Indigna Rosa Negra

51 Sob a Insígnia da Rosa – Parte II



Quando outubro chegou, Bervely teve a infelicidade de descobrir o que sistemática do Quadribol queria dizer.

Droga, Percy Weasley seu filho de uma porca ruiva, eu vou matar você!

Cabeças se ergueram no Salão Comunal da Sonserina, pares de olhos dos seus colegas retardatários se virando para olhá-la com censura, mas Bervely não deu a mínima. Ela poderia estar dormindo, mas ao invés disso precisava dar solução à uma missão impossível, tudo por culpa era do monitor-chefe cabeça de cenoura podre.

Ele deixara para ela toda a responsabilidade com o quadribol, e isso incluía fazer a articulação dos horários de treino dos times em campo, de forma que todos pudessem ter sua vez sem entrar e conflito. O único problema é que agora ela tinha exigências impossíveis de conciliar, quatro capitães pressionando sua mente, inclusive aquele que ela preferia ver a cabeça explodindo.

Não que Wood se importasse. Desde que a temporada de quadribol se iniciara, quadribol era tudo que ele respirava. Ele a procurava sistematicamente em lugares públicos, usando aquela postura de ‘capitão-super-competente’ e falando sobre horários do treino, mudanças nos horários do treino, aumento da quantidade de treino e treinos extras. “Por que esse ano, não importa o que aconteça, nós vamos ganhar a Copa de Quadribol”, repetia febrilmente para quem quisesse ouvir. O episódio após a aula de Astronomia parecia nunca ter acontecido para ele – ou isso, ou Oliver decidira que alguém que tirava pontos dele e da sua colega de time não mereciam nada mais do que sua indiferença.

Bervely, por sua vez, queria dizer onde ele podia enfiar aquela Taça de Quadribol. Repetidas vezes.

Consternada, ela voltou-se à tabela de arranjo dos treinos, desejando que o dia tivesse mais de vinte e quatro horas. Ambos, Flint e Wood, queriam treinar cinco dias por semana depois das aulas, mas era impossível espremê-los sem que extrapolassem o toque de recolher. E é claro que eles não podiam compartilhar o campo, não se ela queria evitar o desencadeamento da segunda guerra bruxa.

Bervely pensara em sabotar a Grifinória e jogar seus treinos para o domingo, mas Percy cairia nela como a harpia nervosa que ele era.

– Se você quer cometer um assassinato e não ser indiciada, monitora, talvez seja uma boa ideia não anunciar isso no meio do Salão Comunal. – alguém cantarolou, e foi quando Bervely percebeu que Tara estava por perto.

O que era estranho porque ela nunca estava à vista aquela hora da noite, e apesar de Bervely querer acreditar que a menina ia deitar cedo, sua mente não se desfizera facilmente da imagem da ruiva com sua amiga na sala vazia das masmorras, tendo um momento um tanto intimo. Bem, ao menos Tara não tinha voltado a usar aquela sala, Bervely garantiu que isso não aconteceria em suas rondas, mas Hogwarts tinha milhares de salas vazias, isso sem falar os becos

– É, obrigada pelo conselho, Holmes, vou anotar isso no meu manual do crime para as próximas ocasiões.

Ela se levantou do sofá onde estava matando tempo com as irmãs Greengrass e Adrian Pucey e veio rebolando até a mesa onde Bervely estava – sem ser chamada, como era de costume. Olhou por sobre o ombro da garota o motivo de sua aflição e fez um barulho de pouco caso.

– Ah, isso. Outro conselho: apenas dê à Wood o que Wood quer.

– E por que diabos é que eu faria isso?

Ela deu um grande sorriso malicioso:


– Por que você não quer o capitão da Grifinória te enchendo o saco. Você quer ele feliz.

– Eu quero ele morto. – disse com azedume. A voz dele dizendo Ninguém e Nada Demais ainda assombrava seu pensamento de tempos em tempos.

– Ui. Problemas no paraíso intercasas?


Bervely a ignorou, ao mesmo tempo que desistia do problema em mãos, por hora – não era como se fosse encontrar a solução da Tormenta Capitanesca àquela hora da noite, morrendo de sono e com Tara em seu cangote. Catou suas coisas e as jogou na mochila, fazendo o caminho de seu quarto sem se preocupar com a educação. Não que precisasse, já que, pela visão periférica, viu a garota no seu encalço.

– Você está me seguindo, Tara. De novo.

