Indigna Rosa Negra

50 Sob a Insígnia da Rosa – Parte I


Notas iniciais
Eaa povinho! Duas semanas sem postar, e várias coisas aconteceram! Primeiro, três pessoas lindas deixaram recomendação: Crazy Duda, lu black e LC_Pena! Obrigada suas DIVAS! Indigna completou 1 ano de publicada aqui no Nyah em 07/01, olha que maravilha! Como comemoração, esse capítulo veio gigante e eu o dividi em dois, mas estou postando os dois juntos! E sim, quero comentário em dobro, podem ir alongando os dedinhos! Boa Leitura!

“Com grandes poderes, grandes responsabilidades”

(Stan Lee)


Bervely não ia ser hipócrita consigo mesma; não lhe passara pela cabeça que seu último ano em Hogwarts seria fácil. Se ela fosse alguém normal, ainda teria N.I.E.M.s e escolhas profissionais com que se preocupar, mas então ela não era: some-se aqui uma meia irmã cega e um pai sendo procurado pela justiça, e jamais chamaria que o que estava pela frente de um piquenique no parque.

Mas então, Severus Snape estava querendo tornar o difícil em impossível, e era de se admirar como podia fazer isso lhe enviando um pequeno pedaço de metal dentro de uma caixa.

– São as corujas de Hogwarts! – Nimphadora notou com solene melancolia, assistindo as aves cruzarem o céu azul claro pela janela e adentrarem educadamente pela cozinha. Suas sobrancelhas se franziram logo em seguida – Ué, por que são duas? Será que eles me querem de volta? Pff, sabia que não iam se aguentar sem mim naquela escola!


Era a hora do café da manhã, mas só as três garotas estavam à mesa. Andrômeda fora chamada ao hospital às três da madrugada para uma emergência, e Ted já se encontrava na oficina desde que o sol raiara.

– Será que é a minha? – Anne perguntou esperançosa, erguendo seu rosto na direção dos piados e farfalhar de asas. – Será que eles vão me aceitar de volta…?

O palpite fora acurado; uma das cartas estava nomeada para Johanne Loren, e Tonks a leu em voz alta tão logo conseguiu desamarrá-la da pata da coruja mais escura.

Prezada Srta. Loren,


Aguardamos você para o seu segundo ano letivo na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. Em anexo, você encontrará a lista de livros e equipamentos necessários. O ano letivo começa em 1º de setembro.

Gostaríamos de informar que estamos cientes das suas condições especiais e assegurar que providencias serão tomadas para a continuidade apropriada dos seus estudos em magia.


Atenciosamente,

Minerva McGonnagall
Vice-Diretora


– O que será que ela quer dizer com ‘providências’? – Anne franziu as sobrancelhas, preocupada, por detrás do lenço velho de Durmstrang, que ela voltara a usar desde o aniversário de Bervely.

– Quer dizer que Dumbledore é genial, e vai dar um jeito de você participar de tudo sem problemas. – Tonks garantiu, confiante, dando uma piscadela para Bervely e lhe estendendo a sua carta.


Com a exceção de que não era uma carta, mas um pacote volumoso, diferente dos anos anteriores. Ela abriu aquilo cheia de suspeita, tirando de dentro a usual carta de Hogwarts e uma extra, além da pequena caixa achatada com o brasão da escola na tampa.

– Ah, não, mentiiiira – Nimphadora produziu um sorriso cheio de dentes, entre impressionada e incrédula. – Quem foi o maluco que…?

Bervely desenrolou a carta, reconhecendo a caligrafia aranhosa de imediato. Ela leu em silencio, sua descrença crescendo enquanto avançava:


Cara Srta. Black,

Tenho a honra de informá-la que você foi selecionada pelo Conselho Docente como monitora-chefe do presente ano letivo.

Favor comparecer à reunião de monitoria na última cabine do Expresso de Hogwarts, às 11 horas do dia 1º de setembro, para maiores esclarecimentos.


Minhas sinceras felicitações,
Prof. Severus Snape.


– O que é, o que é? – Anne deu um pulinho de curiosidade em sua cadeira, percebendo o silêncio estupefato de Bervely.

– Ah, meu Merlin de cuecas, mamãe vai pirar quando souber que temos mais uma monitora-chefe na família! – Dora avançou para a caixa, enquanto Bervely ainda relia, tentando encontrar a pegadinha.

Monitora-chefe? – Anne guinchou, empolgada. – Bevy, isso é tão legal!

– E tão nerd! – completou a metamorfomaga, com um sorriso convicto em seus lábios pintados de fúcsia, em harmonia com os cachos.

E um equívoco, obviamente. – Bervely arrematou, abrindo a caixa com cuidado, como se esta pudesse lhe morder.

Mas não havia erro. Só um brilhante distintivo dourado com as palavras Bervely R. Black, seguidas de monitora-chefe, 1993–1994.

– BD –

1º de Setembro, 1993.

Chovia torrencialmente. Não bastasse ter ficado duas horas dentro de uma cabine com Percy Weasley – o monitor-chefe designado para aquele ano, para o seu completo horror – ela passara o resto da viagem de trem fazendo rondas e tentando conter primeiranistas excitados, quintanistas hormonais e setimanistas que se achavam os donos do trem, só porque eram veteranos (os Grifinórbos sendo os piores, mas então, quando é que não eram?)

Quando tudo se acalmara relativamente, o inimaginável aconteceu: dementadores no Expresso de Hogwarts. Bervely, que nessa hora ocupava uma cabine com Sia Rockwood, Pacey Oltman e Lorcas Ambrey, quase experimentara um ataque de pânico quando a criatura deslizara até a porta. O ser horroroso se demorara em sua cabine, succionando todo o ar e alegria disponíveis, e por um momento ela pensou que seria reconhecida. Teve de lutar contra a ânsia de vômito quando ele se retirou, e logo foi lembrada de que cabia a ela acalmar os segundanistas em pânico da cabine ao lado – o ano nem tinha começado ainda, e já era o pior de todos.

Agora finalmente entravam em Hogwarts, e quando Bervely desceu da carruagem – cujos desfigurados cavalos alados agora era capaz de enxergar – ela ajeitou o uniforme, lançou em si mesma um feitiço para secar as roupas e alinhou seu chapéu pontudo. Achava que podia atravessar com o mínimo de dignidade a Cerimônia de Seleção e o jantar, isso caso os dementadores também não resolvessem comer com eles.

Enganada estava, é claro.

Agora que havia luz – das velas flutuantes encantadas e dos archotes presos às paredes – o distintivo apregoado em seu peito reluzia, tornando-se um farol para os olhares dos colegas.


A sua própria casa foi, para sua surpresa, inesperadamente receptiva. Antes mesmo de chegar à mesa da Sonserina Bervely recebeu três cumprimentos de colegas que nem sabia como se chamavam, parabéns da metade do time de quadribol e ela podia estar errada, mas jurava ter visto um terceiranista fazer uma reverencia.

Então haviam Oltman e Rockwood. A primeira, ao vê-la no trem, arregalara seus olhos ligeiramente e deixara o queixo cair, como quem se vê diante de um evento impossível dentro da lógica da realidade, e tinha murmurado um “mas como…?”, mas então Sia dera uma espécie de guincho empolgado e começara a listar todas as coisas que elas podiam fazer, agora que Bervely ‘praticamente mandava na escola’.

– …e agora você pode restituir todos os pontos que McGonnagall nos tira por dizer a verdade sobre os grifinórios. – dizia ela, quando se sentaram na mesa no Salão Principal – E se Filch me pegar dentro de um armário de vassouras fazendo uma interação saudável com algum colega de novo, eu posso dizer que tenho a permissão da monitora-chefe!

– Desde quando é que guerra de línguas virou interação saudável, Sia? – Pacey debochou através de Bervely, que estava entre as duas, uma má escolha de posicionamento, aliás.

– Se você fizesse mais você saberia! – a negra alfinetou, jogando sua vasta cabeleira para o lado, quase atingindo o rosto de Bervely.

– Ok, vocês duas! – perdeu a paciência, mas no mesmo momento as portas se abriram e McGonnagall entrou com os primeiranistas enfileiradinhos e nervosos.

Ela sobreviveu relativamente bem à seleção, prestando atenção a tudo menos aos primeiranistas que experimentavam o chapéu mais esfarrapado da historia bruxa. Seus olhos perseguiam rostos conhecidos; Draco, por exemplo, na companhia costumeira de Goyle e Crabble – se surpreendeu em como ele tinha estirado durante as férias, inclusive no rosto, cada vez mais parecido com o do pai. Facilmente encontrou a cabeleira ruiva de Tara Romansek, sentada no oposto da mesa, junto às irmãs Greengrass. Tara olhava para o outro lado, a postura indicando impaciência. Ela nunca tivera saco para a seleção em Durmstrang, devia achar a de Hogwarts ainda mais entediante.


