Indigna Rosa Negra
20 O Pressentimento da Rosa
Notas iniciais
“– Você não vai me esquecer, quando a primavera chegar?
Peter naturalmente respondeu que não e depois foi embora, voando. Levou junto o beijo da Sra. Darling. O beijo que ninguém ganhou e que ele conseguiu com toda facilidade.”
(Peter Pan – James Barrie)
1989, Mansão Malfoy.
– Eu não entendo por que tem que ir. E as aulas? Vai voltar a tempo? Só faltam duas semanas… e se não conseguir pegar o navio, como vai chegar à Durmstrang?
Hector a colocou em seu colo, mesmo que ela já estivesse grande demais para tal, com seus recém completados treze anos. Gostava do calor dos braços dele e do cheiro dele, e não se privou de abraçá-lo em torno do pescoço, querendo segurá-lo para que não fosse embora.
– Eu estarei no navio, fadinha. – garantiu, murmurando contra o seu cabelo – eu prometo.
– Me conte novamente – ela pediu, de má vontade – porque você tem que passar o resto das férias na Suíça?
Hector riu, seu peito vibrando de encontro a ela. Já tinham repassado as suas razões algumas vezes, mas a prima não se achava conformada.
– Por que eu sou um adulto agora, e há coisas de adulto que preciso resolver lá. Como decidir o que fazer com a antiga casa dos meus pais, e alguns outros bens… preciso reaver a minha herança. Não posso abusar da hospitalidade dos nossos tios para sempre, sabe?
– É claro que pode. Tia Narcissa não se importaria! Você é parte da nossa família, não pode ir embora.
– Não estou indo embora… Nos veremos esse ano em Durmstrang, ok?
– Mas e depois? – ela perguntou com preocupação. Estava velha o suficiente agora para entender que nem tudo se reduzia ao presente, e nunca tivera razões para temer o futuro antes. A ideia de não ter Hector nos próximos anos da sua vida era um tanto agonizante. Como se pensasse da mesma maneira, ele a apertou um pouco mais forte.
– Não tem que se procurar com depois. – a tranquilizou – “depois” é daqui a um tempão ainda.
Ele a colocou no chão para pegar a mala que já estava pronta, e levá-la flutuando até a carruagem. Se despedira do resto da família na noite anterior, e era muito cedo ainda para qualquer pessoa estar acordada, a não ser ela, que mal dormira, esperando o momento em que ele passasse na frente do seu quarto e descesse as escadas rumo à saída.
– Vai ficar bem? – Hector perguntou, ao ver o olhar de filhote que ela lhe lançava. Bervely ainda estava enfiada em seus pijamas e com o cabelo todo bagunçado, e não se incomodara em calçar sapatos para acompanhá-lo até o lado de fora. Ao invés de responder – sua garganta estava estranhamente apertada – ela pegou o sino de ouro de seu bolso e deu três badaladas curtas.
Hector fez uma cara engraçada, um misto de diversão e curiosidade.
– O que significa, fadinha?
Ela corou, as bochechas se tingindo de rosa claro, e abaixou os olhos para a grama.
– Você sabe o que significa. Não me faça dizer.
Os olhos dele cresceram em compreensão, e então Hector andou até ela e se ajoelhou para ficar da sua altura, segurando o seu queixo e fazendo com que o encarasse. O par de olhos grandes e negros lhe fitaram de volta, inundados de sentimento.
– Não precisa ter vergonha de falar. – disse à ela, num meio sorriso, beijando o topo da sua testa sobre a franja bagunçada. – Eu também, ok? Também amo você, fadinha.
– BD –
1992, Hogwarts.
Se os boatos estavam certos, Potter e Weasley da Grifinória haviam chegado na escola de carro voador. No entanto, ironicamente não era eles quem estavam correndo o risco de serem mandados de voltar para a casa, mas Bervely, apesar de ela ter sido uma boa garota e pego o trem.
Mal pisara na escola e, cedo na manhã seguinte, foi chamada ao escritório de Dumbledore para que os seus piores temores fossem confirmados pelo diretor em vestes azuis e prateadas.
– Eu lamento dizer que não temos registro do pagamento dos seus estudos para esse ano letivo, Srta. Black. Hogwarts possui um financiamento para alunos com dificuldades orçamentarias, mas não foi possível incluí-la nesse plano em um prazo tão curto, o seu cancelamento foi tanto em cima da hora.
Ela assentiu, imaginando se pegara o trem de Hogwarts apenas para ser mandada de volta no dia seguinte, o que lhe parecia bem fora de propósito. O bruxo lhe olhava atentamente por detrás dos oclinhos de meia lua, talvez tentando captar alguma faísca de reação da sua parte. Será que ele esperava que ela implorasse? Porque não ia acontecer…
– Existe outra maneira de assegurar a sua permanência na escola, no entanto. Com a autorização de uma responsável legal, a partir dos seus dezesseis anos você pode se disponibilizar a prestar serviços à Hogwarts, em troca da sua educação mágica.
– Serviços à escola? – repetiu, desconfiada – como o que, como Filch, ou Hagrid fazem? Quer que eu seja zeladora ou uma… caseira, ou sei lá o que ele é?
– Hagrid é guardião das chaves de Hogwarts, e não, não seria nada como isso. Me refiro a atividades que não interfiram no seu desempenho escolar, ou até mesmo que contribuam com ele. A monitoria de uma disciplina, por exemplo. Como se sente sobre isso?
Bervely pensava que entre precisar voltar para casa (casa?) e ensinar alguns calouros cabeça dura, podia lidar com a segunda opção com um pouco de esforço. No entanto, havia a outra condição da oferta do prof. Dumbledore, que mais soava como um impedimento.
