Indigna Rosa Negra

15 A Suspeita da Rosa


Notas iniciais
Olá amores, obrigada pelos comentários, como sempre eles tornam a minha vida mais bela ;) Peço que prestem atenção às datas que coloco para a mudança do período da narrativa (presente/passado), pois estou notando algumas confusões nos comentários em relação a isso. Lembrem-se que em 1987 a Bevy está começando Durmstrang, e em 1991, ela está em Hogwarts... Boa leitura!


“–
Ora, saia daí e me diga: você descobriu onde eles puseram minha sombra?
A resposta foi um tilintar tão lindo que parecia produzido por sinos de ouro.”

(Peter Pan – James Barrie)

1991, Hogwarts.


– Precisa de ajuda ai, Black?

– Eu me viro, obrigada. – ela retrucou com um extremo mau humor matutino, o que provocou em Oltman uma careta. Irritada, continuou a tentar dar o nó correto em sua gravata, enquanto atrás dela as outras três meninas se movimentavam a fim de ficarem prontas para o café da manhã.

Era o fim da segunda semana de aula, e Bervely aos poucos se acostumava à rotina de Hogwarts, com as suas colegas de quarto e com as aulas e caminhos do castelo. Agora definitivamente precisava parar de ignorar a gravata, já que no dia anterior perdera cinco pontos para a sua casa por estar sem ela na aula de Transfiguração.

– Aqui. – Oltman empurrou sua mão, apontou a varinha para a sua garganta e ordenou: – Perfectum Nodum! Bem melhor, você vai querer se lembrar deste. – e com um sorriso convencido, entrou no banheiro, de onde Sia Rockwood acabara de sair, finalmente tendo arrumado os cabelos cheios em cachos.

– Ela é sempre assim intrometida? – Bevy resmungou, folgando um pouco o nó que a estava sufocando. Sia deu um sorrisinho.

– Só quando ela vai com a sua cara.

– Mas que sorte a minha, então. – resmungou, irônica.

– Você precisava ver como era com Holmes… acredite em mim, a existência nesse dormitório está mais tranquila desde que ela foi embora.

– Oltman não gostava de Holmes? – Bevy perguntou, curiosa. A impressão geral era que a Sonserina em peso amava a garota ruiva. Sempre havia alguém falando dela, oferecendo-se para fazer um favor a ela ou apenas lançando olhares invejosos na sua direção.

– Ah, não mesmo. Se não fosse Holmes, Pacey seria a monitora agora, ela era a preferida de Snape para o cargo. Mas de repente ela chegou, cheia de privilégios, e como se não fosse o bastante, ela roubou o posto de Pacey esse ano e isso a deixou insana. Eu preciso concordar que foi meio inesperado, quero dizer, ela acabou de chegar e já mudou a cabeça de Snape? Pacey acha que ai tem coisa.

– Que tipo de coisa?

Sia lançou um olhar especulativo para a cama de Greengrass, mas ela parecia ferrada no sono. De qualquer maneira, a garota negra fez um sinal para irem andando em direção ao Salão Principal, e cochichou no caminho.

– Pacey acha que o pai de Holmes subornou ou chantageou Snape para lhe dar a monitoria, pra ela poder ter regalias como o quarto individual. O mesmo para ela ter entrado na Sonserina, já que nas outras casas os monitores não tem nenhuma dessas coisas.

– Snape não parece do tipo que é chantageado. – observou. Tinham chegado ao salão e o citado professor já estava lá, usando sua habitual expressão carrancuda, o queixo pousado nas mãos fechadas e os cotovelos cravados na mesa. Como se soubesse que estavam falando dele, seu olhar as acompanhou duramente até sentarem.

– Todo mundo tem um segredo sujo. – disse ela felizmente. – Bom dia, Sung.

– Dia, Rockwood. Black.


– Hey. – ela treinou um sorriso e puxou torradas e iogurte. Uma das coisas com as quais não tinha se acostumado ainda era a fartura de comida em todas as refeições de Hogwarts, sem que houvesse o menor controle de uma alimentação saudável para os alunos, que simplesmente decidiam o quanto e o que queriam comer. Em Durmstrang, as refeições eram balanceadas e cada prato era entregue pronto. Trocar comida era geralmente proibido.

– Você joga quadribol? Flint está abrindo os testes para as vagas no time esse ano, e eu soube que eles dão uma atenção especial para quadribol em Durmstrang…

– Eu não vôo. – avisou, antes que a conversa de quadribol se prolongasse. Ele lhe olhou como se ela tivesse acabado de dizer que não respirava oxigênio.

– Isso é uma pena. Ah, se quiser posso te dar umas aulas particulares na minha vassouras, sabe…

Sia abafou uma risada no seu copo de suco, e Bervely franziu ligeiramente as sobrancelhas para ele.

– Você está dando em cima de mim, Sung?

O garoto empalideceu.

– Eu… preciso ir fazer uma coisa.

Ele deixou da mesa e seu café inacabado, e a colega parou de segurar o riso, quase tendo um acesso de tosse.

– Ele deve ter ido enfiar a cabeça em um buraco, provavelmente.

Bervely mordeu sua torrada, observando o setimanista sumir de vista.

– Foi alguma coisa que eu disse?


– BD –


– Página 30, Seiva da Trapaça. Vocês tem uma hora e se no fim desse tempo alguém conseguir completá-la com sucesso, eu vou saber que não estou desperdiçando a minha vida com um bando de cabeça-ocas sem talento.

O farfalhar nervoso preencheu a masmorra gelada, enquanto o grupo de sonserinos e grifinórios do quinto ano se preparavam para mais uma sessão de pressão psicológica no ambiente pouco didático de poções.

Severus Snape era uma lenda no que se referia ao pocionismo no mundo mágico, e Bervely sabia disso porque ela já lera muitos livros sobre essa especialidade, e o nome dele costumava aparecer frequentemente nos exemplares que se referiam ao século XXI. A própria Miranda Pepper, sua antiga professora de Poções em Durmstrang, o citara de forma reverente uma par de vezes nos seus três primeiros anos letivos, admirando sua técnica e capacidade.


Ela gostaria de poder se concentrar na reputação do seu professor, mas não conseguia parar de enxergá-lo como uma pessoa e tentar entender porque a existência dela o irritara desde o primeiro momento.

Não que não fosse recíproco. Ele também a incomodava.

– Não vai trabalhar hoje, Srta. Black? – Snape pontuou, se aproximando e vendo que ela não se movera do seu lugar nem para abrir o livro.

– Sim. Claro. – afirmou, puxando o material para perto com deliberação. Não ia dar motivos para ele para lhe tirar pontos da Sonserina hoje.

