Indigna Rosa Negra
61 Rosa Vermelha e Rosa Negra
Notas iniciais
I see this life like a swinging vine
Swing my heart across the line
And my face is flashing signs
Seek it out and you shall find
Vejo esta vida como uma videira que balança
Balança meu coração além do limite
E meu rosto está dando sinais
Procure e você encontrará
Janeiro transitou para fevereiro sem qualquer alteração no frio extremo que fazia. Cedo numa manhã de quinta feira, Bervely se encontrava sentada no salão principal preenchendo a sua carta para a Academia Flamel, solicitando uma vaga para o programa de formação em alquimia. Snape a convencera a tentar, após o sucesso de Wolfsbane. Ele até dissera, não com todas as letras, mas ainda assim, que se ela completasse a aplicação ele estaria disposto a relevar os estragos causados ao livro do Ministério. Após isso, havia seguido um momento estranho onde o professor lhe fizera a seguinte pergunta:
— Há alguém lhe perturbando, Srta. Black?
Ela não entendeu a pergunta de imediato, afinal, muita gente a perturbava em Hogwarts, Percy Weasley no topo da lista, por sua mera existência. Ela disse isso para ele, que descartou a resposta com um aceno impaciente de sua mão.
— Não na escola, fora dela. Alguém lhe enviando cartas ameaçadoras, por exemplo, chantageando você ou tentando obter vantagem de alguma ligação que possua com a sua pessoa.
Bervely disfarçou seu estranhamento fingindo que analisava os papeis da Academia que ele acabara de lhe entregar. Demorou um pouco para formular uma resposta.
— Hum, não professor. Por quê? Alguém… – pigarreou – Alguém deu a entender que isso poderia estar acontecendo?
Ainda bem que ele não sabia nada sobre o arrepio gelado que varrera a sua coluna, nem podia ver seu cérebro trabalhando rápido para entender o que significava a pergunta tão repentina. Há algumas semanas, Snape estaria certo em sua suposição. Mas agora…
— Não. Eu apenas cogitei que o seu interesse e posterior inutilização do livro pudesse ter relação com forças externas. Minha primeira hipótese foi de que estava tentando sabotar as atividades do professor Lupin, ao saber de sua natureza verdadeira, mas isso faz pouco sentido agora, visto seu afinco a realizar a poção sem o livro. Então me dei conta de que um livro raro como Wolfsbane Edition teria um valor importante no mercado negro, entende, e existem pessoas que estariam interessadas em uma vantagem como essa no momento.
— ‘Pessoas’, professor? – pelo brilho distinto nos olhos dele, Bervely tinha uma ideia de a quem Snape se referia. A resposta direta dele confirmou suas suspeitas.
— Black. Eu me refiro a Sirius Black, que sabidamente tem rondado esta escola e, eu suponho, esteja desesperado para ter qualquer carta de troca que favoreça uma negociação criminosa e lhe traga algum benefício.
A mão de Bervely tremeu levemente. Ela colocou no rosto um sorriso incrédulo.
— O senhor acha que Black me chantageou para roubar um livro de poções? Por que ele ia pedir logo a mim?
— Black é seu consanguíneo, Srta. Black. É seu primo de segundo grau por parte de mãe, estou certo que sabe disso. Ele pode vir a crer que a senhorita possua uma inclinação a ajudá-lo.
Ela sondou o rosto de Snape com cuidado, tentando descobrir se havia acusação ou desconfiança por detrás daquelas palavras. O que viu foi um distinto vinco de preocupação entre as sobrancelhas muito negras.
— Black não está me ameaçando ou chantageando, professor. – disse com a voz muito calma. – Ninguém está.
Ele sustentou seu olhar sobre ela. Bervely sentiu uma leve pontada no fundo de sua cabeça e um formigamento em seu braço. Snape recuou, assentindo e tomando um tom mais prático, além de ligeiramente desconfortável.
— Nesse caso, concentre-se em sua aplicação para a Academia Flamel e me entregue tudo até o fim da semana. Eu os enviarei junto a minha recomendação, devemos ter uma resposta antes da páscoa.
Então, Bervely colocava suas últimas considerações na carta, ainda pensando nesse estranho diálogo, quando uma presença familiar veio tateando seu caminho até a mesa da Sonserina. A maioria dos colegas já tinha seguido para a primeira aula, mas Bervely viu uma das irmãs Greengrass olhar com desprezo para a segundanista corvinal em seu ‘território’.
— Bevy? – chamou Anne em voz alta quando seus joelhos encontraram o banco de madeira.
— Eu estou aqui, Anne. – indicou, se esticando e cutucado a mão dela com a pena. A menina veio sentar à sua frente, a ponta de sua longa trança lateral por pouco não mergulhando numa tigela de sopa deixada por alguém. Parecia um pouco pálida.
— Bom dia, sis. Você viu isso? – ela estendeu a edição do Profeta Diário daquele dia. Havia uma foto de Sirius Black na página marcada, a que eles gostavam de usar, do dia em que ele fora preso e parecia um maluco descontrolado mostrando seus dentes para a câmera e sacudindo sua cabeça.
BEIJO DO DEMENTADOR É AUTORIZADO PARA BLACK.
De acordo com decisão do Chefe do Departamento de Execução das Leis Mágicas, os dementadores que prosseguem nas buscas pelo fugitivo Sirius Black estão agora autorizados a aplicar-lhe o ‘beijo do dementador’ assim que Black for encontrado. O ‘beijo do dementador’ é o processo no qual essas criaturas podem absorver a alma de um ser humano. Embora pareça extrema, a medida é mais uma garantia de que uma vez encontrado, Black não terá a chance de fugir novamente, já que tem se mostrado extremamente escorregadio às tentativas de recaptura desde a sua fuga da prisão de Azkaban, em julho…”
Ela ficou enjoada e parou de ler.
— Não podem sugar a alma dele fora. – Anne murmurou, seu rosto cheio de horror.
— Eles não vão. Não se preocupe com isso. – garantiu rigidamente, amassando o jornal. – Black é esperto demais para se deixar capturar.
— Mas os dementadores estão lá fora em toda parte e ele está tão perto! – ela choramingou baixinho.
— Anne, já chega, não vamos discutir isso na mesa de café da manhã. – censurou, vendo alguns colegas olharem curiosos para a atípica interação da monitora-chefe sonserina com a garota cega da corvinal.
Apesar de seu tom confiante, Bervely permaneceu com um desconfortável aperto no peito pelo resto do dia. Ela frequentemente olhava pela janela, captando aqui e ali as ondulações negras dos dementadores no horizonte do castelo. Suas capas ondulantes apodrecidas eram bandeiras de agouro constantes no céu, cada vez mais presentes desde outubro.
Quando anoiteceu, Bervely sugeriu para Jinx, muito gentilmente, se ele podia dar uma volta na floresta e checar se Black estava bem. O gato voltou horas depois e deu a entender que não tinha encontrado nenhum cão nos terrenos da escola, o que a deixou ainda mais agoniada. Será que Black tinha visto a noticia no jornal e decidido se afastar da escola? Uma parte dela queria acreditar que Sirius estava propenso a esse lampejo de bom senso, mas a outra… a outra odiava a ideia de perdê-lo de vista, por mais egoísta que isso parecesse.