– Eu não acho que a minha responsável legal me autorizaria, o senhor vê. Se foi ela mesma a concordar com a suspensão do meu financiamento.
– A senhorita esquece que ambos os seus padrinhos são seus responsáveis legais, e um pode responder da ausência do outro, em certas circunstâncias. Eu tive uma conversa com o Prof. Snape há pouco, e ele corroborou a opção, se a senhorita estiver de acordo, é claro.
Ela assentiu, não é como se tivesse escolha. É claro que agora estava devendo um favor à Snape, e não tinha como isso ser bom, mas o que haveria de fazer?
– Tudo bem, serviço à escola então. E qual, exatamente, este seria?
– BD –
Descobriu mais rápido do que esperava qual o pagamento que Snape exigiria por ajudá-la. Na verdade, ele fora bastante engenhoso em providenciar um pacote dois em um.
Ela invadiu a sala do mestre de poções sem muita polidez e o bruxo, que não estava em aula, mas aparentemente corrigindo algumas anotações, levantou a cabeça e ergueu suas sobrancelhas muito negras, enquanto Bervely se aproximava trotando irritadamente até sua mesa no púlpito.
– O que aconteceu com o nosso acordo de sem favores especiais?
Ele pousou cuidadosamente a pena, não sem antes limpar a ponta dela em um lenço, tomando o seu tempo para tal.
– Bom dia, Black. Passou boas férias? Teve um bom verão? Perdeu seus modos durante um passeio de cisne, ou seja lá o que você e a sua família faz para se divertir em Wiltshare?
Ela estreitou seus olhos perigosamente, frente ao tom zombeteiro do mestre. Então ele ia se fazer de desentendido? Não havia paciência nela sobrando para aturar a ironia do professor Snape naquele exato momento.
– O senhor sabe muito bem que não passei o meu verão em Wiltshare, do mesmo modo que sabe que fui destituída da ajuda financeira dos Malfoy e também fui expulsa de casa! Portanto eu acho que tenho o direito de entender, exatamente, o motivo oculto por trás da sua pretensa caridade em me requisitar como a sua monitora.
– Vejamos – ele se levantou, seus olhos igualmente estreitos, o que nunca era um bom sinal – Você precisa da minha ajuda. Eu preciso de uma monitora para a minha disciplina. Não consigo perceber onde o motivo oculto e a caridade entram nisso, mas queira fazer a gentileza de me explicar, sou todo ouvidos.
Ela soprou, impaciente, cruzando os braços.
– Eu declino. Declino da monitoria. Não vou ser a sua empregada. Talvez você pense que está fazendo uma coisa boa, mas eu não gosto como soa, e não quero que pense que vai poder me tornar uma espécie de serva, só porque eu estou temporariamente pobre. – enfatizou o “temporariamente”, apenas porque dizer em voz alta fazia parecer que era verdade.
Snape apertou a ponte do seu grande nariz torto, fechando os olhos e respirando fundo. Devia estar achando-a impertinente, Bervely pensou. E logo em seguida, dane-se ele, não dava a mínima.
– Bervely – pelo tom calmo, mas letal da sua voz, a paciência do professor também se equilibrava num tênue fio – Você é minha melhor estudante. Recebeu um Ótimo em seus N.O.M.s. Seu talento é natural, e impressionante. Mas se quer deixar esse orgulho exacerbado e desproporcional se colocar no meio do seu sucesso, não conte comigo para lhe impedir.
O discurso a deixou sem fala por um momento. Sua melhor aluna?
– Eu não… como ser monitora vai me ajudar com isso? Até onde eu sei, meu trabalho será ensinar um monte de projetos de bruxo incompetentes a cortar certo suas raízes ou segurar direito numa concha, ou a ler instruções. E na melhor das hipóteses, vou corrigir um bocado de trabalhos enfadonhos que você passa só para fazer os seus alunos sofrerem.
– Sim, esse é um resumo acurado das funções que terá. É uma pena que a sua arrogância lhe deixe cega, no entanto, para as possibilidades que se abrem para você uma vez que eu a torne a minha “empregada”, como lhe apetece nomear.
– É mesmo? – cruzou os braços, desconfiada – por exemplo?
– Sou um pocionista experiente e excelente, enquanto você pode ter uma certa habilidade natural, mas pouquíssima prática em poções avançadas. Se eu achar que está fazendo um bom trabalho na parte enfadonha, Black, quem sabe posso até cogitar convidá-la a um trabalho em conjunto no meu laboratório particular.
A ideia era muito tentadora, até verdadeiramente empolgante, precisava admitir, o que a levou a ficar ainda mais desconfiada.
– Essa oferta não viria do fundo do seu coração bondoso. – comentou, analisando-o cuidadosamente.
– Tem razão. Vou exigir trabalho duro, pesquisa e minuciosidade da senhorita, até que me deixe convencido de que merece trabalhar ao meu lado. Se conseguir dar conta da monitoria da maneira como lhe proponho, posso lhe ensinar mais do que sequer imaginou ser possível fazer com um caldeirão e um punhado de ingredientes.
Ela quase deixou escapar um sorriso. Era estranho como ele só fizera a proposta, mas ela já tinha vontade de abraçá-lo (metaforicamente, é claro).
– Muito bem, professor Snape. Serei a sua monitora, desde que fique bem claro que não estou aceitando o posto como um favor, ou caridade.
Ele assentiu, franzindo sua boca.
– E eu tenho condições.
– Você tem condições? – ele repetiu num tom incrédulo, se perguntando de onde aquela garota tirava tanta intrepidez. Logicamente, sabia bem de onde ela a herdara.
– Eu odeio crianças, especialmente em bandos.
