Indigna Rosa Negra
14 Uma Rosa e Dois Castelos
Notas iniciais

I'm the ghost of a girl
That I want to be most
I'm the shell of a girl
That I used to know well
Dancing slowly in an empty room
Can the lonely take the place of you?
1987, Galdhøpiggen.
Frio.
Ninguém tinha lhe advertido sobre o frio paralisante que enregelaria seus ossos no minuto em que pisasse fora do navio. Aturdida com a violência com que foi assaltada por ele, Bervely parou de andar, fazendo com que muitos dos colegas atrás de si praguejassem por terem o seu caminho interrompido. Ao seu lado, Hector riu.
– Aqui. Com o tempo você se acostuma. – ele jogou sua pesada capa de pele sobre os ombros dela, parando para fechar os botões da frente, sem se importar de estarem atrapalhando o fluxo. – Pronto. Preparada?
Ela pensou em resmungar que se sentia estúpida com a capa enorme arrastando no chão, mas desistiu. Hector devia estar com frio agora, era bom que se apressassem. O caminho entre o ancoradouro e o que ela presumia que fosse o instituto era dividido por uma interminável ponte de pedra. Tinha tentado dar uma olhada lá embaixo, mas a altura lhe deu vertigens, antes que tivesse o vislumbre de uma imensidão cinza. Para a frente, tudo era névoa densa, a ponte e os alunos andando apressados, querendo fugir do frio.
Mas alguns passos adiante, ela o avistou. Slottet Kongen. O castelo rei.
– Eu sei, parece mal assombrado – Hector riu, diminuindo o passo para que pudessem vislumbrá-lo por um segundo.
– Parece frio – ela lamentou, a voz rouca, se arrependendo imediatamente de falar ao engolir um monte de névoa gelada. Como podia estar tão frio se ainda era verão fugia completamente da sua compreensão.
– Em alguns meses vai se sentir em casa.
Ela assentiu corajosamente, e o seguiu. Estou com Hector, lembrou para si mesma. Não importa como for, vai ser incrível.
– BD –
Era frio, e também era um tanto rústico, e às vezes escuro, apesar de todas as velas flutuantes, de todos os archotes. Mas haviam outras coisas; brasões de família, armaduras e tapeçarias, e animais empalhados, e pele, muita pele cinzenta e macia sobre todas as superfícies do grande salão de recepção no qual os primeiranistas se acumulavam. Precisou se despedir de Hector, que ia para a mesa dos veteranos, e estar sozinha lhe lembrou de tudo que esperavam dela naquele lugar novo.
Se sentiu vulnerável, de repente, e pequena, no meio das outras crianças. Será que seu cabelo estava mudando de cor? Apalpou as pontas com nervosismo, impedindo que se enrolassem, como acontecia quando ela ficava nervosa.
– Boa noite, meus meninos e minhas meninas, sejam muito bem vindos ao Instituto Durmstrang.
A voz era rouca e arranhada, e o dono dela, alto e magro, com uma barbicha longa e um cabelo igualmente longo num rabo de cavalo baixo. Usava vestes cor de mogno, uma pele branca volumosa jogada sobre o ombro, e um fez sobre a cabeça. Seu nariz lembrava o bico de uma águia.
– Eu sou seu diretor, Igor Karkaroff. Evidentemente sei quem vocês são — cada um de vocês — tendo eu os escolhido a dedo para terem a honra de estudar neste Instituto. – ele olhou para as duas dezenas de caras ansiosas, tomando seu tempo. Quando os olhos estreitos pousaram nela, Bevy se segurou para não recuar– Essa é uma noite especial – ele continuou – pois estarão recebendo as boas vindas de seus colegas mais velhos, e tendo seus parceiros mágicos escolhidos.
Um murmúrio indefinido ondulou entre eles. Pelo jeito, não era só ela que não sabia do que o diretor estava falando.
– Sim, parceiros mágicos. Aquele bruxo ou bruxa com quem dividirão a maior parte do seu tempo neste instituto, nos anos que virão. Com quem praticarão magia, dividirão experiências e incrementarão suas habilidades. Vocês devem saber que serão mutuamente responsáveis pela aprendizagem mágica do seu parceiro, uma vez que parte da avaliação será feita levando-se em conta o desempenho da dupla, como um todo. O melhor desempenho do ano será premiado, e o pior desempenho corre o risco de não ser aceito para um novo ano no Instituto Durmstrang.
O murmúrio dessa vez foi ansioso e preocupado. Bervely se perguntou porque entre todas as coisas que Hector tinha lhe contato sobre a escola, esse ponto especial ficara de fora. Estava nervosa sobre ser responsável pela magia de alguém, ou pior, alguém ser responsável pelo seu aprendizado em magia. Apalpou as pontas do cabelo de novo, mas abaixou as mãos quando achou que o olhar do diretor veio em sua direção novamente.
– Há uma cerimônia especial de pareamento aguardando pelos senhores no Salão de Comunhão, por favor se dirijam à frente e sentem-se na mesa circular do interior.
Ela, bem como o resto dos primeiranistas, obedeceram o aceno dele e entraram no salão contíguo àquele. Era hexagonal, com um teto alto cheio de vigas cruzadas no topo. Embaixo havia uma grande mesa circular com o centro vazado, como um “o” gigante, e nele estavam sentados os estudantes mais velhos, já em suas fardas e perto de seus conhecidos, ou dos seus pares mágicos, era impossível dizer.
No centro havia outra mesa circular, menor, e como orientados eles se sentaram ali, nos exatos vinte lugares. Na frente de cada um haviam três taças de cristal, de alturas diferentes, e no centro da mesa, uma bacia rasa vazia. Igor Karkaroff sentou-se em um local da mesa onde estavam também outros professores (nervosa como estava, não conseguia prestar atenção em seus rostos e tentar reconhecê-los das descrições de Hector), e um deles se levantou. Era uma mulher muito alta e sinuosa, e o largo sorriso em seu rosto era empolgação.
