Indigna Rosa Negra
19 Surpresas Para a Rosa
Notas iniciais
“– A festa acabou. Os moleques arranjaram uma mãe.”
(Capitão Gancho — Peter Pan, James Barrie)
Ela estava hipnotizada.
Era mais uma manhã clara, viva e quente em Ottery St. Catchpole, e de forma sonolenta Bervely acompanhava os movimentos hábeis de Ted Tonks na produção de uma série de panquecas de mirtilo.
– Ele arrasa, não é? – bocejou Tonks ao seu lado, o cabelo tingido num amarelo preguiçoso, espalhado desordenadamente sobre o rosto em formato de coração. – Papai é o melhor dos melhores em fazer panquecas pirotécnicas.
– Panquecas pirotécnicas? – estranhou, ainda sem tirar os olhos da movimentação habilidosa do homem, que se revezava com o esguichadores de massa e três tipos de calda, montando ao mesmo tempo quatro torres de panquecas, cada uma em um prato. Sua voz saiu arrastada de sono.
– É só um jeito de explicar porque quando ele termina, tem calda até no teto. Como se tivesse havido um show de fogos… mas com caldas. Ah, você me entendeu. – com um gesto com as mãos, ela esbarrou na caixa de suco.
– Ah. – Bervely segurou a caixa bem a tempo e tirou-a do alcance da lufa-lufa. – Tal pai, tal filha, percebo.
A outra lhe deu língua, em seguida coçando os olhos inchados. A razão pela qual estavam ambas sonolentas era porque tinham ficado, até muito tarde na noite anterior, formulando o texto de apresentação de Tonks para a inscrição na Academia de Aurores. Não era uma coisa fácil de fazer – precisavam listar todas as suas competências e realizações da sua trajetória escolar e prêmios e, ao mesmo, mascarar os pontos negativos. É claro que ela tinha deixado aquilo para a última hora e estava se desesperando-se para enviar tudo dentro do prazo. Aparentemente a seleção feita pela Academia era bem rigorosa, e era preciso começar a aplicação com um ano de antecedência, se quisesse entrar assim que terminasse a escola.
Ted colocou a sua obra final na frente delas – uma torre tão alta que daria conta das suas três refeições – e Bervely reparou que ele tinha calda de amora no cabelo.
– Bom apetite, meninas. Vou levar o de Andie na cama, ela chegou do plantão completamente acabada. E sim, eu sou um marido tão fantástico, que estou levando café na cama mesmo sabendo que não tenho chances de me dar bem hoje.
– Pai! – Tonks exclamou, as pontas do cabelo ficando cor de rosa, mas Ted já estava saindo, dando umas gargalhadas audíveis da sala de estar. Ela rolou seus olhos de volta para Bervely – Aposto que não havia esse tipo de comentário constrangedor na mesa de café da manhã dos Malfoy.
– Hum, não. Sem comentários engraçadinhos para a Família Perfeita. – ela disse zombeteira, experimentando uma garfada e confirmando que eram as melhores panquecas que já comera.
– Que entediante, hein? – comentou, divertida, mas depois pareceu pensar por um momento. – Sente falta deles?
Não respondeu de imediato, se demorando enquanto mastigava. Ela não tinha o que reclamar a respeito dos seus dias em Ottery, até o momento. Era… calmo. De uma forma que nunca pensara ser possível. Sem horário certo para dormir ou acordar, muito tempo livre para fazer nada, comida feita por gente, não por elfos…
E ai havia os Tonks. Não os compreendia por inteiro, como podiam ser… tão tranquilos o tempo inteiro. Sorrindo e sendo gentis uns com os outros apesar de trabalharem tanto, Andrômeda no hospital e Ted Tonks na oficina nos fundos da casa. ela não sabia que havia gente no mundo assim… leve.
– Não realmente – respondeu enfim, só porque Tonks começara a lhe olhar de um jeito engraçado – acho que é recíproco.
– Então eles não te procuraram? Nenhuma carta?
Deu de ombros. Não esperava nada como isso, Lucius fora claro o bastante sobre o que significaria caso optasse por deixar a Mansão, e ele não era o tipo de pessoa que voltava atrás em sua palavra. Bem como Narcissa não era o tipo de pessoa que desafiaria a palavra dele, mesmo se ela quisesse, o que Bervely não achava que fosse o caso.
– É melhor assim. É um alívio, na verdade. E quando eu descobrir como usar minha herança, vou poder resolver as coisas e deixar vocês em paz. – completou, suavizando o tom no final – não que eu não aprecie sua hospitalidade, é só que…
– Só que você é orgulhosa demais para aceitar que somos sua família, e que não há nenhuma razão para que saia daqui, a não ser para Hogwarts, em setembro.
Não era a primeira vez que chegavam naquele ponto crítico da conversa, do qual Bervely procurava desviar. Porque não importava o quão verdade fosse que Andrômeda era irmã da sua mãe, isso não a tornava a sua família – ela não era uma Black, renunciara à isso, e não havia um caminho de volta para tal decisão.
Como sempre, contornou o assunto. Discuti-lo com Tonks, como bem sabia, só servia para deixar o seu cabelo e olhos num azul elétrico perigoso.
– Eu nem sei se vou pra Hogwarts. Tenho certeza que Lucius cancelou o pagamento do ano letivo.
– Ora não seja ridícula. Dumbledore jamais permitira que você não voltasse para o seu sexto ano. Ele vai dar um jeito.
Ela ficou calada, mas intimamente esperava que fosse verdade. Nunca admitira para si mesma o quanto gostava da escola até descobrir que poderia não retornar… sentiria falta do salão comunal verde e prata, das masmorras de poções, da tortinha de limão no café da manhã, e até das colegas de quarto irritantes.
– Vai ficar tudo bem, Bervely. Basta pensar positivamente. – garantiu-lhe, com um sorriso de encorajamento luminoso.
Era fácil para ela, pensou, falar uma coisa daquelas. Tinha crescido em Ottery, naquela casa pequena rodeada de flores e pais sorridentes. Onde as coisas davam certo, simplesmente porque haviam pessoas ao seu redor sempre prontas para garantir que assim fosse.
Mas não consigo. Não havia ninguém por ela, percebeu, cercando-a da certeza de um futuro seguro. Estava por si mesma, mais do que nunca, e por mais que no momento a bolha de “existência caipira” de St. Catchpole ofuscasse as dificuldades que enfrentaria a partir dali, não mudava o fato de que estaria, para todos os efeitos, sozinha.
– BD –
As semanas se desenrolaram preguiçosas e meio misturadas. Havia sempre algo para preencher o dia, e algo a se esperar para o próximo, de forma que Bervely acabava adiando o compromisso de pensar o que faria da sua vida dali pra frente. Primeiro ela ajudou Tonks a colocar ordem em seu quarto caótico, porque se precisavam compartilhá-lo, em algum momento as roupas todas teriam de voltar a morar no guarda-roupas, e a coleção de revistas TeenWitch precisavam parar de disputar os espaços de movimentação e superfícies de apoio com elas.