– Isso faz dos de nós. – admitiu, suspirando pesadamente. – Sem problemas por enquanto, quero que acompanhe mais especificamente as turmas do quinto ao sétimo ano.
– E eu não limpo a bagunça de ninguém.
– Justo, desde que possa limpar a sua. Mais alguma coisa?
Ela negou, achando que ele tinha até sido bem flexível; para ser honesta, teria aceitado com as crianças e com a limpeza. Repassou os termos que tinham acabado de acordar, seu cenho rapidamente se franzindo.
– Espera, o senhor disse até o sétimo ano?
Ele lhe deu um olhar que era quase divertido.
– O quê, Srta. Black, achou que eu fosse aliviar para o seu lado? Pensei que havíamos chegado num acordo de que não haveria favorecimento.
– BD –
Bervely dedicou a noite a decidir as disciplinas para as quais prestaria os seus N.I.E.M.s dali a dois anos, embora a tarefa tenha sido um pouco perturbada pelas suas colegas de quarto abelhudas.
– Como assim você não vai pegar D.C.A.T. com Lockart? Você já viu o cara? Você já viu aquele cabelo? – essa era Sia, que achara por bem pular em sua cama para espiar as opções por sobre o seu ombro.
– Imagino que ele seja um dos “caldeirões velhos”? – debochou Bevy, rindo.
Do outro lado do quarto, de sua cama, Pacey Oltman rolou seus olhos azuis-quase-violetas.
– Black teve aulas de Artes das Trevas propriamente ditas em Durmstrang, não foi? Imagino que para ela Defesa seja uma grande piada.
– Eu só acho uma perda de tempo – explicou, riscando a opção – quero dizer, quem em sã consciência pratica arte das trevas hoje em dia, de quem é que precisaríamos tanto nos defender? – as duas garotas ficaram extremente caladas, então ela olhou para cima e encontrou caras um tanto sugestivas lhe observando. Rolou os olhos – além da minha mãe, quero dizer. Mas não é como se eu fosse precisar me defender dela, já que está em Azkaban trancafiada.
Ela nunca falava de Bellatrix, mas a essa altura a Sonserina já tomara conhecimento da sua árvore genealógica e deduzira de quem era filha. Aquela casa em Hogwarts devia ser um dos únicos lugares no mundo onde ser filha de comensais lhe atribuía algum status, mas o assunto em si era um tanto velado quando ela estava presente, felizmente.
– Ainda assim – disse Sia num tom mórbido – você nunca sabe…
Sem lhe dar atenção, riscou também Feitiços, na qual não conseguira N.O.M.s o bastante, e isso a deixou com Astronomia, Herbologia, Transfiguração, Historia da Magia e Trato das Criaturas Mágicas. Poções fora a primeira a qual assinalara, é claro.
– Pegue Herbologia e Transfiguração – disse-lhe Sia, num tom conclusivo.
– Não, é melhor Historia da Magia e Astronomia. Ambas são muito subestimadas, quando na verdade tem extrema importância para um bruxo que deseja seguir carreira acadêmica. É isso que quer, não é, ensinar poções? Um professor precisa saber mais do que a sua própria área para impor algum respeito.
Não tinha pensando nisso. Sua cabeça estava começando a doer com a necessidade de tomar decisões que iam definir seu futuro dali a tanto tempo. Por fim, ficou com Poções, Herbologia, História da Magia, Astronomia e Transfiguração, essa última apenas por peso na consciência, pois entendia a importância da matéria apesar de ser terrível nela. Além do mais, achara que o seu Aceitável nos N.O.M.s fora um milagre que não devia ser desperdiçado, se não queria atentar contra o próprio karma.
– Se não quiser continuar fazendo monitoria com a esquisita da lufa-lufa, pode pedir ajuda a Olga – Pacey sugeriu, vendo que ela escolhera prosseguir as aulas com McGonnagal. – Não me pergunte como, mas ela tem um ótimo desempenho na matéria.
– Sob o meu cadáver eu vou pedir ajuda à Greengrass – rolou os olhos, só então percebendo a ausência da quarta integrante do dormitório – falar nisso, por onde ela anda que não está aqui perturbando a nossa existência?
– Com Holmes… onde mais? Parece que está rolando uma festinha em seu dormitório particular, porque ela se candidatou à Monitora Chefe e já decidiu que vai ser escolhida.
– Como assim? – Pacey praticamente saltou da cama, a rede em seu cabelo escapando fora com o movimento brusco – Ela não pode, ela ainda é sexto ano como nós!
– Diga isso a Snape. Depois que Sung se formou ano passado, parece que não tem ninguém a altura do serviço neste sétimo ano, e pelas regras da escola, na ausência de um monitor do sétimo ano, alguém que já tenha um cargo de importância pode ocupar o posto, mesmo que seja mais novo.
– Isso é ridículo – a loira exasperou-se – eu é quem devia ser a Monitora Chefe, qual é o problema de todo mundo aqui em enxergar o óbvio?
– Pode disputar com ela ano que vem… – Sia riu-se – Boa sorte com isso. Hey! Você pode se candidatar ao posto, Black! Com certeza ele lhe consideraria, monitora de disciplina também conta!
– Ótima ideia, Sia – Pacey sorriu malignamente, de um jeito que só ela conseguia fazer – Isso colocaria a cara daquela cabeça de fósforo no chão.
Bervely não disse nada, meramente mordeu seu lábio inferior fingindo que estava concentrada no papel em suas mãos. Não chegara a contar às meninas sobre a monitoria, mas não precisou, pois era o tipo de notícia que se espalhava rápido por Hogwarts, e especialmente pela sonserina, onde privilegiavam tanto as relações de poder. Snape lhe explicara que como monitora de disciplina tinha direitos equiparáveis aos dos monitores das casas e capitães dos times de quadribol, mas ela não se prendera muito àqueles detalhes, não até o momento.