— BD –
Numa noite de sexta, mais de duas semanas depois, Bervely estava se arrastando pela ronda noturna quando avistou um grupinho composto por Oliver Wood e os colegas do time, conversando com grande empolgação. Todos usavam uniformes de quadribol, ao que ela supôs que tinham acabado de sair do último treino antes do jogo de quadribol no dia seguinte. Pelo tom da conversa e sorrisos enormes em seus rostos, estavam otimistas.
— Mas você viu aquela aceleração! – Johnson vibrava, fora de si de tanta empolgação – E a precisão dos movimentos! Ninguém vai segurar o Harry amanhã…
— Ninguém vai nos segurar amanhã! – Oliver a corrigiu, inflando-se. – Se a taça não for nossa esse ano, eu como meu chapéu!
— Você não usa chapéu, capitão. – Katie Bell deu uma risada engraçadinha e um tapinha no ombro dele – Mas se deixarmos a taça escapar esse ano, eu acho que cada um aqui devia comer um balaço inteiro.
Eles deram de cara com Bervely, que tinha parado no meio do corredor com os braços cruzados. Ela sentiu os vários níveis de desagrado do time ao vê-la ali, mas seu olhar foi direto para Oliver.
— Vocês estão fora do toque de recolher, camaradas. – avisou num tom pretensamente humorado.
— Estávamos no treino – Katie lhe explicou com impaciência, como se ela fosse burra por não perceber. – Você pode perguntar à Prof. Hooch, ela ainda está lá no campo com Harry Potter.
— Não vou perguntar nada para ninguém, Bell. — disse com azedume, sem olhar em sua direção. – A regra da escola é bem clara, os treinos terminam às dez. Já são quase onze horas.
— Nós estávamos treinando com a nossa arma secreta. – Fred Weasley lhe comunicou em tom de conspiração.
— Droga Fred, não conte a ela que Harry vai montar um dragão! – George o cutucou.
— Tudo bem, pessoal, eu resolvo isso. – disse Oliver, com resignação em seu rosto sério. Ele também não tirava os olhos de Bervely, como se tentasse fazer um buraco na cabeça dela. – Vão seguindo para a torre, todo mundo precisa descansar para amanhã.
— Você também precisa, cap. – Katie lhe lembrou, gentilmente. Bervely sentiu a mão da varinha coçar.
Os cinco jogadores passaram por ela, lhe lançando longos olhares aborrecidos, deixando só Bervely e Oliver no corredor vazio do quarto andar. Ele cruzara os braços e estava com seus maxilares apertados. Ela tentou não prestar atenção em como ele ficava tão ridiculamente bem naquele uniforme de treino cheio de partes de couro e amarrações cruzadas. Era difícil.
— Então McGonagall devolveu a vassoura à Potter. – ela disse, mais para se distrair do pensamento sobre couro e amarras do que qualquer coisa.
— Não por mérito seu, Black.
— “Black”? – ela riu pelo nariz, descrente. – Estamos brincando de viagem no tempo?
Ele soltou o ar de seus pulmões exasperadamente, trocando o peso de um pé para o outro e apoiando o cabo de sua Cleansweep no chão com impaciência.
— Você vai dizer o que quer? Eu preciso dormir cedo. Grande jogo amanhã, você deve ter ouvido falar.
Bervely sorriu atravessado. Havia algo sobre Wood irritado, recém-saído do treino, com aqueles maxilares travados, e ela precisava se controlar para entrar no jogo e não embaraçar a si mesma. Qual era o seu problema?
— Pensei que você ia ‘resolver isso’. Não foi o que disse à sua amiga?
Ele balançou a cabeça uma vez.
— Só pensei que tinha algo a dizer. Mas se isso é tudo, boa noite.
Bervely ficou um tanto surpresa ao ver que ele ia mesmo embora. Ela girou o corpo na direção que Oliver ia andando para longe dela e em direção à torre da Grifinória.
— Você não pode estar zangado ainda por causa da vassoura idiota? Qual foi, Oliver, Potter já está com ela de novo! O que mais você quer?
— Se você não sabe, não sou eu que vou te explicar. Eu estou cansado, Rose.
O que diabos estava acontecendo? Será que Wood não percebia que se não fosse por ela, Potter nem teria uma Firebolt, para começo de conversa?
— Bem, é claro que você está cansado, ultimamente tem treinado mais do que respira!
— Não é do quadribol que eu estou falando. – devolveu, sem se virar.
Bervely ficou vendo-o sumir por uma curva do corredor.
— Ingrato! – gritou para a direção que ele tinha desaparecido.
— BD –
Houve uma grande comoção em torno da vassoura estúpida de Potter na manhã seguinte. Os alunos das outras casas fizeram fila para dar uma olhada nela, depois que Wood a colocou em cima da mesa em destaque, como se ele fosse o próprio dono da coisa. Bervely via os colegas sonserinos cochicharem e se torcerem em despeito, mas ela não dava a mínima. Viu Draco se aproximar da mesa para implicar com Potter, mas o garoto deve ter dado uma boa resposta porque a casa vermelha e dourada explodiu em risadas e seu primo se arrastou para longe com uma boa cara de traseiro.
Mas Bervely tinha um novo mantra, e ele era: Ao inferno com o Quadribol. Como não era obrigada a assistir aquele jogo, já que Sonserina não estava envolvida, ela tirou o dia de folga para dar uma volta. Fazia um dia claro e gelado, mas com pouca brisa, bom para caminhar. Colocou suas botas e um casaco pesado de couro caramelo, presente de natal de Andie. Tinha um forro macio de pele de carneiro e muitos feitiços bons de aquecimento; Bervely gostara tanto que até enviara à tia um bilhete de agradecimento. Ela prendeu o cabelo com um elástico para o vento não jogá-lo em seu rosto e fez uma rota bem especifica pela orla da floresta até o Salgueiro Lutador.
Nenhum cão negro à vista. Engraçado, porque ela achava que Sirius ia querer ver o afilhado voando em seu presente de Natal. Talvez ele tivesse mesmo recuado, se afastado de Hogwarts depois daquela notícia no jornal. Eles tinham trocado algumas cartas durante o resto do feriado de natal, principalmente porque Sirius queria saber se o braço dela havia melhorado e se algo saíra no jornal sobre o incêndio na Mansão, mas desde que as aulas começaram ela não ouvia uma palavra dele. Se não fosse as ocasiões que Jinx o vira rondando a floresta, a falta de notícias seria completa.
Você não achou que ele ia ficar perdendo tempo aqui na escola pra sempre. Talvez o que Black quisesse todo aquele tempo não tivesse nada a ver com Potter, afinal. Talvez o que ele estava buscando fosse o perdão de sua filha caçula. Agora que o tinha, ele podia seguir para seus próximos assuntos, fossem quais fossem.
A ideia a irritava, Bervely não sabia direito o porquê. Depois de ter lhe contado quase tudo sobre o seu passado, na noite do natal, uma parte dela achou que as coisas iam mudar entre eles. Que aquela parede que Black matinha, e na qual abrira uma brecha aquela noite, não fosse reerguida. Estava errada, é claro. Pensando bem, eles eram muito parecidos, e não da melhor maneira.
Bervely contornou o lago congelado, ouvindo os sons do jogo trazidos pelo vento. Ela dava muito pouca oportunidade para admirar a beleza dos terrenos da escola, mas a visão era mesmo de tirar o fôlego; as colinas de pedra ladeando o amplo lago cinza reluzente, o sol firme e pequenininho num céu branco-leitoso, uma bandeira vermelha flamulando numa pedra alta à beira do lago…
Estreitou os olhos para ver direito; aquilo não era uma bandeira. Mesmo de longe podia reconhecer o contorno distinto de sua antiga parceira de magia, seu cabelo solto sacudindo na brisa e provavelmente se enchendo de nós. Não tinha a mínima ideia do que Tara fazia ao relento naquela manhã de sábado, ao invés de estar nas arquibancadas torcendo para a Grifinória perder. Ao contrário de Bervely, Tara se importava com quadribol o mínimo necessário.