– E essa é a minha parte favorita – ela exclamou, se aproximando, esfregando as mãos. Bevy reparou que a pele ali era retorcida, como se tivesse sido queimada muitas vezes. – Eu sou Miranda Pepper, uma de suas futuras professoras, e vou ser breve nas explicações, pois importa mais o resultado do maravilhoso sistema que eu desenvolvi para encontrar sua alma gêmea em magia. – ela fez uma pausa, talvez esperando elogios, mas ninguém disse nada. – Muito bem. Para encontrar a pessoa especial, a melhor chance de se saírem bem em sua educação mágica, aquele que vai lhe proporcionar seja uma convivência tranquila e harmoniosa, ou tempestuosa e desafiadora – completou, com um meneio apologético – enfim, para isso é preciso saber mais sobre cada um de vocês. Sonhos, desejos, medos…
Bevy levantou suas sobrancelhas, preocupada. Ia ter que contar seus medos naquela mesa? Ela procurou Hector na mesma maior atrás deles, tentando tirar dele um olhar divertido que provasse que aquilo era uma brincadeira de mal gosto, uma pegadinha para os novatos, mas não o encontrou e teve de virar de volta rápido para a próxima instrução.
– Dessa forma, por favor, peguem as suas varinhas.
Um farfalhar de vestes preencheu o salão por um momento enquanto eles obedeciam. Ela assentiu em aprovação quando todos as tinham à mão, com diferentes graus de confiança em seus rostos.
– Muito bem, essa é a parte simples. Quando eu pedir, vocês vão dizer Memento Extractus com a varinha apontada para a sua têmpora, se concentrando bastante no pensamento que querem tirar. Assim – ela demonstrou com a sua varinha, e um fio prateado foi saindo de sua cabeça como uma cobra de fumaça. A bruxa puxou a coisa até o fim e depositou numa taça. – Não se preocupem se nunca fizeram antes, vai funcionar para qualquer puro-sangue que tentar de primeira.
Isso não deixou Bevy mais tranquila, nem um pouco.
– Agora, peguem a sua taça mais baixa e, por favor, depositem nela a sua memória mais feliz.
Essa era fácil, ela pensou. Sua memória mais feliz era a de quando recebeu a sua carta de Durmstrang, pouco mais de um mês antes. Estava fresca, e foi mesmo fácil puxá-la. Sentiu um formigamento na cabeça, e logo tinha a memória odulando no fundo da taça mais baixa.
A bruxa alta pediu outras duas memórias, para a taça média e alta. A segunda foi o seu maior medo, e depois de pensar um pouco, ela depositou na taça aquele dia em que os aurores tinham chegado em Blackburn Hall e ela e Charlotte se esconderam na estufa para não serem capturadas.
Depois precisou depositar o seu maior desejo. E havia muitas coisas que queria, mas quanto mais tentava decidir, mais uma memória insistia em se sobressair sobre as outras. Era o dia em que vira o cão no Beco Diagonal, o dia em que o Homem do Cachorro tinha sido seu amigo.
– Não pensem demais, queridos. A primeira coisa que vier à mente serve.
Mesmo que o pensamento não fosse exatamente um desejo, ela o puxou e o depositou na taça mais alta. Diferente dos outros, esse era brilhante e se movia rápido no fundo de cristal, como um mar agitado.
– Muito bem, perfeito, perfeito. – a bruxa se moveu entre eles, verificando os trabalhos deles, e corrigindo um ou outro. Quando passou por ela, assentiu com um sorriso e deu tapinhas em seu ombro. – Ótimo trabalho. Depositem as suas lembranças na bacia de pedra, e vamos ver o que acontece.
Eles se apressaram a cumprir esse passo. A cada novo fio de fumaça acrescentado na mistura, ela se movia mais rápido, e produzia cores e padrões diferentes. No fim, parecia uma galáxia, pontos brilhantes e nuvens coloridas, espirais e redemoinhos etéreos hipnóticos.
– Bom. – assentiu a mulher para a bacia, parecendo satisfeita – agora, aguardamos.
– BD –
1991, Hogwarts.
– Você só tem que pôr o chapéu, Srta. Black.
Pensando que tinha ouvido errado, Bervely fez uma cara que sabia que era um pouco deselegante, mas não pode evitar. O diretor da escola de magia e bruxaria de Hogwarts, Alvo Dumbledore, a Lenda, lhe estendia um chapéu velho e esfarrapado. Se ele pensava que ela ia colocar aquilo na cabeça, estava louco.
– Desculpe?
– Você põe o chapéu – explicou Sung com seu sotaque muito pesado, mas com toda a calma, como se fosse ela quem falasse outra língua – E ele lhe diz em que casa vai ficar.
Relutante, ela aceitou a peça de museu, que era só a cereja do bolo da sua chegada na escola de magia e bruxaria de Hogwarts. Ela tivera de enfrentar uma carruagem sem cavalos, um poltergeist e escadas se movendo, isso tudo apenas no caminho da estação de trem até o escritório do diretor. Sung era um dos monitores-chefe do colégio, e fora lhe buscar na estação para que pegasse a primeira carruagem e chegasse e fosse selecionada antes dos primeiranistas.
E isso tudo para experimentar um chapéu fedido, honestamente… Sem opção, o colocou na cabeça. A peça de vestuário imediatamente criou vida e começou a falar dentro de sua mente, experiência nada agradável.
“O que temos aqui, uma cabecinha bem movimentada… certezas e dúvidas, certezas e dúvidas… força e medo… mais força ou mais medo?”
Ela ficou grata em perceber que era a única a ouvir as divagações do chapéu velho, apesar de o diretor e o monitor a assistirem curiosamente.
“Um monte de potencial pronto para ser explorado, e toda essa disciplina… A Corvinal lhe levaria longe, menina.”
Bevy sentiu um arrepio incômodo em seu estômago. Não tinha caído na histeria das casas como Draco, mas a ideia de ir para outra que não a de Bellatrix e dos seus antepassados lhe pareceu terrivelmente errada. A rosa ardeu em seu pulso, tão inesperadamente que ela o apertou com a outra mão, soltando uma exclamação.