Pensando bem, não seria ruim abaixar um pouco a crista de Holmes, para variar.
– Isso é tão injusto – Pacey ainda reclamava, quando foi se deitar. – E ela ainda é linda, rica e venerada, pelo amor de Slytherin, onde está a justiça do mundo? Uma garota não pode ter tudo! Por quanto tempo vamos ficar ignorando os sinais do apocalipse iminente?
Sia apagou a luz, e Bervely se deitou na própria cama, fechando os olhos. No fundo da sua mente, a imagem arrasadora de Tara Holmes se formou com clareza, em suas botas altas e cachos, andando em direção a ela no chalé em Ottery. Segurando a mão de Gui e abrindo um sorriso resplandecente de afetação. Talvez Pacey estivesse certa – dar a Tara a chefia dos monitores era como um sinal dos fins dos tempos.
Uma garota não podia ter tudo.
– BD –
Na manhã da quarta feira, Bervely juntou algumas torradas, um copo grande suco de laranja e um bolinho de carne e escapou do Salão Principal o mais rapidamente que pode. Ainda havia aquele resquício vacilante do verão, do qual se aproveitou para tomar café no pátio externo do terceiro andar, completamente vazio àquela hora.
Distraída em tirar as bordas da torrada, não reparou quando uma figura de uniforme amarelo e preto se aproximou de onde estava, e mal pode reconhecê-la como Nimphadora, pois usava uma aparência muito incomum naquela manhã: cabelo preto azulado comprido, olhos cinzentos bem claros e um nariz comprido afilado completamente diferente do seu original.
– Está treinando para cover das Esquisitonas? – perguntou, lhe dando espaço para sentar no banco ao seu lado, o que a lufa-lufa fez de bom grado.
– Você gostou? Estou treinando narizes. É mais fácil do que eu pensei, posso te passar umas técnicas se quiser.
– Hum. não, obrigada. – disse-lhe num tom neutro, mordendo o bolinho. Não ignorou a careta que a outra fez. Desde a conversa no rio sobre metamorfomagia, Bervely evitava falar sobre o assunto e ignorava os seus sutis oferecimentos para praticarem juntas. Era fácil para Tonks, porque ela nunca ficara presa na aparência de outra pessoa, e ela sempre conseguia controlar as suas mudanças muito facilmente.
– Ah, sabe, eu ouvi a coisa da monitoria. É hoje que começa, não é? – vibrou, mudando de assunto, mas o novo só lembrou-lhe Bervely do seu bolo no estômago.
– É. – suspirou, econômica.
– Foi por isso que fugiu do salão principal? Está nervosa?
– Só estou me concentrando – defendeu-se, um tanto rígida no banco. Suas mãos suavam com a lembrança de que em poucos minutos estaria numa sala cheia de alunos da sua idade ou mais velhos que ela, mas ao invés de estar sentada na cadeira, ia circular por entre as mesas e ter de ajudá-los com a preparação de suas poções. Ela percebera tardiamente – no caso na noite anterior, enquanto praticava as poções do dia seguinte em seu caldeirão – que não era a perspectiva de errar os preparos que a incomodava, mas o de ter que lidar com os colegas.
– Você vai se sair bem – a garota lhe deu um esbarrão de encorajamento no ombro – Snape pode ser um arrogante que parece ter um cabide enfiado você sabe onde, mas sempre sabe o que está fazendo.
– É, eu suponho.
– Te vejo na minha turma então, mais tarde. Não se deixe intimidar pelo sétimo ano, são só um monte de bundões como os do sexto… os da Lufa-lufa, pelo menos. É com os corvinais que você pode encontrar problemas, eles sempre ficam ouriçados quando precisam reconhecer que alguém de outra casa é mais inteligente que eles.
Com aquela perspectiva nada animadora, Tonks lhe deu uma piscadela e um tchauzinho, roubando a sua última torrada. Apesar do gosto amargo na boca, Bevy não pode deixar de reparar em como, com aquele arranjo de cabelo e olhos de hoje, ela de fato parecia vagamente com algum membro da família Black.
– BD –
No final das contas, não foi com os setimanistas da Corvinal que ela teve problemas em seu primeiro dia como monitora de poções. Na verdade, gostou bastante deles: eram maduros e focados, e tinham todos algum talento mínimo em poções, já que estavam à beira do seus N.I.E.M.s. Mostravam vontade de aprender, e lhe deram a oportunidade de ajudar quando perceberam que ela sabia tanto, ou até um pouquinho mais, do que eles.
– A poção da Aurora exige um certo estado emocional para cada fase ser preparada corretamente – ela explicava para uma dupla de corvinais que estavam tendo dificuldades em acertar o primeiro dos sete tons exigidos por aquela receita, cada um representando uma fase de sua preparação – a primeira delas é expectativa. Vocês precisam estar desejosos dos resultados que obterão. Se sentem dessa maneira?
O garoto mais alto, Aidan Corner, franziu o rosto com concentração, tentando evocar aquele estado de espirito, mas o outro, um gordinho de cabelo bem cortado, olhou intrigado para ela.
– A expectativa precisa ser com a receita? Ou serve qualquer tipo de expectativa?
Ela pensou por um segundo, lembrando-se da sua pesquisa extra da noite anterior.
– Qualquer expectativa vai servir, se for forte o bastante. Não é como se a poção fosse saber a diferença.
– Ok. – ele, ela achava que se chamava Otto Ogden, deu um sorriso mínimo e voltou a catar as essências e pedaços de miolo de árvore com que precisava fazer uma pasta. Corner deu uma risadinha.