Escalou as pedras altas e escorregadias usando um feitiço anti-derrapante nas solas do sapato, conseguindo chegar até a garota sem quebrar nenhum osso. A vista daquele ponto era ainda mais bonita, inclusive incluindo na paisagem a própria Tara. O frio deixava seu rosto pálido e destacava as cores dos olhos e do cabelo. Ela tinha entre os dedos um dos desagradáveis cigarros de cereja.
— Alô, B. – cumprimentou com um meio sorriso ao vê-la chegar perto.
— Hey. – se sentou ao lado dela, de um jeito que a fumaça não fosse jogada contra seu rosto.
Fora instituída uma trégua amigável entre as duas desde que Bervely conseguira fazer a poção mata-cão e entregara as doses para Bae no mês de janeiro. Na ocasião, a ruiva literalmente dera gritos e pulara nela quando tinha lhe contado a novidade. Agora Tara promovera Bervely a algum tipo de heroína dos lobisomens desamparados.
— Quer um trago?
— Não. Ferre seus pulmões sozinha.
Tara deu risada e tragou mais uma vez. Inclinou a cabeça para trás expondo o pescoço longo, o cabelo caindo pelos ombros como uma cascata de fogo, e soprou a fumaça lentamente para cima. Ela fazia isso para se exibir, como Bervely bem sabia. Todo movimento de Tara era para evidenciar o quão generosa a natureza fora com ela.
E tudo bem, porque não estava errada. Bervely soltou um suspiro pesado.
— Qual o problema, B? A vida está sendo uma vadia? Alguém puxou o rabo do seu gato? Você pode desabafar comigo, faz de conta que ainda confia em mim, como nos velhos tempos.
Bervely não disse nada. Talvez aquilo tivesse sido fácil entre elas ‘nos velhos tempos’, mas agora nem sabia por onde começar. Tara buscou facilitar seu trabalho, enquanto lhe olhava de relance através dos cílios longos.
— É o capitão?
— O que te faz pensar isso?
— Você parece necessitada de um trato, se é que me entende, e até onde eu sei o principal responsável por esse departamento é Wood. Dá pra ver que ele não tem feito um bom trabalho.
— Eu não estou necessitada! – contrariou-se. Tara girou o pescoço para lhe transmitir sua incredulidade entediada. Bervely bufou. – Você se mete demais na vida dos outros.
— O primeiro passo é aceitação, você sabe.
— É mesmo, e qual seria o segundo? – perguntou com zombaria.
A ruiva se virou, jogando o toco de cigarro fora. Havia um ar travesso em seu rosto, que fazia as pontas dos lábios se curvarem para cima.
— Você está pedindo minha ajuda? Não precisa fazer essa cara. Já sei que não é ajuda pratica, você deixou bem claro que não está interessada. Aliás, se permite perguntar, como consegue dormir uma noite inteira ao meu lado sem se aproveitar nem um pouquinho? Você é feita de pedra, Bervely Black.
— Você está fugindo do ponto. – lhe alertou. Tara não precisava saber que Bervely tinha dúvidas parecidas.
— É. Verdade. É só que não entra em minha cabeça. – pacientemente, ela tirou a varinha do bolso e acendeu outro cigarro. Bervely achou que as mãos dela deviam estar congelando. Se lembrou do jeito que Oliver sempre esquentava as suas, esfregando entre as dele. Sentiu uma coisa incomoda no peito. Certamente seu coração estava bichado.
Tara tragou devagarinho do cigarro novo. O batom colorindo os lábios dela tinha um tom terroso escuro de vermelho, o que a distraiu dos pensamentos sobre Oliver e mãos.
— Por que ele está puto com você? – perguntou ela, soprando a fumaça a esmo.
— Quem disse que ele está?
— Alguém sempre está puto com você.
Ela fez uma careta para o fundo de verdade da afirmação.
— Ele me pediu para fazer algo e eu não fiz. E ela está sendo um babaca a respeito.
— Hummm. – sorriu com malícia – Era algo obsceno?
— Quê? Não.
— Você tem que fazer as coisas obscenas também, B. Nada de ser a monitora certinha na cama, isso tira o tesão de qualquer cara.
— Ok, já chega, é impossível ter uma conversa séria com você! Não sei porque ainda tento. – ela se apoiou nas mãos para levantar, enquanto Tara caía na gargalhada. A ruiva lhe segurou pela manga do casaco, tentando refrear o riso sem muito sucesso.
— Espera ai, esquentada. Espera. – pigarreou, o divertimento ainda aceso nos olhos – Ai, é tão legal te perturbar. Das coisas que você me deixa fazer com você, essa com certeza é a mais divertida.
— Tara.
— Parei. – mordeu os lábios para conter o sorriso inevitável. Seu batom devia ser de pigmento mágico, porque não ficou na ponta dos seus dentes.
Bervely sentou de novo, de cara fechada, encarando o lago congelado e acompanhando os movimentos da colega pelo canto do olho. A ruiva jogou preguiçosamente o cabelo sobre um ombro, inclinando a cabeça para observá-la.
— Você está gostando dele? Tipo… apaixonada?
— Óbvio que não. E que espécie de pergunta é essa? – perguntou, aborrecendo-se.
— Uau. Isso foi rápido – ergueu as sobrancelhas, teatralmente impressionada. – É uma pergunta legítima. Há quanto tempo vocês já estão saindo, quase um ano? Ele é uma gracinha. Meio bobinho e bitolado por quadribol, não que isso seja… ruim. Suponho que a pegada seja boa, porque vamos combinar, do jeito que ele agarra aquelas bolas no quadribol, ele sabe bem usar as mãos. E agora você está toda mordida porque vocês tiveram uma briguinha.
— Você não sabe do que está falando. – disse com mau humor.
— Não é vergonha nenhuma admitir que gosta do capitão delícia, B. Quer dizer, tirando a coisa das casas rivais, amor proibido, e que ele não ser material de casamento para uma sangue puro. – ela fez um aceno com a mão – Na verdade é bem compreensível. Você adora se enrolar em uma coisa complicada e fora de alcance.
— Do que é que você está falando? – Bervely perguntou, percebendo aquela conversa prestes a descarrilhar, e não de um jeito interessante.
A ruiva deu um suspiro apologético.
— Você sabe do que, do seu histórico. – e deixou aquilo o ar, dando um trago estratégico.
— Que ‘histórico’? Pare de falar em enigmas!
— Hector.
Bervely sentiu seu rosto formigar. Uma coruja piou em algum lugar, o som se prolongando pelo vale do lago e perfurando seus ouvidos, fazendo o ar tremular. Ela pensou que gostaria de ser aquela coruja, lá no alto e bem longe.
— Eu sei que não gosta de falar no assunto. No seu lugar eu também não gostaria, sabe. – Tara recomeçou, lhe dando uma olhada de relance. – Mas ele era seu primo e você era apaixonada por ele, a coisa toda. Você sabia que não ia dar em nada. Mesmo se ele estivesse, sabe como é… vivo.
— Você está certa, eu não quero falar sobre isso. – Algo em seu tom fez Tara virar o pescoço todo e o tronco para lhe olhar com uma espécie de pesar.