Não ouse não me colocar na Sonserina, seu chapéu maluco, pensou ferozmente, travando os dentes.
“Uma cabeça que não é só sua, um coração partido, uma alma agonizando em dúvida, um corpo mutante… Se essa é a certeza que me traz, essa sendo a única que tem, eu certamente não ousarei.”
– Sonserina!
Enquanto ela soltou o ar que estivera prendendo, Wu Sung fez um gesto contido de vitória e abriu um sorriso. O diretor puxou o chapéu da cabeça dela e o entregou ao garoto.
– Seja bem vinda à Hogwarts, Srta. Black, lhe desejo uma boa estadia em sua casa. O monitor vai lhe indicar o caminho até a sua mesa no Salão Principal, que coincidentemente também é a dele, e Sung, por favor entregue o chapéu à prof. McGonnagal em seu caminho.
– Sim, professor.
– Ah, Srta. Black? Um último detalhe.
O diretor sacou a sua varinha e com um aceno, coloriu o seu cachecol preto com listas verde e pratas, e o brasão estampado na veste escolar se tornou das mesmas cores, ganhando a serpente símbolo da Sonserina.
Ele lhe deu uma piscadela – era um homem mais simpático do que o diretor de Durmstrang, Karkaroff, tanto que tendia a parecer meio bobo. No caminho, Sung a guiou eficientemente pelo enorme castelo, corredores longos que pareciam todos iguais. Ela sabia que sem ajuda nunca chegaria ao Salão Principal, e se perguntou se haveria uma mapa do castelo para novatos.
Não, nada de mapas, ia parecer estúpida com um em meio aos outros colegas veteranos.
– Você está bem? – o monitor-chefe perguntou em tom de conversa. Ele era bem mais alto que ela, meio ossudo, principalmente nas bochechas, com um queixo quadrado e olhos afastados e puxados. Uma vez que você se acostumava à essas feições incomuns, era quase atraente. Ela assentiu para a pergunta, sem querer entrar em detalhes. Tudo que poderia pensar em falar era “esse castelo parece interminável”, o que não era muito impressionante.
– Pode ser muita coisa de uma vez só, mas não se preocupe, vai pegar o jeito. Ano passado tivemos uma outra aluna transferida de Durmstrang, mas ela se adaptou bem. Tão bem que esse ano até recebeu o distintivo de monitora, pelo que eu soube.
Bervely duvidava que fosse condecorada com algo do tipo num futuro próximo, principalmente porque não estava muito confiante em seu conhecimento mágico, tendo perdido metade do conteúdo do ano anterior enquanto estivera no hospital. Eles chegaram a uma grande passagem em arco, e depois dela havia muito barulho, um indício de que atingiam o destino. Sung apontou para a mesa longa no canto oposto do salão.
– Pode se sentar ali, eu vou procurar a Prof. McGonnagal e devolver o chapéu para a seleção dos primeiranistas, te encontro quando eu voltar.
Ela agradeceu e cruzou o salão, felizmente se misturando com os outros estudantes que ainda chegavam e se acomodavam em suas respectivas mesas. Escolheu o canto mais vazio e sentou, observando o salão, desejando ter um par de olhos extras para captar tudo. As milhares de velas flutuantes, as tapeçarias ricamente bordadas com os brasões das casas, a plataforma onde estavam sentados os professores, e por último, mas não menos incrível, o teto encantado para parecer o céu estrelado do lado de fora. Olhou para ele até o pescoço doer, e quando abaixou a cabeça, as portas duplas gigantescas estavam se abrindo mais uma vez, e por ela entrava uma bruxa alta e elegante num coque apertado, e um monte de crianças tropeçando nos próprios pés.
Eles eram um grupo grande, quase o triplo do que Durmstrang aceitava todo ano. Porque eles aceitam qualquer um aqui, lembrou, analisando as caras dos pequenos. Alguns tinham a boca tão aberta que pareciam estar vendo magia pela primeira vez.
– Qual deles será Harry Potter? Ouvi dizer que ele estava no vagão. – alguém comentou ao seu lado, para ninguém em particular. Ele não era o único, ela percebeu, outras pessoas também observava o grupo com interesse. Mas tudo que ela pode reconhecer foi a cabeça loira de Draco, e ele parecia ligeiramente aborrecido. A expressão foi lavada de seu rosto quando ele avistou o céu encantado.
A professora colocou o chapéu velho num banquinho de três pernas, e este começou a cantar uma música sobre a origem das casas, cuja composição parecia ter surgido da cabeça de alguém como Alvo Dumbledore. Mesmo assim, o salão inteiro aplaudiu efusivamente ao seu fim.
– Aposto que você não queria ter ido sentar no banquinho lá na frente hoje, hein? – uma voz divertida falou ao seu lado, e ela reparou que Sung tinha voltado. Ela lhe deu um sorriso forçado, voltando a atenção para bruxa lá na frente.
– Quando eu chamar seus nomes, vocês porão chapéu e se sentarão no banquinho para a seleção. Ana Abbott!
Pouco a pouco, as crianças foram sendo chamadas, iam até o banco com níveis variados de nervosismo e experimentavam o chapéu. Aplaudiu junto aos colegas os novos sonserinos que chegavam orgulhosos à mesa, e sentiu um pequeno comichão no estômago quando Draco foi solicitado.
Ele se sentou muito dignamente no banquinho, e mal o chapéu tocou sua cabeça, gritou “Sonserina!”. Enquanto ele gingava para a mesa, todo satisfeito, e se sentava entre dois colegas do seu ano, ela se sentiu levemente incomodada por ele ter recebido um veredicto fácil, enquanto ela precisara ameaçar o chapéu para lhe colocar ali.
– Harry Potter!
O burburinho cresceu em intensidade, e todo mundo se esticou para ver a lenda. Ela própria, acompanhou com um leve desinteresse o menino magricela e desajeitado fazer seu caminho para o chapéu. Se muito, ele parecia assustado e desconfortável, e não alguém que tivesse vencido o Lord das Trevas.
– Grifinória!
