Inerzia

17 Ballando Solo


O sol atravessa a janela quando seu despertador toca como louco. Grunhe com um pouco de irritação, desliga-o; se senta, espreguiçando-se. Boceja algumas vezes até se levantar, enfim.

Na cozinha, prepara um café com leite, coloca-o no micro-ondas, enquanto passa requeijão em seu pão. Ainda usa sua camisola de seda cor-de-rosa, então, arrisca-se a olhar pela janela a fim de ver se o vizinho havia acordado. Nota as luzes da sala e cozinha acesas. Conclui que devia estar se preparando para ir com ela à delegacia.

Após fazer sua refeição, coloca um vestido branco com estampa florida, prende os cabelos em um rabo-de-cavalo no alto de sua cabeça. Passa um batom de tom perolado leve. Opta por nada mais que isso. Antes de ir à casa do homem, verifica se está apresentável àquele que mexe com seus sentimentos.

Saindo, pega os itens necessários, guarda-os em sua bolsa, ruma em direção ao vizinho. Porém, ao abrir a porta, o mesmo se preparava para tocar a campainha.

— Oi! — manifestam em uníssono, envergonhando-se em seguida.

— Bem, vim te buscar para irmos à delegacia! — aponta para seu carro.

— Ah, não precisava. Não quero incomodá-lo!

— Acho justo que eu vá. Acompanhei o caso de perto. — dá de ombros. — Venha, entre! — pega em seu pulso, guiando-a até o veículo.

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O atendimento foi demasiadamente rápido, pois o delegado reconheceu o funcionário. Diferentemente do outro dia em que a jovem precisou de sua ajuda, aparentava bom humor e simpatia. Ofereceu-lhes até mesmo café, água, balas. Estranhou isso a princípio, no entanto, ulteriormente entendeu que era uma forma de compensá-la por não ter feito nada referente ao seu outro problema.

O Boletim de Ocorrência fora registrado. Orientou-a que em breve seus pais, Rodrigo, Thiago e o próprio Daniel receberiam uma intimação para comparecerem na justiça. Com uma cópia da queixa em mãos, o advogado poderia abrir um processo contra seu ex-namorado assim que possível.

Respira aliviada, assim que saem do local. O ambiente lhe proporcionava um peso incômodo nos ombros. Thiago percebe, logo, tenta quebrar a tensão:

— Sabe... É um saco isso de ter que ficar aguardando o canalha ser chamado para prestar depoimento, né? Porque pode demorar muito para ele ser preso!

— O Rodrigo vai cuidar disso o mais rápido possível. Ele me prometeu! — refuta, olhando através da janela do carro. — Mas vamos falar de outra coisa... — pede, desconfortável.

Um silêncio paira no ar. O homem coloca o cinto de segurança.

— Preciso fazer umas compras pra minha casa. Tá a fim de ir comigo? — indaga-a.

— Uau, que passeio de adulto! — graceja. — Tudo bem, vamos! — esboça um sorriso, igualmente colocando seu cinto.

Balança a cabeça com a brincadeira da moça. Liga o automóvel e o rádio.

— Hoje vai escutar músicas de velho. Sinto muito! — anuncia. Dá de ombros.

Assim, a canção do Billy Idol, Dancing With Myself começa a tocar. Aumenta o volume no máximo; dá partida; joga seus cabelos de um lado para o outro. Olha-o apreensiva, assustada, enquanto dá seu show:

On the floors of Tokyo

Or down in London town to go, go

With the record selection

And the mirror's reflection

I'm dancing with myself

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Afinal, chegam ao shopping, onde há um supermercado no piso térreo. Estaciona. Desliga o som. A vê encará-lo ainda perplexa:

— O que foi? — questiona.

— Não sabia que dentre seus multi-talentos estava cantar e dançar. — galhofa.

Revira os olhos, tira seu cinto, abre a porta. Também sai, o seguindo.

— Pelo menos canto bem, né?

— Ah... — franze o cenho. — Já vi piores! — rebate, andando em sua frente.

Aperta os olhos, corre para alcançá-la.

— O que foi que disse? — fala simulando ultraje.

— O que ouviu, oras!