Depois houve aquele grande pedido de mesas expansíveis que Ted recebeu de uma rede de restaurantes em Silkpuff, e ele requisitou a ajuda delas para entregar a tempo. Bervely resistiu à tarefa; ela achava o trabalho de marcenaria muito pouco digno de uma bruxa puro sangue – mas até que foi divertido. Ted as deixou cuidar da pintura, com spray de tinta vermelha, e era engraçado assistir Tonks lutar com o trabalho e acabar deixando tudo tinturado, desde a área de trabalho até ela mesma, menos as peças de madeira.
Por fim, houve uma infestação no pomar, devido ao excessivo calor do fim de julho, e Bervely aprendeu que existia uma coisa chamada “desgnomização”: um atroz trabalho de lançamento de gnomos que as deixava cobertas de terra e de mordidas, mas trazia um inexplicável sentimento de realização no fim do dia.
Com tudo isso, e ainda os frequentes passeios pelas colinas de Ottery, idas ao vilarejo próximo para fazer as compras (que eram responsabilidade de Tonks durante as férias) e algumas lições teóricas de aparatação que a garota resolvera lhe dar, um dia Bervely acordou ao som de uma topada da sua anfitriã, e descobriu que era agosto.
Abriu os olhos pesados e tentou entender o que Nimphadora estava fazendo acordada tão cedo, mas tudo o que viu foi um monte de roupas voando das gavetas. O modo como a garota tratava o tema ‘organização doméstica’ fazia seu coração doer.
– Nimphadora…
– Não me chame disso! E até que enfim você acordou! Pela bunda suada de Merlin, levanta dessa cama, vamos fazer alguma coisa, está um inferno de calor lá fora!
– Hum. – resmungou, se sentando. Como uma pessoa podia ter um nível tão elevado de energia de manhã cedo era algo que nunca entenderia – Que tal não ir lá fora, então? O que tanto você procura??
– Uma roupa de banho!
– Não seria essa que já está em seu corpo, seria? – sugeriu ironicamente. Conhecendo bem Tonks, não duvidava que ela tivesse esquecido que já tinha vestido a peça, que no caso era um maiô borgonha aberto nas costas.
– Não pra mim, espertinha. Pra você. – foi o seu muxoxo em resposta.
– Porque eu preciso de roupa de banho? – questionou com certa preocupação, bem mais desperta.
– Estamos indo nadar no rio e pegar um bronzeado saudável. – lhe deu uma olhada de esguelha, acusadora – As férias estão acabando, e você continua mais pálida que a Dama Cinzenta. Um pouco de cor só vai te fazer bem…
– Mas eu tenho a pele sensível…
– Aqui! – exclamou, ignorando completamente seu protesto. Nas mãos, sacudia algo verde que Bervely esperava que fosse só um terço da roupa de banho que ela estava procurando – Bem sonserino, vai cair bem em você.
Ela recebeu a peça de roupa com forte ceticismo.
– Quantos anos tinha quando isso coube em você? Dez?
– Larga de ser puritana, quanto menos pano mais acesso você dá ao sol.
– E à libertinagem!
Tonks deu uma gargalhada e lhe garantiu que não haveria mais ninguém no rio além delas, ao mesmo tempo que a enxotava para trás do biombo a fim de experimentar o biquini.
Meia hora mais tarde, elas encontraram o lugar perfeito às margens do rio Ottery para estender a toalha listrada sobre a relva e desfrutar o sol, ao mesmo tempo que, por insistência de Bervely, havia uma sombra próxima o suficiente para que não torrassem antes da hora do almoço.
Tonks explicou no caminho que o rio cortava o condado de Ottery ao meio; leste de Ottery e oeste de Ottery. Seguindo seu curso chegava-se ao vilarejo, e atravessando a pequena ponte em arco sobre a água, a alguns minutos do chalé, alcançava-se o lado oeste, onde ficavam os melhores lugares para tomar banho. Naquela margem haviam elevações gramadas e pedras planas, pouca correnteza, uma pequena queda d’água e vista para a colina, onde os cavalos selvagens gostavam de pastar. Bervely não era especialmente afeita àqueles animais, mas eles sentiam o mesmo em relação aos humanos, e tendiam a se manter distantes.
A garota arrancou a camiseta e se estirou na toalha com a roupa de banho, expondo o corpo aos raios de sol sem pudores, encorajando Bervely a também se livrar da camisa larga das Harpias de Hollyhead que vestira (emprestada, como todas as roupas que vinha usando). Apesar de preocupada com os feitos danosos do sol (se lembrava bem das noites na Normandia, onde estava sempre com a pele ardendo, não importava quanta poção bloqueadora usasse durante o dia), disse a si mesma que era só um pouquinho, enquanto o sol ainda não estava alto no céu.
– Acho que vou largar Estudo dos Trouxas – anunciou Tonks, continuando a conversa do dia anterior sobre as suas difíceis decisões para o currículo do sétimo ano. – Não é obrigatória para a carreira de auror, além do que esse ano eles começam a abordar assuntos realmente cabeludos. Eu vi no programa que tem um bloco inteiro sobre mecânica de automóveis, acredita nisso?
– Eu não sei pra que pegar uma matéria tão estúpida, pra começo de conversa.
– Me rendeu um Excede Expectativas nos N.O.M.s – justificou, orgulhosa. – Não dá pra reclamar…
– Mas você trapaceou, qualquer um teria ido bem se tivesse algo como uma teclevisão na sala de estar.
– Televisão. – corrigiu de forma automática – E você, já decidiu seus N.I.E.M.s?
– Já. Poções. – disse, decidindo esticar-se sobre a toalha e aproveitar enquanto o sol ainda não estava tão agressivo. Além do mais, havia uma brisa fresca soprando na direção do rio.
– Vai precisar de no mínimo quatro. E tem que ver quais são obrigatórias para a carreira que pretende seguir.
– Poções. – repetiu, como quem encerra a questão.
Com um suspiro de graça resignada, Tonks se levantou em um pulo e tirou os shorts jeans desfiados, anunciando que ia dar um mergulho. Ela contrastara a cor do seu maiô com um cabelo loiro platinado, quase branco até os seus ombros. Os olhos acompanhavam o tom da roupa, uma cor que olhos humanos simplesmente não eram supostos a ter.
– Afinal, como você faz isso? – inquiriu com certa impaciência. Convivendo com Tonks por todas aquelas semanas, permanecia um mistério a sua facilidade em mudar as próprias características físicas de forma tão ridiculamente fácil – Ninguém é tão bom em transfiguração. Ainda mais sem uma varinha!
A garota lhe deu um olhar longo e enigmático por trás dos cílios quase brancos, lá de cima. Meio como se estivesse considerando se Bervely era digna do seu segredo.
– Aposto que conseguiria também, com um pouco de prática – seu tom foi anormalmente sério, o que contribuiu para a certeza de Bervely de que estava sendo zombada.
– Ah, não enche. Acho que vou largar Transfiguração. Ninguém merece aturar McGonnagal mais dois anos.
Ela torceu o rosto em uma careta ofendida.
– Assim você pode dedicar seu tempo em aturar o queridíssimo Snape, a quem tanto amamos, em tempo integral. – seu tom era definitivamente debochado agora. Ela não podia entender a admiração que Bervely tinha àquele professor, e esta nunca lhe contara — nem a ninguém, que ele era o seu padrinho. Tonks suspiro, sonhadora – Se eu pudesse largar poções… mas é obrigatório para o programa. – de desanimada, sua expressão se transformou em enérgica rapidamente – Vou dar uma mergulho em homenagem ao nosso mestre de poções, por todos esses anos que ele tem se mantido longe da água, a fim de manter o viço e luminosidade inigualáveis daquele maravilhoso cabelo! Você me acompanha?