A mesa explodiu em aplausos, como se eles tivessem ganhado alguma espécie de prêmio. Depois disso houve um Weasley, que se parecia mesmo com a descrição que seu tio costumava fazer deles, e quando ele – sem surpresa – foi classificado na mesma casa de Potter, sua família ruiva gritou e assobiou num espetáculo lamentável de falta de modos.
O restante do jantar trouxe surpresas que variaram do interessante (como a fartura estonteante de comida que surgiu nas travessas) ao ridículo (o que era aquele hino da escola, pela graça de Merlin?), mas ela comeu só um pouco enquanto tentava desvendar aquela sensação incomoda no topo do seu estômago.
Percebeu que se sentia absurdamente só. Na ponta oposta da mesa, Draco arranjara amigos (dois grandalhões com caras lesadas, mas ainda assim) e gesticulava amplamente para eles, provavelmente discutindo quadribol, se ela interpretou bem os seus gestos. Ele não olhou para o seu lado nem uma vez, e era estranho precisar admitir, mas parecia que estaria por si mesma a partir de agora.
– BD –
– Dizem que é outra de Durmstrang…
– Mas que droga é essa, eles estão falindo? Não somos o depósito dos renegados deles!
– Shiu! Ela pegou a cama antiga de Holmes.
– Ela é uma Black.
– Eu pensei que eles não tinham herdeiros nessa geração…
Bervely encarava o teto de sua cama em seu novo dormitório, ouvindo os cochichos das três colegas de quarto, e se decidindo qual o melhor momento para saltar da cama e revelar que estivera lhes ouvindo. Esperava, no mínimo, que ficassem sem graça por serem pegas cochichando a seu respeito.
– Vocês são umas ridículas, honestamente. A garota deve estar inibida. – O dossel de sua cama foi bruscamente aberto, lhe fazendo quase dar um pulo. A garota que fizera isso pigarreou e lhe estendeu a mão, que era muito branca. Seu cabelo também era quase branco.– Eu sou Oltman. Pacey Oltman. E essas são Rockwood e Grengrass. Não precisa se esconder da gente.
– Eu não estava me escondendo – disse, aborrecida, ignorando a mão estendida. – Estava dando uma chance para vocês se constrangerem com a sua própria indiscrição.
– Eu já gosto dela – a garota Rockwood, que era da cor de chocolate meio amargo e tinha uma voz baixa e firme, aprovou com a cabeça. – Seja bem vinda, Black.
– Que seja – Greengrass rolos os olhos. Pela sua voz, fora era a sugerir que Durmstrang estava falindo. Tinha o rosto fino, o cabelo loiro espigado e um nariz pontudo, e a atitude de quem não era contradita frequentemente – Quero ver só a cara de Holmes quando descobrir que tem uma forasteira em sua cama.
– Não é mais a cama de Holmes, Olga. – disse Oltman com um suspiro apologético – não desde que ela desertou. Holmes era nossa antiga colega de quarto – explicou, voltando-se para Bervely – mas ganhou um broche de monitora, seus próprios aposentos, e agora acha que faz parte da realeza.
– Ela é da realeza – corrigiu Greengrass. Sua voz era definitivamente irritante – Uma vez ela me contou que se não tivesse ido embora da sua terra, ia ser coroada princesa.
Rockwood girou os olhos, lançando um olhar de “dá pra acreditar” para Bervely, que retribuiu com um erguer cético de suas sobrancelhas.
– Black, nos te convidaríamos para tomar café conosco, mas parece que você precisa ir ver McGonnagal. – a garota Oltman lhe estendeu uma carta – Deve ser sobre as suas equivalência, já que você foi transferida.
O estômago dela deu uma volta completa, enquanto aceitou a nota da vice-diretora para encontrá-la o quanto antes em sua sala. Estivera receosa sobre esse momento, e se eles pensassem como Durmstrang, e a fizessem começar o quarto ano do zero? Isso significava um ano extra de escola, naquela escola complicada.
Garantindo que podia encontrar o caminho até McGonnagal sozinha, deixou as meninas irem na frente e colocou todo o uniforme, se batendo um pouco com a gravata. Não tinha gravata no uniforme de Durmstrang, e ela não fazia ideia de como dar um nó, manual ou magicamente. Fora mesmo uma ideia estúpida desfazer o laço na noite anterior, antes de se lançar na única cama desocupada e morrer para o mundo.
– Eu quase enviei uma patrulha a sua procura, Sra. Black – disse McGonnagal quando ela entrou, mais de vinte minutos atrasada, em sua sala no sexto andar. Não pode descobrir se a bruxa estava lhe dando uma reprimenda ou tentando produzir ironia, pois suas expressão era uma linha dura. – Por favor sente-se. Como deve imaginar, casos de transferência como os seus são muito delicados, portanto eu e o restante do quadro de professores analisamos cada uma das suas habilidades com extrema cautela.
Bevy assentiu, tomando a cadeira em frente a mesa da bruxa e a observando pegar uma pasta verde e tirar lá de dentro algumas folhas de pergaminho abertas.
– Tenho aqui as observações dos professores quanto às matérias que está habilitada a acompanhar este ano. A maioria deles parece concordar que, com um pouco de esforço, pode seguir o conteúdo do quinto ano sem problemas – com essa afirmação, ela sentiu um pouco do peso se desfazer de seu peito – Feitiços, História da Magia, Astronomia, Defesa Contra as Artes das Trevas, Herbologia, Trato das Criaturas Mágicas, Adivinhação e Estudo dos Trouxas estão dispostos a lhe aceitar na turma de quintanistas. As três últimas são optativas, portanto cabe a você decidir por elas.
Ela assentiu, mesmo sabendo que nunca ia se matricular em Estudo dos Trouxas, nem se em troca tivesse que usar o Chapéu Seletor em sua cabeça o ano todo. Adivinhação soava como uma piada de mal gosto, mas talvez Trato das Criaturas fosse interessante.
– Infelizmente, para duas disciplinas obrigatórias em seu currículo, o seu histórico demonstra conhecimentos incompatíveis com os do quinto ano. Uma delas é a que eu mesma ministro, Transfiguração.