— Ah é? — leva as mãos ao topo de sua cabeça, bagunçando todo o seu cabelo.

— PARA! — grita em meio a risadas altas.

— Nada disso... — puxa o elástico que prende seu rabo-de-cavalo, desgrenhando também os fios soltos.

Ambos continuam andando, foliam, até que um segurança surge diante deles:

— Olá, gostaria de pedir por gentileza que falem mais baixo. A gritaria de vocês pode incomodar outros clientes.

Encaram-no sério, contudo, posteriormente,riem.

— Desculpa, moço! Desculpa de verdade! — Pâmela ajusta.

O homem alto mira-a sério.

— Se continuarem com essa baderna, terei de retirá-los daqui. — orienta.

— Ok. Ficaremos quietos. — Thiago fala, enquanto a puxa pela cintura e adentram ao mercado.

Passando pela porta automática, voltam a gargalhar.

“Se continuarem com a baderna, vou retirá-los daqui!” — a ruiva imita.

“Vou dizer que estão incomodando os clientes, pois odeio meu trabalho e não quero ver ninguém se divertindo!” — o vizinho engrossa a voz, estufa o peito e fica na ponta dos pés, a fim de parecer o segurança.

— Nossa, pegou pesado agora, hein! — balança a cabeça em negação.

— Pesado é o Faustão e o André Marques no mesmo palco!

— Mas eles emagreceram!

— Pra você ver a quanto tempo não assisto TV!

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O carrinho já está lotado de coisas, entretanto, o assunto rende:

— Como você consegue trabalhar só de segunda à sexta na polícia?

— É que sou da parte administrativa. Aquele dia em que você me viu fazendo os relatórios, foi porque o Renan havia faltado. — retorque, escolhendo uma melancia. — Acha que essa está boa para comer?

— A aparência está bonita! Mas me diga outra coisa... Se não gosta do seu trabalho, por que não sai?

— Ora, porque não vivo de vento! — explana como se fosse óbvio. — Todo mês chegam contas a pagar. Aliás, não ganho mal. Por isso moro naquela casa boa e tenho um bom carro. — reflete por alguns segundos. — Acha que seus pais gostam do trabalho deles?

— Eu sei que não gostam. Mal ficam perto de mim! — discorre com tristeza.

— Seja bem-vinda à vida adulta! — abre os braços, faz uma careta. — Ser adulto é fazer coisas que odiamos. — resume. — Sinto muito em acabar com seu sonho encantado!

— Isso não é justo. Por que não podemos realizar nossos sonhos? — cruza os braços, introspectiva.

— Porque meu sonho era tocar saxofone numa banda de rock nos Estados Unidos. Mas não sei tocar sax, o rock não tem esse tipo de instrumento e não tenho passaporte para lá. — clarifica, pegando uma maçã. — Quer parar de filosofar e me ajudar a escolher umas frutas?

Contrariada, o obedece; todavia, se mantém pensativa com o que acabara de ouvir.

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Depois de comprarem o necessário, almoçaram num self-service, tomaram uma casquinha, deram uma volta, conversavam, se conheceram. As horas nem pareciam que haviam corrido tanto, pois quando estavam na presença um do outro, era como se tivessem parado.

O pôr do sol já se fazia presente quando chegaram à casa do ex-policial. Solicitou-a que o ajudasse a guardar as compras. Aceitou de bom grado. Sentia prazer em estar ao lado dele. Não queria ficar sozinha.

Depois de organizarem tudo, sentam-se no sofá, exaustos.

— O que podemos fazer agora? — encara-o.

— Já sei! — replica entusiasmado. — Já volto! — sai, deixando-a curiosa.

Quando retorna, coloca uma caixa sobre a mesa de centro.

— Isso aqui se chama dominó. Um jogo muito comum entre caras da minha idade.

— Ah, me poupe! Sei o que é dominó! — revida. — E não é coisa de caras da sua idade. Não é tão velho assim!

— Obrigado pelo elogio! Eu acho... — faz uma expressão confusa. — Já sabe as regras?

— Claro que sei! Coloca essa porra aí logo! — bate na mesa de vidro com força.

— Se bater assim novamente e quebrar, eu é quem vou parar na delegacia por bater em você! — ameaça brincalhão.