– Ainda não, deve estar muito fria. – resistiu, mordendo a língua para não defender o professor. – Mais tarde.
A lufa deu de ombros e saiu correndo em direção à agua, saltou de uma vez e começou a gritar lá de dentro, enlouquecidamente:
– Fria! Friaa! Friaaaaaa!
Bervely balançou a cabeça, rindo, e se permitiu fechar os olhos. Não era capaz de se lembrar na última vez que deitara numa relva, sob o sol, sentindo a pele ser acolhida lentamente pelo calor, e se entregar ao chão, relaxando completamente. Era como se não tivesse nada com que se preocupar… e dai que não tinha uma casa, dinheiro, ou nem mesmo sabia o que aconteceria com ela esse ano? Se sentia estranhamente bem.
Distraída, mexia na coleira presa ao seu braço, pensando em como ela vinha sendo efetiva em protegê-la dos pesadelos com Bellatrix. Um amuleto, o Dr. Fritz lhe dissera, no que parecia ter sido há muito, muito tempo agora. Talvez fosse… talvez funcionasse para outras coisas, além de manter longe os pesadelos. Sentindo os padrões ásperos do couro desgastado na ponta dos seus dedos, acabou adormecendo sem perceber.
– BD –
– Fascinante.
– Só aparecem quando ela está dormindo?
– Eu diria que isso é uma evidência… podemos tirar a prova.
– Você sabe o que isso envolveria.
– Não me diga que está com medo…
– Ela pode ser bem perigosa quando fica brava, já vi acontecer.
Bervely lutou contra as anáguas do sono, tentando compreender de onde viam todas aquelas vozes, que pareciam pairar sobre si. Quando enfim conseguiu abrir os olhos – um pouco desorientada, sem saber exatamente onde estava – a visão de quatro cabeças ruivas lhe olhando contra um céu muito azul quase lhe causou um ataque cardíaco.
– Mas que diabos!? – exclamou, sentando-se abruptamente e agarrando a camisa das Harpias para cobrir-se.
– E lá se vão elas – murmurou um deles tristemente, enquanto com alguma confusão identificava de onde conhecia aqueles rostos.
Tonks lhe garantira que ninguém ia àquela parte do rio, mas ela tinha certeza que estava olhando para pelo menos metade da prole Weasley. Quem tinha acabado de falar era um dos gêmeos, e o outro lhe olhava curiosamente. Um terceiro fez seu estômago doer, e o quarto — a quarta, na verdade, ela demorou para perceber que era Nimphadora, usando os cabelos ruivos.
– Alô, Black! – cumprimentou o terceiro Weasley identificado.
– Hey, Guilherme – devolveu, com a certeza de que seu rosto estava queimando, e não era porque tinha tomado muito sol. Porque precisava desviar do olhar dele, se voltou raivosamente para a amiga – Nimphadora, esqueceu de avisar que os seus amigos estavam vindo?
A recém-ruiva tinha uma expressão mista de culpa e divertimento.
– Eu não sabia. Eles moram por perto, passaram voando há alguns minutos, nos viram lá de cima e resolveram descer para dar um alô.
– É isso ai – disse um gêmeo. – Alô!
– Alô! – disse o outro, com um sorriso de lado – É um belo e muito conservador biquini que você tem ai.
Com mais um olhar mortal para Tonks, ela vestiu a camisa de qualquer jeito sobre o corpo e cruzou seus braços.
– Você sabia que tem sardas que só aparecem quando está dormindo? – disse Gui Weasley, o qual ela só estava vendo pela sua visão periférica, muito propositadamente. A voz dele, intrigada, parecia o gole de um raio de sol, ao mesmo tempo em que arrepiava os pelos dos seus braços.
– Eu não penso que isso possa ser possível. – disse com secura.
– Nós estávamos aqui pensando no que mais você pode fazer e não se dá conta. – disse o gêmeo número um (ela decidiu apenas atribuir um numero a cada um deles de acordo com a cor das suas camisas) – Tonks acha que você pode fazer surgir uma espinha na ponta do seu nariz caso se concentre o bastante.
Ela fez questão de olhá-lo como se ele tivesse perdido o cérebro em algum tombo de vassoura.
– Do que diabos você está falando?
– Deixem ela em paz – Gui deu tapas no topo da cabeça de seus irmãos mais novos irritantes, enquanto eles riam com se tivessem acabado de fazer alguma piada – Vocês não iam apostar quem nada mais rápido com a Tonks? Vão logo.
Os dois trocaram olhares cheios de significado e sorrisos de lado, então correram, porque Nimphadora a essa altura já estava se jogando no rio novamente, espirrando água para todos os lados. E embora fosse um alivio não estar sob o olhar dos outros três, ela descobriu que não era muito mais confortável ser alvo da atenção exclusiva de Gui Weasley. Era difícil não reparar no fato de que ele estava sem camisa, e que seu cabelo solto e longo caia sobre as clavículas muito marcadas.
– Pensei que não veria mais você. – ele comentou casual, provavelmente a fim de quebrar o silêncio tenso que se instalara – não sabia que frequentava a casa de Nimphadora.
– Eu não frequentava. – forçou a si mesma a falar. Ainda estava lidando com o fato de que ele lhe vira adormecida e usando apenas aquele biquini minúsculo estúpido de Tonks. Ia matá-la quando chegassem em casa.
– Ah, e tem gostado de Ottery?
– É. Até que não é mal. – disse resumidamente. O bolo em sua garganta lhe impedia de formar frases muito longas, por algum motivo.
– Já foi até a colina de Stoatshead?
– Quê? Não… não.
Ele era tão relaxado, ao contrário dela. Esquecera-se de como era grande, ocupava a maior parte da toalha e suas pernas estendidas para a frente pareciam intermináveis. Pare de olhar para as pernas de Weasley.
– Você devia, é incrível no pôr do sol. Eu te levaria lá, se não estivesse indo embora amanhã.
Esqueceu tudo sobre as pernas. Ele estava o quê?
– Ah, é mesmo? – falou, com o que pensou que fosse um tom de quem estava jogando conversa fora – embora pra onde?
– Egito. O banco me transferiu para a filial egípcia, ótima promoção realmente, é apenas… um tanto longe da família. Não dá pra ficar indo e voltando, sabe? A regulamentação de transporte internacional fora da Europa é muito rígida, e essas coisas. Vou demorar a aparecer de novo.
– Ah. – ela disse, ordenando ao seu rosto que ficasse neutro, e não deixasse transparecer a estranha fisgada de dor que sentira com a notícia. – Sinto muito.
– Nah, tudo bem. – ele fez um aceno com a mão grande, em seguida a levando para os cabelos e afastando-os do rosto com displicência. – eu gosto da aventura. Vou sentir falta de Ottery, no entanto. Aproveite isso aqui por mim.
– Hum. – foi tudo o que conseguiu dizer.
Lá do rio, observava os gêmeos e Nimphadora se aproximarem cada vez mais da queda d’água que, embora fosse pequena, era inadvertidamente profunda. Aparentemente a brincadeira era submergir e tentar puxar os pés um dos outros de surpresa, tentando fazê-lo se afogar. Uma brincadeira bem boba, em sua opinião.