– Ele está criando expectativa pra chamar você pra sair, eu aposto.
Ela conteve um sorriso, observando o outro amassar a pasta e conseguir o tom correto de laranja.
– Bom trabalho, Ogden.
Lá da frente da sala, sabia que Snape lhe observava atentamente. Quando arriscou uma olhada para ele encontrou seu rosto impassível, mas algo em seu olhar de besouro dizia que ele estava satisfeito.
A segunda turma do dia foi a sua própria, o que era terrível não só porque ia ter de orientar os colegas com quem se sentara junto durante o ano anterior, como porque antecipava um certo antagonismo da casa com quem compartilhavam aquela aula – Grifinória.
– Você conhece essa garota? – ouviu uma voz que não se preocupava em se fazer discreta, entre o grupo vermelho e dourado.
– Nunca vi na vida. Quem ela pensa que é para querer nos ensinar algo de poções?
– É claro que tinha de ser da sonserina. No dia que Snape favorecer um aluno de outra casa com alguma dessas regalias, eu como o meu chapéu pontudo.
Ela pensou em ir direto a quem tinha dito aquilo e obrigá-lo a cumprir a sua promessa na frente de todos eles, mas o mestre de poções parou ao seu lado naquele momento, e a sua presença contribuiu para acalmá-la um pouco. De onde estava, em frente à mesa dele no plano alto, via todos os colegas, e via especialmente os olhos brilhantes de Tara Holmes cintilando para ela de um dos lugares do fundo, e não como uma forma de apoio moral.
– Para aqueles que não sabem, a Srta. Black é a nossa nova monitora de poções. Antes de questionarem porque ela foi escolhida para o posto, reflitam na questão de porque vocês precisam da ajuda dela. Todos aqui optaram por fazer os N.I.E.M.s em minha disciplina, e eu me arrisco a dizer que nenhum está remotamente preparado para o que os aguarda neste ano e no próximo. Aqui vai uma sugestão: aproveitem a Srta. Black. Venerem a Srta. Black. Sejam imensamente gratos por ela estar disponibilizando um pouco do seu precioso tempo para ajudar vocês a superarem sua incompetência. Quem sabe assim haja uma chance remota de sucesso em seus testes finais.
Para a sua surpresa, foi alguém não da Grifinória, mas da sua própria casa, que manifestou a própria insatisfação.
– O senhor faz soar como se ela estivesse nos prestando um grande favor – observou a voz estridente e desagradável de Olga Grengrass, lá do fundo, ao lado de Holmes – Mas não é verdade que os monitores são pagos por isso? Da forma como eu entendo, ela não passa de nossa empregada.
Bervely sentiu uma espécie de soco no estômago com as palavras, e teve certeza no mesmo momento que Tara lhe mandara dizer aquilo, já que ela mesma, como monitora e concorrendo ao cargo de chefia, não poderia tê-lo dito sem queimar a própria imagem.
– Fora da minha classe, Srta. Greengrass.
– Mas, eu apenas estava espessando a minha opinião! – ela ofendeu-se, o rosto ficando vermelho feito um dos cachecóis da casa inimiga.
– Se a sua opinião é de que não pode valorizar o trabalho da Srta. Black, pode se retirar da minha classe.
– Mas isso não foi o que eu dis…
– FORA!
Bervely estremeceu um pouco com essa última ordem, mas Greengrass se desmanchou em lagrimas, recolhendo o seu material e deixando a masmorra. Quando ela bateu a porta atrás de si, só se ouvia o doce som da perplexidade do restante da turma.
– Alguém mais deseja manifestar o seu desacordo com as decisões que tomo para a minha disciplina?
Ninguém se pronunciou. Ela tinha bastante certeza que alguns deles estavam até prendendo a respiração. Lá da mesa do fundo, ela conseguia ver Holmes com os punhos apertados, embora a sua expressão fosse cuidadosamente neutra.
– Ótimo. Nesse caso, ao trabalho. Página onze…
A aula seguiu tranquila depois disso, apesar de Bervely conseguir ouvir bufos disfarçados e achar caras fechadas quando se aproximava das mesas dos grifinórios a fim de checar seus avanços com a poção da Discórdia. Era uma receita relativamente simples, mas exigia que cada um dos ingredientes absorvesse a quantidade certa de abrasante antes de ser adicionada ao caldeirão. Para ela parecia óbvio, mas era incrível a confusão que eles faziam com os instrumentos de medida.
– Ml são mililitros, não medias líquidas, nem meia lata, muito menos medida livre – explicou pelo que achava ser a quarta vez naquela aula, dessa vez para duas meninas da grifinória que estavam completamente perdidas na instrução numero quatro – tudo que precisam fazer é encher o béquer até o numero que está escrito aqui, e depois mergulhar as orelhas de mouco, mas não esqueça de segurar com a pinça, ou não vão conseguir pegar depois que elas incharem.
– A pinça! – disse uma delas, alguma coisa Johnson – sabia que estava me esquecendo de algo importante.
A vontade de Bervely era perguntar como ela sobreviveu em poções até ali sem sabe usar os instrumentos corretamente, mas segurou a língua a tempo.
– É só lembrar daquele arranjo que os artilheiros do Crista de Vento fizeram na final de 1964 – disse um colega deles que estava logo atrás, alguém do time de quadribol da grifinória, se ela não se enganava – tem o mesmo nome, saca?
– Ah, é! – a garota Johnson vibrou em alivio – Aquele que quase deixou Dênia Willians sem cabeça, agora me lembro!