– Já fez essa poção antes?

– Sim, senhor. Tem como base sangue de banshee e pena de agoureiro. Quando preparada corretamente, faz com que quem a tome tenha um impulso irresistível de trair aqueles a quem deveria ser fiel.

– Correto. Dez pontos para a sonserina.

Ela sorriu para o livro aberto, vitoriosa.

– Ai de mim aborrecê-la com uma lição repetida, Srta. Black. Acha que seria mais interessante reverter as propriedades da poção, transformando-a em sua exata inversa?

Surpresa, ela até mesmo levantou o rosto a fim de olhar para o professor.

– Uma Poção da Lealdade¹, o senhor quer dizer?

– Acho que pode chamá-la assim. Rockwood, a ajude no que a sua colega precisar.

Ele foi se afastando, a fim de fiscalizar o trabalho da dupla diretamente atrás deles, mas Bervely o chamou, desconfiada.

– Professor… e se eu não conseguir?

Ele se virou. Havia uma espécie de sorriso maldoso em seu rosto, como se estivesse esperando uma pergunta.

– Se não conseguir, senhorita, vou entender que não tem as habilidades requeridas para continuar na minha turma.

– Isso é tão injusto! – Sia murmurou quando Snape estava longe o suficiente. – Não somos esperados a saber inversão de poções até o fim do quinto ano!

Bevy sorriu, sem ligar se o desafio de Snape era injusto ou não. Ela sabia reconhecer uma chance quando via, e energicamente saltou da cadeira e foi pegar os ingredientes necessários, que estavam listados na lousa. De acordo com os princípios teóricos de poções, era possível reverter um composto para que fizesse exatamente oposto da sua função original, e para isso, usando-se somente os ingredientes da primeira preparação.

Na vida real, tornar isso verdade era sempre complicado, pois apesar de usar os mesmos ingredientes, o processo de inversão podia exigir macetes na preparação que eram completamente imprevisíveis, e exigiam testes e retestes, muitas tentativas até que se chegasse a uma formula perfeitamente balanceada.

Pocionistas levavam anos produzindo contra-venenos para as suas poções venenosas, por exemplo, a fim de garantir que eles iriam neutralizar o efeito letal em todo tipo de organismo e situações. Conseguir a reversão de primeira era praticamente impossível nesses casos, mas ela sabia tratando-se da Seiva da Trapaça, talvez houvesse uma chance.

Poucos ingredientes, tempo de preparo reduzido e bons equipamentos a sua disposição, tudo isso contava ao seu favor. A distração dos colegas, a tensão de Sia Rockwood ao seu lado e a sua própria empolgação, por outro lado, talvez ficassem em seu caminho.

– Eu não entendo porque ele está tentando fazer com que você não fique nessa turma. Está óbvio que você é melhor na matéria do que todos nós juntos! – a sua colega murmurou a certa altura, quando Bevy suava sobre o caldeirão, tentando dosar a quantidade exata de sangue de banshee que ia precisar. O cheio ácido fazia seus olhos lacrimejarem, o que a fazia piscar repetidamente.

– Ele não está. – ela respondeu compenetrada.

– Talvez ele esteja com inveja do seu talento.

Bevy negou.

– Eu não sou um décimo do pocionista que ele é.

– Você realmente o admira, não é?

Ela não respondeu, apenas despejou o líquido no caldeirão e rezou para que borbulhasse. Se não borbulhasse, significava que tinha julgado errado a temperatura, e todo o trabalho estava perdido. Não havia mais tempo para começar do zero.

Não borbulhou.


– Droga. – praguejou, fechando seus olhos e deixando a cabeça cair para trás.

– Droga o que? Não, não, não, você estava indo bem… você precisa conseguir, Black, se sair da turma, eu vou acabar tendo que fazer dupla com alguém obtuso, como… como Greengrass! – completou num sussurro de terror.

– Você vai ficar bem. – ela bufou. Descobriu que o seu aborrecimento não era por não ficar na turma, era apenas…

Snape ficaria decepcionado.

– Não tem nada que possa fazer? Coloca um pouco mais de sangue! – disse a garota, inquieta. – Oh, droga, ele está vindo.

Bervely continuou fitando o teto quando o professor encostou à mesa, e fugiu do olhar dele enquanto checava o fundo do caldeirão.

– O que fez, Srta. Black?

– Ela começou com o sangue de banshee. – disse rapidamente Sia. – E regulou as chamas para um terço da temperatura. Está arruinado? Ela não pode ter outra chance?

Bervely gostaria que Rockwood calasse a boca.

– Black não precisa de outra chance, só de usar a cabeça. Quais são as propriedades do sangue de Banshee, garota?

O tom dele era um pouco ríspido, mas estava acostumada a professores rudes. Além do mais, tinha prometido a si mesma que não ia dar outra chance a Snape para lhe ferrar naquela aula.

– Coloração azulada, vida útil de quarenta e sete dias após a colheita, uma espuma densa quando está fresco, ponto de ebulição variável a depender do recipiente de fervura…

– Exato.

Ela ajeitou a cabeça tão rápido que ficou ligeiramente tonta.

– O zinco, isso! Eu esqueci.

Ignorando Snape, sacou a sua varinha e aumentou cuidadosamente as chamas. Deixara passar que o caldeirão de zinco, apesar de distribuir a temperatura mais uniformemente que o de estanho, demorava mais para transferir o calor para a mistura. Não precisava ter medo de queimar o sangue, afinal de contas.

A mistura borbulhou.

– Isso! – vibrou, saltando na cadeira, mechas da franja se desprendendo do elástico e caindo nos olhos. Apressadamente foi pegar o resto dos ingredientes, sentindo-se de novo enérgica.

Em seu frenesi não percebeu que quando Snape se afastava havia um suave esgar em seus lábios, no qual um observador mais atento reconheceria a sombra de um sorriso.

– BD –

– Vocês já podem envasar as poções e deixarem a sala. Eu vejo pelo menos cinco alunos que inutilizaram seu caldeirão com uma dose excessiva de solução engrossante, por favor não se deem ao trabalho de me entregar uma amostra.

Bervely envasou a sua poção, estando bastante confiante do resultado. Tinha a cor roxo-escura de um hematoma, ao invés de amarelada como a dos outros, mas a consistência era a mesma , o que significava um bom prognóstico. Deixou que Rockwood a levasse até o professor, e guardou o seu material de trabalho, já estando quase fora da masmorra quando ouviu o seu nome.

– Sra. Black, se importa em aguardar um momento?