– Se eu te fizer uma pergunta um pouco pessoal – ele começou de repente, a voz soando um pouco mais ansiosa do que antes – você se importaria?
Seu coração começou a bater um tantinho mais rápido sem aviso. O que raios Guilherme Weasley teria de pessoal a lhe perguntar?
– Vá em frente. – disse, querendo soar neutra, mas talvez falhando. – Mas saiba que se for informação confidencial, vou ter que lhe matar depois.
Ele deu uma risadinha, se descontraindo um pouco. O som da risada dele, por sua vez, só fez o coração dela bater mais rápido.
– Eu soube que…
Mas o que ele soube ela não chegou a ouvir, pois um grito vindo do rio o interrompeu, e não era parte da brincadeira do trio na água. Vinha de Tonks, e era um pedido de socorro estrangulado.
– Ela está se afogando! – disse um dos gêmeos, a voz arranhada de medo – Eu não consigo ir até lá, é muito fundo!
Gui saltou do seu lugar ao lado dela e foi correndo para o rio.
– Onde está Fred? Jorge, onde está Fred?
– Eu não sei! Ele estava tentando puxar o pé dela e sumiu! Eu acho que tem alguma coisa no rio!
Atordoada, ela também se levantou e correu para a borda da água, de onde podia ver um debater confuso de braços sob a revoltosa queda d’água.
– Nimphadora! – chamou, em pânico.
Ela não sabia nadar, e era uma razão boa o suficiente para não ter entrado na água, mas o que ia fazer agora? Não sabia nenhum feitiço que funcionasse para a ocasião, e se jogar na parte funda era a certeza de que se afogaria também. Mas, o que pensaria Andromeda ao saber que sua filha tia sumido no rio? Ia culpá-la, com certeza, ela quem tinha sido a sua companhia…
– Eu vou pegá-la – avisou Gui, num tom eficiente. Dito isso, ele mergulhou num arco perfeito e estava perto de Tonks em cerca de dez braçadas longas e eficazes. Bervely mal piscou, e o Weasley mais velho já retornava, um braço trazendo uma Tonks mole pela cintura, o outro içando o corpo para fora da água.
A coisa toda foi tão rápida e confusa, e ela estava tão nervosa, que nem percebeu que o outro gêmeo aparecera do nada para completar o circulo em torno do corpo de Nimphadora deitado no chão.
– Ela pode ter engolido água. Fred, pegue a minha varinha.
– Você não trouxe a sua varinha! Deixamos as varinhas em casa, esqueceu?
– Droga. Vou ter que fazer ao modo trouxa…
Ele se inclinou sobre a garota desmaiada, com uma mão tampando o seu nariz e com a outra, abrindo a sua boca, sob os olhares ansiosos. Bervely não fazia ideia do que ele queria dizer com “o modo trouxa”, mas estranhamente parecia que ele ia beijá-la…
Até que Tonks começou a se contorcer e fazer um ruído estranho e guinchado no chão, que parecia um ataque. Demorou para que entendesse que ela não estava morrendo, mas dando uma gargalhada.
– Seus idiotas! – Gui exclamou, fulo da vida, reerguendo o corpo e se levantando – Não dá pra acreditar!
– Vocês precisavam ver as suas caras – ofegou o gêmeo dois, mal conseguindo parar de rir para falar – Gui ficou da cor de tomate maduro…
– Mas nada comparado à Black, cara, você está bem? Seu rosto está da cor da cera de uma vela…
– VOCÊS ESTAVAM FINGINDO? – ela explodiu, toda a sua tesão virando raiva muito facilmente – Sério, Tonks? Sério??
– Me desculpe – a garota riu, ainda do chão e completamente molhada, mas obviamente não afogada – foi por um propósito nobre.
– Vocês são inacreditáveis – Gui suspirou, jogando as mãos para o alto – não sei porque ainda me surpreendo.
– Falhamos miseravelmente. – o gêmeo número um, que Bervely começava a desconfiar que era o Fred, lamentou com pesar. – Mas não desistiremos. Rumo à segunda etapa do teste!
– Não vai haver droga de segunda etapa nenhuma – o ruivo mais velho praguejou, transtornado – Estou levando vocês para casa agora mesmo. Bem que mamãe falou que vocês conseguiam piorar quando se associavam à Tonks — nada pessoal, Tonks – acrescentou, com uma careta – Não vou deixar fazerem isso. Vamos!
– Estraga prazeres – gêmeo dois, Jorge, fingiu um suspiro triste. Mas ele se voltou para Tonks e estendeu a mão para ajudá-la a levantar – a gente continua na escola, onde não vai ter esse ranço de monitor chefe pra nós torrar a paciência.
– Feito! – ela bateu sua mão na dele.
– Sinto muito, Black – Gui se desculpou, encolhendo os ombros para ela – é melhor levar essas crianças selvagens para casa antes que causem mais estrago. Continuamos nossa conversa depois?
– Claro. – confirmou, confusa.
– Tchau para você, sua cabeça de vento. – ele deu um tampinha na testa de Tonks, à guisa de adeus – Carlinhos manda lembranças.
Antes que Bervely pudesse compreender o que tinha acabado de acontecer ali, os três Weasley montaram em suas vassouras e levantaram voo, sumindo de vista no céu azul e luminoso em direção oeste.
– Ufa, isso foi intenso. – disse Tonks, completamente relaxada, sorrindo para onde os meninos tinham sumido – Acho melhor irmos pra casa, já está perto da hora do almoço, e você está ficando perigosamente cor de rosa.
– Eu não estou cor de rosa de queimada, e sim de irritada. Será que dá pra me explicar que palhaçada foi essa que acabou de acontecer aqui? Que conversa é essa sobre etapas e teste?
A lufa-lufa deu um suspiro pesado de antecipação, e começou a catar as coisas delas espalhadas pela grama, assim evitando olhar letal que recebia da prima.
– Fred e Jorge só estavam me ajudando a confirmar uma teoria que eu tenho.
– De que pode matar pessoas do coração sendo completos idiotas?
– Não. Tenho certeza que eles já provaram essa antes. – ela riu, até encontrar o olhar de Bervely e ficar séria de novo – é sobre você. Tentamos gerar uma situação que lhe causasse stress, na esperança de descobrir o seu gatilho.
– O meu gatilho? – ela repetiu, estranhando a palavra completamente.
– É. Todo metamorfomago tem um. Normalmente é uma emoção intensa que desencadeia a sua transfiguração de forma involuntária.
– Ok, agora você não está fazendo nenhum sentido e eu estou perdendo a minha paciência. – talvez fosse a fome, talvez fosse o calor ou o susto pelo qual acabara de passar, mas aquela conversa estava deixando Bervely muito aborrecida.
– Você sequer folheou o livro que eu te dei de Natal? – Tonks cortou o assunto, um tanto acusatória.
– Quê? Aquele de auto ajuda? Lógico que não, deixei em Hogwarts.
– A Incerteza do Eu não é auto ajuda! É um guia básico de autoconhecimento para bruxos que suspeitam ser metamorfomagos. Você saberia se tivesse se dado ao trabalho de ler pelo menos a introdução!