Bervely resolveu que já era hora de se afastar, antes que precisasse ouvir mais uma analogia de poções com quadribol, o que a sua opinião era sempre uma ofensa à primeira.
– Bervely! – ouviu seu nome ser chamado entredentes – uma ajudinha aqui?
Era Sia. A garota fora obrigada a fazer dupla com Holmes após a saída de Greengrass, e a ruiva devia estar lhe dando um tempo difícil. Evitara o máximo se aproximar daquela mesa, mas já não havia escolha; a poção delas borbulhava em um verde doentio e totalmente inapropriado, escorrendo para fora do caldeirão e abrindo um buraco na mesa de madeira.
– Vocês devem ter colocado muita essência espiral – diagnosticou, logo reconhecendo o cheiro forte que se desprendia do caldeirão delas. – Aqui, o pó de benzera vai neutralizar o efeito.
– Eu nem toquei na essência espiral – defendeu-se Sia, com um pouco de desespero. Ela fora a dupla de Bervely na disciplina por todo o ano passado, então a garota estava ciente de que Rockwood praticamente não tocava em nenhum ingrediente se podia evitar, então era fácil acreditar nela. Especialmente porque Holmes, ao invés de se defender da acusação indireta, ergueu sua sobrancelha numa postura desafiadora, como quem dizia “e se fui eu, o que você vai fazer sobre isso?”
– Bem, não tem problema. Alguém vai ter que buscar mais um pouco no armário, para começar a terceira etapa novamente.
– Rockwood vai – decidiu a ruiva – Fui eu quem busquei coisas nas últimas duas vezes que ela arruinou a poção.
– Eu não arruinei nada, nem toquei nisso!
– Sua mera presença já é suficiente para arruinar as coisas, garota. – disse Tara, impaciente, fazendo um movimento com a mão – anda logo, antes que eu desista de ser sua dupla e deixe Snape saber que desde de o ano passado você só finge trabalhar, mas na verdade é Black quem faz todo o serviço.
Contrariada, Sia se levantou e deixou a mesa, não sem antes dar seu melhor olhar de “Mate ela por mim” para Bervely. Decidindo que tinha acabado sua parte por ali, se virou para seguir caminho, mas Holmes lhe impediu estendendo o braço até apoiar a mão na mesa, obstruindo o caminho.
– O que você quer agora? – impacientou-se – Já não basta essa tentativa patética de tumultuar a aula?
– Eu sei o que você está fazendo, Black. – ela sibilou de volta, seu tom ameaçador e baixo.
– É mesmo? Me esclareça o que eu estou fazendo, Holmes?
– O mesmo que fazia o tempo todo em Durmstrang. Quer roubar toda a atenção para você. Ser venerada, só porque acha que é superior e merece a admiração cega de todo mundo. Porque tem esse grande e honrado sobrenome, acha que pode se valer dele para colocar todos abaixo de você.
Bervely franziu o cenho, achando o discurso um tanto inesperado e atrasado.
– Isso nunca pareceu incomodar você em Durmstrang.
– Porque lá nós éramos – ou ao menos eu supus que éramos – amigas. Mas esse tempo já passou, não é Black?
– Claramente passou. – confirmou com azedume. Tara falava como se tivesse sido ela a fingir, desde o primeiro dia de aula, que não se conheciam. Como se fosse ela a decidir que de repente se odiavam.
– Que bom que estamos de acordo em pelo menos uma coisa. Você pode ter convencido o Prof. Snape de que é algo de especial por causa do seu sobrenome, do mesmo jeito que você e aquele seu primo convenceram Durmstrang inteira no passado, mas aqui é só você contra mim, e eu sei quem você é de verdade. Uma luta justa.
– Não tenho intenção de “lutar” contra você, Romansek. – disse, cuspindo o sobrenome verdadeiro dela. A mera menção à Hector foi como uma ferroada em seu estômago, e se antes se preocupara em se mostrar indiferente e superior, agora irritara-se de verdade. – De fato, não tenho interesse em qualquer coisa que se refira a você. Então, se me dá licença…
– Não vai tirar a chefia da monitoria de mim, Bervely. – ela lhe avisou, afiada como a navalha de cortar raízes.
– Nunca foi a minha intenção. Mas já que você falou – devolveu, num tom que achou despretensioso e tranquilo – até que não é uma má ideia. E nem vou mover um dedo, porque basta eu querer, e ele já é meu.
– O que te faz ter tanta certeza disso? – por trás da fachada cética dela, Bervely distinguiu uma nota de insegurança. Afinal, como Tara dissera, já se conheciam há muito tempo…
– Como você mesma disse, eu não preciso provar nada. Sou uma Black. Isso basta.
Ela saiu ao ver que Sia retornava com o ingredientes, mas soube sem precisar olhar que deixara Holmes fumegando atrás de si, mais do que o seu caldeirão estava há alguns momentos.
– BD –
Snape não a enganara quando falou de trabalho duro na monitoria. Bervely encontrou a si mesma com uma agenda inacreditavelmente cheia nas semanas seguintes, tentando dar conta não só das suas matérias, mas das exatas sete aulas de poções das turmas do quinto, sexto e sétimo ano que precisava assistir além da sua própria. Ela nunca parava, só para comer e quando chegava no dormitório à noite, era para ler sobre as poções do dia seguinte e prepará-las em seu caldeirão, trancada no banheiro para não incomodar as colegas de quarto.
Por um lado era cansativo ter tantas obrigações, mas por outro, a repetição e o constante trabalho com poções estava aperfeiçoando a sua técnica de forma inacreditável. Ela podia lembrar de dezenas de receitas gravadas em sua memória, bem como de seus processos de preparo com exatidão. Reconhecia muitos dos ingredientes pelo cheiro, e sabia diferenciar acônico licoctono e acônito lapelo na ponta de seus dedos.