Seu sangue gelou, e ela deu meia volta. Sia soprou um boa sorte enquanto saia, e de canto de olho, viu Holmes lançar um olhar intrigado para trás antes de ir, o cabelo esvoaçando às suas costas. Snape fez um aceno com a sua varinha quando estavam a sós, e a porta se fechou. Bervely não teve escolha senão andar até a mesa dele.

Assistiu o professor destampar a sua poção, que se destacava do resto pelo tom, e cheirá-la com seu longo e adunco nariz. Ele assentiu, pousando o frasco de volta a mesa.

– Correta. Já havia feito inversão antes?

– Sempre faço antídotos para os meus venenos… informalmente.

– Como um hobby? – ele sondou. Era impossível saber se estava mesmo curioso ou fazendo deboche dela.

– É, mais ou menos isso.

– Estou impressionado, Srta. Black.

Ela sentiu que estava fazendo a sua cara presunçosa, mas não pode evitar.

– O senhor pediu.

– Eu pedi…?

– Para impressioná-lo, na aula passada.

Ele assentiu, os olhos pregados nela como se quisessem ler através da sua mente, de uma forma um pouco incomoda.

– Escute, Srta. Black… eu não aprecio insubordinação em minhas aulas. Não importa o quão talentosa seja, se pensa que não tem nada para aprender comigo, não é bem vinda aqui. Eu dou aula para adolescentes de cabeça vazia, e no momento em que eles sintam que há uma brecha para a rebeldia, haverá rebeldia. Rebeldia não é compatível com o ensino da arte de poções.

Ela ficou calada, olhando para ele. Snape se parecia com alguém que gostava do som da própria voz quando estava dando um sermão, mais ou menos como seu tio Lucius.

– Eu aprecio a obediência às regras. Acha que pode se submeter a elas em minha sala?

– Não completamente, senhor. – disse com sinceridade.

– Perdão? – Snape ergueu uma das sobrancelhas grossas.

– Eu posso obedecer as suas regras de disciplina, mas nem sempre posso garantir seguir as de preparo em poções. Algumas são simplesmente estúpidas.

Podia estar ficando louca, mas jurava que viu um brilho de divertimento nos olhos encovados.

– Haverá sempre a chance de discutirmos eventual estupidez metodológica.

Ela fez força para não sorrir. Snape estava cedendo?

– Terminei a sua avaliação. Pode ficar em minha turma, desde que se comprometa a não causar tumulto.

– Rebeldia velada, professor?

Ele estreitou seus olhos, mas não lhe respondeu. Ela achou melhor não forçar a barra.

– Obrigada.

Como pareceu que Snape não ia dizer mais nada, levantou-se para deixar a masmorra e almoçar antes de duas horas de tortura em História da Magia. Acabara de se virar quando percebeu que não podia sair dali sem arriscar.

– Professor?

– Srta. Black?

– O senhor… conheceu a minha mãe?

Se ele foi pego de surpresa pela pergunta, não houve sinal disso em seu rosto impassível, a não ser a demora de alguns segundos.

– Sim.

– Conheceu… bem?

Ele piscou pesadamente e inclinou a cabeça.

– Qual o objetivo desse questionamento?

– Eu só queria saber se eu poderia ter herdado dela o meu talento em poções, ou algo assim.

O canto do lábio dele se franziu ligeiramente.

– Bellatrix era medíocre em poções.

– Hum. Nesse caso…

– Professor! – alguém irrompeu na masmorra, sobressaltando os dois, enfiando a cara pela porta. Era Tara Holmes.

– Bata na porta, Srta. Holmes! – praguejou Snape com irritação, e a ruiva se encolheu ligeiramente.

– Sinto muito, professor. Eu só queria falar sobre a requisição de material para a sala dos monitores, preciso da sua aprovação…

– Isso tem que ser agora?

– Hoje é o prazo final. – ela disse em tom de desculpas. Um tom falso de desculpas.

– Tudo bem, entre. – ele admitiu de mau humor. – Estamos conversados, Srta. Black?

– Claro. – ela assentiu. – Obrigada.

Ao se retirar, lançou um olhar irritado para Tara. Tinha certeza que ela fizera de propósito, na verdade podia jurar que a menina esperara do lado de fora da sala tentando ouvir alguma coisa e quando não pode, resolvera interromper.

“Bellatrix era medíocre em poções”, ele dissera. Então talvez ele tivesse lido as entrelinhas, e percebido a sua insinuação, e agora sabia que ela sabia.

– BD –

Bervely se considerava uma pessoa paciente. Ela normalmente lidava muito bem com pressão, com situações adversas, com toneladas de dever de casa, com as obsessões de organização de Pacey Oltman no dormitório, com as repetições em Transfiguração para conseguir fazer um mísero tamborete se tornar uma galinha, e com o agravantes…

Draco continuando a ignorar sua existência, enquanto agia como um babaca em torno de Harry Potter. Tara fingindo que não dormira e acordara no mesmo quarto que ela nos últimos três anos, e posando se Princesa da Sonserina com o séquito de admiradoras de cabeça oca ao seu encalço.

Pergaminhos e pergaminhos de dissertações para História da Magia. Noites perdidas rabiscando mapas estelares. Snape lhe tratando a panos quentes nas aulas, lhe tratando como mais um de seus alunos, sem lhe apresentar mais desafios ou elogiar seus resultados elaborados aula após aula. Ignorando a sua indireta como se eles nunca tivessem tido aquela conversa após a segunda aula.

Ótimo, então ele queria ignorar o hipogrifo na sala, tudo bem pra ela.

Mas depois de quatro meses, um trago montanhês adulto invadindo a escola no Halloween, a vitória confusa da Grifinória sobre a Sonserina no quadribol e a véspera dos exames de meio termo, as coisas não estava tão bem assim, na sua opinião.

À beira de um ataque de nervos definia o seu estado.

– Você parece estressada. – Tonks disse o óbvio, em sua última aula de monitoria antes do teste de Transfiguração, que seria no dia seguinte. Bervely era suposta a transformar um baú em porco, e já conseguira antes uma vez, mas agora tudo que acontecia com seu baú de treino era se tornar cor de rosa, com quatro patas, e emitir ruídos agonizantes de tortura.

Era fácil para Tonks falar em calma, a sextanista era um poço de tranquilidade plácida. Hoje usava cabelo repicado cor de laranja, olhos verdes e a pele bronzeada, apesar do sumiço do sol e persistente frio que se instalara nos terrenos da escola desde o fim de novembro. Bervely desistira de tentar entender a facilidade — e necessidade — que a garota tinha em andar por ai transfigurada o tempo todo, quando ela mesma tinha horror de qualquer manifestação que mudasse a sua própria aparência, especialmente desde o episódio de troca de face no hospital.