Ele apertou a ponte do seu nariz, puxando ar e esperançosamente, alguma paciência.
– Tonks, não faço ideia do que está falando.
– O que me faz pensar como pode ser tão inteligente em alguns aspectos, e completamente omissa para outros. Mal da família Black, eu suponho. Escuta, você nunca experimentou mudanças de aparência física a partir de estados emocionais muito intensos? O seu cabelo, por exemplo! Ele estava definitivamente cinza quando fui te buscar no Caldeirão Furado no começo do verão, lembra?
– Aquilo foi o reflexo da luz… – defendeu-se, cruzando os braços.
– Ah, corta essa. Deve ter acontecido antes. Sempre há um formigamento quando vai acontecer, mas às vezes é bem discreto, outras não. Você pode mudar o seu cabelo, a sua pele ou a cor dos seus olhos, isso é o mais fácil… se for uma emoção realmente forte, pode mudar aspectos inteiros da sua aparência física.
Ela mordeu o lábio, nervosamente. Andrômeda contara à Tonks sobre a sua mudança de face, sobre ter ficado presa com o rosto de um personagem de um livro infantil durante meses? Lhe parecia improvável, mas e se aquela fosse a explicação? E se não fossem sinais de emissões mágicas intracorpóreas impuras, afinal das contas?
– Não tem problema não entender sobre isso, é uma habilidade bem rara. Corre nas famílias bruxas, e é meio hereditário, mas pula gerações. Acho que uma tataravó nossa, Belvina Black, também era. E eu sou, é assim que consigo mudar minha aparência sem varinha.
Bervely teve um vislumbre de uma bruxa de longos cabelos loiro-platinados destoando do restante dos Black, numa foto do Signo Negro. Mas não estava completamente convencida.
– Como posso ser metamorfomaga e não saber? – questionou, insegura. – Isso é… você sempre soube, não é? Tem fotos com você de cabelo azul desde que era um bebê, no chalé.
– Vai de pessoa pra pessoa. – ela deu de ombros – Às vezes demora muitos anos para aparecer, e mais ainda para controlar. Eu mesma só sei o básico, tenho um monte a aprender ainda. Se você realmente quiser… podemos praticar juntas.
Tonks sorria, muito empolgada com a perspectiva de terem algo em comum e que podiam fazer juntas, mas Bervely sentia um calafrio de incerteza em seu interior. Hereditário, ela dissera… correndo da família Black… correndo em seu sangue, e no sangue de Nimphadora, que tinham de ser iguais…
Tonks era filha de uma traidora do sangue, uma inegável desonra para a linhagem dos Black, e ainda assim carregava uma habilidade especial como aquela. O que impedia de ela, Bervely, que da mesma forma abandonara a sua casa e cortara laços com Narcissa, a última Black honrada, de também ser indigna do seu sangue, de também ser uma traidora?
– BD –
Agosto fluiu quente e distraído como julho o fora, com a diferença de que agora Bervely tinha muito no que pensar, e como conseqüência as noites inquietas estavam retornando. Talvez fosse a proximidade do ano letivo lhe deixando tensa, a incerteza de voltar ou não à Hogwarts, os rumos da sua vida, aquela coisa toda sobre metamorfomagia, assunto o qual não tocara com Tonks novamente… até a “pergunta pessoal” que Gui Weasley não lhe fizera atormentava o seu sono.
– Apenas tome uma poção do Sono – Tonks tinha lhe sugerido, uma semana depois do episódio do rio, preocupada com o tamanho que suas olheiras estavam adquirindo dia após dia – De vez enquanto não faz mal. Pode pegar no armário de poções de mamãe, sob a escada, ela não deixa trancado.
Bervely obedeceu a sugestão naquela noite… e nas noites depois dessa. Havia um bom estoque no armário, e contava em fazer a reposição assim que tivesse acesso a um caldeirão, de preferência ao seu próprio, que deixara em Hogwarts junto com o resto do seu material escolar (o que era uma sorte porque, de outra forma, ia ter que arranjar tudo novamente, provavelmente de segunda mão, e aumentar suas dívidas com a família Tonks ainda mais). As poções não eram fortes e eficazes como a receita que adaptara no hospital, mas davam para o gasto: provocavam um sono entorpecido e meio abafado, mas definitivamente sem sonhos ou pesadelos.
Um dia antes do meio de agosto as corujas de Hogwarts finalmente chegaram: sim, corujas no plural, havia uma para Tonks e uma para ela, para o seu imenso alívio. Nada de anormal na sua carta, apenas os parabéns pelos N.O.M.s adquiridos e o convite pra cursar o sexto ano, além da lista de material a levar, condicionais às matérias que pretendia cursar.
Talvez Lucius não tivesse cancelado a sua matrícula na escola. Lhe parecia imensamente bondoso da parte dele, uma palavra que destoava em absoluto de tudo que ela sabia sobre o tio.
– Ótimo em Poções, que inesperado – Tonks olhou por cima do seu ombro as suas notas – Ótimo em Herbologia e História da Magia? Quem tira nota máxima com Binns? Sua aberração. – zombou, mas sem esconder a sua surpresa.
– Me deixa, eu gosto de datas e fatos. – resmungou, rolando seus olhos. Era café da manhã e Andrômeda chegara mais cedo do plantão, por isso também estava ali e lhe olhava com um sorriso orgulhoso meio constrangedor.
– Você passou em Transfiguração! – exclamou Nimphadora, lhe agarrando pelo pescoço numa espécie de abraço-estrangulamento – minha pupila, que orgulho!
– Foi só um Aceitável – se defendeu, livrando-se do aperto.
– Ainda assim! O que mais? – tentava espiar, enquanto Bervely fazia de tudo para tirar o papel do seu alcance ao mesmo tempo que queria terminar de olhar – Excede Expectativas em Astronomia! Nada mal, B.! E você passou em DCAT também!
– Cinco NOMS! Parabéns, querida – Andromeda lhe deu uma piscadela – Isso merece uma comemoração, não acha, Ted?
Eles trocaram um olhar cúmplice. Bervely ficou ligeiramente assustada, porque por um momento eles pareceram tão perigosos quanto os gêmeos Weasley, e ela teria gostado de saber o que estavam aprontando.
– Me dê aqui a sua lista de matérias – Ted a tirou antes que Bervely pudesse impedir – Vou no Beco hoje a tarde, posso dar conta disso. Dê aqui a sua também, filha.
– Não precisa… – ela começou a protestar, mas Tonks enfiou uma rosquinha em sua boca, proativa.
– Shiu. Engula o orgulho ou vai ficar sem livros esse ano. Já viu a lista de DCAT? Todos os livros do Gilderoy Lockart. Dizem que ele é um ávido combatente das forças das trevas, espero que o professor desse ano explore bastante o material que pediu. Preciso arrasar nos NIEMs pra a Academia sequer me considerar…
Bervely mastigou sua rosquinha, ouvindo mais uma vez a conversa obsessiva de Nimphadora sobre a Academia, que só aumentara com a confirmação do recebimento de seus documentos e a abertura do seu dossiê, notícia que chegara há alguns dias.
Quisera Bervely ter tanta certeza do que faria sobre o seu futuro como a outra garota. Tinha a impressão de que assim, talvez pudesse encarar as incertezas do presente com mais facilidade.
