Notas iniciais
Antes tarde do que empacada, Boa Leitura e participem da Gincana Indignada de Maio! (Informações no grupo do facebook) Boa Leitura!


The bird who dares to fall
is the bird who learns to fly

O p
ássaro que se atreve a cair
É o pássaro que aprende a voar.

(Autor Desconhecido)

1988, Galdhøpiggen, Durmstrang.

Fazia uma raríssima manhã de sol no fiorde das terras norueguesas remotas onde o castelo rei se encontrava. Todos os alunos do segundo ano foram solicitados a vestir roupas leves e comparecer às oito em ponto no vasto terreno atrás do castelo, onde um homem alto, com um cabelo eriçado para cima como o topete de uma ave de rapina, já os aguardava.

Seu nome era Edmund Oak, se Bervely bem se lembrava. Ele fora apresentado em seu primeiro dia de aulas, e ela o via frequentemente na mesa dos professores durante as refeições, mas nunca tivera aulas com ele antes. Sua fama o precedia; o homem de largos e escuros olhos, estatura anormalmente alta e encurvada fora um renomado batedor para a seleção da Bulgária nos anos sessenta, antes de se aposentar e se tornar professor de voo.

Ao chegar do lado de fora acompanhando os colegas de sua turma, Bervely avistou as vinte vassouras dispostas no chão em duas fileiras sobre o gramado pálido. Eram novas e reluzentes, mas de aparência simples, projetadas para iniciantes e mãos pequenas. Isso não a consolou nem um pouco, quando foi orientada pelo professor a ficar à esquerda da primeira vassoura de ponta e ouvir suas instruções, dadas em um áspero sotaque búlgaro.

— Vocês devem se concentrar e ordenar para a vassoura: ‘suba’. É preciso fazer isso de uma forma imperativa, ou a vassoura perceberá sua hesitação e não irá colaborar. Acho que ninguém aqui quer uma vassoura se rebelando.

Ele deu uma risadinha que parecia um grasnado, mas Bervely não estava achando a menor graça. Pelo contrário, ela sentia um suor frio brotando em sua mão direita, quando a estendeu na direção da vassoura. A pessoa imediatamente ao seu lado era Tara — seu cabelo preso numa trança apertada até o meio das costas,or bem tranquila, como se já tivesse feito aquilo mil vezes. No minuto que ela seguiu a instrução, a vassoura pulou na sua mão, e um sorriso convencido brotou nos lábios rosados.

Bervely se voltou para a sua própria vassoura, pressionando os lábios um contra o outro com firmeza. Falhar não era uma opção — nunca tinha sido — e ela gostaria de poder contar a Hector, no fim do dia, que dera a sua primeira volta de vassoura, e ver o brilho interessado nos olhos dele. Mas o seu desejo era sobrepujado pela ainda muito fresca lembrança de estar no ar, experiência que ela teria odiado mesmo sem um Pegasus fora de controle lhe jogado em alto mar. Ela recordava como os joelhos tinham fraquejado quando o animal deixou o chão, e a sensação vulnerável no estômago, como se os seus órgãos estivessem soltos lá dentro, o frio gelado na espinha no minuto que não havia mais onde apoiar seus pés.

— O que você está esperando? — Tara murmurou entre os dentes, inclinando a cabeça em sua direção. Os outros colegas já estavam com suas vassouras nas mãos, ou tentando fazê-las subir corretamente, e o professor Oak se encontrava a dois alunos de Bervely, corrigindo a posição da mão de Heather Rigel.

— Eu… nada. — Não tinha contado à Tara sobre seu verão na Normandia, nem sobre seu acidente com o cavalo alado, porque era vergonhoso e Tara riria dela. Olhou para a vassoura de novo, estendendo a mão do jeito certo, dizendo a si mesma que se não fosse bem na aula de voo, ia perder pontos para a sua dupla. Estavam sempre competindo pelos primeiros lugares no ranking do segundo ano, mas algo assim poderia prejudicá-las. Pelo cano dos olhos, via a parceira de magia franzindo as sobrancelhas para ela, esperando impaciente.

— Suba! — ordenou para a vassoura, que se contorceu um pouco no chão, mas acabou vindo parar em sua mão. Longe de aliviada, ao fechar os dedos no cabo de madeira Bervely foi acometida por uma ligeira náusea, antecipando o próximo passo.

— Muito bem! — disse o professor, que acabara de chegar na frente dela — Agora passem sua perna direita sobre a vassoura, cerdas para trás, espero que isso seja óbvio… mais para frente, Srta. Black, isso mesmo…

Ela obedeceu, apesar de sua perna estar pesando o dobro do normal quando passou pela vassoura. Os seus colegas fizeram o mesmo, a maioria ansiosa para dar o primeiro impulso, um ou outro desinteressado e apenas seguindo as instruções, mas nenhum parecendo amedrontado. Ela apostava que o coração de nenhum deles estava batendo no topo da garganta como se pretendesse pular para fora.