– Mas eu fiz Transfiguração em Durmstrang. – se defendeu, automaticamente.
– Sim, e de acordo com seus documentos, se recusou a cursar o quarto nível, ficando com o seu ensino prejudicado. Esses conhecimentos são necessários para a minha turma de quintanistas, e receio que não haverá tempo hábil para que eu lhe auxilie a chegar ao mesmo nível do resto dos outros.
– E qual a minha outra opção? Ficar um ano a mais em Hogwarts só para terminar Transfiguração? – sugeriu, irônica. McGonnagal ergueu uma sobrancelha fina e arqueada, claramente desaprovando o seu tom.
– Eu acredito em segundas chances e trabalho duro, Srta. Black. Se estiver disposta a aceitar ter aulas de reforço com uma auxiliar que eu mesma designarei, e eu ver que até os exames do meio termo você está mostrando melhoras, posso pensar em mantê-la na turma do quinto ano.
Ela fez uma careta, a ideia de aulas extras de Transfiguração parecia terrível. Mas então, um ano extra na escola não era muito melhor.
– Tudo bem – resmungou de má vontade.
– O outro docente que não a aceitou em sua turma quintanista foi o Prof. Snape, de Poções, eu receio.
Isso quase a fez saltar da cadeira, ai já era demais.
– Eu tive Excede Expectativas em todos os anos em Durmstrang, eu até mesmo ia fazer meus N.O.M.S. semestre passado, apesar de só estar no quarto ano! Oh, por favor, isso é ridículo.
– Eu acredito que o único a julgar a ridicularidade ou não da situação é o próprio professor Snape que, devo lembrá-la, também é o diretor da sua casa – disse a bruxa, severamente. – Eu não ousaria querer tirar esse mérito dele, se eu fosse você. Pois bem, como eu ia dizendo – McGonnagal deu uma outra olhada nos papeis em sua frente, como que para confirmar um ponto – o Prof. Snape decidiu que ele mesmo quer avaliar as suas habilidades em poções antes de alocá-la em uma turma. Ele quer julgar se o ensino dessa disciplina em Durmstrang tem o mesmo rigor que aquela ministrada aqui.
Ela soprou com incredulidade. Até parece que qualquer aula ali ia ser mais rigorosa que no Instituto de Igor Karkaroff — mas não disse isso em voz alta, pois a professora já parecia bastante irritada.
– Muito bem, esses são os horários das suas aulas para essa semana, você vai comparecer à turma do quinto ano de poções por hora, enquanto o professor realiza a sua avaliação. – Bervely observou o papel que tinha recebido. Ela tinha Feitiços no primeiro horário, História da Magia, e a última aula era Herbologia. Só tinha Poções na quinta, e Transfiguração terça e sexta, para o que fez uma careta. – E Sra. Black?
– Hum? – ela ainda estava com os olhos no horário, olhando o nome dos professores.
– Eu não mencionaria levianamente o nome de sua mãe ou do seu pai, para os seus colegas, a fim de evitar qualquer situação desconfortável que possa surgir. É apenas uma sugestão… nem todos sabem separar bem até onde vai o legado dos pais, no que se refere aos seus filhos.
Ela empalideceu sob o olhar condescendente da bruxa.
– Claro. – concordou, ligeiramente rouca. – Certo.
– Se não há nada mais, a senhorita está dispensada. Se correr ainda pode pegar o café da manhã, eu penso.
Assentiu, se levantando, e quando o fez, arriscou uma olhada para a sua ficha em cima da mesa. Isso aconteceu ao mesmo tempo que McGonnagal puxou os pergaminhos, mas ainda assim ela teve um vislumbre do que estava escrito perto da palavra “pai”, e o nome que leu, isso rapidamente lhe causou um choque de surpresa.
– BD –
Quando a quinta feira chegou, seu espanto inicial com o que avistara na ficha já tinha se transformado em uma variedade de estados emocionais, agora se estabilizando em uma espécie de náusea persistente na base do estômago, roubando todo o seu apetite.
As aulas – com excessão de Transfiguração – tinham ocorrido relativamente bem aquela semana. Como era de se esperar, morrera de tédio em História da Magia (o professor fantasma era, com o perdão do trocadilho, mortalmente entediante), achara a aula de Defesa Contra as Artes das Trevas patética (com um professor que além de claramente não saber do que estava falando, tinha um terrível senso de moda), se divertira em Trato das Criaturas Mágicas com a competente professora Grubbly-Prank, ficara levemente enfadada em Feitiços, que era como Duelos em Durmstrang, mas com muito menos ação e sendo ensinado por um anão desajeitado, e quase enlouquecera em Astronomia, que era terrivelmente difícil, mas muito interessante.
Transfiguração fora tão sofrível que ela quis se esconder do resto da turma. Enquanto todo mundo conseguiu transformar com sucesso suas mesas escolares em montes de feno, tudo o que ela fez foi deixar a sua ligeiramente espigada. No final da aula a professora lhe chamou num canto e lhe informou que a sua aula de reforço seria com uma aluna do sexto ano que era uma verdadeira revelação em Transfiguração, e se ela não pudesse lhe salvar da humilhação de reprovar na matéria, ninguém mais poderia.
Mas, a espera mais ansiosa fora por quinta feira, pela aula de Severus Snape. Repetia o nome constantemente em sua cabeça, porque estava com raiva dele. Especialmente por ousar insinuar que não tinha conhecimento suficiente em sua matéria, mas não só por isso. Será que ele fizera de propósito? Será que ele ao menos sabia?
– Página vinte e sete do seu livro-texto, Liquor do Livramento, as instruções estão no quadro. Não façam perguntas estúpidas, não façam coisas estúpidas, e definitivamente não me entreguem poções estúpidas, se não for pedir demais dos senhores a esta altura.
Ela assistiu o professor entrar falando essas palavras de modo brusco, sua voz, um tom grave e profundo que reverberava pela masmorra inteira, colocando os seus colegas em um movimento rápido. Ao invés de seguir o exemplo, Bervely o observou com atenção, enquanto ele colocava instruções no quadro com movimentos fluidos de sua varinha.