– BD –
Para ser honesta consigo mesma, devia ter desconfiado. Era bem típico de uma família como os Tonks fazer algo como aquilo, porque não se prevenira? Teria lhe poupado um bocado de constrangimento.
Mas não: um par de dias após o recebimento dos seus NOMs, entrara em casa após uma caminhada despretensiosa com Tonks “para ver as margaridas da trilha oeste” (como diabos caíra nessa?) e quando voltaram para o chalé, foram recebidas com gritos de “surpresa!!”.
Bervely nunca tivera uma festa de aniversário surpresa na vida, e não fazia idéia de como se portar, então na maior parte do tempo só deve ter parecido imperdoavelmente abobalhada. Tonks colocou um chapéu cônico em sua cabeça, do qual ela se livrou dele na primeira chance, espetando-o no cabideiro.
Havia um bolo, enorme e verde e prata, com o seu nome escrito nele e votos de felicidade. Era terrivelmente amador – nada comparado com os bolos elaborados de andar que os elfos da Mansão faziam – mas ela desconfiava que estava delicioso, se fora feito por Ted.
Havia decoração. Uma faixa pendurada na parede da sala, que dizia “Feliz Aniversário, Bevy”, e a se julgar pelas marcas acidentais de dedos em torno dele, e a profusão descombinada de cores, desconfiava que fora pintado pelas mãos desastradas de Nimphadora. Balões flutuantes e bandeirolas (também verde e pratas), e todo mundo estava de chapéu cônico.
O que a levava aos convidados. Bervely não fazia ideia de que tinha convidados até vê-los todos reunidos naquela sala, vindo lhe cumprimentar. Alguém tinha decidido que era uma boa ideia chamar os gêmeos Weasley (ela podia desconfiar de quem…) e quando vieram apertar a sua mão, lhe prometeram “sem testes hoje”, com sorrisos angelicais perfeitos. Eles também lhe disseram que “por pouco não trouxeram Harry Potter”, mas ela achou que era uma daquelas piadas internas dos gêmeos, ao invés de uma possibilidade real. Havia um colega lufa-lufa de Tonks, Cedrico, que ela sabia que também morava perto, e com quem conversara um par de vezes no vilarejo. Mas o mais surpreendente foi ver ali Sia Rockwood e o Dr. Fritz – ambos completamente deslocados de seus habitats “naturais” (o colégio e o hospital, respectivamente), e parecendo portanto, estranhamente “comuns”.
– Você está ótima – avisou-lhe Sia, com um sorriso cheio de dentes, mas a verdade é que ela quem estava ótima, numa saia colada e bata de mangas azul clara – quem é aquele pedaço de mau caminho ali no canto, conversando com seus tios?
– Quem? – perguntou, confusa. Só estava vendo o Dr. Fritz, e além do mais estava tentando entender como Sia chegara a ser convidada para aquela festa, e porque sabia que os Tonks eram seus tios… provavelmente eles estavam trabalhando naqueles planos nefastos de festa surpresa há um bom tempo pelas suas costas – Você não quer dizer…
– Sim, eu quero dizer o tio de cavanhaque.
– Ele é… velho. – rebateu. Quase dissera “ele é o meu medibruxo”, mas se conteve bem a tempo. O Dr. Fritz acabara de olhar para elas e dar um tchauzinho simpático.
Sia rolou os olhos.
– Caldeirão velho que faz poção boa, Bervely, nunca lhe disseram isso?
– Com certeza nunca me disseram isso – riu com assombro, mas certo divertimento. – Hey, como veio parar aqui, se é que eu posso saber?
– A sua prima me enviou um convite. Era verde e prata – ela franziu, numa reflexão tardia – isso é muita inspiração sonserina, não é possível que tenha vindo só de você. Não me diga que os pais de Nimphadora eram parte da elite da serpente também?
Bervely deu risada, aquilo parecia muito improvável. Imaginar alguém como Ted Tonks na sonserina era um contra-senso.
Uma música animada e cheia de chiado de guitarra começou a tocar, e com o canto do olho ela viu Nimphadora vibrar perto de uma coisa trouxa que fazia som. Música trouxa em seu aniversário, seus intestinos protestaram em agonia. Não que houvesse nada que pudesse fazer…
– Oi, Bervely. Podemos falar um segundo? – ela se virou, e percebeu que o Dr. Fritz se aproximara. Sem o seu jaleco verde, parecia quase uma pessoa normal. Talvez sob a luz certa, pudesse ser até atraente, como a amiga observara.
– É claro. Essa é Sia Rockwood, minha colega de Hogwarts. Sia, Dr. Ian Fritz.
– Olá, doutor – Sia estendeu sua mão, toda suave e envolvente – eu quase lamento estar tão saudável agora.
Fritz fez que não entendeu a indireta, mas Bervely podia jurar que ele tinha corado muito levemente. Quando a amiga pediu licença e avisou que ia pegar bebidas, o medibruxo se virou com um sorriso contido, mas caloroso.
– Sinto muito aparecer assim na sua festa, Bervely. Achei que era o meu dever me certificar que está bem… sua tia comentou pelo que tem passado.
– Eu estou bem – ela disse, com mais segurança do que realmente sentia. – além do mais, aposto que você recebeu um convite verde e prata também?
– É, eu recebi. – o sorriso dele se ampliou – Fico feliz em saber que finalmente o parentesco entre você a família Tonks – Andromeda em especial – foi trazido à tona, e que pode aceitá-lo tão bem. Enquanto esteve conosco, esse assunto sempre a deixou muito ansiosa, sabe. E ao ver o quanto de investimento ela dedicou a sua festa, só me faz ter certeza do quanto está em boas mãos.
– É… parece que sim – deu um sorriso fraco, sem saber o que mais responder.
– Um feliz aniversário, então.
– Obrigada.
Eles se encararam, e de repente ela sentiu que deveria lhe dizer mais alguma coisa, só que a situação não era propícia. Como se lesse a intenção nos seus olhos, ele tocou levemente o seu braço, e lhe deu um sorriso acolhedor.
– Sabe que pode me procurar, certo? Estou disponível sempre que precisar conversar, é só entrar em contato.
Com o canto do olho, ela viu que Sia olhava para ambos da mesa de bebidas, de maneira curiosa. Ela se afastou um passo do medibruxo, assim se desfazendo do seu toque.
– Obrigada, mas eu estou bem, Dr. Fritz.
Depois dali, Andromeda e Ted vieram lhe dar abraços dos quais ela não pode fugir. Tonks encaixou em sua mão um copo de cerveja amanteigada e lhe puxou para o meio da sala, tentando fazê-la dançar alguma coisa chamada The Beatles que estava tocando em seu aparelho trouxa de música.
Os adultos saíram, os deixando mais a vontade, então os gêmeos tiraram dos bolsos uma coleção de cartas de Snap Explosivo, e logo ficou claro que elas tinham sido modificadas para explodirem muito mais frequentemente do que o normal. Cinco partidas depois, e muita gosma sobre eles – que era, ironicamente, verde – Bervely se levantou para pegar mais bebidas na cozinha, mas ela estancou perto da porta e se virou para onde os amigos estavam.
