergonhando. Entretanto, tê-lo assim tão próximo, tocando-a e beijando daquela maneira que só ele sabe, a atiça de forma estranha.
Ouvem o assovio do bule, avisando que a água já está pronta. Separam-se, tímidos. Levanta-se para passar o café, tentando não demonstrar o quanto se empolgara com aquele toque.
Virando-se para ela, serve-lhe a bebida. Puxa um assunto para quebrar o clima tenso que se formara:
— Certa vez estava ouvindo uma dessas rádios jovens da internet, não que eu seja velho... — brinca, arrancando-lhe um riso nasal. — Tinha uma música que dizia algo como “A vida inteira esperei uma resposta, é engraçado como tudo aconteceu... Minhas escolhas me trouxeram até aqui...”
— De alguma forma já sentia isso antes, então era pra acontecer... — continua no ritmo da canção. — Parabéns, Thiago! Você acaba de ganhar mais pontos comigo citando NX Zero! — parabeniza.
— NX quem? — faz uma careta.
Ela gargalha. Depois, dá o último gole, se alteando.
— Preciso ir pra casa descansar. Amanhã irei à delegacia prestar queixa contra o “você sabe quem”.
— Ainda está cedo. — segura a ponta de seus dedos. — Pode ficar mais um pouco.
— É melhor não... — desvencilha-se, deixando o copo na pia, avizinha-se de seu rosto. — Tenha uma boa noite! — beija-lhe a bochecha.
Já está quase cruzando a porta, quando o ouve chamar seu nome e correr atrás de si.
— Leve-me junto de você! — pede.
Assente com um sorriso. Atravessa a rua, abrindo a porta; sumindo de sua vista.

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