Severus Snape era o tipo de pessoa que faria você atravessar a rua, se o visse vindo em sua direção numa noite escura. Ele andava de forma impetuosa, usava vestes negras fechadas até o pescoço, e parecia guardar um terrível segredo, e a capacidade de torturar lentamente aquele que ousasse tentar descobrí-lo. Parte disso era reforçado por sua voz de barítono, mas também por suas feições. Eram duras, um longo e adunco nariz, cabelo preto oleoso em torno do rosto, olhos fundos, pequenos e julgadores.
– Aqui, peguei uns ingredientes para você – disse Rockwood, a menina negra do seu dormitório, se sentando ao seu lado e despejando itens variados na mesa. Ela seguiu até onde ia o olhar de Bervely e pensou compreender sua expressão – não precisa se preocupar. Ele parece terrível, mas é menos pior com a sua própria casa.
Ela assentiu, se forçando a parar de olhar para o mestre, e folheou Contravenenos Asiáticos até a página certa. Nunca tinha ouvido falar da poção, mas isso não significava qualquer problema para ela. Felizmente, contravenenos eram uma de suas especialidades, e percebeu que poderia fazer aquele de olhos fechados.
Habilmente, começou a separar os ingredientes na ordem de utilização, analisando perto dos olhos, e imediatamente desaprovando, a farpa-oca púrpura que a colega havia trazido do armário de ingredientes.
– Não está fresca. Vai reagir com qualquer componente metálico do caldeirão e interferir no sabor final.
Rockwood piscou como se não decifrasse de que raios ela estava falando, e com um suspiro de resignação, Bevy levantou e foi pessoalmente trocar o componente. A primeira regra de um bom pocionista era saber escolher os seus ingredientes bem, pois cada um deles precisava estar perfeito, em ordem de conseguir um resultado satisfatório. Todo mundo sabia disso, certo?
– Você é a aluna transferida de Durmstrang, eu presumo.
Todos os pelos de seu pescoço se arrepiaram quando a voz do Prof. Snape soou em algum ponto próximo de suas costas. Com o susto, ela quase deixou um vidro de lágrimas de unicórnio cair no chão, mas o segurou a tempo.
– Sim. – disse com toda a dignidade que pode reunir. Não ia dar a ele nenhuma razão para duvidar da sua segurança ou autoconfiança, não quando ele a julgava uma pocionista incompetente, além de tudo o mais.
– Bervely Rose Black. – ele repetiu, num tom profundamente debochado, ao seus ouvidos. Ela não deixou passar o fato de que ele sabia o seu nome do meio, e enquanto muitos professores poderiam ter visto essa informação em sua ficha, porque algum deles se incomodaria em guardá-la? Mas se ele já soubesse disso antes…
A náusea deu sinal de vida em seu estômago, e ela prendeu a respiração por um momento. Precisava se controlar, antes que as pontas de seu cabelo começassem a se enrolar.
– Imagino que saiba que não estou completamente convencido da sua capacidade para estar na minha turma de N.O.Ms.
– Foi o que ouvi dizer. – rebateu, o encarando de frente, aqueles olhos escuros e maus.
– O mínimo que espero do seu desempenho, para mudar a minha ideia, é que me surpreenda. – ele disse lentamente, e depois deu meia volta, indo fiscalizar os resto dos alunos.
Snape não fazia ideia de que acabara de acender uma chama ardente de resolução em seu interior. Ferozmente, ela voltou para o armário e selecionou os ingredientes todos novamente, escolhendo apenas os melhores. Muitos não sabiam, mas o sumo de gama-gama mais amarelado fazia o efeito da poção durar mais tempo, e o pó de chifre de bicórneo precisava estar com um leve brilho prateado, o que só acontecia quando era colhido na lua cheia, mas isso não estava no seu livro texto.
Quando voltou para a mesa e depositou tudo sobre ela, sacando da mochila em seguida os seus instrumentos de prata cuidadosamente encaixados num estojo de veludo, a Rockwood lhe olhava como se tivesse descoberto que ela era, na verdade, o Barão Sangrento de saias.
– Você é tipo, uma dessas malucas de poções que faz um veneno a partir de uma torrada e dois potes de geleia?
– Tipo isso. – murmurou, concentrada nos princípios do Liquor do Livramento. Facilmente descobriu que se misturasse o pó de chifre de bicórneo com a seiva-chafariz no primeiro estágio, antes do cozimento, conseguiria terminá-la na metade do tempo previsto.
– Srta. Black, o que pensa que está fazendo?
Snape chegara à sua mesa, depois de atazanar e tirar pontos dos grifinórios do outro lado da masmorra. Rockwood, ao seu lado, se retesou perceptivelmente, como se ficar sentada direito na cadeira fosse aliviar sua culpa por omissão: desde o primeiro momento, se calara e observara Bervely trabalhar sem seguir as instruções escritas no quadro.
– Poções, professor. – ela disse sobre a sua respiração. O vapor que saia agora do caldeirão era amargo e levemente ácido, mas não podia decidir se estava correto para o terceiro estágio, pois o cheiro de Snape acabara de entrar pelo seu nariz e estava interferindo na sua decisão.
Cheirava familiar, seu olfato acostumado rapidamente tentando identificar os ingredientes. Asfódelo maturado, valeriana fresca e um sutil, quase imperceptível toque de raiz-de-romã. Mas de onde tinha visto aquela combinação antes? Ela tinha medo de saber a resposta.
– Não de uma maneira que vá lhe render o resultado esperado, eu receio. – ele disse acidamente, provavelmente por causa do tom insolente que ela acabara de usar. – E o seu caldeirão está em desacordo com as diretrizes dessa disciplina, menos cinco pontos para a sonserina.
Houve um murmúrio de espanto geral, seguido de um silencio. Aparentemente ninguém da sonserina perdia pontos há muito tempo naquela aula, mas ela não se deixou intimidar pela desaprovação dos colegas. Ergueu o queixo para Snape.
– O caldeirão solicitado foi de latão, mas eu prefiro as propriedades do zinco na produção de poções.