– Já sei, amanhã depois do seu teste vamos tomar umas. Assim podemos comemorar se você passar, ou afogar as mágoas de você perder.

– Ou, ao invés de jogar com a sorte, você podia parar de sentar ai toda indiferente e ajudar com essa droga de suíno!

Tonks deu uma gargalhada.


– Não estou sendo indiferente, só positiva. Você vai se sair bem, relaxa. Como foi o teste em Poções hoje?

Bevy deixou escapar bufo de irritação. Tinha preparado corretamente uma Valsa da Embriaguez, uma poção rara que fazia quem a tomasse virar um exímio dançarino por uma noite inteira. Recebera de Snape um Excede Expectativas, o que não era ruim, mas fora acompanhado com um descaso completo do professor. Obviamente não tinha excedido as expectativas dele.

– Foi passável.

– Ouvi umas meninas da Grifinória fofocando que você humilha todo mundo naquelas masmorras. O ensino de Durmstrang é assim tão melhor que o de Snape?

Deu de ombros, tentando mais uma vez transformar o baú. Ele estremeceu e guinchou, ficando levemente arredondado nas laterais mas nem sinal de orelhas ou rabo.

– Droga. Acho que vou dormir agora, e encarar o fato de que fiz tudo o que podia, mas transfiguração simplesmente não é pra mim.

– Espera! Ui! – Tonks saltou da mesa onde estivera sentada, mas conseguiu bater o joelho na quina do bau-suíno e agora esfregava a área do trauma com uma careta. – Mentaliza comigo: amanhã eu vou arrasar no meu teste, e depois beber todas no Três Vassouras com uns caras gatos.

– Quê? – ela fez uma careta. Às vezes tinha certeza de que a garota tinha um parafuso seriamente solto. – Que caras gatos?

Ela deu uma piscadela.

– Só vai saber se for. E então?

– Não estamos falando de lufa-lufas pamonha com a camisa pra dentro da calça, estamos?

Ela gargalhou de novo. Tonks nunca levava os comentários ácidos de Bervely pro lado pessoal.

– Não, estamos falando da fina elite masculina que já passou por essa escola. O que me diz?

Suspirou pesadamente. Podia usar um tempo fora da escola para respirar um pouco, e a companhia de Tonks, tirando o senso de moda duvidoso e a mania de estar de bem com a vida, não era de toda péssima.

– Tudo bem. Se eu for bem no teste. Se não vou usar esse tempo pra arrumar minhas malas, pois pode estar certa que não estarei retornando a essa escola depois do Natal, se eu precisar passar pela humilhação de ir para a turma de quartanistas de McGonnagal.

– Assim que se fala, garota! Dá aqui um abraço de boa sorte.

Bervely lhe deu um olhar perigoso.

– Não? Ok, sem abraços então. Boa sorte de longe – lhe estendeu a mão solenemente, e Bevy a apertou, rolando os olhos. – Passinhos de bebê. Um dia quem sabe. E arrasa nesse porco, confio em você!

– BD –


– Hey!! Como foi? Conseguiu colocar as orelhas no seu leitão?

Bervely deu uma olhada ao redor, mas os colegas não estavam à vista, pois fora a última a sair da sala. Ela se juntou à Tonks (cabelo longo azul celeste, um olhos azul e um verde como de um gato siamês heterocrômático) e se permitiu um suspiro cansado.

– Não foi terrível. Ele tinha duas orelhas, mas saiu com dois rabos também, acha que McGonnagal desconta pontos por isso?

A lufa-lufa mordeu o lábio inferior, em dúvida.

– Espero que não. Então, vamos?

– Tenho mesmo?

– Jesus – Tonks rolou os olhos coloridos – você é tão terrivelmente anti-social. Quero te apresentar uns amigos, tomar uma cerveja amanteigada, bater um papo como uma adolescente saudável, quem recusa esse tipo de programa?

– Uma sonserina sombria e misteriosa com uma reputação a manter?

A menina colorida balançou a cabeça.

– Você não vai me convencer disso tão fácil, Black. Ainda acho que ameaçou o chapéu seletor a te colocar na Sonserina, mas a sua alma pertence ao texugo. Nos encontramos mais tarde?

– BD –

Estava tão terrivelmente frio em Hogsmeade naquela tarde de sábado que Bervely quase se arrependeu de ter aceitado o convite de Tonks. Mas nenhum bem lhe faria ficar dentro de seu dormitório, se remoendo com a dúvida sobre o nome que vira na ficha, a imaginação correndo solta e formando cenas cada vez mais assustadoras a respeito do passado.

Também não era a melhor ideia ficar no seu salão comunal, onde Holmes podia surgir a qualquer momento, acompanhada de um séquito de meninas inseguras procurando por reafirmação da “princesa da sonserina”. A política de ignorar a sua existência estava enervando Bervely, mas seu orgulho era grande demais para chegar na garota e perguntar “o que diabos” ela pensava que estava fazendo em fingir que não a conhecia.

Três anos. Três malditos anos dormindo e acordando e fazendo magia juntas, e agora Tara decidira que nunca a tinha visto na vida. Aquilo era algum tipo de retaliação? Porque Bervely não fazia a menor ideia do que fizera para estar merecendo o tratamento.

– Gorro legal – exclamou Tonks, que precisava gritar para transpor o barulho do vento.

– Obrigada. – resmungou. Estava usando um gorro fúcsia que transfigurara erroneamente, quando tentou deixá-lo verde escuro. – onde estão os tais amigos?


– Ali, eu acho. – ela apontou para o bar Três Vassouras, onde a maioria dos alunos que tinham se arriscado na nevasca estavam indo. Fez um aceno para entrarem, mas Bervely não a seguiu – O que foi?

– Eles sabem que eu sou sonserina?

Ela gargalhou.

– Eles não dão a mínima para isso, agora vem. Seu nariz está começando a ficar cor de rosa como o de um coelhinho fofo.

Esfregando a ponta do nariz congelado com a mão enluvada, Bervely seguiu a garota lufana. No momento em que estavam dentro do bar, Tonks deu um grito e saiu correndo na direção de uma mesa, exclamando o nome de alguém. Ela ficou de longe olhando-a se jogar nos braços de um rapaz troncudo, de rosto redondo e sorriso amplo. Ele a abraçou e a suspendeu do chão. Quando a pousou de novo, Bevy percebeu que ele era ruivo.