— Você ainda gosta dele, não é? Lá no fundo, você sente que haveria uma chance se ele não tivesse morrido. Deixe Hector ir, para o seu próprio bem, supere de uma vez. Vai ser melhor, te garanto.
Ela olhou para Tara com raiva. Que direito a garota tinha de dizer aquelas coisas, e com tanta pretensão?
— E você, Tara? Já superou Gui Weasley? – perguntou com veneno. Claramente conseguira lhe atingir, pelo modo como a mão dela tremeu e quase deixou o cigarro cair.
— Weasley é diferente. Ele está vivo o bastante para sentir a dor, quando eu lhe der o chute no saco que estou guardando pra a próxima vez que eu encontrá-lo.
Bervely não disse nada. Por muitas vezes sua língua tinha coçado para contar à Tara que Gui fora subornado pelo pai dela para não lhe encontrar no aeroporto do Egito, mas nunca achava que era a hora certa. Havia tanto que Tara precisava saber e que ela não tinha coragem de dizer. Antes, precisava ter certeza que o Olho de Hórus não era mais uma ameaça para nenhuma das duas.
Esperou Tara fumar mais uns dois cigarros, guardando silencio, discretamente admirando os movimentos distraídos da garota, a boca vermelha envolvendo o filtro e os olhos se fechando quando novas doses de nicotina invadiam o seu sistema. Ela transformava aquele ritual trouxa condenável algo proibitivamente erótico.
Então Bervely puxou a manga do casaco e tirou do seu braço direito a pulseira de ouro e pedras que usava desde o Natal, nem sabia bem o porquê. Ela a colocou em torno do pulso branco de Tara, onde ele coube com perfeição calculada.
— O que é isso? – ela olhou cheia de admiração para a peça, que com certeza se enquadrava na sua preferencia para joias.
— Seu pai mandou no Natal. Esqueci de entregar.
— Obrigada. – ela dedilhou as pedras vermelhas uma por uma, pensativa. – Ele não me escreve desde dezembro, não responde nenhuma das minhas cartas. Acho que está chateado comigo.
— Por que ele estaria? – Tentou não soar muito interessada. Tara deu de ombros com desânimo.
— Acho que está desconfiado da coisa toda com Bae. Eu procurei o Prof. Dumbledore depois daquela lua cheia e expliquei tudo, porque eu queria uma permissão mensal para visitar Bae, ao invés de ficar escapando da escola escondida. Ele foi muito compreensivo, disse que eu podia ir e que ele não ia falar nada com meu pai, já que eu sou maior de idade. Mas sinceramente… papai tem conhecidos no Conselho da Escola. Ele meio que sabe de tudo que acontece aqui dentro.
Bervely pensou o quanto ‘conhecidos’ poderia na verdade significar ‘corpos’. E que se fosse o caso, o Conselho de Hogwarts teria sofrido um desfalque muito recentemente.
— Tenho certeza que tudo vai se resolver. – disse, na falta de palavras melhores. Tara lhe deu uma ombrada zombeteira.
— Olha pra você sendo otimista, o que te aconteceu? Aposto que é o amor entrando em seu coração. Sério, brigados ou não, tenho que mandar meus cumprimentos a esse capitão, ele anda operando milagres…
— Vai se ferrar, Tara.
Mas ela não foi se ferrar. Ao invés disso ficou ali, bem como Bervely, a tarde inteira e até o dia escurecer, jogando conversa fora. Bervely ficou surpresa ao perceber como elas ainda podiam concordar em tantos pontos e criticar exatamente as mesmas coisas; sobre como os elfos domésticos de Hogwarts eram relaxados em comparação com aqueles da sua antiga escola, ou como Duelos e Artes das Trevas faziam falta, mas Herbologia e Transfiguração eram muito melhores em Hogwarts.
Retornaram ao castelo quando ficou muito frio, impossível permanecer na beira do lago sem tremer. Tara sugeriu que aproveitassem a displicência dos elfos para dar um pulo na cozinha e pegar alguma comida para viagem, algo que jamais poderiam fazer em Durmastrang, onde pular refeições era garantia de ficar com fome até a refeição seguinte.
Os elfos lhes deram torta de caramelo, sanduíches de arminho e quentão. Eles tentaram empurrar suco de abóbora, mas Bervely mostrou seu distintivo de monitora chefe e ameaçou dar cachecóis para eles se não lhe passassem a bebida boa. Tara foi zombando dela por isso o caminho todo até seu dormitório nas masmorras.
Elas comeram em cima da cama, já que a mesa de Bervely estava cheia de material de Astronomia espalhado. Devoraram os sanduíches, passando a garrafa de quentão de uma para a outra, enquanto Tara contava as últimas histórias do dormitório. As implicâncias de Pacey com a arrumação, os chiliques de Olga e os novos métodos que Sia estava usando para fazer Remus Lupin levar a sério seu interesse amoroso.
— O quentão acabou, vou buscar algo mais forte lá no quarto. – Tara avisou, deixando a garrafa de lado. – Ah, e vou pegar o Strip Snap também.
— Não vou jogar algo que tem ‘strip’ no nome, Tara, sem condições. – avisou Bervely, falando alto, porque estava falando tão alto?
— Mas você vai gostar!
Ela rolou os olhos, negando.
— Por que você sempre tem que tentar chegar dentro das minhas roupas?
Tara bufou como se a pergunta fosse absurda.
— Você já se olhou no espelho, Black? – apontou o espelho, que refletia as duas sentadas na cama. Bervely não sabia o que Tara queria dizer; estava um caos, o cabelo escapando do elástico, um sorriso abestalhado e um pouco embaçado em seu rosto.
O relógio ficava logo acima do espelho, então foi inevitável bater os olhos nele.
— Minha nossa, olha só a hora! – engasgou. – Você não pode sair, vai quebrar o toque de recolher, eu teria que te punir. – o que é claro que não fazia nenhum sentido, mas Tara gargalhou mesmo assim.
— Me punir? Alguma chance de isso envolver algemas e um chicote?
— Oh, cala a boca. Como você consegue transformar tudo que eu digo em algo sujo?
— É um dom. – sorriu com orgulho. Ela estava inclinando o corpo para a beira da cama numa posição um pouco obscena, o traseiro para cima, o cabelo ruivo escorregando em direção ao chão. – Olha o que eu achei! O meu rum! Já podemos continuar a festa.
Bervely nem lembrava daquela garrafa, estava ali desde aquela última visita bêbada de Tara ao seu quarto. Ela destampou e deu um gole longo, lhe passando.
— Não vou mais beber hoje, já estou vendo duas de você.
Ela gargalhou, vindo na direção de Bervely, engatinhando pelo colchão, um cintilar divertido em seus olhos verde-azeitona.
— Você bem que queria duas de mim em sua cama. – brincou, passando o rum perto da sua boca. – Experimenta, é bebida de pirata, larga de ser careta.
— Tara, não…. – a ruiva passou as pernas por cima das suas, lhe prendendo no lugar. Ela tinha julgado que Tara estava tão embriagada quanto ela, mas na verdade a sonserina parecia saber bem o que fazia. Ela molhou seu dedo no rum e passou nos lábios de Bervely, que sentiu a pele arder com o álcool.
— Experimenta.
Obedeceu, passando a ponta da língua sobre os lábios. Sua respiração tinha se acelerado com a proximidade da ruiva, que agora estava praticamente em seu colo. Ela cheirava adocicado e amargo, uma mistura que a deixava meio tonta mas que não era de jeito nenhum ruim.