Bervely ainda procurou pela mesa da Corvinal pela agora muito familiar feição de sua meia-irmã; estava entre Luna e Belby, o menino minúsculo que participara do Clube de Voo no ano passado. Johanne estivera uma pilha de nervos antes do embarque, com a perspectiva de encontrar os colegas, e queria ficar na mesma cabine que Bervely, mas ela tinha a reunião e as rondas, e depois, colocá-la no meio dos sonserinos não lhe faria qualquer bem. Agora ela parecia tranquila, um ouvido voltado na direção do Chapéu Seletor, seus olhos ocultos não mais por um lenço, mas por um par de óculos escuros antiquados que Andrômeda encontrara no porão. Luna sussurrava em seu outro ouvido sem parar.

Pensativa, Bervely nem percebeu sua atenção vagando para a mesa da grifinória, no extremo oposto do Grande Salão. Parou justo num grupinho conversador mais à direita do ponto em que estava, composto pelos gêmeos Weasley, a alguma coisa Jonhson, que jogava no time e – surpresa – o capitão de quadribol. Era estranho vê-lo nas vestes escolares, depois de se encontrarem tantas vezes em roupas casuais nas férias.

Wood ficava bem de preto.

Wood parara de conversar e a estava encarando, a sombra de um sorriso ainda no rosto, mas logo esmorecendo.

– Sejam bem vindos! – disse o prof. Dumbledore, e Bervely ficou grata de ter um motivo para quebrar aquele contato visual fora de programação – Sejam bem vindos para mais um ano em Hogwarts! Tenho algumas coisas a dizer a todos, e uma delas é muito séria! Acho que é melhor tirá-la do caminho antes que vocês fiquem tontos com esse excelente banquete…

Bervely já podia adivinhar o que era, mas o conhecimento não a deixava menos agitada. Dumbledore pigarreou e prosseguiu:

– Como vocês todos perceberam, depois da busca que houve no Expresso de Hogwarts, a nossa escola passou a hospedar alguns dementadores de Azkaban, que vieram cumprir ordens do Ministério da Magia.


Ele fez uma pausa, e Bervely sentiu os pelos se arrepiarem debaixo das vestes. A maioria ali tivera um contato breve com as criaturas, mas ela convivera com eles mais do que o necessário para uma vida inteira. A ideia de tê-los na escola a fazia querer pegar o próximo trem de volta à St. Catchpole, nem que tivesse de viver como analfabeta mágica e acabar fazendo móveis como Ted Tonks.

– Eles estão postados em cada entrada da propriedade e, enquanto estiverem conosco, é preciso deixar muito claro que ninguém deve sair da escola sem permissão. Os dementadores não se deixam enganar por truques nem disfarces, nem mesmo por capas da invisibilidade. Não faz parte da natureza deles… – Bervely se perdeu um pouco, olhando para as portas do Salão, se perguntando o que os impediria se porventura os dementadores decidissem entrar na escola para uma nova ronda. – …apelo aos monitores, e ao nosso monitor e monitora-chefes, para que se certifiquem de que nenhum aluno entre em conflito com os dementadores.

Pacey lhe deu um cutucão no braço.

– Ouviu, monitora-chefe? – ela zombou, maldosamente. – Se algum dementador vier implicar conosco, é você quem vai ter que dar jeito.

Do outro lado do Salão, Percy Weasley estufou o peito e olhou em volta cheio de importância. Bervely o xingou mentalmente; duvidava que o idiota soubesse fazer um patrono corpóreo, e mesmo se pudesse, duvidava que sua fada-mordente fosse espantar os dementadores.

– Agora, falando de coisas mais agradareis – continuou Dumbledore, – tenho o prazer de dar boas-vindas à dois novos professores esse ano.

Ela virou a cabeça – raramente novos professores era boa noticia em Hogwarts, como já tinha percebido por: um, pior senso de moda e ladrão de quinta Quirrel e dois, sorriso mais falso elegido pelo semanário da Bervely, Gilderoy Lockhart.

– Primeiro, o Prof. Lupin que teve a bondade de aceitar ocupar a vaga de Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Algumas palmas tímidas ecoaram no salão, enquanto o homem mal vestido acenou da mesa dos professores. Bervely não julgava a recepção fria – ela mesma estava um pouco pregada na cadeira diante da noticia. Então era esse o emprego irrecusável de Remus Lupin? E ele nem mesmo comprara uma roupa nova para assumir o cargo?


Noticias mais chocantes estavam por vir, como ela logo constatou.

– Quanto ao nosso segundo contratado – continuou o diretor, abafando as palmas mornas para Lupin – Bem, lamento informar que a professora Grubbly-Plank, que ensinava Trato das Criaturas Mágicas, aposentou-se no fim do ano passado para poder aproveitar melhor os membros que ainda lhe restam. Contudo, tenho o prazer de informar que o seu cargo será preenchido por ninguém menos que Rúbeo Hagrid, que concordou em acrescentar essa responsabilidade docente às suas tarefas de guarda-caça.

Bervely teria ficado menos surpresa se Dumbledore dissesse que um dementador ia assumir a cadeira da professora Plank. A maioria dos aplausos veio da mesa da Grifinória – que nunca fora acusada de ter gosto refinado para qualquer coisa – mas a maioria dos sonserinos parecia tão surpreso e desgostoso quanto ela. Algumas mesas à frente, Draco fez algum comentário maldoso que angariou concordância do seu séquito.

Bervely encarou seu prato firmemente, perguntando como havia entrado sem perceber naquela realidade paralela absurda em que criaturas das trevas guardavam as entradas e guarda-caças davam aulas.

Quando a comida apareceu, sua fome já tinha ido embora há tempos.

– BD –

– Será que vocês podem esperar? – ela praguejou, avançando na multidão de colegas aglomerados na entrada do Salão Comunal. Ao ouvirem sua voz, eles abriram caminho para ela, um fenômeno que jamais lhe acontecera antes. – A senha é Primatium!

A passagem se abriu na pedra e ela entrou no Salão Comunal verde e preto, gelado e úmido, desviando-se do fluxo de colegas. Felizmente cabia aos monitores da casa guiar os alunos do primeiro ano para os seus dormitórios, então ela podia seguir para o seu próprio e dar o dia como encerrado.

A não ser pelo fato de que, quando Bervely chegou à sua cama costumeira, ela estava ocupada. Um malão de couro verde lustroso fora aberto no chão e vários pertences tinham sido espalhados pelo colchão. Holmes, que presumivelmente havia deixado o jantar mais cedo, saía do banheiro já em sua camisola, encontrou Bervely ali parada e soltando fumaça.

– Algum problema, chefa? – zombou a ruiva, jogando sua toalha molhada de qualquer jeito em cima das outras coisas.

– Fora a ocupação indevida da minha cama?

– Essa não é mais sua cama, espertona. – rebateu, rolando os olhos verdes delineados de preto.

Bervely olhou ao redor, para garantir que não havia uma cama extra no dormitório. Depois que Tara tinha tido os privilégios de monitora suspensos no ano anterior, alguém colocara uma cama extra no dormitório para ela, mas não havia nada como isso lá. Além do mais, Bervely não via seu malão.

Jeez, é de se pensar que fossem escolher uma monitora-chefe esperta, pelo menos. Acorda, Black, você não vai mais dormir aqui com os meros mortais. Ganhou a suite presidencial lá embaixo, aliás, parabéns por isso. Mais uma coisa que conseguiu arrancar de mim.

Bervely não se ateve à queixa do final, já que estava ocupada com a primeira informação. Logo um sorriso interessado cresceu em seu rosto, oficialmente o primeiro da noite.

– Não me surpreende que você esteja tão azeda, Holmes.

– Some daqui, sua insuportável. – ela praguejou, bufando feito um gato irritado.

Bervely não se demorou mais do que isso, antecipando o que devia ser a única boa noticia do seu dia. Snape lhe dera o quarto individual, ela ia ter seu próprio banheiro! Quase podia perdoar o padrinho por jogar aquela função ingrata em suas costas, pensou, descendo as escadas e atravessando o pequeno corredor que levava até seus mais novos aposentos.

Como esperado, estava encantado para abrir com uma senha, em conjunto com o encantamento em seu distintivo de monitora-chefe. Só que essa senha não estava na lista que recebera mais cedo no trem, onde constavam suas atividades ao chegar ao castelo.

– Merda. – xingou, olhando frustrada para a porta maciça de mogno. Teria de voltar ao dormitório, engolir o seu orgulho e perguntar a senha à antiga ocupante, e sinceramente, a opção ‘dormir no corredor’ parecia mais interessante naquele momento.

– É privilegium – disse a voz familiar às suas costas. Bervely não precisou se virar para reconhecê-la, já que a tinha ouvido há poucos segundos.

A porta se abriu com um estalo suave, e ao invés de agradecer, Bervely deu um passo à frente e entrou no quarto, tomando um bom minuto para apreciar a decoração. Ao exemplo do dormitório coletivo, predominava o verde escuro e cinza chumbo. Havia uma grande janela em arco no extremo oposto, adornada com ferro retorcido em formato de serpentes entrelaçadas, mas como todas as janelas do Salão Comunal Sonserino, dava para o lago e a vista era verde e turva através do vidro.