– Eu tenho uma pergunta. – disse ela, num tom sério. – Bervely.

Ela se virou com impaciência. Por que era sempre tão difícil chegar à sua cama e ter o descanso dos justos?

– Fala de uma vez, Tara. Não tá vendo que eu quero ir dormir?

No fundo, Bervely desconfiava do que se tratava. Tinha estranhado a demora para aquela conversa, na verdade. Tinha esperado que Tara não soubesse, mas não existia em seu ser otimismo suficiente para se firmar nessa possibilidade.

– Bae. – ela disse cuidadosamente, como se precisasse escolher as palavras uma por uma. – Alguma coisa aconteceu com ele nessas férias, e eu tenho a impressão de que você sabe o que foi.

– Como eu poderia saber? – enrolou, espanando uma poeira imaginaria da manga de seu casaco. Adiando. Tentando descobrir até onde a ruiva sabia.

– Por que você esteve lá, Bervely, você esteve em Snowfall por alguma razão estranha esse verão! O que você foi fazer? – exigiu, sua seriedade quebrando e deixando e transparecer preocupação pungente que aparecia quando o assunto era o irmão caçula.

Bervely titubeou. – O que te faz pensar…

– Responda minha pergunta! – a menina exigiu, sua voz ficando mais alta e aguda. – Eu sei que você foi porque Bae me disse isso, antes de parar de responder minhas cartas! Mas ele não me contou o que aconteceu, e houve… houve um ataque…

Tara se interrompeu, fechando os olhos. Seus lábios tremiam, e uma vermelhidão tomava conta de seu rosto, do tipo que precedia um ataque de nervos. Ela tinha os punhos fechados, e quando voltou a falar, foi entre os dentes travados.

– Eu recebi uma carta de meu irmão no começo de julho, dizendo que você tinha feito uma visita. E que ele estava doente, mas ia ficar bem. E então, eu descubro que houve um ataque de lobisomens em Snowfall e que pessoas foram mortas. E Bae parou de responder minhas cartas e eu não consigo… – ela fez uma pequena pausa, respirando superficial e nervosamente – Eu não consigo ir até Snowfall descobrir o que está acontecendo, porque meu pai me proibiu de sair de casa.

– Seu pai te proibiu…?

– Isso não vem ao caso. – cortou rispidamente – O que você foi fazer em Snowfall em julho, Bervely?

Ela suspirou, sabendo que só uma parte da história poderia ser contada.

– Fui ver se Bae estava bem. Eu também fiquei sabendo do ataque de lobisomem.

– E não te passou pela cabeça me chamar pra ir com você ver o meu irmão?

– É complicado, Tara.

– Tem toda razão, isso é bastante complicado! – ela gritou de novo, seus olhos verdes brilhando de raiva – É complicado entender porque agora você está cheia de assuntos com meu pai, e eu não sei mais se posso confiar em você!

– Ei, pode parar! Uma coisa não tem nada a ver com a outra! – protestou, sentindo a injustiça da acusação pesar.

– É mesmo? E como eu vou saber? Como eu vou saber que você não foi em Snowfall por ordem do meu pai fazer algo com meu irmão, que de repente não está mais respondendo minhas cartas?

– Seu pai não me dá ordens!

– Meu pai dá ordens à todo mundo, Bervely! Porque seria diferente com você? Eu nunca devia ter confiado em você pra me ajudar com o Bae, não é! Agora só Merlin sabe o que meu pai fez com ele!

– Ok, já chega. – Bervely avançou, ultrajada com a insinuação. – Dane-se você Tara, você implorou por minha ajuda e eu te ajudei, e eu nunca trairia você e eu nunca diria sobre o Bae pra seu pai! Se você não confia em mim, não existe razão no mundo para essa conversa ainda estar acontecendo!

Ela se virou para ir embora e deixar Tara ali, à beira das lagrimas, mas a sonserina avançou em sua manga e a agarrou pelo cotovelo. Os olhos vermelhos voltados para ela, com medo genuíno neles.

– Bervely, por favor, se não foi você, o que aconteceu com Bae? Por que ele não me responde?

– Talvez ele não possa. Talvez ele não consiga segurar a pena com as patas, nessa época do mês. – quando a menina piscou, sem entender, ela deu um bufo impaciente – Não é bastante óbvio? Bae não estava doente, ele foi mordido. E enquanto eu estive em Snowfall tentei fazer sua mãe entender que ele precisava de cuidado médico competente, mas ela foi uma completa maluca e se recusou a me deixar levá-lo. Eu não sei se o seu irmão realmente pode se transformar em um lobo, mas o que quer que esteja acontecendo, é a sua mãe que está impendido ele de falar com você, não seu pai!