Tara olhava no fundo de seus olhos como se quisesse hipnotiza-la.
— Gostou?
— Eu já tinha bebido antes – lembrou-se – É gostoso.
— Humhum. Sabe o que mais é gostoso?
Tara encarava sua boca, faminta, num pedido mudo. Bervely procurou, mas não viu razão para negar; foi ela quem se inclinou e capturou a boca colorida de bordô, deixando um calafrio proibido varrer sua coluna quando uma língua deslizou pela outra, como duas pequenas serpentes.
A memória que guardara do beijo de Tara concordava de forma vaga com a realidade. Os lábios dela eram mais macios do que podia se lembrar, encaixando-se entres os seus de um jeito escorregadio e perfeito. Suas línguas se enrolavam num complô atrevido, alcoólico-ardente, uma queimando a outra enquanto disputavam espaço.
Um impulso imprudente levou Bervely a puxar Tara com ela para a cama e depois rolar por cima, vencendo sua dominação e ficando no controle. Por algum motivo isso parecia importante – não deixar Tara achar que estava vencendo, só porque tinha conseguido o que queria há tanto tempo. Bervely enfiou seus dedos nos cachos sedosos e quando eles estavam bem emaranhados ela os puxou, deixando seu ponto bem claro. A resposta foi uma mão entrando por debaixo de sua blusa, atiçando seus nervos nos pontos de contato.
A mão dela era impossivelmente macia, o toque gentil porém preciso. Quebrou o beijo para olhar Bervely, um pouco ofegante, manchas vermelhas em suas bochechas, a curiosidade faiscando nos olhos.
— Isso é estranho? – quis saber, ainda lhe acariciando por debaixo da blusa, na altura das costelas. O cabelo de Bervely caia em torno delas como uma cortina escura de seda.
Bervely levou um segundo para entender o que poderia ser estranho, e então negou.
— Nem um pouco, na verdade.
Tara sorriu e começou a beijar seu pescoço, pressionado seus seios um contra o outro e roçando por seu corpo como uma gata. Ela fechou suas mãos em torno da cintura estreita, ainda considerando a pergunta. Era diferente, mas não estranho. Tara era suave em todos os lugares que Oliver era feito de ângulos e músculos firmes, e ela tinha um monte de curvas que ele não tinha. Ainda havia o cheiro doce e a boca mais macia, a pele do rosto suave, no lugar da áspera dele, onde a barba estava sempre crescendo.
Então parecia mesmo que elas iam fazer aquilo. A não ser, é claro, pelas batidas na porta.
Tara estava disposta a ignorá-las, afinal, não era o seu quarto ou a sua visita que estava batendo. Então ela segurou Bervely pelos quadris, contra seu corpo, enquanto os dentes se fecharam no lóbulo de sua orelha, num misto de mordida e chupada muito desestabilizante.
— Tara, eu preciso-
— Não precisa não. – discordou, a própria voz da razoabilidade, se não estivesse arquejando entre as palavras.
— Preciso, sim.
Se afastou dela, todo o seu corpo pulsando e protestando. Ao coração batendo irregular se juntou um desconfortável frio no estomago, afinal, de todas as (poucas) pessoas que lhe faziam visitas ao dormitório, só havia uma que aparecia tarde da noite, embora não o fizesse a muito tempo. Tara devia ter lido isso em seu rosto, porque as sobrancelhas ruivas formaram uma arco intrigado.
— Você acha que é...
Bervely estreitou os lábios e não respondeu – as batidas se repetiram, com um intervalo mais curto e impaciente. Enquanto tentava ajeitar a roupa e o cabelo, também tentava descobrir a motivação da visita. Após uma olhada rápida para Tara – que continuou esparramada na cama, um sorriso em seu batom borrado – ela avançou para a porta e abriu uma pequena fresta.
— Black! Em nome dos magos superiores, porque demorou tanto? – exclamou uma cabeça vermelha, contrariando suas expectativas. Percy Weasley estava pálido no rosto e corado nas orelhas, um fenômeno peculiar em um ser humano, mas que vindo dele não devia lhe surpreender.
— Diabos, Weasley, é melhor o castelo estar pegando o fogo pra você ter vindo bater em minha porta essa hora da noite!
— Bem, ele está! – o rapaz arfava. Devia ter ido até ali correndo, e ainda usava suas pijamas de listras e gola engomada. – É Black, ele invadiu o castelo novamente, acabou de tentar matar o meu irmão na torre da Grifinória e escapou, mas ainda está em algum lugar do castelo! Os professores estão organizando buscas, McGonagall quer que todo mundo se reúna da Sala dos Professores...
— Black o QUÊ? – ela engasgou, sentindo o sangue fugir todo do rosto até os pés – Tentou matar seu irmão?
— Hey, Weasley. – Tara tinha acabado de aparecer, abrindo a porta mais um pouco para enfiar sua cara. Percy olhou para ela com choque, provavelmente porque a garota não se preocupara em abotoar os botões que tinham se aberto espontaneamente com a fricção de seus corpos, e agora seu sutiã meia taça estava aparecendo. – Veio se juntar à festa?
— Ah, Black, eu não sabia... – a coloração já doente no rosto dele se tornou da cor da cera da vela. Weasley literalmente não sabia para onde olhar agora.
— Tara, mas que merda. – Bervely rosnou, empurrando-a para fora de vista.. – Weasley, me encontro com vocês em alguns minutos.
— Eu sou suposto a lhe acompanhar, você não devia andar soz...
Bervely bateu a porta na cara dele, seu coração pulsando tão forte e tão alto que podia senti-lo através do peito. Ela começou a remexer a bagunça de seu quarto, casacos, livros, guardanapos e lençóis revirados, suas mãos tremendo.
— Garotos... quando lhe oferecemos uma ótima chance de diversão à três, tudo que eles podem fazer é balbuciar. Lamentável.
— Tara, você precisa ir embora. – Bervely advertiu, usando seu tom autoritário de monitora-chefe para ocultar o tremor na própria voz. – Volte para o dormitório e não saia de lá de jeito nenhum... mas droga, onde é que se meteu minha varinha?
A ruiva andou tranquilamente até a cama e tirou a varinha de Bervely de perto da garrafa de quentão. Bervely avançou para pegá-la, mas a ruiva a escondeu atrás das costas.
— Me dê, Tara, não tenho tempo pra isso!
— Eu sei, me deixe ajudar. Ouvi o que Weasley falou, Black está no castelo de novo, não é? E todo mundo quer pegar ele.
— Sim! Mas não é o que você está pensando, eu não vou ajudar a... – Bervely soltou um suspiro exasperado – Não vou me juntar à caça, exatamente.
— É claro que você não vai. – a ruiva sorriu com perspicácia – Não sou tão idiota, sabe, B? Mas, não acha que todo mundo vai desconfiar se a monitora-chefe estiver desaparecida justamente quando Black está a solta?
— Não importa! Me de a varinha. – Bervely ordenou. Não havia tempo para explicações, Sirius poderia ser acuado por algum professor a qualquer momento, se ainda estivesse mesmo no castelo.
— Apenas me diga o que fazer. – Tara pediu, séria, ao enfim lhe estender a varinha. – Assim papai Black escapa a salvo e ninguém desconfia que você tem algo a ver com isso.
Bervely não se deu ao luxo de ficar surpresa com a oferta.