O que seus olhos viam era um tanto improvável para a sua concepção de mundo. Dois grifinórios, dois lufa-lufas e dois sonserinos (ela inclusa), uns com sangue mais puro que outros, mas todos despreocupadamente se cobrindo de gosma no final da tarde de um domingo, dando gargalhadas, levando à falsa impressão, por um momento, de que não havia abismais diferenças entre eles.
Sentiu-se um pouco tonta. Uma mão pousou em seu ombro, e ela soube pelo toque, antes de olhar, que era Andrômeda.
– Está tudo bem, querida?
– Sim… sim. – assentiu, virando-se e entrando na cozinha, um pouco atordoada. – Só vim pegar umas cervejas, as nossas acabaram.
Andromeda lhe observou atentamente enquanto pegava as garrafas da caixa, seus olhos sábios e maternais sobre ela de um jeito que frequentemente a incomodava.
– Bervely. – ela chamou, por fim. Bevy parou no caminho de volta à sala, seus ombros caindo. Quase.
– Pois não?
– Foi cedo demais? Isso tudo, quero dizer – perguntou, apontando para a sala, para a festa.
Ela demorou um segundo para entender. Não estava acostumada a ter adultos perguntando a sua opinião sobre as suas atitudes.
– Eu sinto muito se foi. – prosseguiu a bruxa, poupando-lhe de responder – Achei que isso lhe animaria, mas é difícil para mim, quando se trata de você. Você não é como as outras garotas da sua idade… não lida com as coisas do mesmo jeito. Preciso me lembrar disso frequentemente.
– Você não precisa se preocupar em me animar. – rebateu, um pouco na defensiva. Andromeda no entanto lhe deu um sorriso, que era quase triste.
– Eu não vejo como uma preocupação. É mais como um prazer. Só gostaria de saber se estou fazendo da forma correta.
Ela ficou calada, encarando o piso de tacos de madeira caprichosamente encaixados e encerados. Depois uma pergunta lhe ocorreu, e não pode contê-la:
– De que casa a senhora era, em Hogwarts?
– Sonserina. – disse Andromeda, a sombra de tristeza varrida do seu sorriso, substituída por um sorriso curioso. – Por quê?
Bervely lhe olhou um pouco surpresa. Imaginara Grifinória ou Corvinal… mas nunca Sonserina. Mas pensando melhor, havia algo por detrás do sorriso maternal e da atitude calma daquela bruxa que constantemente lhe dizia que ela era mais do que deixava transparecer em seu dia a dia.
– A decoração. Foi bem inspirada. – disse por fim.
– Usei algumas coisas que guardei do meu antigo quarto, da época de colégio. Era verde de doer os olhos.
Bervely riu com isso. Ela achava que talvez, se tivesse um quarto no qual pudesse escolher a decoração, ele também ia ter mais verde do que o recomendável.
– Eu… – respirou fundo. Aquilo era difícil. – Obrigada. Por tudo, não só pela festa.
– Não há necessidade de agradecer, Bervely. Como eu disse, fiz por prazer. Você é minha sobrinha, é isso que as tias fazem.
Assentiu. Parecia sem propósito resistir àquilo, no fim de tudo. Andrômeda era afinal a pessoa que estava garantindo que tivesse um teto, a única que se importara, e continuava se importando e não estava lhe cobrando qualquer coisa a não ser que ela se animasse. Bervely podia ser muitas coisas – orgulhosa e teimosa, e talvez um pouco inflexível e difícil – mas não era ingrata. Pelo menos não de caso pensando.
Não podia afastar a sensação de que no momento em que precisara – realmente precisara de alguém que a apoiasse naquilo em que acreditava – fora a sua família honrada que lhe virara as costas, e fora a traidora do sangue quem lhe acolhera de braços abertos.
– Há alguma coisa lhe perturbando, Bervely? – a bruxa perguntou, docemente mas direto ao ponto, com aquela mania de mãe a qual soava sempre tão fora do usual para a garota.
– Não. Apenas… – puxou ar mais uma vez. Estava cansada daquela pressão na boca do estômago, constante e opressiva, que viera crescendo já há algumas semanas. Sabia o que era… – Acha que vão queimar meu nome?
Medo. Era isso que era. Andromeda franziu levemente, mas ela tinha entendido a pergunta.
– Querida, eu não acho que irão. É preciso muito mais que uma rebeldia adolescente para banirem você da família… mas se um dia ocorrer, lembre-se de uma coisa: um papel é só um papel, e nada pode mudar o teor do que corre em suas veias. Nunca.
Ela assentiu, mordendo os seu lábio, voltando a encarar o piso. Lá fora, os seus convidados cobertos de gosma tinham dado pela sua falta, e chamavam por ela.
– BD –
Ela achava que o aniversário mais inusitado de todos estava perto de acabar, quando tomava as últimas cervejas amanteigadas com Tonks na varanda, ambas sentadas na amurada da casa, resistindo aos chamados de Ted para entrarem e irem dormir.
Os convidados tinham ido todos embora – no caso dos gêmeos, não sem antes explodir uma leva de fogos flibusteiro “em comemoração” à aniversariante (na verdade um deles tinham detonado dentro do bolo, o que deixou Andromeda muito, muito transtornada). Sia foi embora na carruagem preta e cinza da família Rockwood, e o pai de Cedrico veio lhe buscar aparatando.
O Dr. Fritz se despediu, e depois ficou conversando um pouco com Andromeda antes de ir; provavelmente sobre o seu estado mental, Bervely imaginou azedamente, e assim sobraram apenas elas, uma pilha de empadas de carne e a lua nova no céu limpo.
– Aquela Rockwood até que é legal, quando não está fingindo que é a rainha do universo, como faz em Hogwarts. Eu tenho uma teoria: eu acho que tem alguma coisa nefasta naquele uniforme da sonserina, que faz vocês perderem a noção de que são meros humanos.
– Nós não somos “meros humanos” – Bervely rolou os olhos, achando-se um pouco zonza de tanta cerveja amanteigada – Somos humanos melhorados, agora apenas renda-se à essa verdade e curve-se à nossa magnificência.
– Você pode esperar sentada, V. Sa. Cobra Peçonhenta – ela resmungou – e guardar essa sua magnefi… maniguefi…
– Magnificência. – ajudou, prestativa.
– Como pode falar uma palavra desse tamanho depois de tanta cerveja amanteigada? Viu o que eu disse? Você é mesmo uma aberração.
– Isso é bebida de criança – acenou com a garrafa, que quase escapou dos seus dedos e se espatifou no chão – não devia nos deixar grogues.
– Não se você bebeu mais de vinte. Espera… – ela franziu os olhos de um jeito engraçado olhando para o nada – aquilo é uma pessoa?
– Aquilo é a cerca – rolou os olhos – você está mesmo bêbada, como é que pode?
– Não, aquilo é uma pessoa! Espera aqui.
Com mais coragem do que Bervely teria àquela hora da noite e numa casa praticamente no meio do mato, Nimphadora saltou para fora da amurada e atravessou a distância até a cerca. Só quando ela realmente pareceu falar com alguém é que Bervely notou que ela estava certa, havia mesmo uma pessoa ali fora. E seja lá quem fosse, Tonks estava abrindo a porteira para ele, ao mesmo tempo que acenava para ela se aproximar.
Com algo de resistência, Bervely se aproximou ao mesmo tempo que a prima veio andando de volta. Elas se encontraram no meio do caminho, enquanto o estranho permanecia próximo à cerca, aguardando.