Tara abriu a boca e fechou muitas vezes, como um peixe retirado do lago.

– Bae… é um lobisomem?

– É. De repente parece que é moda. – suspirou, cansada. Ela já tinha tido sua cota de lobisomens para as férias com Mia, o pai de Mia e Bae, e não se esquecera do que estava oculto na escola, recebendo Wolfsbane para ficar mansinho.

– Como isso… ah, Merlin. É tudo minha culpa.

Bem, isso tinha sido rápido.

– Tara, para isso ser sua culpa, você teria de estar infectada e morder o seu irmão durante uma transformação.

– Não, é tudo minha culpa, eu deixei ele ficar em Snowfall! Eu coloquei ele lá! Se nada disso tivesse acontecido…

– Ele estaria com a memória pagada e morando com um bando de trouxas! – exclamou. – Lembra? Aborto? Reintegração?

– Ao menos ele estaria seguro! – ela guinchou, desesperando-se.

Bervely conhecia aquela espiral descendente da auto-recriminação bem demais para se surpreender. Afinal de certa forma era culpa de Tara, nunca fora sua intenção, mas boas intenções nem sempre eram recompensadas com desfechos felizes. Disso ela bem sabia.

– Tara… você não tinha como saber. – argumentou automaticamente. Não era o todo mundo tinha dito pra ela? Que ela não tinha como saber? Nunca lhe servira de consolo, e não esperava que funcionasse para ela.

– EU NÃO ACREDITO QUE VOCÊ SABIA E NÃO ME DISSE NADA ESSE TEMPO TODO! – Tara gritou de repente, lhe empurrando. A explosão lhe pegou de surpresa o bastante para que recusasse alguns passos, antes de exaurir por completo sua paciência.

– O que você ia fazer, então? Você por acaso tem a cura pra licantropia escondida debaixo do seu travesseiro?

– Não, mas pelo menos eu teria estado lá pra ele na lua cheia!

– E correr o risco de ser mordida, ficou maluca? Já não basta a louca da sua mãe, que falou que ia trancar o menino no porão quando a lua viesse?

Obviamente não foi a coisa certa a falar. Os olhos de Tara se arregalaram de horror, enquanto seus lábios formavam as palavras ‘trancado’ e ‘porão’.

– Eu preciso… eu preciso ir! Hoje é lua cheia, se eu me apressar, se-se eu sair rápido o bastante…

Foi a vez de Bervely segurá-la pelo braço firmemente.

– Você não vai pra lugar nenhum, ok? Mesmo se conseguisse chegar lá à tempo, o que você ia fazer? Abraçar um lobisomem transformado e esperar que ele te reconheça? Ele vai estraçalhar você. E se você não for morta ou infectada, vai acabar recebendo uma suspensão, quando Snape percebeu que escapou da escola de novo sem autorização.

– Eu preciso estar com ele, Bervely! Será que você é tão insensível que não entende isso? E se ele estiver sozinho e trancado, e se ele… Bae tem onze anos! Deve estar aterrorizado!

– Eu sei. E se você me escutar por um momento, talvez exista uma solução mais permanente para Bae, isso se ele for mesmo um lobisomem. Tara, está me ouvindo?

Ela tinha fechado os olhos, e uma lágrima acabara de escorrer através da sua bochecha e marcando a maquiagem. Bervely nunca tinha gostado de ver Tara chorar, e isso não tinha mudado com o tempo.

– Estou. – ela disse baixo, por fim, abrindo os olhos. Seus fantásticos, e agora muito molhados e brilhantes olhos verde escuros, completamente sobre Bervely, depositando nela sua confiança, apesar de ter gritado há pouco que não podia confiar mais nela.

– Ótimo. – pestanejou, se concentrando na ideia, e não no efeito que aqueles olhos tinham sobre ela. – Então, existe essa poção super complexa chamada Wolfsbane…

– BD –


Outubro sempre era um mês de passagem rápida, mas sua velocidade se potencializava no sétimo ano, como Bervely logo percebeu. À medida que as semanas correram, ela se arrependeu de cada momento em sua vida no qual dera a entender que Hogwarts não tinha o ensinado tão puxado quanto Durmstrang.