— BD –
Ninguém no castelo dormiu naquela noite; quando o dia amanheceu, a Prof. Minerva avisou ao grupo de buscas – que incluía professores, fantasmas e os dois monitores chefes – que Black tinha escapado mais uma vez bem debaixo de seus narizes.
Durante o dia seguinte, evidencias de uma segurança ainda mais rigorosa foram sendo exibidas pelo castelo. Nas portas de entrada, o Prof. Flitwick pode ser visto segurando uma grande foto de Sirius Black, ensinando os alunos a reconhecê-lo. Bervely precisava admitir que teria sido um bom material para um poster, em circunstancias mais amenas.
Filch, por sua vez, andava para cima e para baixo, pregando tábuas em tudo, resmungando com sua gata enquanto fechava fendas nas paredes e buracos de camundongos. Ele nunca chegou a bloquear, no entanto, a estátua de um olho só no terceiro andar, que dava direto na Dedosdemel em Hogsmeade.
Ao longo da semana, alguém achou uma boa ideia contratar trasgos adultos para guardar a entrada do salão comunal da Grifinória, mas tudo o que eles fazia, segundo Bervely ouviu falar, era rosnar um com os outros e comparar o tamanho de seus bastões.
Na reunião de monitoria que se seguiu ao evento, ela ficou sabendo que fora Neville Longbotton o responsável por permitir que Black conseguisse acesso à Torre, pois anotara todas as senhas em um papel e então o perdera. Até os seus colegas de casa agora lhe davam olhares atravessados, comprovando a teoria do Prof Snape de que o garoto era um perigo ambulante.
Rony Weasley, por outro lado, era visto a torto e a direito contando como Black tentara lhe matar com uma faca enorme e afiada. Ela ouvira mais de uma vez os ecos de sua história, e tinha ímpetos homicidas toda vez que escutava as palavras ‘esqueleto’ e ‘imundo’, as preferidas de Weasley para descrever seu atacante.
Num dos dias inquietos a que se seguiu o incidente, Bervely encontrou por acaso com a irmã no corujal, quando foi responder uma carta de Nimphadora. A menina se assustou e escondeu o envelope que segurava dentro de um livro, mas não rápido o suficiente para que a monitora-chefe perdesse o movimento.
— Ainda se correspondendo com o garoto-bolha, irmãzinha?
— Ah, é você. – ela reconheceu a voz, sem que isso a deixasse mais relaxada – Sim, eu estava... não era nada.
— Me dê aqui, eu coloco numa coruja pra você. – ofereceu, se aproximando para pegar a carta. Anne recuou.
— Não, não precisa. Posso fazer mais tarde.
Bervely, após uma pausa de consideração, puxou a carta do livro dela. O destinatário não era nenhum João Arty; no envelope estava escrito ‘Para Snuffles’.
— Quem é Snuffles? – perguntou desconfiada, enquanto Anne tentava alcançar a carta em sua mão sem sucesso.
— Ninguém! Me devolve, Bervely!
— Snuffles... não são aqueles biscoitos de cachorro que latem de verdade? Ah, não, Anne, não me diga que essa carta é pra quem eu estou pensando que é.
Anne parou de tentar recuperar a carta, seu rosto se fechando numa expressão zangada.
— Sim. – ela bufou – Eu quero notícias dele, estou preocupada!
— Sabe que não pode mandar cartas, tem de esperar ele entrar em contato primeiro, ou pode levar os dementadores direto até ele... ainda mais com uma coruja da escola, Anne! Pensei que fosse mais esperta do que isso!
— Eu sei! – ela cruzou seus braços, os lábios se apertando numa linha impaciente – Mas você não está nem um pouco curiosa pra saber o que ele queria aqui dentro na outra noite? Por que ele foi pra a torre da Grifinória se sabe que não estamos lá? E o que ele estava fazendo com uma faca...
— Já chega. – ela censurou. – Eu suponho que se ele não veio atrás de nós é porque não é da nossa conta.
— Você não pode estar falando sério! Bevy!
— Volte para perto dos seus colegas, sabe que não deve ficar andando sozinha pela escola. – Disse severamente, ignorando os protestos da irmã. – E não envie mais cartas. Deixe Black em paz, Anne. Se ele quisesse falar com a gente, já teria nos procurado a essa altura.
Mesmo sem poder ver os olhos de Anne, cobertos pelos óculos como estavam, Bervely teve a impressão de que ela teria acumulado lágrimas contrariadas. Johanne praguejou alguma coisa e saiu pisando duro do corujal, de cara feia, numa linha tão reta que era de se pensar que pudesse ver o caminho. Depois que foi embora, a monitora deu um suspiro pesaroso. Através das janelas altas do corujal, via um par de dementadores flutuando longe, riscos de agouro no céu azul desbotado.
Enfiou a carta da menina no bolso, sua irritação com Black apenas aumentando.
— BD —
Havia uma visita à Hogsmeade marcada para o primeiro fim de semana de março. O bom senso impedia Bervely de deixar o castelo, no entanto; ela precisava treinar as últimas lições de transfiguração avançada de frente para trás de de trás para frente antes da segunda feira para não passar vergonha na próxima aula de McGonagall, isso sem comentar o relatório pendente sobre as práticas reprodutivas da Mimbulus Mimbletonia em cativeiro, que a professora Sprout esperava para quarta. Contudo, Bervely acordou cedo no sábado e escapou do castelo, saindo para Hogsmeade antes de todo mundo sequer terminar o café da manhã.
Ela nem sentiu a subida da colina, que costumava lhe deixar ofegante. Foi distraída pelas coisas que pretendia falar, no tom exato de exasperação que deveria usar, e tudo o mais. Fazia tempo firme, de brisa suave e gentil; pela primeira vez desde outubro, estar ao ar livre não fazia seu rosto arder a cada passo.
Como da outra vez, atravessou a rua principal do vilarejo, espiando as vitrines das lojas fechadas como se fosse alguém que tinha chegado cedo demais para as compras. Mudou sua aparência um par de vezes, se certificando de que não era seguida, para então tomar o caminho da ladeira até a Casa dos Gritos.
A construção parecia ainda mais abandonada sem a cobertura fofa de neve em seu telhado. O jardim, por sobre o qual o gelo derretera formando uma lama pegajosa, parecia um pântano quando ela o atravessou, emporcalhando as suas botas até os tornozelos. Sem se importar, deu a volta na casa e procurou a escada invisível, subindo degrau após degrau, seus pés escorregando vez ou outra na madeira úmida.
Alcançou o segundo patamar e jogou o corpo através da janelinha. Estava com se lembrava – a cama de dossel imperial, lustre dramático pendendo do teto e uma camada de dois centímetros de poeira sobre tudo. Suas pegadas marcaram o chão quando atravessou o cômodo, a varinha já em sua mão abaixada, indo em direção ao corredor. A casa estava silenciosa como um túmulo, poeira abafando bem seus passos enquanto avançava. Os degraus da escada, porém, reclamaram rangendo ao receberem seu peso.
Ela praguejou baixo, descendo ainda mais devagar. No momento em que seu pé direito pousou no último degrau, sentiu um puxão brusco em seu ombro, seu corpo foi forçado a girar para dentro de um cômodo e ela foi pressionada firmemente contra uma parede, sua bochecha prensada na madeira podre, um braço pressionado contra as suas costas e algo gelado e pontudo espetando a lateral da sua garganta.
— Você recebe assim todas as visitas? – zombou, quando conseguiu controlar a onda de pavor involuntário que lhe atingira. Seu captor aliviou um pouco o aperto, fazendo um ruido impaciente.