Havia uma grande cama de dossel próxima à parede, maciça e medieval em mogno, com cortinas de veludo verde-cobra e colcha da mesma cor, onde uma serpente prateada estava bordada. Também viu uma bancada ampla de estudos, um armário de roupas e, no canto oposto à cama, uma segunda bancada de mármore, uma pia e prateleiras, além do distinto bocal com suporte para caldeirão.

– Isso é novo! – Tara observava o mesmo ponto, tendo invadido o quarto sem permissão – Snape não consegue evitar mimar a aluna preferida, não é mesmo?

Bervely não lhe dignou resposta, porque teria de revelar seu sorriso de contentamento com o capricho. Ao invés disso ela foi olhar o banheiro, atrás de uma segunda porta, e encontrou uma ampla banheira cavada do granito, com mais ou menos o dobro daquela que tinham que dividir dormitório. Dava para afogar duas Taras Romanseks ali dentro, pensou com satisfação.

De volta ao quarto, encontrou-a sentada numa poltrona preta de brocados, enorme e de aparência confortável. O cabelo ruivo de Tara e sua camisola champagne contrastavam fortemente com o forro.

– Você vai odiar, você sabe. – ela lhe disse taxativa, enquanto Bervely, tendo achado sua bagagem ao pé da cama, destravou-a para liberar a Sra. Calliway.

– O que eu vou odiar, Tara? – perguntou com paciência. Gostava tanto do seu quarto novo que não tinha muito espaço para se irritar com ela, no momento.

– Ser monitora-chefe. É insuportável, você precisa resolver tudo, Snape espera o mundo de você, os primeiranistas não podem dar uma topada que vem encher seu saco, e depois tem as rondas, e os relatórios, e tem Weasley…

Ela precisava concordar com a parte do Weasley, mas rolou os olhos para o resto.

– Você está com inveja. Arruinou sua chance ano passado e agora voltou pro quarto comunitário. Lide com isso, Tara.

– Eu arruinei minha chance por causa do meu irmão, Bervely. – ela lhe lembrou acidamente.

Bervely, que finalmente encontrara a velha aranha dentro de uma meia, andou pelo quarto procurando um bom lugar para alojá-la. A parte superior do guarda-roupas pareceu propícia, inclusive porque já estava cheia de teias. Talvez a Sra. Calliway fizesse algumas amizades, mas o mais provável era que devorasse a concorrência.

Quando se virou, satisfeita com a alocação da fiel escudeira, percebeu que Tara a encarava de um jeito estranho. Ela ainda estava em sua poltrona, e ainda parecia um desenho dramático, todas as suas cores contra o fundo negro.

– O que foi agora? – inquiriu, cansada demais para desvendar as entrelinhas de Romansek Filha.

– Você tem alguma coisa para me contar sobre as suas férias, Bervely? Algo que, você sabe, eu deveria ficar sabendo?

Ela piscou por um momento, tentando entender a indireta. Será que Tara estava interessada em suas desventuras? Tudo que não precisava agora era entrar no tema Gavril Romansek, ou então nas outras coisas: pai criminoso, irmã cega, virgindade perdida… mas porque Tara ia querer saber qualquer uma dessas coisas?

– Não faço ideia do que está falando. – suspirou, cansada. – E se não se importa, quero desfrutar da paz e sossego do meu novo quarto, na minha grande cama.

A ruiva lhe olhou longamente por um meio minuto. Seus lábios se torceram, com algo que parecia frustração.

– Boa noite, Black.

– Boa.

– Aproveite enquanto tem. Logo, logo você vai fazer alguma coisa estúpida e perder o cargo.

Ela riu de todo aquele despeito, acompanhando a colega até a saída.

– Isso poderia até ser verdade… se eu não fosse a favorita do Snape, não é mesmo?

– BD –

A sua nova cama era maravilhosa.

A reunião de monitoria, nem tanto, e Bervely ficou horrorizada ao descobrir que aconteceria semanalmente.

– Então é isso. Eu fico com a ronda noturna nas terças, quartas e sexta, Black nas segundas, quintas e sábados. Os relatórios de frequência serão preenchidos por Black, eu fico com as atas de reunião. Black fará a requisição do corujal à cada quinzena…

– Eu estou bem aqui, Weasley – ela chispou, ríspida, dando um olhar gelado para o monitor-chefe. – Com quem você está falando, com as paredes?

Ele se empertigou, empurrando os horríveis óculos de aro de tartaruga contra o rosto, olhando para ela por debaixo deles como se Bervely tivesse acabado de xingar sua mãe.

– Estou apenas expondo os arranjos para o grupo como um todo. – ele se defendeu. Bervely ergueu uma sobrancelha para a ironia da coisa.

– Você reparou que ninguém mais está te ouvindo?

Era uma meia verdade. Os demais monitores, dois de cada casa, estavam sentados ao redor da mesa circular ampla que ocupava a maior parte da Sala de Monitoria, um aposento contíguo à sala dos professores no terceiro andar. Ela só sabia o nome dos da sua casa – Ralf Cavendish e Leda Greengrass, e se lembrava vagamente do menino do quinto ano da lufa-lufa, Diggory, e só porque ele morava perto do chalé e aparecera em sua festa de aniversário de 16 anos. O resto, pouco lhe importava. Eles discutiam entre si sua própria divisão de atividades – ou no caso dos sonserinos, discutiam para ver quem ia se livrar da orientação dos novatos logo mais naquela manhã.

Continuando – Percy Weasley ergueu o pergaminho novamente, com um pigarro. Merlin, que voz irritante ele tinha. – Black vai acompanhar a realização das detenções da sua casa e da Lufa-lufa, quando os professores não puderem, e eu vou…

– Por que eu fico com Lufa-lufa? – ela o interrompeu, num tom de injustiçada. – Isso é injusto, você pega Corvinal que nunca tem detenção, eles preferem se oferecer em sacrifício pra a lula-gigante do que quebrar uma regra da escola!

Weasley piscou como se estivesse diante de uma criatura de outro planeta cuja a língua soava incompreensível e machucava seus ouvidos. Claramente, não apreciava senso de humor.

– Que seja, eu fico com a Lufa-Lufa, mas então você fica com a sistemática do quadribol. Toda ela.

Ela não sabia o que era ‘sistemática do quadribol’, mas não haviam tantos jogos assim durante o ano. Eles deram por finalizada a reunião a poucos minutos da primeira aula, Weasley praticamente arrancou a lista de presença de sua mão depois que ela assinou, deu um seco ‘obrigado’ e saiu de cara feia.

Ela sabia por que ela odiava Percy Weasley (as razões óbvias, que começavam em seu cabelo vermelho e terminavam nos sapatos desgastados e cheios de arranhões), mas porque é que Percy Weasley a odiava?

– Srta. Black? Tem um momento? – Snape acabara de surgir na porta da sala, afastando seus devaneios. Ele era o mesmo de sempre – vestes sóbrias abotoadas até o queixo, o cabelo lustroso sobre o rosto e a expressão de quem acabara de desovar um corpo, mas mesmo assim ela se sentiu feliz em vê-lo.

– Sim, professor, na verdade eu tenho.

Um minuto depois, estavam na Sala dos Professores, que tinha quatro vezes o tamanho da dos monitores e, curiosamente, diversos espelhos. Snape indicou que se sentasse em uma poltrona e tomou a outra logo adiante dela, jogando a capa para trás do encosto ao se sentar, num movimento elegante.

– Então, tem apreciado suas novas acomodações?

Ela não refreou um sorriso.

– Eu tenho minha própria estação de poções.

– Sim, você tem.

– E a minha pia, e a minha bancada de mármore. – completou, mal podendo impedir os dentes aparecerem entre os lábios esticados.

– Sim, senhorita, você tem. – Ele não retribuía a expressão propriamente, mas a diversão estava estampada em seus olhos e para ela era o bastante. – E as demais demandas da monitoria, como têm se desenrolado?

– Bem, – bufou levemente, lembrando-se da reunião – Eu tenho me controlado para não enfiar a varinha no olho de Weasley por acidente. De resto, tudo sob a mais perfeita ordem.

– Não deixe Weasley muito à vontade, Srta. Black. Eu conto com você para isso.

– Sim, senhor. – fez um pequeno aceno de cabeça, aceitando a missão com prazer.

A vontade de questionar Snape a respeito da nomeação passara. Além do mais, ela achava que o professor tinha qualquer outro motivo para chamá-la ali; não era do feitio do mestre de poções fazer convites para conversa social.

– Srta. Black, não é um hábito do corpo docente acompanhar pessoalmente a escolha do currículo dos alunos nesta escola, mas eu pensei em abrir uma excessão no seu caso.