– Você tem um convidado retardatário – avisou a garota, quando estava perto o suficiente. Havia um brilho maldoso em seus olhos que não fazia qualquer sentido – Feche a porta quando ele sair. Use proteção…
Ela saiu gargalhando em direção à casa, e Bervely ficou olhando para onde estava o estranho, sem entender… até que ele veio se aproximando, as mãos no bolso, e ela percebeu que era Gui Weasley.
Seu coração deu um giro inteiro dentro do peito, e ela teve certeza, parada onde estava, que ia pegar fogo de surpresa e nervosismo até que ele se aproximasse o bastante.
Não aconteceu; ela sobreviveu de forma quase digna até estarem frente a frente. Gui tinha um sorriso amplo e meio culpado no rosto, mas que era lindo de qualquer jeito.
– Desculpe aparecer tão tarde. Decidi que vinha meio de última hora.
– Ah… tudo bem.
Porque sempre agia como uma idiota quando estava frente a frente com aquele indivíduo, ela não era capaz de explicar.
– Então, feliz aniversário. – ele lhe estendeu uma caixa forrada com pano em padrões geométricos. – Quantos anos mesmo?
– Dezesseis. – ela disse, aceitando o presente.
– Ah, pensei que era dezessete.
O silencio pairou entre eles, Gui ainda com as mãos nos bolsos, trocando o peso de um pé para ou outro, e ela sem saber o que fazia com as próprias mãos.
– Você, uh… não era suposto a estar no Egito? – perguntou, e se arrependeu imediatamente depois. De que importava?
– Eu estava – ele disse, rapidamente – Eu estou, na verdade. Essa foi só uma escapada de fim de semana, fora dos planos. Meus pais nem sabem que eu vim – não conte a eles – ou vão ficar chateados que não passei por lá. Mas sabe como são os Weasleys, eles nunca iam me deixar passar e não ficar para o almoço… e depois para o jantar… ai quando você vê está com setenta anos e uma bengala, e Molly está lhe enfiando goela abaixo o decimo pote de sobremesa.
– Ah. – ela disse, espirituosamente. Merlin, qual era o seu problema? Arriscou uma risada, mas saiu como se ela tivesse algo no nariz. – Obrigada.
– De nada. Foi só pra te ver. Recebi o seu convite, na verdade… bem sonserino – ele riu de lado. – mas demorou a chegar, sabe, longa viagem até o Egito. Na verdade, só o vi anteontem.
Ela estava entendendo errado, ou Guilherme estava na Inglaterra por causa do seu aniversário? O quão surreal, improvável e até insano era aquilo?
– Escuta… – ele disse, ao mesmo tempo que ela falou:
– Da ultima vez…
Ambos pararam de falar com risadas constrangidas.
– Você primeiro – ele fez um aceno cavalheiro em sua direção.
– Ok. – ela fechou os olhos por um momento. – Da última vez que nos falamos, no rio… você tinha alguma coisa pessoal que queria me perguntar. Então Tonks fingiu se afogar, e depois houve todo o salvamento e acabou que você não disse o que era.
Ele franziu as sobrancelhas ruivas, claramente fazendo força para lembrar do que ela estava falando, o que a fez se arrepender imediatamente de ter perguntando. Devia ser alguma coisa boba, e ela achara que era importante, e estava fazendo uma grande coisa sobre aquilo. Ele finalmente pareceu lembrar o que se tratava, pois seu rosto se abriu em clarificação.
– Ah, sim! Era sobre Tara.
– Holmes? – buscou confirmação, surpresa. Era literalmente a última coisa que esperara ouvir.
– Sim… eu tinha ouvido falar que vocês foram próximas quando estudavam em Durmstrang, e eu imaginei que talvez você soubesse onde ela morava aqui na Inglaterra.
– Ahh. – dentro dela, alguma coisa encolhia-se muito rapidamente. Provavelmente era o seu orgulho-próprio, que acabara de ser alfinetado – Não, eu não faço a menor ideia.
– Nah, tudo bem. Eu já descobri por conta própria. Na verdade… – ele coçou a cabeça, parecendo sem jeito pela primeira vez naquela conversa – espero que não se importe com isso, mas eu meio que a trouxe comigo.
– Você o quê?
Ele não precisou responder. Ao invés disso, girou o corpo para o lugar de onde viera, e como atendendo a uma deixa, uma segunda pessoa apareceu das sombras ao lado da cerca. A coisa que estava murchando dentro dela se contorceu ardorosamente ao reconhecer aquela silhueta.
– Ela não quis se aproximar, disse que era melhor não se intrometer, já que não recebeu convite… mas eu lhe disse que isso era a maior besteira, certo? Afinal era uma festa surpresa, e sua tia ou Tonks não tinham como saber que poderia convidá-la.
– Bem… – murmurou, a garganta seca. Como dizer não a Gui Weasley? Alguém no mundo jamais conseguira essa façanha? – Claro, é. Sem problemas.
O sorriso aliviado que ele abriu quase compensou a mentira. Gui fez acenos entusiasmados na direção da garota, mas ela perceptivelmente apresentava resistência em se aproximar. Finalmente se rendeu, mas Bervely praticamente sentiu seu rolar de olhos e bufo de resignação.
Quando enfim Holmes ficou completamente visível, ela se provou uma visão inesperadamente bem arrumada para alguém que não esperava ser convidada a um aniversário. Usava botas de salto alto, uma saia de cintura alta e camisa de seda azul índigo brilhante. O cabelo ruivo solto em cachos amplos pelos ombros eram, sozinhos, uma afronta à aparência modesta de roupas emprestadas de Bervely, a qual se tornara imediatamente auto-consciente de estar coberta de manchas de gosma verde por toda a sua blusa.
– Black. – cumprimentou Tara de má vontade.
– Romansek. – estava tão irritada com a sua presença que não se deteve em usar o sobrenome verdadeiro. Tara lhe lançou um olhar perigoso em retorno.
– Felicidades. – forçou-se a dizer, embora o tom indicasse o oposto daqueles votos. – Gui, não acha que devemos ir? Está óbvio que o que quer que tenha acontecido aqui já acabou, e nós vamos perder a nossa reserva quando virar a meia noite.
Bervely notou tardiamente que Gui também estava um tanto arrumado, mais do que pedia uma festinha de aniversário doméstica da amiga da amiga do seu irmão (era isso que ela era para ele, certo?)
O ruivo parecia sentido quando lhe estendeu a mão.
– Precisamos mesmo ir. Estou voltando para o Egito amanhã cedo, então só temos poucas horas para nos despedir até o flú agendado. Mas foi bom te ver, Black. A gente se bate por ai – então ele pareceu pensar melhor – é, provavelmente não. A não ser que esteja pensando em dar uma volta pelo Egito nos próximos meses.
– Dificilmente. – disse, na capacidade da sua garganta firmemente travada.
Seu “convidado tardio” e acompanhante acenaram, e então ele segurou na mão de Tara para desaparatação conjunta. Bervely ficou ali parada por um tempo, queimando quietamente aquele monte de desaforo, e num ímpeto de raiva acumulada lançou a caixa de presente longe, com toda a força do seu braço, na direção das árvores.
(Continua…)
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