Não se lembrava de Hector lutando em se sétimo ano, virando noites para entregar ensaios, se arrastando de uma aula para a outra e carregando tantos livros na mochila que suas costas ardiam. Na verdade, Hector sempre parecia bem dormido, disposto e sorridente. Ele manejava ‘escola’ como se fosse uma brincadeira, mais uma aventura na Terra do Nunca.

Não havia nada de aventureiro no ano dos N.I.E.M.s, disso ela estava bem certa. Assuntos que não eram estritamente ligados às matérias foram jogados para o fundo da sua lista de prioridades. Ela só se lembrava da sua irritação com Oliver quando cruzava com ele em algum corredor, e ele estava sempre acompanhado de alguém do time, sempre discutindo alguma tática. Não que ela olhasse na sua direção; não que ele olhasse de volta.

Sirius Black se tornara uma preocupação pairando no plano de fundo de sua mente, vindo à tona quando ela via a sombra de um dementador no céu ou flutuando em alguma entrada. Também estava gradativamente mais irritada com ele – porque Black não mandava uma noticia? Da última vez que tinham se visto, em seu aniversário, ele dera a entender que ela podia mandar um patrono, mas Bervely não se atreveu – com todos os dementadores circulando, o feitiço vagando por ai chamaria atenção, e talvez revelasse a localização dele, se estivesse mesmo perto de Hogwarts.


Mas se ele estava perto de Hogwarts, porque não fazia contato?

Entre conteúdos, rondas, relatórios de monitoria, reuniões com Percy Weasley, preocupação com o paradeiro de Black e com Johanne – que ela via menos do que gostaria, para ser bem sincera – Bervely só se permitia relaxar nos momentos que passava no laboratório com Snape. Eles tinham recomeçado a preparação de Wolfsbane para esse mês, logo na terceira semana, e ela participava muito ativamente do processo, decidida a aprender cada passo da poção.


Logo o dia das bruxas bateu à porta, encontrando Bervely meio atordoada a tentar finalizar o feitiço despertador. Estava programado para todo sábado, mas nesse ela não pretendia acordar cedo. Wolfsbane estava pronta, então não havia um motivo para ir até o laboratório de Snape e ele desconfiaria se ela aparecesse por acaso.


Ela precisava descobrir, no entanto, como ia pegar uma dose da poção para Tara levar consigo. A ruiva aproveitaria a visita à Hogsmeade para escapar do colégio e ir até o irmão. No dia seguinte, domingo, seria mais fácil colocá-la para dentro da escola sem ninguém perceber, especialmente se contasse com a ajuda da monitora-chefe.

A ruiva irrompeu em seu quarto minutos depois, bem quando Bervely conseguira pegar no sono de novo, e se sentou na ponta de sua cama, cutucando seu ombro.

– Bervely, acorda, eu estou nervosa sobre hoje.

– E eu estou dormindo, Tara, mas que merda. – resmungou, desgostosa. Através da névoa da sonolência, no entanto, se deu conta do que estava errado naquela cena. – Quem te deu autorização pra entrar no meu quarto?

– Eu sei a senha, esqueceu?

Bervely bufou com a cara enfiada em seu travesseiro. Era muito cedo para aquela exposição à Romansek, de qualquer maneira. Como não tinha opção, rolou sobre o colchão até estar de costas e piscou para que os olhos se acostumassem à claridade. Tara aproveitou o ganho de espaço para se jogar ao seu lado, enchendo o travesseiro com a juba de cachos vermelhos, que caíram um pouco sobre seu rosto também. Continuavam com aquele cheiro inebriante de cereja fresca, que provocava as borboletas dentro da barriga de Bervely.

– Por favor, não deite em minha cama.

– Não é como se a gente nunca tivesse feito isso antes. – brincou com um toque de malícia, girando sobre o lado do corpo e ficando ainda mais perto dela, colando a frente do seu corpo à lateral do de Bervely. – Minha nossa, essa camisola sua é uma afronta à sanidade, jovenzinha.

Bervely sentiu seu rosto esquentar e o virou para o outro lado, tentando evitar que ficasse inalando o cheiro dela e os arrepios que vinham com isso.

– Pára de me assediar, Holmes. – resmungou, se remexendo. – O que foi, acabaram-se as distrações na lufa-lufa?

– Estou detectando um toque de ciúmes? Não brinque com o meu coração, Monitora Black, não nessa camisola. – baforou em seu pescoço, quase provocando uma contorção na garota.