Bem como o outro rapaz, ao seu lado. Mas este era alto, e o fato de ser ruivo era muito mais perceptível porque tinha o cabelo longo e liso, que contrastava com roupas pretas de couro. Botas de combate, anéis em todos os dedos e um brinco de osso completavam o seu visual incomum.

– Charles, sua amiga trouxe uma amiga. – disse o ruivo alto de um jeito malicioso, cutucando o outro com o cotovelo e apontando queixo para Bervely, que sentiu o rosto esquentar.

– Eu trouxe! – exclamou Tonks, radiante — Vem, Bevy, vem conhecer os meninos!

Ela se aproximou, as mãos geladas, mas mantendo uma expressão calculadamente neutra.

– Esse é Charles Weasley, o meu amigo de quem te falei, ele era apanhador da Grifinória até ano retrasado, agora mora da Romênia cuidando de dragões. Esse é o irmão dele…

– Gui – estendeu a mão. A mão era grande e magra, e quando ela aceitou o cumprimento, constatou que também era quente do jeito certo. – É um prazer.

– Eu sou Bervely Black. – ela disse, e depois completou, sem saber bem porque – Sonserina.

Ele sorriu, tinha a boca grande, os lábios rosados, e os olhos franziram.

– Ainda assim é um prazer.

– Deixe ela em paz – Tonks deu uma cotovelada nele, mas girou de volta para Charles – Hey, você devia estar nos dragões! Quase surtei ao receber sua carta, o que aconteceu? Pensei que só voltaria no verão.

Charles deu de ombros, puxando uma cadeira da mesa vazia mais próxima. Os outros dois fizeram o mesmo e Bervely seguiu o exemplo, mas acabou ficando de frente para o Weasley mais alto, o que não era nada bom, já que não conseguia tirar os olhos dele.

– Tive de vir verificar uma denuncia, interceptamos uma encomenda ilegal de um ovo de dragão pra essa região. Eu me voluntariei pra matar as saudades. – o ruivo deu um sorriso sugestivo – Mas é só esse fim de semana, depois tenho que voltar. Antes que meus pais descubram que eu vim até aqui e não lhes dei um alô.

– Até porque eles já compraram as passagens para a Romênia e acham que vão te fazer uma surpresa no Natal – Gui comentou, ao mesmo tempo que levantava o braço para chamar a Mme. Rosmerta. – Seria bem ridículo se eles chegassem lá e descobrissem que você acabou de voltar da Inglaterra e não disse nada.

– E você não vai contar – Charles completou, num tom severo de ameaça.

Gui sorriu e pediu uma garrafa de uísque de fogo.

– Certo, isso explica Charles. – Tonks assentiu – Mas o que você está fazendo aqui com ele?

– Ora, não posso querer passar um tempo de qualidade com o meu irmão? – Gui fez cara de injustiçado, embora o divertimento brilhasse em seus olhos cor de caramelo.

– Não me envolva nisso. – Charles bufou, e virou para Tonks sorrindo de lado – Ele está atrás de uma garota.

– É claro que ele está, sempre há uma garota.


Mme. Rosmerta voltou com uma garrafa de Ogden e dois copos, que colocou para os garotos. Bervely se concentrou na bebida sendo servida, sem querer admitir a pontada de ciúmes que acabara de sentir por um completo estranho. Um Weasley.

Estava numa mesa com uma sangue-ruim lufa-lufa e dois Weasleys, o que os Malfoy pensariam se soubessem?

– Hey, vai querer uma dose?

Ela piscou, percebendo com atraso que Gui estava lhe oferecendo uísque de fogo.

– Ela é menor de idade. – Charles ralhou, mas o outro não lhe deu atenção e continuou olhando para ela, esperando uma resposta. Bevy assentiu.

– Claro.

– Assim que se fala – ele conjurou para ela outro copo e despejou uma dose nele. – É a sua primeira vez? Isso é ótimo. Adoro estar envolvido na primeira vez de uma garota.

– Guilherme! – Tonks exclamou, horrorizada. Mas logo ela e Charles estavam rindo também, e apesar das bochechas queimando, Bervely deu um sorriso com o canto da boca, e virou um gole grande da bebida garganta adentro.


– BD –


Dissessem o que quisessem daqueles meninos Weasley — que eram pobres, rudes ou muito ruivos, mas uma coisa não dava pra negar: eles até que eram divertidos.

– Então vocês tiveram um ataque de trasgo no Halloween! – Charles se impressionou, apertando a mão de Tonks que, Bervely reparou, ele eventualmente alcançava e segurava quando achava que ninguém estava olhando. – Isso é demais, até pra Hogwarts. Será que não foi coisa de Fred e Jorge?

– Mas onde eles iam arranjar um Trasgo? Não é algo que se consegue por correio coruja. – Tonks rebateu. Em algum momento da conversa o cabelo dela se tornara rosa elétrico, mas Bevy não lembrava de tê-la visto sacar a sua varinha.

– Eu não duvidaria dos gêmeos. Uma vez eles fizeram duas árvores dançarem a polca no aniversário da nossa tia Muriel, só pra deixar as coisas mais divertidas. – Gui replicou. Ele buscou os olhos de Bervely na mesa, e ela teve um rebuliço na boca do estômago. – E você, Black? O que está achando de Hogwarts?

Àquela altura Tonks já tinha dado aos meninos um resumo do que ela sabia sobre Bervely, incluindo seus frequentes êxitos em poções e o porco de dois rabos no exame parcial de Transfiguração, o que rendera algumas gozações por parte dos meninos.

– É um pouco caótica, mas pelo menos é bem aquecida. Durmstrang nessa época do ano era insuportavelmente fria.

– Oh, não – Charles deu um tapa na testa – Você acabou a dar a Gui a deixa perfeita para uma cantada de mau gosto….


– Que eu não vou fazer – disse o outro com uma piscadela marota – Porque eu sou um perfeito cavalheiro.

– Obrigada. – ela disse com humor.

– O que não significa que se em algum momento você ficar com frio e quiser alguém pra te esquentar… – comentou sugestivamente.

– Eu sabia, ele simplesmente não consegue evitar – suspirou seu irmão, fingindo-se desolado. – Não dê ouvidos, não é nada pessoal, ele é idiota com toda garota bonita que encontra.

Ela assentiu, tomando outro gole de uísque, que desceu queimando. Esperava muito que fosse pessoal, mas não disse nada.

– Olha, aquela não é a tal que você veio procurar? – Charles perguntou ao irmão, apontando alguém na entrada do bar. Os três pares de olhos se viraram para onde indicava, e Bervely viu, para o seu desagrado, que o alvo do comentário era Holmes.