Por que eu sou sua afilhada, ela completou silenciosamente. Pela primeira vez talvez, a constatação não a incomodou, pelo contrário.

– Se não se importa com a pergunta – ele prosseguiu – Já sabe para qual carreira vai voltar sua educação esse ano? Naturalmente você fez a sua opção pelos N.I.E.M.s ao final do ano passado…

– Sim. – concordou, ajeitando-se melhor na poltrona – Optei por Poções, Herbologia, História da Magia, Astronomia e Transfiguração. Eu tinha assinalado Trato das Criaturas Mágicas, mas mudei de ideia.

Snape não fez qualquer comentário à respeito, e não é como se precisasse. Rúbeo Hagrid como professor já era uma razão peremptória para o abandono da disciplina.

– Eu devo crer que a sua pretenção é seguir carreira em pocionismo, então?

Bervely não tinha propriamente pensado sobre aquilo. Apenas parecia a coisa certa, porque é o que ela amava fazer, mas então naquelas férias ela percebeu que não odiava um pouco mais de ação – se infiltrar em Azkaban e depois fugir fora de certa forma terrível, mas tivera seus momentos de excitação – e de repente a vida atrás de um caldeirão, apesar de maravilhosa, parecia incompleta.

É claro que não teve coragem de admitir isso na frente do Mestre de Poções, que não esperava nada diferente de uma resposta afirmativa.


– Sim.

– Uma decisão completamente acertada, na minha opinião. Eu só faria um acréscimo, Bervely, porque você – não me furto de dizer – tem um potencial espantoso no pocionismo e deve explorá-lo tanto quanto possível. Considerou a carreira de Alquimia?

Ela piscou, surpresa. Sim, ela tinha, nos seus sonhos mais loucos. Desde que conhecera Abraxas Malfoy e seu laboratório fantástico, e depois disso, por todos os anos em Durmstrang lendo a revista Quinzenal Alquímica e decorando os nomes de todos os alquimistas famosos e suas invenções fantásticas.

Mas isso fora antes. Um sonho da Bervely que podia tudo e cuja poção errada não fora culpada pela morte de seu próprio primo.

Diante da sua demora, o olhar estreito e negro de Snape se tornou especulativo.

– Bervely?

– Eu… não acho que seja o caso, professor. Sinceramente, já tenho muito em mente no momento.

Ele sacou do bolso de suas vestes um folheto azul índigo com inscrições acobreadas e lhe entregou. Ela reconheceu o símbolo da Alquimia estampado na fronte – uma cruz cujas pontas tinham o formato de lanças, superposta por uma cobra dobrada na posição de uma interrogação, acimada por uma coroa e um par de asas. Lia-se Instituto Flamel logo abaixo.

– Eu guardei para você, caso se interessasse. Você pode querer abrir um espaço em sua mente para a possibilidade. Todo ano eles me solicitam indicações, eu ficaria feliz em enviar o seu nome.

Ela encarava o folheto um tanto hipnotizada. A maior parte era escrito em símbolos alquímicos, e o papel em sua mão parecia feito de seda, a tinta, cobre derretido. Seu coração, por algum motivo, tinha disparado entre as costelas numa batida descompassada.

– Certo, professor, eu… obrigada.

– Disponha, Srta. Black. Agora é melhor se apressar para a sua aula, não é de bom tom para a monitora-chefe chegar atrasada.

– BD –

Como se Hogwarts de repente tivesse se tornado uma versão escolar da caixa de Pandora, Bervely precisou lidar com outras surpresas desagradáveis na primeira semana de aula.

Primeira delas: O guarda-caças vulgo novo professor de Trato das Criaturas achara de bom tom trazer um hipogrifo para o seu primeiro dia. Como esperado, ele se mostrara incompetente em controlar a criatura e um aluno tinha sido ferido em sua aula, o que levou Bervely a descobrir que, quando alguém da sua casa ia para a ala-hospitalar, ela precisava preencher um relatório de acidentes para anexar à sua ficha.

Era o tipo de tarefa que podia delegar aos monitores do quinto ano, a não ser pelo fato de que, quando ela teve um horário livre antes do jantar para fazer isso, ambos estavam em aula. Bervely acabou optando por ir pessoalmente à ala-hospitalar, onde descobriu que o aluno atingido fora ninguém menos que Draco.

Era difícil sentir pena dele – o menino não parava de jurar que Hagrid ia pagar caro pelo acontecido, como se o guarda-caças tivesse propositalmente enfiado a garra do hipogrifo em seu braço. Ela ouviu “meu pai vai ficar sabendo disso” pelo menos quinze vezes enquanto preenchia o relatório com as informações de Mme. Pomfrey.

Se manteve longe do leito dele o quanto pode, afinal, ele tinha visitas – uma colega com nariz de porco e seus dois guarda-costas tapados, mas logo a hora de visita acabou e ela se arrastou de má vontade até o primo.

O menino torceu o nariz ao vê-la se aproximar.

– O que você quer aqui? – perguntou de mau humor, virando o rosto para o outro lado. – Não tinha ninguém melhor pra mandarem falar comigo?

– Tinha, mas eu quis ver seu infortúnio com meus próprios olhos. – ela zombou, dando uma olhada desinteressada no curativo dele. Nem era assim tão grande quanto os boatos diziam.

– Eu exijo que você saia! – ele teimou, travando os maxilares – Me recuso a falar o que seja com você.

– Ótimo. – disse num tom alegre, fechando o bloco de notas. – Me poupa o trabalho, mas depois não reclame que não entregou a sua versão dos fatos.

– Todo mundo sabe a minha versão dos fatos! – Draco guinchou, o rosto vermelho e nada digno de um Malfoy naquele momento – A fera descontrolada me atacou, rasgou meu braço de uma ponta à outra e aquele gigante incompetente não fez absolutamente nada para impedir! É melhor você escrever nesse seu pergaminho que ele precisa ser demitido!

Bervely estava à ponto de lembrar àquele pequeno pedaço de merda Malfoy o seu lugar, avivando-o sobre quem é que tinha o distintivo ali, mas acabou se refreando, por causa de um vislumbre.

O Draco do passado, seis ou sete anos, tinha caído de cima do sofá sobre o seu braço, enquanto brincava de pega-pega com Charlotte, ela e Hector. Ele não chorava desde os cinco, quando se tornava muito orgulhoso para tal (“Dragões não choram!”), então no lugar disso, gritava e ofendia quem estivesse por perto quando sentia dor.

– Está doendo, não é? – constatou calma, para a surpresa dele, que parou de protestar imediatamente.

– Como é?

– Está doendo, apesar das poções. – repetiu, observando a expressão dele. Não importa se tinha crescido e se tornado tão esnobe, os traços do pequeno capitão Draco Gancho com seu chapéu estavam lá – Você nunca foi muito tolerante à dor.

– Não fale como se soubesse o que eu sou ou não sou, Black!

– Acontece que eu sei. – ela deu um suspiro apologético, se dirigindo ao armário de poções. Deu uma olhada para trás, mas Mme. Pomfrey estava ocupada com outro paciente, uma segundanista que subestimara seus abafadores de ouvido. Escolheu um fraquinho roxo cujo conteúdo era cremoso e bolhudo. – Aqui. Vai aliviar boa parte da agonia da cicatrização.

Ele olhou desconfiado para o frasco, uma sobrancelha loira se erguendo até quase a franja colada à testa.


– Por que está fazendo isso?

– Prefiro quando você é insuportável na versão original, não na induzida. Mas isso é só minha opinião. – dando de ombros como quem não se importa muito, ela deixou o frasco na cabeceira dele. – Boa noite, Draco.

Ele esperou Bervely sair para tomar o conteúdo, o que ela pode constatar através da fresta da porta. O que só provava que Draco talvez não confiasse nela, mas confiava em seus conhecimentos de poções, depois de tudo.

Estranho.

Por outro lado, só haviam elogios para o novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

– Ele vai cobrir todos os feitiços defensivos pedidos nos N.I.E.M.s – Pacey dizia com admiração no café da manhã da sexta feira, enquanto espalhava com precisão milimétrica a geleia de mirtilo na torrada – E ele acredita em aperfeiçoamento pela prática. Depois do ano passado ouvindo o banana do Lockhart lendo os próprios livros, é o mínimo que poderiam nos arranjar!

Ela não fez nenhum comentário, olhando atravessado para Remus Lupin na mesa dos professores. O bruxo estava engajado numa conversa animada com a professora McGonnagal e com o Prof. Flitwick, e parecia ligeiramente mais saudável do que na noite da seleção.

– Ok, então ele parece saber o que está fazendo e blá, blá, blá – Sia fez um aceno de impaciência, lançando seu olhar malicioso para a mesa dos professores – Mas não me diga que você não viu aquele par de mãos maravilhosas… quando ele pegou na varinha para demonstrar o Vicarium Inflamare, Morgana me segure, quem entrou em combustão fui eu!