Pare com isso. – ela rangeu os dentes, interceptando a mão de Tara de tinha ido parar em seu quadril e descia para a barra de sua camisola, sem pudores. – Você não devia estar se arrumando pra ir à Hogsmeade?

– Devia, mas achei melhor vir confirmar com você se vai mesmo roubar a Wolfsbane.

– Eu não vou roubar. – corrigiu, se sentando na cama, o que era mais seguro do que ficar à mercê da sonserina. Não ajudou vê-la ali deitada languidamente em sua colcha verde, como se fosse uma gata querendo mimo. – É mais como um desvio de recursos.

– Você vai pedir antes de pegar? Então, é roubar. Aceitação é o primeiro passo, Bervely…

– Ah, cala essa boca. – ela saltou da cama, deixando a ruiva sozinha e se trancando no banheiro. Nem sentada nem de pé, nenhum lugar era seguro com Tara Romansek em seu quarto.

– BD –


No final das contas, roubar o laboratório de Snape lhe pareceu a pior das ideias, e Bervely não podia conviver com o fato de que ele saberia e jamais confiaria nela novamente. Achando que estava amaldiçoada com a doença da moralidade por causa daquele distintivo apregoado em sua roupa, ela se viu marchando até o escritório dele para um empreendimento arriscado.

Ia pedir a Wolfsbane. Afinal ele já sabia toda a história de Bae, porque lhe negaria a poção para ajudar o garoto? Precisava contar com a bondade de Snape, uma coisa que ela nem sabia se existia. Só que, no momento em que dobrou o corredor, o viu saindo na outra extremidade. Ele não a vira, mas ela percebeu que ele levava consigo um copo fumegante.

Ora, ele estava indo entregá-la para o seu receptor! Se Bervely o seguisse, ia descobrir quem era o lobisomem na escola, e não podia negar que estava curiosa para saber por quem Snape estava sacrificando grandes parcela de seu tempo livre todo mês.


Onde está a maldição da moralidade agora, monitora?,
debochou a si mesma, seguindo discretamente o professor através da escola. Ela aproveitou que os corredores estavam bem vazios – todo mundo tinha ido para Hogsmeade à essa altura – e metamorfoseou suas feições. Assim, se Snape olhasse para trás veria uma aluna desconhecia, e não sua afilhada suspeitosamente alguns passos atrás dele.

Snape não olhou, de qualquer maneira. Parou em frente à uma porta no terceiro andar, e Bervely parou na esquina do corredor, fora de vista, mas perto o suficiente para ouvir.

– Ah, Severo, muito obrigado! Pode deixar aí na mesa pra mim?

O prof. entrou na sala mas deixou a porta aberta. Bervely ainda conseguia entreouvir, com um pouco de dificuldade, a conversa lá dentro.

– Eu estava mostrando à Harry o meu Grindylow. – disse a mesma voz, num tom alegre.

– Fascinante. – retrucou o mestre, sem fazer eco ao humor do outro. – Você devia beber isso logo, Lupin.

– É, é, vou beber.

– Fiz um caldeirão cheio, se precisar de mais…


– Provavelmente eu deveria tomar mais um pouco amanhã. Muito obrigado, Severus.

– De nada. – disse o professor Snape, e em seguida saiu muito serio, tomando o caminho oposto ao que viera. Bervely esperou ele sumir de vista para se aproximar da porta, que agora estava fechada novamente.

Seu coração estava um pouco acelerado com a revelação. Remus Lupin era um lobisomem? O modesto, educado, calmo e cansado Lupin se transformava numa fera sanguinária todos os meses?

Bervely ficou rondando a porta por alguns minutos, sem saber direito o que pensar, e se sobressaltou quando Harry Potter saiu dela. O menino, que estava mais alto e com o cabelo mais bagunçado do que ela se lembrava, lhe olhou com estranhamento.

– Olá. – ele franziu as sobrancelhas, talvez por causa da cara dela, que devia estar meio pálida. – Vai encontrar com o professor Lupin também?

– Não, eu…

– Entre, Bervely. – Lupin apareceu à porta, com um sorriso fácil em seu rosto. De alguma forma ele sabia quem ela era mesmo estando a usar um rosto completamente diferente.

– Acho que o senhor está me confundindo com alguém, professor.

– Hum, eu acho que não. – insistiu, ampliando mais seu sorriso.

Harry olhou de um pro outro sem entender nada.

– Ok, então… boa tarde, professor Lupin.