Ela avistou Gui Weasley no fundo do bar, abriu um sorriso brilhante e veio até eles. Usava botas de salto, os cachos soltos e um batom vermelho que ressaltava o quão bem desenhada era a sua boca. O rapaz levantou para abraça-la, e ela se esticou nas pontas dos pés para beijar a sua bochecha.

– Hey, Tess. Você demorou.

– Desculpe, eu fiquei encalhada com uns alunos do segundo ano que estavam fazendo merda no salão comunal. Coisas de monitora – indicou o distintivo pregado em seu sobretudo. Por que infernos ela achava que precisava usá-lo fora de Hogwarts, isso estava além da compreensão de Bervely.

– Ah, é, parabéns por isso. Meu irmão também é monitor esse ano, Percy Weasley, você deve conhecer?

– De vista.

– Legal – sorriu, parecendo não perceber o tom de desinteresse dela. – Ah, olha. Esse é meu irmão, Charles. E essas são umas amigas, Black e Tonks.

A sensação que Bevy teve ao ver Holmes chegar perto da mesa deles e abraçar Weasley não foi nada comparado ao choque da ruiva ao identificar a colega e antiga parceira mágica na mesa. Ela congelou por um segundo, tentando encaixar peças, mas logo se recuperou e abriu um sorriso forçado.

– Olá! Prazer em conhecê-lo – se esticou sobre a mesa para apertar a mão de Charles – Você é o dos dragões, não é? Seu irmão fala muito bem de você. – seus olhos passaram rapidamente pelas meninas – Alô.

Bervely ainda tentava entender como eles podiam se conhecer, uma vez que Tara tinha passado os anos anteriores em Durmstrang e Gui parecia ter terminado Hogwarts há algum tempo. Enquanto isso, houve um breve silencio sem graça pairando na mesa, e a ruiva se apressou a quebrá-lo.

– Pensei em… bem, você quer dar uma volta? Reservei uma mesa pra nós em Mme. Pudfoot.

– Hum, tudo bem pra você se ficarmos aqui? Meu irmão está no país só esse fim de semana e eu não o vejo há quase um ano.

Obviamente não estava tudo bem para ela, mas aparentemente Bervely era a única na mesa capaz de reconhecer que o seu sorriso de concordância não era autêntico.

– Claro, porque não?

Gui puxou para ela uma cadeira ao seu lado, o que consequentemente a deixou ao lado de Bervely também. Tonks buscou os olhos de Bervely para trocar um olhar de confusão, ao que ela respondeu com um mínimo dar de ombros.

– Como… hum… vocês se conheceram? – a lufa-lufa arriscou perguntar.

– Gui trabalha no banco com papai, ficamos amigos no verão. – Tara explicou, com uma voz macia e satisfeita.

– Seu pai trabalha em Gringotes? – Charles perguntou surpreso. A própria Bevy lembrou que os funcionários do banco eram todos duendes.

– Ele é dono de Gringotes. Bem, um dos donos, de qualquer jeito.

Ela virou de repente ao ouvir a informação. Até onde sabia, o pai de Tara era um bruxo romeno que nunca pisara os pés na Inglaterra. Se a ruiva percebeu seu espanto, o ignorou.

– Pegando a filha do chefe, mano. Ou isso é terrivelmente idiota, ou engenhosamente esperto. – Charles brincou, dando tapinhas nas costas do irmão, que gargalhou despreocupado. Tara não pareceu se importar, pois estava rindo também.

Dava pra ver que ela olhava completamente boba para Gui Weasley, como se ele fosse o eixo em torno do qual a Terra passara a girar. Na verdade era meio nauseante, e Bevy sentiu que precisava parar de beber uísque antes de acabar deixando a sua opinião escapar.

– Eu acho que eu vou indo – disse de supetão. Todas as cabeças na mesa se viraram para ela, inclusive a de Tara. – Tenho que arrumar minhas coisas para as férias de Natal, ainda.

– Espera! – Tonsk a puxou para um canto, meio urgente. Para fazer isso ela quase derrubou a garrafa sobre a mesa, mas Charles a segurou a tempo, parecendo já esperar por algo do tipo. – Você não pode me largar aqui com a Princesa Serpente do Mal. – cochichou.

– Princesa Serpente do Mal? – repetiu com diversão.

– É como a chamamos na Lufa-Lufa. Ela não é sua amiga, é?

– Parece que ela é minha amiga? – resmungou, azeda.

– Bem, não. E muito menos agora que ela te pegou na mesa com Gui. Por favor não me deixe aqui sozinha com ela e os meninos, eu vou ficar maluca. Ela é má.

– Ela não é má, só terrivelmente bonita.

– Mesma coisa – rolou os olhos – Por favor?

– Mas eu tenho que…

– Não tem nada. Sei que vai ficar no castelo no Natal.

Como…?

– Se as senhoritas já pararam com os cochichos – interrompeu Charles em voz alta, puxando Tonks pelo ombro para perto dele novamente – Nós queremos pedir doses de Delírio Fumegante, quem está dentro?

Tanto ele quanto Gui e Tonks olhavam para ela, na expectativa. Mais atrás, Tara parecia ligeiramente aborrecida com a atenção que Bervely estava recebendo.

Bom, problema da ruiva. Ela assentiu, concentrada no sorriso de Gui Weasley.

– Tudo bem, estou dentro. Acho que posso ficar mais um pouco.


– BD –


Uma semana antes daquela última visita à Hogsmeade, a professora McGonnagal passara uma lista para os estudantes que ficariam em Hogwarts durante Natal colocarem a sua assinatura. Bervely, ao saber que a possibilidade existia, colocou o seu nome sem pestanejar.


O Natal era sempre excepcional na Mansão Malfoy. Havia a decoração com anjos de cristal, fadinhas luminosas e pinheiros de quatro metros, havia banquete, mas principalmente, havia Hector. A perspectiva de que dessa vez ele não estaria lá figurava insuportável, ainda mais se os seus tios iam continuar fingindo que a sua ausência não era um enorme buraco que gritava no coração da mansão.


Aliviada com o fato de que não precisaria vê-los e que teria dias de descanso e tranquilidade pela frente, sentou em um canto aconchegante do salão comunal e observou a sonserina se esvaziar lentamente. Alguns colegas, como Sia e Sung, passaram para se despedir, e Oltman lhe deu um aceno formal do outro lado do salão, seu malão flutuando obediente atrás dela.