— Só os que não avisam com antecedência.
Black deixou cair o braço que pressionava a coisa pontuda na sua jugular. Ela abaixou os olhos e captou o brilho de uma lamina prateada comprida na mão dele.
— Com algo assim, quem precisa de magia defensiva, não é mesmo?
Ele a soltou, permitindo que se virasse por completo. Bervely tinha um monte de coisas para falar para ele, que ela tinha treinado em sua cabeça antes. Sobre sumir sem dar noticias, invadir o castelo mais uma vez, tentar esfaquear um aluno (tudo bem que era um Weasley, mas ainda assim) e quase ser pego pelos professores. Tudo ficou preso em sua garganta quando bateu seus olhos nele, porque ela entendeu o que o irmão de Percy queria dizer quando usara as palavras ‘esqueleto’ e ‘imundo’.
Não achava que tinha visto Sirius com um aspecto tão ruim desde que ele estava preso na cela.
— Eu sei – ele murmurou, um tom rebelde de desafio em retorno à expressão dela – Não sou nenhum material para a PlayWitch no momento.
Bervely olhou para o outro lado, com a desculpa de espiar entre umas frestas das tábuas na janela e ver se tinha alguém na rua. Então ela deu uns passos para longe, pousou a mochila sobre o que um dia teria sido uma mesa de trabalho, e remexeu lá dentro.
— Eu não trouxe nenhuma comida. – justificou, agora se sentindo culpada pela abstenção. – Devo ter uma barra de cereal aqui em algum lugar, sempre carrego para o caso de...
— Não precisa, eu me viro.
Ela sentiu a raiva voltando de novo, numa onda única que queimava seu caminho para cima, e olhou para ele com os dentes apertados.
— Do mesmo jeito que você se virou em Hogwarts naquele último sábado?
Sirius teve a decência de parecer minimamente constrangido.
— É, aquilo não correu bem como planejado.
Ela queria socá-lo pelo eufemismo, tanto que seus punhos se apertaram.
— Primeiro você violenta um quadro, agora você ameaça um aluno com uma faca. Eu não consigo seguir o raciocínio desse seu plano, Black. O que tem de tão importante da Torre da Grifinória, afinal de contas?
Ele negou, sua expressão firme, decisão nos olhos fundos.
— Nada que eu possa contar a você, como já lhe disse.
— Não pode ou não quer? – ela retrucou com irritação. – Por que está cada vez mais claro que você precisa de alguém de dentro da escola pra ajudar nesse seu plano louco, e vamos ser realistas, eu sou a única pessoa...
— Não. – Sirius lhe interrompeu, inflexível. – Não pode ser você. É algo que tenho que fazer sozinho.
— Mas que merda, Black! – Bervely explodiu, aquela coisa queimando no fundo da garganta e dos olhos. Ele ficou embaçado. Seu coração estava batendo forte como se precisasse fugir de alguma coisa, correr muito. — Pro inferno com suas merdas. Mate um aluno. Se jogue pra um dementador. Perca a droga da alma. Se você não pode confiar em mim depois de tudo, pra mim já chega!
Ela agarrou sua mochila de qualquer jeito, girando e indo embora num rompante de raiva. Ficou bem claro que ele não pretendia impedí-la, ela já estava no meio da escada e nenhum sinal dele. Foi quando se lembrou da carta em seu bolso e, com muita irritação, se forçou a dar meia volta e retornar para a saleta onde ele estava. Bateu o envelope na mesa com toda força.
— Peguei Johanne tentando lhe enviar isso. Ela é tão inconsequente quanto você. Parabéns.
Não esperava que Sirius pousasse a mão sobre a sua, seus dedos sujos e tatuados cobrindo a sua mão inteira. O choque do contato correu seu corpo como uma descarga elétrica.
— Eu confio em você, filha.
— Não- ela começou. Sua voz tremeu. Fechou a boca e engoliu em seco, a raiva se misturando com outra coisa mais densa em seu interior e produzindo um nó sólido no topo da garganta.
— Eu tenho uma boa razão pra te deixar fora disso. – ele continuou, fechando a mão em torno de seu pulso com suavidade. Era o braço esquerdo, o contato com o local da rosa lhe fez recuar quase que por reflexo. Sirius a soltou. Ela se arrependeu no mesmo instante. Mas era tarde, sua reação o alertara. – Como vai seu braço? Ainda dói?
Bervely apertou os lábios, decidida a não responder a verdade. Mas qual era o ponto em esconder? Ele era a única pessoa que sabia o que tinha acontecido, talvez ele pudesse lhe ajudar a entender essa parte também.
— Sim. Está... alguma coisa estranha está acontecendo.
— Como assim? – ele franziu o cenho, preocupado.
Bervely deu um suspiro pesado de desanimo. Ela tirou sua jaqueta, depois a blusa de manga comprida que usava por debaixo, ficando apenas com a camiseta de alças que vestia como segunda pele. Ele lhe ajudou a desenrolar a série de ataduras que ela usava em torno do braço, do topo do ombro até o pulso, para manter a já pouco efetiva pasta de ditamno mais tempo em contato com a pele.
— Ah, antes que eu me esqueça, obrigado por mandar a ruiva para me ajudar a escapar. Se não fosse ela para tirar o Flitwick do terceiro andar, eu teria que morder o traseiro dele. Vamos combinar que isso não seria nada agradável.
— Como você soube que eu que a mandei? – perguntou, surpresa. No relato de Tara sobre os acontecimentos daquela noite, ela afirmara que tudo que tinha visto de Black fora sombra de um cão negro gigantesco.
— Olfato canino. Seu cheiro estava todo sobre ela.
Bervely sentiu o rosto queimar, evitando olhar para ele a qualquer custo. De toda forma as ataduras tinham ido embora, o que impediu Sirius de fazer mais comentários constrangedores. Ele ficou um longo tempo em silencio, observando exatamente o que ela quisera dizer por ‘coisa estranha’.
— Isso é...
— Pois é. – ela disse rápido, um tanto tensa agora que lhe mostrara.
— Por que é que ela... ? – ele inclinou a cabeça, procurando um melhor angulo. Mas Bervely sabia que nenhum ponto de vista fornecia uma boa explicação.
— Não sei. – murmurou, a boca seca, os olhos presos ao chão, dessa vez porque tinha receio de ver que o tipo conclusão que se refletia no rosto dele. – Não sei o que significa, faço a menor ideia.
— BD –
Por alguma razão que ia além da sua compreensão, a prof. McGonagall confiava em sua integridade, porque ela chamou Bervely após a aula para lhe avisar que estaria responsável por aplicar as detenções nos alunos da Sonserina durante aquela semana.
Dessa forma, Bervely pode realizar sua pequena vingança. Acontece que Draco, Crabble, Goyle e Flint tinham achado uma boa ideia se fantasiar de dementadores na partida de quadribol da Grifinória contra a Corvinal para assustar Potter, e acabaram sendo desmascarados por um feitiço defensivo do garoto. Além da humilhação pública de serem ‘desdementados’ (e dementes) na frente da escola inteira, Bervely, que não estava feliz com Flint desde que ele a colocara numa posição difícil no último jogo da Sonserina, ficou feliz em fazê-los limpar o corujal sem magia. Eles ganharam esfregões, pás e sacos de lixo, e tiveram de escavar décadas de titica de coruja, ossos de animais e penas velhas da torre, sob o olhar muito satisfeito da monitora-chefe.