– Tchau, Harry. – ele disse jovialmente. Quando o menino tinha sumido na esquina do corredor, o bruxo mais velho abriu espaço para que ela entrasse, e Bervely se viu sem alternativa.


A sala de Remus Lupin era abarrotada de livros em várias pilhas e a coisa mais estranha que havia nela era um grande aquário com uma criatura boiando dentro. Era verde-bile com chifrinhos, e fazia caretas ofensivas para ela através do vidro.

– É um grindylow. – ele disse ao fechar a porta. – Vou usar em minha próxima aula.

Bervely deu uma olhada na caneca sobre a mesa de centro, que mesmo vazia continuava a desprender uma característica fumaça espiral, o cheiro inconfundível de Wolfsbane se desprendendo dela. Remus acompanhou seus olhos, e de repente Bervely entendeu que ele sabia que ela sabia e aguardava seu comentário, mas na verdade ela tinha outro para fazer, mais urgente.

– Como sabia que era eu?

– Senti seu cheiro através da porta. – ele disse, como se não fosse grande coisa. – Há um motivo para estar andando por ai disfarçada?

– Eu estava seguindo o professor Snape. – adimitiu, observando a reação dele. Lupin lhe pareceu ligeiramente interessado.

– Para saber à quem ele ia entregar a Wolfsbane?

– Sim.

Remus assentiu. Ela achava que em seu lugar, estaria um pouco mais preocupada em ter seu segredo sujo descoberto, afinal até onde Bervely sabia, não era alguém em quem ele confiava.

– Não te preocupa saber que eu sei o que você é?

Ele deu uma risada curta, meio que cansada.

– Ia acontecer uma hora ou outra. Além do mais eu sei algo sobre você também, parece que hoje o destino nos colocou num empate.

Era verdade. Desde que tinham se encontrado pela primeira vez no apartamento de Olivia Loren em Londres, Remus sabia que era ela metamorfomaga, e ele jamais trouxera isso à tona. Só que havia uma diferença fundamental, não havia?

– O meu segredo não ameaça a vida de ninguém. – acusou, cruzando os braços. Ele parecia discordar, pelo modo que arqueou uma sobrancelha.

– Isso é relativo. Já soube de metamorfomagas que causaram bastante problema usando essa habilidade da forma errada.

A afirmação lhe pareceu uma grande indireta, para a qual Bervely fez-se de desentendida. Um tanto resignada, voltou à sua aparência original e ocupou a poltrona mais próxima, observando ele atentamente.

– Então seus sentidos ficam mais apurados quando está perto da lua cheia?

– Sim. Aceita um chá?

– E a Wolfsbane consegue deixar você inofensivo durante a transformação?

– Sim. Chá, Bervely?

– Anne sabe?

Ele se voltou, com uma sombra de impaciência manchando a compleição calma.

– É claro que ela sabe. Todas as pessoas próximas a mim sabem, não é uma coisa que eu escondo de quem eu confio.

Ela não podia se impedir de ver Remus Lupin sobre uma nova luz. Parecia impossível que alguém como ele fosse infectado, amaldiçoado, feral. Era a pessoa mais calma e complacente que ela conhecia.

– O prof. Dumbledore sabe?

– É claro que sim.

Tinha sido uma pergunta estúpida, percebeu. Provavelmente fora o próprio Dumbledore a pedir à Snape para fazer a Wolfsbane, de que outra forma ele aceitaria? O silencio se estendeu entre eles, Bervely tamborilando os dedos no braço da poltrona, Remus ficando impaciente com o escrutínio.

– Eu sei o que está pensando. – ele disse por fim, dando um longo suspiro – Como o diretor pode colocar em risco os alunos dessa maneira, contratando um monstro para dar aula? Como todos podem estar de acordo com uma criatura das trevas ensinando, ainda por cima Defesa Contra as Artes das Trevas?

Bervely quase riu.

– Há uma certa beleza na coisa toda, se você parar para pensar. – zombou, divertida. – E não, não é nisso que estou pensando.

Ela o surpreendera, pode perceber isso pelo modo como seu rosto se destituiu da expressão de auto-julgamento. Bervely reparou que ele tinha os olhos mais amarelos hoje, ou será que era impressão sua?

– Você é um lobisomem experiente. – ela disse a seguir, não em tom de pergunta. Ele franziu.

– Eu suponho.

– O que você faria se soubesse que há um garoto que foi mordido, e que pode estar se transformando nas últimas luas cheias?

A expressão do professor foi preenchida por gravidade.

–Você conhece alguém– quem é que foi mordido?