Holmes, Bevy observou, usava um suéter laranja desbotado que tinha a estampa de um boneco de neve com chapéu de bruxo, e ela sentiu um aperto de saudosismo quando o reconheceu de outros invernos em Durmstrang. Imaginou se ela estava indo para o seu castelo na Romenia, ou seu pai estava mesmo morando na Grã-Bretanha agora, se tinha uma casa moderna e cara perto do Beco Diagonal, para ficar de olho nos negócios.


Estava tão distraída vendo o cabelo solto da colega sumir pela saída do salão que demorou a perceber alguém parado e lhe olhando a uma certa distancia, como que com receio de se aproximar. Era Draco, trazendo o malão e roupas de viagem e os olhos estreitos de desconfiança.


— O que está fazendo? — ele por fim perguntou, de má vontade. — Porque não está indo para o trem como todos os outros?


Ela ergueu suas sobrancelhas, surpresa de que ele estava mesmo se importando.


— Porque não vou pegar o trem.


— Não seja ridícula.


— Vou guardar esse conselho para a vida — rebateu, debochada. Ele bufou e deu de ombros, puxando violentamente o malão do fim das escadas.


— Tanto faz, problema seu.


Ela o assistiu lutar um pouco com seu malão, que parecia sobrecarregado, mas não lhe ocorreu fazer um feitiço de levitação para ajudar o primo. Seu pensamento vagava em outro sentido.


— Draco?


— Quê? — ele se virou, de má vontade e com o rosto vermelho com o esforço.


— Acha que ele vai estar lá?


– Ele quem? — resmungou, impaciente.


— Hector.


Draco parou de puxar, seu rosto ficando branco.


— Isso não tem graça, Bervely. — seu tom era alarmado.

— Eu falo sério. Se ele aparecer...


— Ele não vai aparecer. — a voz do garoto desafinou — Se isso é algum tipo de brincadeira idiota, não tem graça.


Com um ultimo puxão raivoso, conseguiu fazer o malão se mover e saiu arrastando ele salão comunal afora. Bervely assistiu o primo ir embora sem se despedir, o fundo de seus olhos pinicando.

– BD –

Dezembro de 1987, Mansão Malfoy.

Todo mundo estava desfrutando tão intensamente daquele Natal em família que eles até podiam esquecer as disfunções e desventuras que os uniu como uma família, em primeiro lugar.

Charlotte, em um vestido azul miosótis com fita, presente adiantado de Natal de Narcissa, pouco se lembrava de ter tido os pais adotivos, há tantos anos, assassinados pela mãe da garota que agora considerava como a uma irmã.


Hector quase não sentia falta dos natais em casa, com sua mãe, seu pai, a lareira e o gato. Ele não se sentia um orfão, absolutamente, e ele se encaixava tão bem entre Narcissa, Lucius e o irmão emprestado, Draco, que conseguia fingir que nada estava faltando (mesmo que só um pouquinho, só até sentir culpa por isso).

Mas Bervely, ela devia ser a mais feliz aquela noite. Ela sentia que tinha tudo: um suéter de natal vermelho escuro com o brasão de Durmstrang, para lembrar a todos que agora era mesmo uma bruxa, e já sabia fazer magia (certo, talvez só um pouco de magia, mas era algo), um pinheiro que tocava o teto, enfeitado de luzes de baixo até em cima, uma torta de maçã para a sobremesa.

A festa era só deles naquele ano, sem convidados importantes a serem adulados. Após o banquete, Charlie contaria uma história. Tio Lucius estava de bom humor (ele se recusara a usar o gorro com chifres de rena, mas Draco o convencera a colocar um lenço de flocos de neve).

Draco não parava de interrogar Bervely sobre Durmstrang. Ela rolava os olhos, mas no fundo estava orgulhosa em contar tudo o que fizera naqueles meses na escola. Os olhares atravessados de Charlie deixavam a vanglória mais prazerosa ainda.

Depois da torta de maçã, Hector os chamou da frente da lareira e avisou que tinha presentes especiais. Ele estava usando o estúpido chapéu com chifres de rena que Lucius recusara, mas longe de parecer bobo, estava engraçadinho de um jeito adorável.

– Esse é seu – ele entregou um pacote à Draco, que o rasgou com ansiedade.

– Um chapéu de pirata! – exclamou, deliciado.

– Não um chapéu, o chapéu! Experimente.

Draco colocou na cabeça o chapéu de veludo de três pontas, com uma pena elegante no topo. Ele também ficou engraçadinho, quando supostamente devia parecer mau.

– E esse pra você – estendeu outro, dessa vez uma caixa achatada e longa, para Charlie. Ela lhe lançou um olhar divertido de repreensão, como se ele tivesse acabado de fazer uma travessura.

Bevy demorou a entender o que era, um aro de madeira com as pontas presas a um fio, e algumas flechas com ponteiras de ferro.

– Um arco! Hector! – ela gargalhou de prazer – O que vou fazer com isso?

– Virar uma menina perdida – ele lhe deu uma piscadela marota. Bevy achou que estava perdendo alguma coisa, desde quando Wendy usava um arco?

– E esse pra você – lhe estendeu o menor dos pacotes, era só uma caixinha. Dentro havia um simples, porém bonito sino dourado, preso a um aro que podia encaixar em seu dedo. Ela tilintou algumas vezes, ouvindo som agudo e claro do badalo minúsculo. – Assim podemos nos comunicar sem que ninguém fique sabendo dos nossos segredos.

Ela não entendeu, e lhe olhou confusa.

– Do que está falando?

Hector tinha aquele sorriso, que usava depois de fazer algo que considerava genial.

– Com ele pode me contar coisas na língua das fadas, sua boba. Por exemplo, duas badaladas curtas para sim. Uma longa para não. Duas e meia para “obrigada, primo, adorei o seu presente”.

Bevy estava definitivamente fazendo uma careta agora.

– Isso não parece muito secreto pra mim.

Charlie se curvou para observar o sino, seu arco e as flechas guardados cuidadosamente de volta ao estojo.

– Isso é ouro? Deve ter custado muito caro.

O garoto fez um gesto vago com os ombros, como que para dizer que não importava.

– As fadas falam com ouro, é claro. Como é que justo a minha fada ia ser desafinada?

– BD –

Hogwarts, 1991.


O dia seguinte era Natal, e Bervely acordou com a cabeça doendo. Apesar de ter se enchido de poção do sono na noite anterior, sonhara com o barulho de uma centena de sinos, cada um contando um segredo diferente.

Para a sua surpresa, haviam alguns pacotinhos no pé da sua cama, presentes de Natal que não esperava receber naquele ano.