Bervely cuspiu todo seu chá em cima do cereal, engasgando de forma totalmente deselegante. Pacey bufou.

– Cruzes, Sia, tem algum professor que essa sua perversão irrefreável perdoe?

A menina deu de ombros, digna.

– Tem um quê de selvagem nele, é só isso.

– Você precisa se tratar. – Bervely retrucou, afastando seu prato arruinado com uma careta. – A única coisa de selvagem que Lupin tem é seu guarda-roupas, que parece que foi atacado por um bicho. Se me dão licença, preciso ter uma palavra com o professor Flitwick.

– Humm, sempre achei que você preferia os baixinhos, Bervely. – Sia zombou, ganhando um olhar mortal. Ela estava gargalhando quando Bervely deixou a mesa da sonserina, tomando a direção do tablado dos professores.

O pequeno mestre de feitiços, no entanto, foi irredutível ao seu pedido. Ele leu o bilhete que ela lhe entregara ali mesmo, na mesa do café, e seu longo e adunco nariz se franziu desagradavelmente.

– Não, Srta. Black, você não pode retornar à minha classe para os N.I.E.Ms. Não é assim que funciona, você não pode simplesmente resolver entrar na matéria sem nunca tê-la cursado antes.

– Mas eu tenho qualificação. – disse entredentes, sentindo o rosto esquentar. Não esperava que aquela conversa fosse se desenrolar ali na frente dos outros professores. – Eu fiz Duelos em Durmstrang.

– Não é nem de longe a mesma coisa. – ele disse com sua voz esganiçada de duende de jardim. – E eu já tenho uma turma muito competente para treinar esse ano, seu desempenho ficaria desigual e terminaria por prejudicar quem realmente valoriza sua formação na disciplina.

– Mas se o senhor ao menos considerasse…

– Isso é um não, senhorita. – ele decretou, saltando da cadeira e desaparecendo por trás da mesa. – Boa sorte com suas outras matérias, as que você não se achou muito boa para cursar do início.

Ela só lembrou de fechar sua boca alguns segundos depois, quando o professor já estava gingando para longe sobre as pernas curtas.

– Sinto muito por isso. – disse Lupin, sincero. – Algo que eu possa fazer para ajudar?

Ela piscou, recompondo-se, e fechou a cara para ele. Por que Lupin estava interferindo em seus assuntos acadêmicos?

– Penso que não, professor. A não ser que você tenha um feitiço das trevas que eu possa usar para fazer o Prof. Flitwick mudar de ideia? Brincadeira. – acrescentou quando as sobrancelhas dele se arquearam em alarde. – A não ser que… você tem?

– Da última vez que eu olhei, minha disciplina tinha um Defesa antes de “arte das trevas”, Srta. Black.

– Pena. – ela deu um sorriso cínico – Nesse caso… sem negócios entre nós.

– É, aparentemente. – um sorriso também tinha surgido no rosto de Lupin, ligeiramente divertido. – À propósito, parabéns pela monitoria.

– Te agradeço quando eu descobrir se é mesmo uma coisa boa.

Ele riu pelo nariz.

– Sei exatamente como se sente. Sabe… eu fui monitor na minha época.

Bervely, que estava distraída pensando como poderia fazer Flitwick mudar de ideia, se voltou para Remus com surpresa. Ela não teria dito que o homem quieto e amarfanhado em sua frente ocupara tal posição de prestígio em Hogwarts nem em um milhão de anos. Ele notou a desconfiança dela, porque seu sorriso cresceu um tantinho.

– Você deve estar se perguntando como um ex-monitor acabou assim, remendando as vestes e aceitando um cargo que dizem que está amaldiçoado.

– Eu talvez esteja. – concordou, a boca um pouco torcida em descrença. Remus tranquilamente ajeitou a postura, pegando seu chá.

– Talvez na minha época, eu também tenha menosprezado a importância de Feitiços para a minha carreira acadêmica.

Mas Bervely lembrou o que Sia tinha falado sobre as mãos dele e sobre sua competência nos encantamentos, e percebeu que o Prof. Lupin estava claramente tirando uma com sua cara.

– BD –

– Quão legal é tio Remus ser nosso novo professor? Pena que ainda vou ter de esperar até quarta pela aula dele! Você ficou sabendo que ele levou um bicho-papão na aula do terceiro ano? Será que ele leva um pra a gente também?

– Não vejo qual o interesse em exibir pra sua sala inteira seu maior medo. – Bervely retrucou, sem muito ânimo.

Era sexta-feira e ela estava cansada. Mas não, nada de descanso para a monitora-chefe. Não bastasse ter acabado de sair da reunião semanal de monitoria, ela precisava fazer uma ronda completa pela escola após o toque de recolher, se certificando de que nenhum aluno espertinho estava fora do seu respectivo dormitório. Não tinha certeza se podia ser acompanhada de uma segundanista, mas pretendia inventar uma desculpa para Filch se fosse pega.

– Tem razão… qual seria o seu bicho papão, Bevy?

Estavam atravessando o corredor do quarto andar, que era adornado por um monte de armaduras alinhadas de um lado e de outro. Bervely seguia devagar, acompanhando passo da irmã, enquanto esta tentava prosseguir sem ajuda. Ela tinha dificuldades em andar em linha reta, e Bervely lhe dava pequenos toques no ombro para corrigir o percurso de tempos em tempos.

– Eu não tenho um bicho papão. Cuidado com o degrau.

– Todo mundo tem um bicho papão. Onde estamos?

– Virando à esquerda no segundo corredor após a sala de Transfiguração. Onde aquele menino Finch-Fletcher foi petrificado ano passado, se lembra?

Johanne assentiu, os abraços abertos de cada lado para evitar esbarrar nas paredes. Desnecessário dizer que Bervely estava prestando pouca atenção à ronda, já que precisava garantir que a menina não ia cair e quebrar a cabeça no chão de pedra. Lhe dava muita aflição vê-la cambaleando às cegas pelo corredor, e ela constantemente refreava o impulso de arrebatar sua mão estendida em frente ao corpo.

– E as aulas, você descobriu o que eram as providências que Mcgonnagal falava na carta?

– Ah, isso. – Anne fez uma pequena careta. – Ela me arranjou uma babá. Tá, não é bem uma babá, é só a Luna, mas ela tem que me seguir para todo lugar agora… e eu ganhei uma pena especial que escreve o que eu digo, e preciso aprender um feitiço que faz os livros textos serem lidos em voz alta. Mas ler e escrever não é o problema de verdade, e sim as práticas. Hoje eu tive poções e foi horrível. – Seus ombros tiveram um espasmo, como que para ilustrar a horribilidade da coisa.

– Por que, que aconteceu?

– Tente fazer uma Solução Encolhedora com os seus olhos fechados, e você vai saber o que aconteceu. E Luna não é muito boa em poções, mesmo com os dois olhos funcionando, o que só piora a coisa toda.

Elas tinham chegado ao pátio externo, de onde um vento fresco soprou levantando o cabelo solto das duas garotas. Johanne deu um pulo para trás, assustada, e caiu sentada antes que Bervely pudesse fazer qualquer coisa.

– Santo Merlin, você está bem? É só o vento do lado de fora.

A menina se levantou rápido e sem graça, ajeitando a saia do uniforme. Mesmo na luz falha que entrava pelas passagens em arco dava pra ver suas bochechas corando.

– Eu estou bem, é só… Hogwarts é estranha no escuro.

– Hogwarts é estranha de todo jeito. Se machucou? Foi uma queda feia.

– Estou bem! – reclamou, num ímpeto inesperada. Bervely se espantou, percebendo que a menina tinha a respiração acelerada e cobria o rosto com uma mão. – Meus óculos, eles caíram, mas que droga…

Accio óculos – conjurou com a varinha, os entregando para ela. – Você sempre pode usar magia para recuperá-los, sabe.

– É. Certo. – disse nervosa, colocando-os de novo no rosto. Tinham armação marrom e eram antiquados, e Bervely só imaginava como causavam estranhamento entre os colegas dela na Corvinal, mas não era pior que um lenço amarrado à cara vinte e quatro horas por dia. – Eu… eu acho que é melhor eu voltar pra meu dormitório.

– Te acompanho. – falou, ainda com as sobrancelha franzidas para aquele pequeno ataque da menina.

– Não, eu posso achar o caminho sozinha. – teimou, virando-se de costas e começando a andar na direção oposta a que tinham vindo.

– Você sabe que esse é o caminho para a cozinha, certo? – comentou. Anne parou, e seus ombros caíram de desanimo.

– Eu ia descobrir eventualmente.

Ela deu um pequeno sorriso ao se aproximar, pousando uma mão em seu ombro, girando seu corpo para a direção certa e começando a caminhar com ela.

– Parece que até a corvinal espertona precisa aprender a aceitar ajuda de vez enquanto, né, irmãnzinha?