Ao fim do primeiro mês, ela encontrou-se na masmorra de poções junto as turmas da Sonserina e Grifinória do último ano lhe dando uma salva de palmas quando conseguiu, na primeira tentativa, acertar o difícil balanço necessário para produzir a Felix Felicis. Quando olhou para trás viu que Snape, discretamente, engrossava o coro de palmas, não pode conter o sorriso de se espalhar pelo seu rosto.
Ele lhe pediu para ficar, após o final da aula naquele dia.
– Como avalia o seu desempenho na minha disciplina até o momento, Srta. Black?
– O melhor possível, senhor. – ela disse de forma sincera. Ele assentiu em concordância.
– Acredito que está pronta para dar o próximo passo.
Bervely não soube imediatamente a que ele se referia. Naquele mês fizera tudo, desde ajudá-lo com a correção dos testes até escrever os pedidos de ingredientes para reposição do estoque, usando a coruja do próprio professor (um enorme exemplar das montanhas chamado Benzoar, muito temperamental, mas extremamente confiável e preparado para cargas pesadas).
– Quero que venha ao meu laboratório esse fim de semana, me ajudar com algumas coisas. Se estiver disponível.
Seu peito se encheu de expectativa, tanto que mal podia respirar. A única vez que entrara no inacreditável laboratório particular dele fora no Natal do ano anterior, a fim acusá-lo de ser o seu pai, para seu terrível constrangimento. Mesmo na época conseguira olhar os equipamentos de pocionismo dele e meramente sonhar em trabalhar ali um dia.
– É claro. Claro.
– Tem certeza que não prefere descansar? Foi uma semana e tanto. Reconheço que possa ser uma carga bastante pesada de atividades para uma sextanista, então vou compreender se quiser recusar, adiar por mais algumas semanas até que esteja mais acostumada às suas funções…
– Não! Eu não estou cansada. – mentiu. Cada mísera parte do seu corpo doía e pedia cama. – Estarei aqui. Quando?
Snape tinha um sorriso inescrutável em seu rosto magro e entalhado.
– Domingo pela manhã, às oito horas.
– Certo. Domingo. Até domingo, Prof. Snape.
– Até domingo, Srta. Black.
Ela esperou até sair da sala e fechar a porta atrás de si para dar um salto de comemoração inevitável. Ainda estava vibrando quando chegou ao dormitório e encontrou o resto das meninas – menos Olga, que costumava ficar no quarto da sua comparsa de crime até muito tarde todas as noites.
– Olha só quem está brilhando feito um Grindylow no cio – Sia comentou maliciosa quando ela entrou. – O que houve, finalmente viu Holmes se cansar de ser perfeita e se jogar de uma janela?
– Melhor que isso. Snape me quer em seu laboratório esse fim de semana!
Sia franziu, obviamente não encontrando o motivo para tanta empolgação em sua sentença, mas Bervely não ligou. Preocupou-se em catar a sua garrafa de poção do sono no criado mudo e servir uma grande dose no copo, pois sabia bem que não ia conseguir dormir facilmente naquela noite, e Merlin, como ela precisava.
– Ah, não. Você prometeu que ia conosco para Hogsmeade amanhã – a colega lhe lembrou – não pode declinar, vamos procurar a roupa da festa de Halloween, esqueceu?
– Ele me quer lá domingo, não amanhã. – abanou uma mão, despreocupada.
– Domingo trabalhando com Snape? Soa como um sonho, não é mesmo? – Pacey comentou, jocosa, e lançando um olhar para dentro do copo dela, torceu o rosto em nojo – O que é isso que você toma toda noite? Parece como algo que vai fazer um buraco em seu estômago.
– É só uma receita adaptada de Poção do Sono Sem Sonhos. – disse, experimentando um gole. O gosto era amargo e forte, porque tinha trabalhado mais um pouco nela naquele mês, usando alguns ingredientes tirados do armário de poções, e a deixara muito mais concentrada.
– Cuidado. Isso parece que pode derrubar um hipogrifo.
– Minha insônia é do tamanho de um hipogrifo. Boa noite, meninas.
Deitou no travesseiro e rapidamente adormeceu, sem nem tempo de desfazer o sorriso. Graças à poção, aquele foi mais uma abençoada noite, completamente livre de qualquer espécie de pesadelo.
– BD –
Na manhã seguinte, Bervely nem estava de mau humor quando saiu do castelo para pegar a carruagem até Hogsmeade junto às colegas, e descobriu que o céu prenunciava chuva. Pelo contrário, ela se sentia… sublime.
– Você tem alguma coisa no seu rosto – disse Pacey, numa falsa seriedade que Bevy não captou.
– O quê é? – passou a mão sobre o rosto distraidamente.
– Eu posso estar errada – continuou Pacey com um tom preocupado – mas eu acho que é… espere, é isso mesmo que eu estou vendo? Sia, o que você acha, não se parece com um sorriso?
– É um pouco deformado e precário, mas é definitivamente um sorriso – postulou a negra, com um olhar científico.
– Vão à merda – Bervely rolou os olhos, sem conseguir se irritar com elas, que começaram a gargalhar descontroladamente.
– Eu nunca a vi feliz. – explicou Pacey, ainda risonha, pronunciando a palavra como se fosse uma doença rara – Isso tudo é por causa da coisa de poções amanhã?
– Talvez – ela deu de ombros, olhando através da janela da carruagem, para o dia cinzento e estranhamente leve – Eu apenas tenho esse pressentimento…
– Ela tem um pressentimento – Sia repetiu de forma lenta e elaborada, lançando um olhar significativo para a loira.