— Para quebrar isso aqui, só se eu for a Mulher-Hulk! — levanta as mãos em rendição.

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Jogavam sua terceira partida, a fim de desempatarem as outras duas quando a campainha soa. Assustam-se, porém, o anfitrião vai à porta verificar quem o visitava.

— E aí parça! — a voz de Rodrigo ecoa pelo local.

— E aí, meu querido! — abraça-o.

Como de costume, invade.

— Trouxe pizza, refrigerante e... — para ao ver a ruiva sentada no tapete da sala. — Oh, desculpe! Não sabia que estava atrapalhando. — seu semblante exibe constrangimento.

— Rodrigo! — manifesta, correndo em sua direção. — Não está atrapalhando em nada. Pelo contrário, chegou na hora certa! — pega em seu braço. — Venha, vamos jogar dominó!

Aquela atitude dela, causa uma pontada de ciúmes no vizinho. Contudo, disfarça como pode, se sentando junto deles para voltar ao jogo.

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O relógio marca 00h37min quando comem a comida gelada, contam piadas, gargalham alto.

— Pâmela, você é muito linda... Mas pra contar piadas é horrível! — Rodrigo manifesta rindo.

— Se sou tão ruim, por que estão rindo? — fala com a boca cheia.

— Porque de tão sem graça, sua piada foi engraçada! — retorque.

— Eu te odeio, sabia!? — joga uma almofada nele, que a pega no ar e joga no amigo.

— Ei! — exprime, fingindo irritação.

— Preciso ir. Amanhã vou cedo à casa de uma cliente que quase não ouve, nem enxerga, mas querem expulsá-la de seu imóvel. — o advogado se levanta. — Despeçam-se de mim, porque sei o quanto me amam.

— Adeus, caralho! — Pâmela zomba.

— Então é assim? — coloca as mãos no peito, fingindo estar ofendido.

— Vou trancar a porta depois que sair!

— Um policial com medo dos bandidos. Uau! — o amigo galhofa.

— Nem sou mais policial! — dá dois tapas no ombro dele. — Vamos!

Despede-se da jovem e se vai.

A garota segura um pedaço da pizza nas mãos, quando Thiago se senta ao dela.

— Só sobrou esse pedaço. Quer dividir?

— Claro! Vou pegar uma faca... — segura seu braço.

— Pra que faca? Cada um morde metade e come. Tipo “A Dama e o Vagabundo”.

Olha-a incrédulo quando percebe que aquilo é uma tática sua para fazê-lo beijá-la. Assente. Mordendo metade do seu pedaço, seus lábios raspam nos dela. Após mastigarem, a puxa para um beijo que começa calmo, sereno. Depois de alguns minutos, se intensifica. A traz para mais perto de si, a fim de sentir seus corpos colados.

Vagarosamente, deita-a sobre o carpete, alisando seu corpo. Sente-se ferver, portanto para o beijo, arranca sua camisa, permitindo-a acariciar sua barriga. Volta a beijá-la, enquanto se empolga cada vez mais. Aperta sua cintura com força, morde levemente seu pescoço.

Gosta do que a provoca, contudo, se lembra de quando Daniel fazia o mesmo. Todas as vezes que chegavam a tal ponto, o interrompia, por não se sentir preparada. Com ele não seria diferente.

Para-o, afasta-se.

— Desculpe. Nunca fiz isso. Não estou pronta ainda!

Sem graça, coça a cabeça.

— Perdão, eu...

— Vou pra minha casa! — coloca-se de pé, ajeitando a roupa e os cabelos. — Meus pais devem estar preocupados...

— Espera! — já em pé, pega seu celular. — Acabei de lembrar que ainda não tenho seu número...

Ela ri, o anotando no aparelho.

— Aqui está!

— Até amanhã, Pam!

— Até breve... — beija sua bochecha.

Decide que não alimentaria sua esperança de se relacionarem, porque não se sente segura.

Rumando para sua casa, sente algo estranho, todavia ignora.

Por trás de um dos muros, um homem de baixa estatura e cabelos negros a observa sair da casa do ex-policial. Imediatamente faz uma ligação:

— Chefe... Alvo avistado!