– BD –

A primeira semana de aula avançou num arremedo de rotina. A distração com a quantidade absurda de conteúdo que os professores anunciavam para o sétimo ano, em soma às tarefas de monitoria, acabaram lhe distraindo do mundo do lado de fora; mundo o qual incluía não só dementadores ao redor da escola, mas a razão de eles estarem lá.

Não foi até o café da manhã da quinta feira seguinte que ela experimentou um choque de realidade, ao olhar distraidamente o profeta diário que Pacey lia por cima de sua torta caramelada.

Sirius Black é avistado nas proximidades de Hogwarts”

Ela abaixou lentamente seu corpo de suco, o coração de repente batendo forte.

– Pas, posso ver a primeira página do seu jornal?

– Claro. – ela lhe passou o pedido um tanto distraída, os olhos pregados ao novo regulamento para chaves de portal da página 5.

Bervely leu rapidamente a matéria, segundo a qual Black fora avistado por um trouxa numa cidade ao norte da Escócia, mas que até o Ministério chegar lá, ele já tinha sumido. Ela sentiu a garganta secar e tomou outro gole de suco generoso, disfarçando.

O que raios Black estava fazendo perto de Hogwarts?

O ministério acreditava que Sirius estava atrás de Potter, por isso tinha enchido a escola com dementadores, mas não havia como o garoto ajudá-lo a provar sua inocência. Harry Potter nem sabia que ele era inocente, talvez nem soubesse que era seu padrinho, para começo de conversa.

Seus dedos coçaram para mandar um patrono até Black, perguntando o que diabos estava pensando, mas se deteve no último momento. Afinal ele estava vindo em direção à Hogwarts – em algum momento ia ter de dar as caras.

E talvez, só talvez, ela se sentisse ansiosa para encontrá-lo novamente.

– BD –

O grande problema de ser monitora-chefe é que ela não era mais a monitora de poções.

E sentia falta disso. Terrivelmente. Deu-se conta perto do fim de setembro, quando estava no meio da aula de poções. Snape listou as instruções para o Tônico da Invisibilidade¹ e ela se lembrou, com uma ferroada no estômago, que a ensinara para o sétimo ano, no ano anterior.


Era enfadonho ficar ali sentada repetindo os passos que já sabia de cor, sabendo que seu trabalho resultaria numa poção impecável; mais interessante seria caminhar pela sala acompanhando – e corrigindo – os erros dos colegas. Lançou um breve olhar para o professor, que lhe respondeu com um gesto de encorajamento debochado. Ela deu um suspiro e seguiu a receita, entregando o frasco cor de rosa iridescente ao final da aula.

– Muito impressionante. – caçoou ele, ao que ela rolou os olhos. Pior do que Snape carrancudo era sua versão engraçadinha. – Srta. Black, não gire os olhos pra mim.

– Foi um cisco, professor.

– Eu vejo. Dispensada.

– Professor? – chamou, resolvendo que valia à pena arriscar. – Posso fazer um comentário sobre a poção?

Os olhos dele brilharam de renovado interesse.

– Se você precisa.

Ela sorriu. – Estive observando que a fórmula original proposta por Ms. Camilla foi modificada, com a substituição de um ingrediente chave. Usamos pelo de seminviso hoje, mas a primeira receita era feita com um pedaço de uma capa da invisibilidade, não é?

– Isso é uma lenda. Jamais se comprovou a existência de tal objeto, ao menos não como afirmado: “Um pedaço do manto da pró´ria morte” – parafraseou, desdenhoso.

– Mas não é verdade que há uma amostra da poção original do Museu da Alquimia, em Praga?

– Vejo que alguém andou aprofundando suas pesquisas, hum? Diga logo o que quer, Srta. Black, toda essa adulação está abreviando meu tempo de almoço.

– Bem, se pudéssemos fazer alguns testes na amostra original e descobrir o que ela realmente usou… seria interessante, não seria?

– Sim, seria.

Bervely trocou seu peso de um pé para o outro, parada na frente dele esperando seu silencio falar por ela, até que o professor soltou um silvo de rendição e franziu o canto da boca.

– Muito bem, Srta. Black, venha ao meu laboratório mais tarde e podemos conversar à respeito.

Ela teria dado um pulo ou feito uma dancinha, mas sendo uma Black, puro-sangue, veterana e ainda por cima monitora-chefe, resolveu que era melhor manter a compostura.

– BD –

Depois das aulas daquele dia e após finalizar a ronda, Bervely voltou para seu quarto, tomou um bom e relaxante banho e vestiu uma roupa confortável, enfiando o relatório da semana em seu bolso antes de sair, caso precisasse de uma desculpa para estar vagando pela escola tão tarde.

Só que não precisava. A parte boa de ser monitora-chefe era que não tinha que arranjar uma desculpa para andar após o toque de recolher – bastava dizer que estava suspeitando de alunos fora da cama, e quem quer que a interpelasse, professor, fantasma ou Filch, se juntaria às buscas com ela.

A outra coisa boa era uma descoberta recente: seu quarto possuía uma segunda saída que dava direto em um dos corredores pouco frequentados das masmorras, sem que precisasse atravessar o salão comunal da Sonserina. Quando ela quisesse ir e vir sem ser interpelada pelas queixas dos colegas (sempre havia uma queixa, elas brotavam como bolhas de uma Poção Borbulhante quando os colegas lhe viam), ela podia se esgueirar pela sua saída secreta e sair nas masmorras, perto de uma escada que ia direto até o térreo.

Era por esse corredor praticamente desconhecido que Bervely se deslocava, tarde da noite, quando um cheiro herbáceo e adocicado capturou sua atenção. Seguiu-o até uma das salas vazias próximas à sala de poções, girou a maçaneta sem se preocupar em bater e encontrou, para a sua surpresa, duas pessoas lá dentro.

Era uma cena e tanto: as duas meninas em cima de uma mesa longa de treino, uma sentada com as pernas cruzadas, acariciando os cabelos da outra, que estava deitada em seu colo. Essa segunda, que era loira e usava uma camiseta de quadribol da lufa-lufa, foi a primeira a lhe ver ali parada. Ela se levantou tão rápido que sua coluna estalou.

– Monitora Black!

Espantoso que a menina soubesse seu nome, porque Bervely não a conhecia em absoluto.

A outra, que tinha a fonte da cortina de fumaça que preenchia a sala presa entre seus dedos, ergueu uma sobrancelha bem humorada. A postura, a juba ruiva e o olhar felino eram inconfundíveis, mesmo que estivesse um pouco escuro e enevoado ali dentro.

– Ops, Claire. Parece que estamos em apuros.

Bervely procurou de volta sua postura altiva, momentaneamente solapada pela cena.

– Me chame de louca, mas eu gostaria de uma explicação para que diabos é que vocês duas estão fazendo aqui há essa hora da noite.

– Louca. – Tara estalou despreocupada, o sorriso brincando nos lábios. Tudo indicava que estava se entretendo com o flagra, muito embora a sua acompanhante tentasse lidar com uma fulgurante onda de vergonha que ameaçava torná-la da cor de um rabanente.

– Nós estávamos só… hum, conversando. E eu já estava indo.

– Esta cedo, Claire. O papo estava tão bom. – ronronou a ruiva, descruzando as pernas e as esticando sobre a mesa. – Bervely, tem algo para nos dizer ou vai só ficar ai parada assistindo?

Ela sentiu o sangue correr quente, alimentando sua irritação.

– Sim, eu tenho algo a dizer! Se vocês não voltarem agora mesmo para seus respectivos dormitórios, ou vou se obrigada a relatar a… isso ao Prof. Snape! E eu nem vou dizer nada sobre essa coisa em sua mão, Holmes!

– Oh, por favor, isso? – acenou a esmo com o cigarro aceso – Não é nada demais, relaxe. Jeez, Bevy, por que tão estressada?

– Eu v-vou voltar pro quarto. – disse a lufa-lufa, que agora Bervely se lembrava ter o sobrenome Abbot – Boa noite! Eu… desculpe. – pediu, ao passar por Bervely, de cabeça baixa.

– Boa noite, amor! – Tara disse num tom alto, quando a menina já desaparecia no corredor. Depois ela olhou feio para Bervely – Viu só o que você fez? Nem ganhei um beijinho de despedida. Lamentável, B., onde estão as suas maneiras?

Bervely continuava quente. Fechou os olhos, respirando fundo. Não deixe Holmes tirar você do sério.

Quando os abriu, estava mais calma. Ou pelo menos mais controlada.

– Desde quando você faz amizade com lufa-lufas, Tara?

– Amizade? – ela repetiu com descrédito – Não seja ingênua, Bervely. O máximo que eu arranjo na lufa-lufa é um lanche. E Claire é uma boa garota. Você já esteve com uma boa garota? É uma experiência totalmente nova pra gente como a gente.

Um arrepio varreu a coluna de Bervely – repulsa. Tinha que ser repulsa, certo? Balançou a cabeça.

– Você está chapada. Que droga é isso que você está fumando?

A ruiva deu uma gargalhada sonora, jogando seu cabelo volumoso para trás junho com o pescoço comprido.