– Ela continua sorrindo e tem um pressentimento. Acha que devemos dar meia volta na carruagem e levá-la direto para a ala-hospitalar, Sia?
– Ala-hospitalar, definitivamente. – respondeu a outra, assentindo categórica.
– Pro inferno as duas. É só uma sensação de que algo fantástico vai acontecer.
– Algo mais fantástico do que passar o domingo inteiro enfiada num laboratório de poções com Snape? Não posso nem imaginar. – Sia debochou, fazendo um meneio de cabeça perdido.
Bervely deu de ombros pela segunda vez, rindo.
– Talvez.
Elas desceram da carruagem quinze minutos mais tarde para uma ventosa Hogsmeade. Ainda havia um resquício de neblina rondando os telhados pontudos, e o céu esbranquiçado dominava a paisagem, contra o dourado e amarelo queimado das folhas no início de outono. Apesar disso, não eram os únicos alunos que tinham decidido aproveitar aquela primeira visita ao vilarejo, especialmente os alunos do terceiro ano, para os quais tudo ali era novidade.
Do sétimo, haviam poucos, a maioria garotas, e era óbvio que estavam ali pelo mesmo motivo que elas: conseguirem roupas para a festa de Halloween que o pessoal da Corvinal estava organizando secretamente, apenas para os sextanistas e setimanistas que conseguissem se esgueirar para fora da escola em 31 de outubro. A próxima visita ao vilarejo só seria perto do Natal, então aquela era a única chance de garantirem tudo que precisavam – incluindo, pelo que Bervely soube, uma quantidade respeitável de bebidas e doces proibidos em Hogwarts.
– Pelo que eu saiba, a única cor autorizada na festa vai ser preta. Absolutamente nada que faça alusão às casas.
– Ora, então nem precisamos comprar nada – tentou Pacey, que não era a maior fã de compras do grupo – podemos apenas usar os nossos uniformes.
– Fale por você – Sia retrucou, as puxando para a Trapobelo Moda Mágica – Eu que não quero aparecer na melhor festa de Halloween proibida que já rolou em Hogwarts usando as minhas saias de pregas e botas de cadarço.
Bervely passeou distraidamente entre os cabideiros, ouvindo as sugestões bem intencionadas de Rockwood com só metade da atenção. Ela aceitou sua sugestão de vestido sem se dar ao trabalho de usar o provador, e esperou pacientemente a negra provar cerca de trinta vestidos pretos, todos muito parecidos.
– Se você vestir mais um sequer, eu juro que vou fazer você ir vestida com a toga suja de um dos elfos da cozinha, Rockwood – ameaçou Pacey, que já havia escolhido o seu há muito tempo, e estava no limite da sua pouca paciência com “coisas de bruxa fresca”, como ela chamava.
– Tudo bem, vai ser o com decote em V então – suspirou – mas tem certeza que não deixou minha bunda muito grande?
– Sua bunda é muito grande. Não culpe o vestido.
Elas foram resmungando uma com a outra para fora da loja e Bervely as seguiu, silenciosamente, prestando atenção. Havia algo no ar, uma música. Era estranho…
– Para onde vamos agora? – Sia perguntou, e quando Pacey deu de ombros de má vontade, ela olhou para o seu outro lado e não encontrou Bervely. – Black? Hey, o que está fazendo ai?
Bervely estancara em frente a loja e parecia distraída, olhando vagamente para o lado do vilarejo onde ficava a parte residencial.
– Vocês estão ouvindo isso?
– O quê? – Pacey perguntou impaciente – O som da minha alma agonizando com vocês duas sendo vagas e indecisas sobre o nosso próximo destino debaixo do que claramente vai se tornar uma tempestade em menos de um minuto?
– Não… sinos.
– Sinos? – Sia franziu o rosto em estranheza – Bervely, você está bem?
– Sim… – o rosto dela mudou de confusão para uma clara e luminosa expressão de expectativa – eu vejo vocês mais tarde. Preciso encontrar alguém.
– Encontrar quem? – Pacey exigiu, mas então a colega já estava longe, indo na direção dos limites do vilarejo, onde não havia muito mais do que casas de moradores e o trilho do trem. Uma olhou para a outra, ambas completamente confusas, e desistiram de entender no momento em que soou o primeiro trovão sobre as suas cabeças.
– BD –
Bervely não ouviu o trovão, ela continuava focada nos sinos. Não conhecia aquela parte de Hogsmeade, mas não importava, pois conseguia se guiar pelo som. Atravessou toda a parte das casas, até que só haviam árvores ladeando a beira de uma colina. O mundo começava a ficar abafado, como se estivesse sugando um fôlego antes de derramar a chuva, mas nem assim ela parou de andar, seguindo o tilintar agudo que ouvia.
Falava a língua das fadas.
Três badaladas curtas, era o que dizia.
Fez a curva do caminho principal, que se tornara não mais que uma trilha agora. E lá no pé da colina, perto de onde passava o trilho do trem, estava ele, de pé, e sorrindo enormemente.
Exatamente como ela se lembrava.
Uma camisa grossa de lã verde por baixo do coat de viagem marrom escuro. O cabelo loiro claro meio desordenado, os olhos da cor exata do mar da Normandia, e o sino de ouro em suas mãos.
– Hector! – ela chorou, tudo dentro dela virando um caos, uma dor de alívio e felicidade tão enorme que seus joelhos fraquejaram.
Ele abriu os braços para ela, lhe chamando.
– Fadinha! – exclamou, e a voz também era igual ao que se lembrava, macia e adorada fluindo do seu ouvido para o coração, aquecendo-a inteira – Eu te disse que eu voltava, não disse?
(Continua…)
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