– É só uma hipótese. – repetiu com ênfase. – Então, o quê? Você daria Wolfsbane pra ele? É seguro? É melhor com a poção do que sem?

Remus ainda estava preocupado, como o vinco entre as suas sobrancelhas deixava claro, mas também era um bruxo racional, e podia trabalhar com hipóteses. Especialmente porque fazia parte de ser um ‘lobisomem experiente’ reconhecer a fragilidade de uma situação como a que Bervely expunha, especialmente se retirada do campo das hipóteses.

– É sempre melhor com Wolfsbane. A dose seria a metade daquela para um homem adulto, a ser tomada duas vezes no dia, quatro dias antes da lua cheia, ou seja, hoje.

Ela assentiu, pensativa. Talvez a proximidade com a lua cheia também fizesse Remus ler pensamentos, porque ele completou antes mesmo de ela formular (e tomar a coragem) de fazer a pergunta:

– Vou receber mais um cálice desses, em algumas horas. Eu poderia entregá-lo à você, sabe... hipoteticamente. Eu sempre posso pedir a Severus uma dose extra, se eu achar que o lobo está um tanto enérgico.

– Isso seria interessante, Lupin. Hum, hipoteticamente.

– BD –

Uma vez que a resolução suave e não criminosa do destino de Bae Romansek tomou lugar, Bervely se viu com o dia todo pela frente, e sem um plano claro do que fazer com ele.

Ela não pretendia, como o resto dos colegas, ir para Hogsmeade: ouvira dizer que a vila estava cheia de dementadores, o que para ela tirava toda a noção de relaxamento que o passeio deveria representar. Só de pensar em cruzar caminho com as criaturas repugnantes mais uma vez e todos os músculos de seu corpo ficavam tensos.

Músculos. Isso a fez cogitar, por um momento, onde o capitão Wood estava. Seu primeiro palpite era treinando, porque era o que ele aparentava estar fazendo com todo o seu tempo livre. Passava mais tempo em cima daquela vassoura do que em terra firme. Ou então, ele podia estar tendo algum encontro com o time. Ou com a Katie do time. Em cima de uma vassoura com Katie do time. Em cima de Katie do time…

Querendo ter alguém com quem pudesse se queixar, Bervely resolveu ir até o corujal. Tonks não mandava carta há algumas semanas agora, e a última dizia que estava passado por mais testes práticos de habilidades, que diriam exatamente que tipo de treinamento ela ia ter. A ideia de estar em uma Academia de Aurores parecia até relativamente empolgante, se comparado com o seu trimestre; apostava que a prima estava se divertindo.

– Quem está ai?

Bervely se surpreendeu com a hostilidade gratuita da voz, e mais ainda quando percebeu que vinha de Johanne. A garota estava acuada contra uma das janelas da torre, numa postura desconfiada, um ouvido virado para a entrada.

– E isso lá é jeito de se dirigir à sua monitora-chefe, mocinha? – ralhou, chegando mais perto.Viu as feições da menina relaxarem, junto com seus ombros tensos.

– Ah, é você.

– E quem foi que você pensou que era? – sondou, desconfiando.

– Hum, ninguém.

Ela não era a melhor mentirosa do mundo, é claro. A resposta deixou Bervely mais alarmada.

– Tem alguém perturbando você, Anne?

– Quê? N-não, é só… eu meio que estou fugindo dos meus colegas, na verdade.

– E por que isso?

– Eles são… prestativos demais, às vezes. Meio que enche o saco.

Bervely deu uma risada, sentando no parapeito largo da janela. Percebeu que Anne tateava atrás de si e a ajudou a subir também.

– Não faça isso sem mim, ouviu? Nada de sentar em janelas de torre sem um responsável por perto.

Ela riu sem humor, depois ficando um momento num silencio pensativo. Era difícil perceber com uma parte de seu rosto coberto pelos óculos, mas Bervely achou que a menina parecia cansada. O costumeiro rosado saudável em suas bochechas estava ausente, e até o cabelo parecia mais pesado, sem as ondas vivas que costumavam adornar o rosto pequeno da segundanista.

– Não é como se eu pudesse fazer qualquer coisa sem um responsável por perto, não é? Até pra mandar uma maldita carta…

– Hey! Olha essa boca suja, garota! Quem está te ensinando esse palavreado de nível grifinório?

Ela fez uma careta, virando o rosto na direção do vento e depois de um tempo, inspirando profundamente. Frustração estava escrita em toda a sua postura.