– Quer provar? Não ia te fazer mal, você bem que está precisando de uma relaxada… não te falei que monitoria era um saco?

– Já chega, Tara. Vai pro seu quarto. – insistiu, de cara fechada, se aproximando dela para arrancá-la daquela mesa.

– Mas você roubou meu quarto… – protestou, fazendo-se de inconformada – Aliás, se você não tivesse roubado meu quarto eu não precisaria trazer minha diversão pra uma sala vazia, não é mesmo?

Quando conseguiu guiar Tara de volta ao salão comunal, ignorando suas queixas e fazendo sumir o cigarro, já eram quase nove da noite. Muito tarde para ir até o escritório de Snape, mas seguiu de qualquer maneira, parando diante de sua porta indecisa sobre bater ou não. Ele dissera ‘mais tarde’, a final de contas, e era mais tarde.

– Srta. Black, você vai entrar ou ficar admirando a porta a noite inteira? – a como sempre altiva voz de Snape se fez retumbar através da madeira.

Como ele sabe?, praguejou consigo mesma. O laboratório de Severus estava preenchido com um aroma ácido e folhoso que trouxe lágrimas aos seus olhos, mas curiosamente, abriu suas vias respiratórias. A fonte do cheiro rodopiava em um caldeirão de prata, e havia um numero surpreendente de ingredientes, utensílios e medidores sobre a bancada de trabalho.

– Desculpe a demora, eu tive um imprevisto. – disse, aproximando-se e puxando um banco. O laboratório era provavelmente um dos lugares onde se sentia mais à vontade em Hogwarts, o que era controverso, já que Snape não era conhecido como alguém que deixava as pessoas relaxadas.

– Isso por acaso estaria relacionado ao cheiro de espiracéia impregnado em seu uniforme?

– Não é bem espiracéia. – murmurou, sem graça. O mestre lhe lançou um olhar suspeito, mas um dos feitiços temporizadores apitou, atraindo sua atenção de volta ao caldeirão borbulhante. Ela espichou o pescoço para dar uma olhada nas instruções, e se surpreendeu ao ver o quanto eram absurdamente complexas. Complexas como Felix Felicis ou a Poção do Tempo. O tipo de coisa que não se aprendia na escola.

– Você pode me contar o que mais pensou sobre o debridamento do Tônico da Invisibilidade original, Srta. Black, sou todo ouvidos.

– Ah, sim… certo. Então, partindo do princípio de que deve haver um ingrediente chave diferente de pêlo de seminviso na fórmula original, eu estive imaginando…

Mesmo enquanto falava, explicando à ele até onde suas pesquisas tinham-na levado, Bervely não se furtava em acompanhar a técnica do padrinho. Ela queria chegar a isso, um dia: a graça segura com a qual ele se movia, como se estivesse orquestrando uma conserto, os seus utensílios fossem instrumentos e os ingredientes fossem notas musicais. No final haveria uma canção rodopiando sobre o fogo, e ela faria exatamente o que fora designada a fazer, nem mais ou menos, ditando a dança metabólica no corpo de alguém.

Mas, quando ele começou a murmurar encantamentos sob o caldeirão, concentrado, ela parou de falar sem perceber. A poção se tornou prata líquida, ondulou e virou uma espuma suave, seguindo os comandos da voz dele. Bervely esperou, de boca aberta, Snape terminar a etapa em que estava envolvido, antes de soltar um murmúrio impressionado.

– Mas o que é que o senhor está fazendo?

Ele ergueu a cabeça; por um momento, se esquecera da presença dela ali.

– Tecnicamente, não estou autorizando a conceder essa informação para nenhum aluno.

Ela não podia viver num mundo onde não sabia que poção maravilhosamente complexa era aquela. A receita não lhe dava pistas, porque estava toda escrita em runas, linguagem que ela não exatamente dominava.

Tecnicamente eu não sou sua aluna agora, só sua afilhada.

Ele arqueou uma sobrancelha negra até o limite da raiz do seu cabelo.

– Engraçado a senhorita trazer isso à tona, porque eu me lembro de alguém sendo bastante claro em não receber tratamento especial em razão desse laço, no passado.

Bervely deu de ombros, refreando um sorrido: – Os tempos mudam.

Ele a analisou muito atentamente, como se para decidir se ela era ou não digna do seu segredo.

– Você vão pode contar à ninguém à respeito disso.

– Por que, é ilícita? – riu, especulativa. Ele fez uma expressão de pungente ofensa.

– É claro que não! Como ousa, Srta. Black?

– Diga logo, o senhor está me matando. aqui

Ele fez aquela expressão de resignação que já vinha se tornando frequente em suas conversas, e pousou cuidadosamente a concha sobre a bancada.

– É Wolfsbane².

– Ah.

A resposta a decepcionara um pouco. Ouvira falar da poção, é claro – era frequentemente usada como exemplo de receita difícil e instável que, se produzida de forma incompetente, acabava por matar seu receptor. Era feita para lobisomens, e o caldeirão de prata era necessário, ainda que lobisomens fossem mortalmente alérgicos ao composto. Bervely estava se lembrando de um artigo que lera sobre Paradoxos em Preparação de Poções, na qual Wolfsbane também era citada, então ela tardou a notar porque aquela informação era assim tão sigilosa.

– Espera! – exclamou, quando sua ficha finalmente caiu. – Tem um lobisomem em Hogwarts?

Ele não disse nada, mas seu maxilar tremelicou de aversão à menção da palavra.

– Deixaram um lobisomem entrar na escola??

Tudo que o professor fez foi torcer seus lábios num trejeito de desgosto.

– Não posso confirmar nem negar essa afirmação.

– Dumbledore ficou louco? – exclamou, já rouca.

Quer dizer então que os monitores-chefes precisavam se responsabilizar por tudo que acontecesse àquele bando de alunos, inclusive garantindo que nenhum entrasse em conflito com um dementador, mas ninguém se preocupava em avisar para eles que havia um lobisomem à solta na escola?

– Está tudo sob controle, é evidente. – Snape lhe garantiu, sem ocultar o desdém – Há um sistema de segurança. Devo lhe dizer para não encorajar essa espécie de boato. Aparamente há um risco de causar terror.

Ele claramente não concordava com nenhuma daquelas palavras, e Bervely se lembrava bem da opinião do padrinho sobre os lobisomens, “criaturas traiçoeiras e indignas de confiança”. Certamente coadunar com tal segredo lhe custava muito, ainda mais produzindo a Wolfsbane, uma poção não só complexa como trabalhosa.

Talvez ela devesse estar preocupada com a segurança dos alunos, sendo monitora chefe, mas o que tinha em mente era outra coisa.

– Hum. Professor Snape?

– Pois não?

– Posso… ajudar com a Wolfsbane?

– Não vejo nenhuma razão pela qual não poderia.

À essa altura, Bervely mal se lembrava que raios tinha lhe interessado no tal Tônico da Invisibilidade.

– BD –

Uma mão surgiu em seu campo de visão, aparentemente vinda do nada, e rabiscou o canto do seu mapa celeste com tinta azul escura.


Oi, estranha.”

A letra era familiar, a mão mais ainda; Bervely nem precisava olhar para saber quem estava interrompendo sua análise da influencia de marte na constelação de aquário para o mês de setembro.

Eles não eram supostos a conversar na aula de astronomia, nem mesmo por escrito. Todos os dezoito alunos que tinham decidido fazer N.I.E.M.s para aquela matéria já sabiam, à essa altura, que os momentos na Torre uma vez por semana deviam ser aproveitados intensamente.


Mas então era Wood, e o cheiro dele, bom demais para ser permitido por lei, invadia seus pulmões e a fazia perder o fio de pensamento.

– Você não tem uma análise astral pra terminar? – perguntou secamente, sem tirar os olhos do papel, a não ser para reparar se alguém os ouvia. Mas eram só eles naquele canto da torre, dividindo uma mesa circular desde que a aula começara. Ela fingiu não perceber quando ele se aproximou e sentou ali; eles não interagiam em absoluto durante aulas, era parte da regra implícita.

– Estou tendo problemas para me concentrar.

– Então você resolveu me desconcentrar? – retrucou, desenhando Saturno no terceiro quadrante com mais força do que o necessário.

– Melhor acompanhado do que sozinho, não acha?


Ela fez um barulho de descrença, enquanto Oliver ocultava um sorriso cheio de marotice. O capitão da grifinória teve a decência de manter a conversa no mínimo até a aula terminar, mas seus constantes risos divertidos para o papel, como se a constelação de Attera Nebulla estivesse lhe contanto segredos indecentes, lhe deixaram num nível de exasperação muito perigoso.

– Você não pode simplesmente sentar na minha mesa sem permissão no meio de uma aula! – Bervely reclamou, catando seu material, quando a aula terminou finalmente e a maioria dos colegas estava saindo. Ele ainda achava graça.

– Tem razão, você é uma péssima companhia para astronomia.