— Certo, agora, para sair do chão, flexionem os joelhos, e depois um leve impulso vai bastar, apenas um pulo, e é para cima, não para a frente …

Seus joelhos formigaram quando ela tentou, e ela sentiu uma vívida ferroada em sua barriga, como se estivesse experimentando a sensação da queda novamente. Bervely largou a vassoura na grama, uma agonia tomando seu corpo desde as pontas dos dedos até a base da coluna. Ela achou que fosse vomitar.

— Preciso ir, professor Oak. — disse num fôlego só, se afastando da vassoura no chão como se fosse um bicho peçonhento lhe espreitando. — Sinto muito.

Deu meia volta, se afastando rápido dali antes que fosse impedida, e ignorou o chamado do homem, que não tentou mais de uma vez. Ela sentia alívio e humilhação em doses iguais; ao mesmo tempo que tentava imprimir a maior distância entre si mesma e a vassoura, sabia que todos os colegas estavam lhe observando ir embora, provavelmente pensando que ela era uma covarde.

Porque ela era.

Tara a encontrou mais tarde, sentada rigidamente sobre a cama do dormitório que elas dividiam, mas Bervely ignorou sua entrada fingindo-se ocupada com o polimento do seu kit de poções. Ela os tinha limpado umas quatro vezes naquele meio tempo, só para manter o pensamento longe do seu vexame, e agora todos os utensílios brilhavam como novos. Podia ver o reflexo do cabelo ruivo distorcido na concha enquanto a parceira chegava até o seu lado do quarto.

— Professor Oak me pediu para checar se estava tudo bem com você. — ela disse num tom cuidadosamente neutro, sem deixar transparecer o que estava pensando. Bervely permaneceu com a cabeça baixa, alinhando os objetos no estojo com precisão milimétrica.

— Estou bem. — disse por fim, ao perceber que Tara não ia sair sem uma resposta.

— Eu sei. Eu disse isso a ele.

Bervely sentiu uma onda de gratidão por aquela demonstração de rebeldia, mas ainda não conseguia olhar em seus olhos. Tinha perdido pontos importantes para elas ao sair correndo da aula e sabia disso. Podia fazer diferença no final, mas não conseguiu pedir desculpas.

— Então... — Tara continuou. Bervely achou que ela ia perguntar o que diabos tinha acontecido para sair em disparada daquele jeito, então ela se adiantou, completamente na defensiva:

— Eu acho voar estúpido.

O silêncio se alongou entre elas como um elástico que ela tinha puxado, e estava esperando voltar. Podia ouvir a sua própria respiração, pesada de ansiedade, enquanto aguardava o veredicto da outra, que provavelmente viria na forma de crítica. Como assim voar era estúpido? Todo mundo amava vassouras e não podia esperar para ter seus pés balançando fora do chão, o que havia de errado com ela?

Mas o reflexo na faca de cortar raízes, que distorcia muito menos o rosto de Tara do que aquele na concha, lhe mostrou uma anuência séria, quase solene.

— Tem razão, é meio sem graça mesmo. Acho que ainda dá tempo de trocar por outra classe… o que você quer fazer em lugar disso?

— BD -

Hogwarts, abril de 1994.

— Eu acho que nós estamos cometendo um erro.

Tara, que estava esparramada na grama com a cabeça apoiada na mochila e até então sem mostrar nenhum interesse especial no que estavam fazendo, ergueu sua cabeça e olhou para Bervely com resignação.

— Eu sabia que você ia dizer isso.

— O quê? — ela perguntou distraída, riscando uma parte de suas anotações no pergaminho apoiado sobre os joelhos. — Eu estou falando da questão quarenta e sete, do que é que você está falando?

— Ah, tá. — a ruiva revirou os olhos para o problema, mais mundano do que estava disposta a aturar naquela manhã luminosa e quase quente de primavera. — Leia de novo, eu não estava ouvindo.

Bervely deu um suspiro exasperado, puxando a folha de questões que estava jogada na grama embaixo dos seus joelhos.

— “Cite o nome de cinco bruxos famosos que usaram transfiguração para escapar de sentenças de trouxas na durante a Inquisição.” Até agora nós temos três, mas eu tenho quase certeza que Ceridwen morreu uns cem anos antes de a caça às bruxas começar e que Freya Hill é uma historiadora francesa que publicou um livro mês passado.

— Deixa eu ver. — Tara ergueu o corpo, se sentando ao seu lado e puxando as anotações de seu colo. A brisa trouxe o cheio doce de seu cabelo direito para o nariz de Bervely, que tentou ignorar a súbita urgência de tocá-lo. Seus dedos formigaram, enquanto a colega se curvava graciosa para a folha e estalava a língua com desdém.

— Epinodoro não é um bruxo da época da Inquisição, é uma marca de molho de tomate.

— Então nós temos nada. — resmungou, puxando a folha de volta e riscando os três nomes. Tara riu, zero preocupação com o seu destino em Transfiguração. Pensando bem, Bervely não a vira estudar sequer uma vez naquelas últimas semanas, apesar de que os exames estavam se aproximando sorrateiramente no horizonte. Não qualquer exame, mas os NIEMs. Os testes que definiriam se aquela leva de alunos se formando esse ano em Hogwarts ia passar os próximos anos da sua vida esfregando caldeirões sujos ou mandando que alguém fizesse isso por eles.