O primeiro era de Tonks, um livro que se chamava A Incerteza do Eu e parecia terrivelmente com auto-ajuda. Junto, ela embalara um cartão laranja berrante, e sua mensagem ("Alegre-se, hoje tem peru!") piscava em cinco cores diferentes no interior. O segundo era uma caixa de bombons, de Sung, e o terceiro, uma caixa de gravatas com nós perpétuos, com certeza algo que soaria como uma piada na mente perturbada de Rockwood.


Havia um cartão sóbrio, do tom da madeira, que ela descobriu com surpresa ser do Dr. Fritz, lhe desejando um Feliz Natal, e dizendo que sentia falta da sua torta de maçã. Mas nada dos seus tios, que a essa altura já sabiam que ela não pegara o trem de volta para casa.


Nada de Hector ou de Charlotte...


Bervely suspirou e sacou a varinha, tomando seu tempo para conjurar algumas moscas. Quando conseguiu uma boa quantidade, abriu a gaveta do seu criado mudo e as jogou para a Sra. Calliway, julgando que aquele seria um bom banquete de Natal.


Aproveitando a tranquilidade do dormitório vazio, tomou um longo banho, vestiu um suéter cinza claro confortável e não se incomodou em pentear o cabelo, apenas o esfregando com a toalha e arrumou com os dedos. Tia Narcissa sempre se impressionara com a capacidade que cabelo dela tinha em permanecer sempre do mesmo tamanho, na altura dos ombros, a não ser quando por acaso Bervely quisesse que ele crescesse.


Tendo ela própria pulado o café da manhã, não pode mais ignorar a fome e tomou o caminho para o Salão Principal, passando por uma Sonserina deserta e abençoadamente silenciosa. Mais gente das outras casas optara por ficar no castelo, e quando chegou ao salão principal, bateu os olhos na mesa da Grifinória e enxergou a cabeça ruiva do Weasley caçula, metido num horrível suéter marrom, e a de Potter logo ao seu lado, ambos parecendo muito felizes com um bando de brindes de varinhas surpresas.


Ela caminhou para a sua mesa e desviou de três terceiranistas de cabeças juntas, cochichando sobre o seu ensopado de batata. Acabou sentando perto da mesa dos professores, onde estavam Dumbledore, McGonnagal, Hagrid e Snape. O último, como sempre com a cara de que alguém tinha chutado seu cachorro (embora, ela pensou com algum azedume, se Snape tivesse um cachorro, ele seria o primeiro a chutá-lo).


Bevy teve um almoço solitário, contemplativo e nada típico do natal. Todos naquele salão, com excessão dela mesma, tinham alguém para conversar e dividir o pudim, e mesmo não sendo grande fã de pudim, a perspectiva a deixou depressiva. Era três da tarde quando finalmente saiu da mesa, uma resolução formada dentro dela, fruto de muita ruminação, hesitação e imaginação tortuosa ao longo dos últimos meses, mas isso e o quentão em seu sangue a ajudaram a decidir que era hora.


Estava pronta para enfrentar Snape.


Ele já sumira da mesa há algum tempo, e seus pés a levaram para o caminho familiar da masmorra. Ao invés de dobrar a direita para o Salão Comunal da Sonserina, Bervely pegou a esquerda e se deu com a porta da sala de aula de Poções. Por um segundo hesitou com a mão na maçaneta, o coração começando a disparar.


Coragem não era um forte da sonserina, mas então havia a fria determinação que não a deixaria fraquejar agora.


Entrando e aspirando os aromas familiares da sala de poções, atravessou as fileiras de cadeiras e o palco onde Snape se empoleirava para dar as suas aulas. Atrás disso estava a porta em arco para os seus aposentos, e Bervely bateu os nós dos dedos ali antes que pudesse pensar a segunda vez.


Sem resposta.


Tentou uma segunda, com mais força. A porta cedeu, evidenciando um cômodo muito mais amplo do que tinha imaginado. Tratava-se de uma sala com teto baixo e abaulado, as paredes cobertas em cerâmica branca e um longo balcão retangular no seu centro, indo de uma ponta a outra do aposento. Sobre ele, uma variedade de caldeirões, receptáculos de vidro e cristal, tubos e ensaio, instrumentos de prata, balanças de todos os tamanhos.

Nas paredes, prateleiras e prateleiras de ingredientes alinhados em frascos perfeitamente organizados, etiquetados e acomodados. Centenas deles. A visão de tal laboratório de poções a deixou tão extasiada que, por um momento, ela se esqueceu do que estava fazendo ali. Vagou entre as prateleiras reconhecendo ingredientes, alguns realmente muito raros. Os caldeirões então… havia um de diamante, pequeno como um prato de sopa, e um de prata, no qual ela caberia com folga. E um dourado cheio de gravações rúnicas, que com certeza era…

– Srta. Black. – a voz cavernosa a fez saltar. Arrepiada com o susto, deu de cara com Snape, que acabara de sair por uma porta na parede oposta, e parecia num conflito interno para decidir se se preocupava ou se irritava com a sua presença não autorizada em seus aposentos particulares.

– Professor Snape. – saudou. Ao vê-lo, seu rosto carrancudo, sua postura rígida, os olhos enigmáticos, a fria resolução que a levara até ali em pleno natal retornou, transformando seu rosto em uma máscara de lividez.

– Eu quero crer que haja um bom motivo para encontrá-la invadindo a minha privacidade, e que ele me convença a não assinar a sua expulsão antes mesmo das aulas retornarem.

– Você pode me expulsar se quiser – Seus olhos se estreitaram, como ele se atrevia? – Só quero que saiba que eu sei a verdade sobre você.

– A verdade sobre mim? – O mestre de poções repetiu, lenta e perigosamente, os olhos de besouro brilhando.

– Isso. Eu vi na minha ficha, Snape. Eu vi o seu nome. E sei que você se deitou com Bellatrix quando ela não passava de uma menina, e que depois você se acovardou. Isso não o redime da responsabilidade… isso não muda o fato de que você é meu pai.


(Continua…)

Link do grupo no face.

Notas finais
Apenas imaginando a cara do Snape ao ser alvo dessa acusação (risos infinitos). 

¹A Poção da Lealdade é uma invenção da Larii Teefey, que peguei emprestada com a permissão dela. 

 Eu espero que o cap tenha ficado à contento… é natural que se tornem um pouco mais longos, mas sempre escrevo na intenção de que fiquem interessantes o suficiente para não se tornarem cansativos. Me avisem se está sendo assim pra vocês, ok? 
 Ah! Publiquei no grupo do face promos da Tara, Gui, Hector e Tonks essa semana! Quem ainda não viu, ou nem entrou no grupo, tá esperando o quê?? Altas polêmicas rolando lá ;)