– E eu sugiro que esse julgamento é proveniente da sua extensa e reconhecida formação em Poções? – ele sugeriu com zomba.
– Sim, senhor, isso mesmo.
Murmúrios começaram a rasteirar entre os alunos como um caminho de pólvora, e até a parte Grifinória da turma se interessou pelo diálogo.
– Eu devo supor que a senhorita Black se julga superior às minhas sugestões para o seu material escolar, e que isso talvez se estenda ao meu método, a julgar pelo modo que não está seguindo as instruções sugeridas?
– Eu ainda não tive a chance de formar uma opinião a respeito do seu método, professor. Mas assim que eu tiver uma, o senhor será o primeiro a saber dela..
O silencio a essa altura era sepulcral na masmorra, e a única coisa que se ouvia era o chiado das chamas sob o caldeirão e o borbulhar da maioria das poções que estavam erroneamente chegando ao ponto de fervura. Ela não caíra nesse mesmo erro, e sua chama já estava desligada há alguns minutos.
Nesse meio tempo, o professor parecia tentar decidir se iria pendurá-la pelos tornozelos com correntes em frente a toda a turma, ou afogá-la em seu próprio caldeirão pela insolência. Bervely, com seu sangue pulsando surdamente nas orelhas, não se importava com o que ele ia fazer com ela.
– Menos cinco outros pontos pelo uso de material inadequado em minha aula. – ele disse suavemente – e menos cinco por não ser capaz de seguir as instruções. – em seguida, pegou sua concha de puxou um pouco da poção, que tinha o tom rosa perolado e a densidade, Bervely observou com satisfação, de uma calda de creme derretida. – dez pontos para a Sonserina por ter sido a única a se atrever a assumir o risco de cortar pela metade o tempo da produção, arriscando assim o balanceamento do sumo de gama-gama. Poderia ter dado terrivelmente errado.
– Mas não deu, não é. – ela disse com um sorriso mínimo de convencimento. Snape devolveu a poção ao caldeirão com indiferença.
– É, mas se desse, a essa altura todos nessa sala estariam mortos por intoxicação respiratória.
Ele se afastou, e deixou para ela a recepção dos olhares de assombro dos colegas. Rockwood se afastou ligeiramente com sua cadeira, talvez ainda pensando que fosse perigoso respirar o vapor de sua poção. Mas quando saíram da sala no final daquela aula, a mesma lhe acompanhou, murmurando cumprimentos impressionados.
– Eu nunca vi ninguém peitar Snape daquela maneira, e com tanta propriedade. Eu tenho certeza que ele odeia você agora, e isso é muito, porque eu nunca ouvi dizer que ele escolheu deliberadamente implicar com um sonserino.
Ela deu de ombros. Não ligava para os pontos que ganhara por ter feito a poção corretamente, mas estava irritada com os que perdera injustamente. Sabia que não tinha nada haver com o tipo de caldeirão que estava usando, ou se estava ou não seguindo instruções.
Ele estava lhe testando. E então ele podia vir com tudo o que tinha, porque ela defenderia o seu merecimento naquela turma com cada fio de resolução que possuía em si mesma.
– BD –
Isso é ridículo. Ridículo, ridículo, ridículo, ridículo…
Repetia a palavra no ritmo em que batucava a mesa em que se sentara para esperar. Era sexta feira à noite, depois da semana mais cognitivamente estafante que se lembrara de ter na vida, mas ao invés de estar em seu dormitório, ignorando as colegas estranhas e caindo no sono antes das oito, estava esperando alguma estudante que, só porque era a melhor aluna de Transfiguração da escola, se achava no direito de atrasar vinte e cinco minutos da hora marcada para o reforço.
Com certeza tinha de ser uma Corvinal. Era quase insuportável como eles eram uma grande corja de narizes em pé, se achando muito espertos, a elite intelectual do colégio, acima da existência mundana das outras casas. Bom, também podia ser um sonserino. Não estava esperando que qualquer colega de casa fosse ter consideração pelo tempo alheio, empatia não era lá muito popular nas masmorras verde e pratas.
Se fosse algum grifinório egocêntrico, ela ia ter que se matar.
– Oi! Desculpe o atraso, eu tive um problema, na verdade eu esbarrei e derrubei meu caldeirão em poções hoje e Snape me fez ficar lá limpando a bagunça até agora. A propósito, eu sou Tonks.
Bervely sentiu sua sobrancelhas se erguerem e ela até soltou um palavrão baixo, seguido de “você tem de estar de brincadeira”. Estava olhando não só para uma lufa-lufa, mas uma que usava o cabelo num tom de verde-alface, as unhas cor de laranja e botas roxas que eram uma afronta ao uniforme escolar.
– Você é Bervely Black. Isso é ótimo, sabia? Somos primas. Mas você obviamente sabe disso, é claro.
A informação não a abalou muito, visto que ao longo da semana outros colegas tinham se aproximado para apontar parentescos entre as linhagens deles e a dos Black que os tornavam primos em vários longínquos graus. Mas eles eram puro-sangues, e no final praticamente todas as famílias puras eram em algum nível aparentadas, sem surpresas aí.
Por outro lado, “Tonk”s não era uma das vinte e oito famílias puro-sangue britânicas legítimas, e ela só podia supor que a garota estava forçando um parentesco a fim de gerar uma aproximação imediata entre elas. O que obviamente não ia funcionar.
– Eu fiquei feliz quando McGonnagal disse que eu ia dar monitoria para você, quero dizer, é o máximo e vai me render recomendações quando eu aplicar para o programa de aurores depois da escola. Você já sabe o que vai fazer depois que se formar? Transfiguração é necessário para quase tudo, a não ser um trabalho chato em um escritório, mas pra isso você mal vai precisar da sua varinha, então quem ia querer algo assim? Você veio de Durmstrang? A escola fica mesmo na beira de um penhasco?