– Pra quem é a carta que você veio mandar?

O rosa tingiu o rosto pálido muito rapidamente, indicando mais vergonha do que saúde. A menina mordeu o lábio, sem jeito.

– Ninguém, ahhn, ninguém importante.

– E será que ninguém importante tem endereço? De outra forma, a coruja pode ter um tempo difícil.

– É pro João Arty, ok? – ela bufou, mexendo as mãos com impaciência. – A gente tem trocado cartas, às vezes.

– Desde que você esteja bem longe da bolha dele…

– Bervely! – protestou, as bochechas queimando. A mais velha riu do seu constrangimento.

– Então você gosta do Garoto Bolha? – cantarolou, num falsete romântico, querendo saber até qual tom de rosa a irmã alcançaria.

– Me deixa!

– Como eu poderia? Minha irmãzinha tendo sua primeira paixonite, um momento tão marcante!

– Não é paixonite! Eu só… ele é legal. Ele me faz rir, escreve um monte de bobagens nas cartas. E ele nunca… ele nunca pergunta como eu vou indo. – definitivamente ela estava se aproximando do rosa-pink que Tonks usava nos cabelos em seus melhores dias.

– E isso é bom?

– Bem, sim. Todo mundo me pergunta como eu vou indo, o tempo inteiro. Como se fosse só isso que importasse. Como se a única coisa que eu fosse agora é a garota cega que precisa ser cuidada e vigiada!

Bervely não pôde dizer qualquer coisa por um momento. Ela não tinha pensando por esse ângulo, mas fazia tempo que ela mesma não pensava em qualquer coisa sobre Johanne que não fosse o seu acidente e as consequências.

– Você está certa, ponto pro Garoto Bolha. Por outro lado, viver dentro de uma bolha o tempo inteiro dá a ele bastante tempo pra ser um sabidinho.

– Bervely! – ela virou o rosto, transtornada – Você não leva nada à sério?

– Desculpe. Aqui vai uma pergunta séria para você: o que quer fazer hoje?

– Como assim? – ela franziu as sobrancelhas, que sumiram por detrás dos aros dos óculos.

– Hoje é feriado, portanto eu tenho o dia livre. Não pretendo me preocupar, nem um pouco, com o bem estar de ninguém, nem mesmo o seu. Então… o que quer fazer hoje?

– Tipo programa de irmãs? – perguntou, extasiada. Bervely girou os olhos.

– Se você precisa dar um nome…

– Torta de abóbora! Eu fazia com meu avô todo dia das bruxas, era tão divertido! Você acha que os elfos deixam a gente usar a cozinha? Claro que eles deixam, né, você é a monitora chefe! Você acha que eles tem abóboras frescas? Depois podemos usar as cascas para enfeitar nossos dormitórios! E eu também sei a melhor receita de suco de abóbora com gengibre…

Poucas coisas no mundo eram tão odiadas por Bervely do que abóbora.


Pela primeira vez, isso não importava.

– BD –

A última coisa que Bervely queria ver correndo em sua direção naquele momento era Percy Weasley.

Deve ser um delírio, pensou esperançosa. Você comeu demais, a comida está se vingando, produzindo um pesadelo consciente.

Mas não era. Acabara de deixar a festa de dia das bruxas no Salão Principal e se dirigia ao seu quarto para um sonhado descanso, mas pressentiu que não o alcançaria tão cedo, a julgar pelo horror estampado na cara do monitor-chefe.

Percy era, é claro, um grande dramático. Provavelmente aquele escarcéu todo, incluindo gritar ‘Monitora Black! Monitora Black!’ no meio do corredor, era porque achara algum casal de quintanistas sonserinos se agarrando dentro de um armário. Grande moralista que ele era, não podia deixar ninguém ser feliz nos cantos escusos da escola.

Essa linha de pensamento não a preveniu para o que estava por vim. Quando Percy balbuciou a história, entrecortada pelo seu fôlego errante, ela precisou de um minuto para compreender.

– Precisamos levar todos de volta para o Salão Comunal! Busca completa no castelo! B-Black invadiu a escola, ele está à solta, deixou a mulher gorda em pedaços!

(Continua…)

Notas finais
Esse foi baby-size, porém cheio de coisinhas né *.* Me contem seus pensamentos obscuros, peoples, ouví-los dá sentido à minha existência. Ah, e se encontrarem erros podem me dizer! Revisão na madrugada sempre deixa passar umas monstruosidades. ;*