Como bônus, ela se deliciou vendo Draco literalmente ‘fazer o trabalho sujo’, para variar um pouco. Ficou exultante em lhe dizer, no final da primeira noite, que seu cabelo estava cheio de cocô de coruja e que ele provavelmente ia ficar careca por causa disso.
Tara também ganhara detenção – afinal, Flitwick a pegara fora da cama no dia em que Black invadira o castelo. Ela tinha gritando no primeiro andar que acabara de ver o fugitivo entrar na cozinha para render os elfos e roubar comida. Logo ficou evidente que ela não só estava quebrando o toque de recolher como que seu alarme fora falso, o que deixou o mini-professor sapateando de tão irritado.
Bervely prometeu a McGonnagal que Holmes seria severamente punida. Na noite da sexta feira seguinte, logo depois que a ronda acabou, ela fez a colega acompanhá-la até a Torre de Astronomia para cumprir sua detenção. Carregava consigo uma cesta e guardava um silencio misterioso, se recusando a responder as perguntas da colega por todo o caminho.
— Como assim você não vai me dizer o que tem na cesta? – Tara insistiu pela quarta vez, fingindo um aborrecimento que não sentia de verdade. – Espero que seja a sua coleção de chicotes, e que se tiver trazido as algemas, tenham um forro macio de pele de pelúcio. As de metal realmente machucam, se quer saber.
— Suba. – Bervely indicou uma escada em espiral no centro da torre, que ondulava seu caminho até o teto.
— Mandona. — Tara acusou mas obedeceu. Usava um vestido de camurça marrom acinturado, cuja parte de cima tinha um corpete que se fechava na frente em tiras. Como sempre, era mais curta do que deveria, ondulando em torno de suas coxas a cada movimento de suas pernas compridas.
Lá em cima havia um observatório sobre um mezzanino, forrado por um tapete que imitava o céu noturno. Era possível ver o céu inteiro através da cúpula de vidro, uma vista generosa para todos os lados, funcionando como um camarote para o espetáculo exibicionista das estrelas. Ao chegar lá em cima, Bervely fechou o alçapão e fez o encanto que recolhia as escadas, impedindo que alguém subisse enquanto estivessem lá em cima.
Tara segurava um sorriso travesso no rosto.
— Então, qual é mesmo o meu castigo?
— Detenção. – Bervely corrigiu, séria, pousando a cesta no tapete – A sua detenção consiste em contar todas as estrelas visíveis essa noite. Você deve saber que eu usei a fórmula de Zinemmaster mais cedo, então sei exatamente quantas são, você não pode me enrolar.
— Só contar as estrelas? – zombou, seus lábios se arqueando num sorriso irônico – Mas que bondade a sua. Detenção bem tranquila. Algumas pessoas estariam beijando meus pés por ter salvado seus pais da sanha dos dementadores, mas se tratando de você, que tem alergia à palavra “obrigada”...
— Comece quando quiser, Tara. Temos a noite toda.
Tara reprimiu um sorriso de descrédito, mas decidiu entrar no jogo. Deitou-se no tapete, apoiando a cabeça numa das muitas almofadas em formato de nuvem, e escolheu um ponto de partida. Seus lábios começaram a se mover silenciosamente.
— Em voz alta. – Bervely corrigiu. Recebeu um suspiro resignado em retorno.
— Ok, chefa suprema. Uma. Duas. Três. Quatro...
Bervely assentiu com satisfação. Tirou da cesta uma garrafa; era vinho de fadas, comprado em Hogsmeade na última visita. Vinha querendo provar a bebida de novo há algum tempo, mais ou menos desde que Theodor lhe servira uma taça em sua casa, em Azkaban. Aquela parecia uma oportunidade boa como qualquer outra para outra degustação, dessa vez sem correr risco de vida e no seu próprio corpo.
— Hum, boa ideia, vou precisar ficar hidratada se vou contar tudo isso.
Bervely girou os olhos para ela, negando.
— Nada de bebida pra você, está em detenção, Srta. Holmes. – provocou, dando um gole exagerado no conteúdo da garrafa. Havia uma certa rebeldia selvagem em beber coisas direto do gargalo, especialmente porque fora instruída a sua vida toda a não fazê-lo, porque não era algo ‘digno de uma dama bem nascida como ela’.
Tara enfiou a mão no bolso e tirou lá de dentro a carteira de cigarro. Foi tomada de suas mãos no mesmo instante.
— Nada de fumar aqui também.
— Você é uma insuportável. Com o que vou ocupar minha boca, então?
— Conte. – lembrou-lhe.
Tara lhe fuzilou com o olhar e recomeçou a contagem. O sotaque romeno de erres fortes se tornava mais evidente quando ela ficava impaciente. Enquanto bebericava o vinho (amargo, travando em sua língua, mas com um adocicado picante no fim que fazia valer à pena), Bervely observou o perfil da garota sob a luz prateada. Não havia lua aquela noite, fazendo com que as estrelas fossem as únicas testemunhas de sua pequena contravenção.
Bervely notou o movimento lento dos lábios de Tara pronunciando os números. Ela era bela de um jeito ofensivo – de qualquer angulo, arrumada ou recém saída da cama, cheia de maquiagem ou então sem nenhuma, cílios cor de laranja, a boca do tom quase exato da pele, rosa claro desbotado.
Alguma vez, alguém tinha dito – ou ela leu isso? – que os Black encontravam sua fraqueza nas coisas belas. A maioria das pessoas gostavam de coisas bonitas, mas o sangue Black pedia por elas, como num vício. Seria essa a razão de haver um gancho que se cravava em suas entranhas e a levava na direção de Tara de qualquer maneira? Há quanto tempo evitava admitir aquilo? Parecia uma eternidade.
Estendeu uma mão, a ponta de seu dedo se arrastando sobre a pele dela, da testa até a ponta do nariz, e depois para baixo até os lábios que se moviam, cobrindo uma estrela após a outra. Era feita de veludo, tão macia quando aparentava. Tara fechou os olhos, interrompendo a contagem para sentir o seu toque.
— Continua. – Bervely pediu, a voz baixa deslizando para fora de sua boca por vontade própria.
— Vinte e quatro. Vinte e cinco...
A ponta de seus dedos trilharam uma curva sinuosa pelo queixo dela, pela curva do pescoço e sobre as saboneteiras salientes debaixo da pele esticada, branco-azulada.
— Vinte seis. – Tara murmurou, sua respiração acelerando um pouco quando os dedos de Bervely subiram e desceram pelo vale entre seus seios. Ela inclinou o corpo sobre o da ruiva, sentindo sua respiração morna e os números que saíam de sua boca entreaberta.
No vinte e sete, Bervely sugou seu lábio inferior devagarinho, no vinte e oito o mordiscou cuidadosamente. Tara murmurou sua aprovação, uma gata manhosa sob seu corpo, retribuindo a mordida na mesma intensidade que a recebera.
No vinte e nove elas se perderam. Estrelas eram infinitas.
I feel something so right
Doing the wrong thing
I feel something so wrong
Doing the right thing
I couldn't lie, couldn't lie, couldn't lie
Everything that kills me makes me feel alive
Eu sinto algo tão certo
Fazendo a coisa errada
Eu sinto algo tão errado
Fazendo a coisa certa
Eu não poderia mentir, não poderia mentir, não poderia mentir
Tudo que me mata me faz me sentir vivo
(Counting Stars – One Republic)
(Continua...)
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