– É, certo. Vou te poupar da minha inutilidade, boa noite.

– Rose, espera.

Em algum momento, ‘Rose’ se tornara a palavra mágica para ela. Mesmo com uma careta de impaciência, diminuiu o passo e esperou os colegas sairem, virando parcialmente o corpo para ele, as pálpebras pesadas de desdém.

– O quê, Wood?

– Você pode vir aqui?

Bervely rolou os olhos exageradamente, checando se estavam mesmo sozinhos, depois refez o caminho até a mesa de trabalho e parou na frente dele cruzando os braços.


– Você não pode ficar me chamando pelo primeiro nome por ai, as pessoas vão pensar que temos alguma intimidade. – resmungou, tentando não reparar como ele ficava bem com a camisa branca do uniforme e a gravata carmesim da sua casa .

– Você se preocupa demais com as pessoas. Está tudo bem? – seu tom suavizou, enquanto os olhos castanhos lhe observavam com atenção.

– Sim, porque não estaria?

– Tenho te observado, você parece tensa. É por causa de Black?

– Não fale sobre Black.

Ele deu um suspiro frustrado, como se de alguma forma ela estivesse bancando a teimosa. Viu Oliver dar dois passos até onde estava e parar em sua frente, o quadril encostado à mesa. Depois ele estendeu os braços, a pegou pelos cotovelos e lhe puxou em sua direção. Bervely quis oferecer resistência, mas seu corpo lhe traiu, e logo se encontrava encostada ao dele. Todas as borboletas em seu estômago se atiçaram quando os braços do garoto circularam sua cintura.

– Posso dizer uma coisa sobre isso de você ser monitora-chefe? – ele perguntou baixinho em seu ouvido, ao que ela cerrou as pálpebras.

– Vá em frente.

– É completamente sexy.

– Não seja bobo. – as asas das borboletas agora tinham pegado fogo, e estavam começando a derreter.

– É serio. – pelo movimento dos lábios dele de encontro ao seu rosto, percebeu que sorria. – Eu não posso parar de pensar que, se eu for um garoto mau, você vai me dar uma detenção e aplicar pessoalmente.

Wood – censurou, apesar de estar sorrindo também, agora. Aguardava ansiosamente a maciez quente dos lábios dele, mas quando finalmente chegaram, Bervely se lembrou de algo e colocou a mão no peito firme dele, o afastando.

– Vamos para outro lugar. – pediu. Os olhos dele brilharam maliciosamente.

– Qual o problema com a Torre de Astronomia?

– Eu sou monitora-chefe. Não posso ficar me agarrando na Torre de Astronomia, esse lugar tem uma certa fama.

Era mentira, mas o convenceu. Oliver não tinha como saber que a última vez que ela estivera com Hector – mesmo que apenas em sua cabeça – fora bem ali, e que também ali ela quase tinha se lançado à queda mortal por causa de uma alucinação.

– Eu conheço o lugar perfeito, vem comigo.


O lugar perfeito de Oliver era um pequeno vão entre duas colunas no sétimo andar, tão estreito que mal cabia seus corpos. Eles se deslocaram até lá sob a luz da varinha de Oliver, mas tão logo se encaixaram no espaço mínimo e fora de vista, ele murmurou Nox, os jogando na completa escuridão.

– Que lugarzinho mais suspeito para um grifinório conhecer – ela zombou, fingindo tranquilidade. A escuridão ascendera seus outros sentidos, e Bervely podia dizer exatamente onde cada parte do copo do garoto se encontrava em relação à sua. O cheiro dele – couro, colônia masculina e aquela parte que era só essência de Oliver – entrava pelo seu nariz e eletrizava suas terminações nervosas. A boca macia acariciou a sua, provocando, mordiscando, mãos firmes em sua cintura, o corpo rígido lhe pressionando contra a parede… e no escuro tudo que ela sabia era o tato, o gosto dele, tornando o momento ainda mais erótico do que seria sob a luz.

– Senti sua falta, Rose. – ele confessou entre os beijos, que estavam ficando cada vez mais intensos, bem como os toques por baixo do uniforme.

– Aposto que sentiu. – respondeu com as respiração pesada, entranhando os dedos no cabelo dele, que era tão macio e fazia cócegas nas palmas de suas mãos.

Ela tinha ouvido falar sobre os colegas que se agarravam em pontos estratégicos de Hogwarts e sempre achara a coisa toda um pouco vulgar, mas precisava admitir que havia uma certa magia em quebrar as regras da escola, especialmente por ela era a pessoa suposta a prezar pela seu cumprimento.

Só queria imaginar a cara de Percy Weasley se a visse ali, com a mão do capitão de sua honrada casa desbravando por debaixo da saia de uniforme da sonserina odiável.

– Oliver? É você aí?

Eles congelaram com a voz vinda do corredor. Bervely sentiu o corpo dele ficar tenso, e o beijo foi prontamente interrompido.

– Oliver, eu sei que está ai, Marie falou que você não saiu da sala junto com o resto deles. – disse a voz feminina, cada vez mais próxima. Dentro do vão, Wood tinha se afastado de Bervely tanto quanto possível, ou seja, mais ou menos uns dois centímetros.

– Quem é? – Bervely sibilou com impaciência.

– Acho que é a Katie. Espere aqui. – ele sussurrou, todo ansioso. Bervely jurava que ouvia seu coração disparado, e não era mais por causa dos amassos.

– “Katie”?

– Eu vou falar com ela, espera aqui.

Oliver!

Mas ele já tinha lhe deixado no escuro, pulando para o corredor onde Bervely não podia enxergar, apenas conseguindo ver os traços da luz da varinha de quem o procurava.

– Ah, Ol! Ainda bem que é você. Fiquei preocupada em ser outra pessoa, imagina que constrangedor? – disse a voz aliviada. Bervely não tinha uma imagem mental de nenhuma Katie da grifinória, mas já podia odiá-la só pelo tom intimo com que falava com Oliver – Hey, quem estava aí com você?

– Ninguém. O que você está fazendo aqui? São duas da manhã, Katie.

– Você me disse que tinha novas ideias para o quadribol, fiquei curiosa. Desculpa, tô interrompendo algo? – ali no escuro, a nota de inocência falsa fez Bevy trincar os dentes.

– Hum, nada demais, escuta Katie…

– Sim, você está. – Bervely o interpelou, saindo do buraco e dando um passo para dentro do corredor. Tudo Bervely soube é que a tal tinha um rosto quadrado e comum, olhos pequenos e era baixinha, com o cabelo num rabo de cavalo desleixado – Aliás, eu não sei quem você é, mas não devia estar fora da cama depois do toque de recolher. Menos dez pontos para a grifinória.

– Black, está tudo bem. Katie é do time, ela é minha amiga. – ele disse, agora claramente nervoso pela sua súbita revelação.

Isso não se comparava com a cara de profundo choque da menina. Qualquer um que a visse diria que ela acabara de presenciar um intercurso sexual entre a lula-gigante e Hagrid, tal era o tamanho dos seus olhos. Bervely viu quando ela olhou as cores do seu uniforme, seu rosto, e depois seu distintivo, e empalideceu sensivelmente sob a luz da varinha.

– Então, Katie do time, são menos vinte pontos. Fazer parte de um time de quadribol do colégio não te dá o direito de achar que está acima das regras.

– Eu n-não acho, eu não… – ela se atrapalhou, olhando para Oliver em busca de ajuda. – Oliver também está fora da cama!

– Bem lembrado. Isso fecha em trinta pontos. E se vocês não voltarem para o seu salão comunal agora, serão cinquenta. Ou você prefere uma detenção, Wood?

– Você não pode fazer isso! É abuso de poder! – a menina protestou.

– Kat – disse Oliver baixo, mas olhando fixamente para Bervely, sua expressão uma incógnita. – Vamos.

– Mas, Ol! Olha pra ela, isso é absurdo! Ela não pode…!

– Obedeça seu capitão, garota.

Oliver pousou uma mão – a mão que há poucos minutos estivera deslizando por sua coxa com muito furor – no ombro de sua colega de time, a encorajando a seguir caminho. Antes de ir, ele ainda deu à Bervely outro olhar, com o cenho franzido e os olhos estreitos. Ela ergueu uma sobrancelha para ele de volta, petulante. O capitão meneou a cabeça e se virou, andando e sumindo no escuro.

A monitora-chefe ficou ali no escuro, ruminando sua raiva por um bom tempo.

(Continua...)

Grupo no face!

Notas finais
Tretas, tretas, treeetas *.* Epa, antes de pular pro próximo, não esquece de comentar! ;* ¹O Tônico da Invisibilidade é propriedade intelectual de Thais Camilla, criado para o Desafio 5 do Indignados em Ação e vencedor do terceiro lugar. ²Wolfsbane Potion é a Poção Mata-Cão ou Poção de Acônito, como aparece nos livros Prisioneiro de Azkaban e Enigma do Príncipe.