Bervely pacientemente fechou os seus olhos e deu um longo suspiro. Só uma vez por semana. Só até os exames do meio termo, e depois poderia estudar sozinha. Só alguns meses…
– Eu posso te ensinar a mudar a cor do seu cabelo, se quiser. Não do jeito que eu faço, é claro, mas existem outros jeitos, normalmente os tons de vermelho são mais fáceis, mas se você quiser um verde ou azul, existem dicas ótimas que eu posso…
Correção, não “alguns meses”. Seriam longos meses.
– BD –
– Hey, Black! Pode vir aqui um segundo? Quero te apresentar Holmes, lembra que te falei sobre ela, a nossa nova monitora?
Sem vontade, Bervely se arrastou até onde o monitor chefe Sung acenava, junto a um grupo de meninas entre as quais ela reconheceu Olga Greengrass. Não queria conhecer ninguém, apenas desejava a sua cama e uma longa noite de sono para superar a monitoria com a tagarela da Tonks.
Mesmo assim atendeu ao convite do monitor, sua curiosidade vencendo o cansaço. Ouvira aquele nome a semana inteira – Holmes, a antiga dona da cama que estava usando – mas não chegara a vê-la, pois a garota sempre estava muito ocupada e raramente dava as caras no salão comunal da sonserina.
– Black, essa é Tara Holmes. Ela também veio de Durmstrang, imagino que vocês se conheceram lá?
Bervely olhou para a garota ruiva.
E olhou de novo, experimentando o choque do familiaridade. Poderia tê-la visto nos corredores e não a teria reconhecido, não sem realmente parar e olhar seu rosto como fazia naquele momento. Seu cabelo vivamente vermelho e macio era feito de cachos longos ombros abaixo, e os olhos eram dois rasgos verdes espertos. Sua postura – concordou com Greengrass, imediatamente – era a de uma princesa, do tipo mais arrogante que se encontraria. Apesar de uns poucos centímetros mais alta, a olhava de cima, como se a diferença fosse ainda maior.
Sim, não a teria reconhecido sem um exame atento. Não só pelas diferenças, mas porque nunca, nem nas suas imaginações mais delirantes, esperara encontrá-la justamente ali.
A ruiva estendeu a mão.
– Black.
– Holmes. _ pronunciou numa sobrecarga de deboche que não pode evitar. Os olhos da menina faiscaram perigosamente.
– Então não se conhecem mesmo? Uau, mas eu pensei, se vocês eram da mesma turma…
– Não. – disse a monitora, com o tom cuidadosamente casual – nunca a vi antes na vida, até onde eu me lembre.
Bervely deixou a mão cair após o cumprimento, ainda mergulhada na sensação de irrealidade tão súbita que não soube como reagir.
– BD –
1987, Galdhøpiggen.
Miranda Pepper trouxe uma dezena de garrafas, e com a sua varinha ela começou a puxar espirais grossas de fumaça da bacia e engarrafar uma por uma. Elas eram a melhor harmonização possível de seis lembranças, as três de cada primeiranista, e o seu resultado ditaria as duplas mágicas daquela nova turma em Durmstrang.
Bervely assistia com um comichão de ansiedade, tentando adivinhar com qual colega ia ser pareada. Desejou que não fosse o menino com uma cicatriz na bochecha, que tinha cara de louco, e nenhum dos dois gêmeos morenos à sua esquerda, porque eles faziam tudo de forma sincronizada e era um pouco assustador (inclusive era assustadora a ideia de separá-los).
Enfim, a bruxa começou a anunciar os pares. Ela fazia isso olhando a combinação de cada garrafa, cujo resultado final gerara cores e texturas bem diferentes uma da outra. Havia uma que se parecia com sangue, e algumas que eram como uma galáxia de glitter.
Os gêmeos ficaram juntos, e o menino com cara de louco virou o par mágico de Zatina Petrovic, que não pareceu muito feliz com a ideia. Ela ia apontando um e outro e os unindo, enquanto que os estudantes da mesa exterior aplaudiam cada dupla com entusiasmo. Enfim Miranda Pepper chegou até onde Bevy estava, com uma garrafa de uma mistura que lembrava essência de beladona concentrada, e acenou para o outro lado da mesa, para uma garotinha.
Ela veio seguramente, e cumprimentou Bervely com um aceno de sua cabeça. O cabelo era uma confusão vermelho escura cheia de nós, e metade do seu rosto estava coberta com uma armação de óculos pesada verde escura.
– Vocês devem guardar essa mistura para um momento especial de sua relação nos próximos anos. – a Prof. Pepper recomendou, estendendo a garrafa entre ambas. Bervely estendeu a mão e a pegou, sentindo-a morna entre os seus dedos. – esse momento deverá ser consensual, pois o resultado de sua harmonização é uma poção poderosa, e que deve ser usada com responsabilidade. Agora, vocês podem sentar juntas e se conhecerem um pouco, fiquem a vontade.
Ela saiu para unir as últimas duplas, e as duas meninas ficaram se olhando. Bevy imaginou que a expressão reticente da outra fosse um espelhamento da sua própria.
– Eu suponho que devemos nos apresentar. – disse ela por fim, admitindo um tom prático.
– É. Eu sou Bervely Black. – estendeu a mão – e você? É alguma Weasley?
– O que é um Weasley? – a garotinha piscou, confusa. Bervely deu de ombros, pois sabia como um Weasley se parecia, mas não o que significava ser um.
– Acho que é um tipo de bruxo ruivo.
– Então não. Eu sou romena, bem, parte romena, pelo menos. Um monte de gente em minha família é ruivo, mas nenhum é um Weasley.
– Certo, tanto faz. – mentiu, na verdade aliviada por ela não ser um Weasley, pois não era algo muito aprovado lá em sua casa, pelo menos não pelo seu tio. – E qual é o seu nome, afinal?
– Pensei que nunca ia perguntar. – ela rolou os olhos, sorrindo – é Tara. Tara Romansek.
Eu sou o fantasma da garota
Que eu mais queria ser
Eu sou a concha de uma garota
Que eu costumava conhecer bem
Dançando lentamente em um quarto vazio
Será que a solidão pode tomar o seu lugar?
(The Lonely — Christina Perri)
(Continua…)
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