— Pare de pirar. A resposta está em algum lugar dessa sua pilha obsessiva de anotações, você só precisa achá-la.

— Não estou pirando — protestou, e em seguida: — Tara, por favor.

Isso porque Tara tinha se inclinado e afundando o rosto na curva de seu pescoço, onde ela estava fazendo aquela coisa de roçar os lábios e a ponta do nariz que arrepiava cada célula de seu corpo. Bervely olhou nervosamente ao redor, para ver se alguém olhava para elas. Estavam estudando debaixo de um salgueiro (um pacífico, não lutador) na orla do lago, bem longe das vistas de quem estivesse no castelo. Isso não era razão, é claro, para ela perder a compostura.

— Desculpe. — disse, sem parecer nem um pouco arrependida, um sorrisinho incorrigível nos lábios — É difícil resistir.

Com um movimento deliberado e se inclinando desnecessariamente sobre Bervely, Tara puxou suas anotações, as pousou sobre as pernas agora estendidas de Bervely e começou a procurar os cinco bruxos de que precisavam. Seus dedos roçavam na pele de sua coxa a cada página que ela passava de forma quase acidental, o que poderia ser verdade para qualquer outra pessoa, mas não Tara.

— Ulfrico, o Escorregadio, Irina Addler, os gêmeos legimentes Ulfric e Uldrian, a rainha Catarina da Aústria, embora isso nunca ficou provado, e… vejamos… Pitaco? Ah, é Pitanarco, aquele cara que se transformava num cacto. Sua letra é horrível, sabia? Mas aí estão seus bruxos. Ainda bem que você não perdeu esse hábito irritante de anotar tudo, embora continue precisando de um feitiço de busca pra entender esses rabiscos.

Bervely rolou os olhos e copiou os nomes na folha de respostas, tentando ignorar os dedos de Tara, ainda em um contato descomprometido com suas pernas, como se tivessem sido esquecidos ali. Isso até eles começarem a se mover para cima, por debaixo da folha de questões.

— Tara — advertiu, ao mesmo tempo que um arrepio de antecipação se alastrava pela sua coluna. A ruiva deu um sorriso predador, seus olhos verdes brilhando sem nenhuma inocência.

— Algum problema? — ela cantarolou com candura irreprimível.

— Trinta e três, para ser exata. — Bervely sacudiu a folha de questões. — E um simulado de McGonagall terça feira, se você não está lembrada.

— Me dê só um incentivo, e eu respondo quantas questões da gata velha você quiser.

Ela se inclinou, deixando Bervely entender exatamente de que tipo de incentivo estava falando. Seu campo de visão foi coberto pela cabeça da garota. Os dedos em sua perna tinham virado uma mão inteira, subindo para a barra da sua saia, provocando uma quentura inevitável no meio de suas pernas.

Bervely fechou cada mão em torno de um pulso magro de Tara, usando toda a sua força de vontade para afastá-la.

— O quê? — perguntou ela, resistente ao afastamento.

— Acho que está vindo alguém.

No minuto seguinte um casal apareceu em seu campo de visão, entretidos em uma conversa animada, sem percebê-las ali num primeiro momento. A garota era quase duas cabeças mais baixa que o garoto, tinha o cabelo da cor de pelo de rato e olhos amendoados espertos. O garoto… ele congelou ao ver as duas sonserinas ali sentadas. Seus olhos se arregalaram, a boca parou aberta no meio de uma frase.

Bervely tirou suas mãos de cima de Tara por reflexo. Ela se arrependeu no mesmo instante, porque só ressaltou o fato de que a estivera segurando.

— Podemos ajudar em alguma coisa, leõezinhos? — Tara perguntou com indolência, quebrando o silencio constrangedor que se instalara entre os quatro.

— Ah, foi mal. Não sabíamos que já tinha gente aqui. — disse a garota. Katie do Time. Ela olhou brevemente para a sua companhia — Wood do Time — e de volta para Bervely, como se tivesse medo de alguma coisa explodir entre eles.

— Pois é, vão procurar outro lugar para se aninhar. — Tara respondeu com arrogância. Katie estreitou os olhos, incomodada com o tom, mas Wood colocou uma mão em cima do seu ombro e disse: “Vamos em frente, Kat.”

Eles foram. Continuaram andando pela orla do lago até sumirem de vista nas ondulações do gramado, o cabelo castanho de Oliver iluminado pelo sol e parecendo mais claro do que realmente era. A mão dele não deixou o ombro da garota até onde Bervely conseguiu ver.

— Dá pra acreditar nisso? E quem é aquele chaveirinho?

Bervely sentiu uma pontada na palma de sua mão. Ela abaixou os olhos e viu que sem perceber tinha apertado a pena, a ponta de metal se enfiando em sua pele, e a soltou na grama. Tara percebeu que ela não disse nada e se virou para olhá-la, intrigada.

— B? Você está bem?

— Porque eu não estaria? — respondeu na defensiva, fazendo a outra erguer as sobrancelhas, um ar de divertimento se espalhando em seus olhos.

— Me diga você. Quer dizer que capitão delícia e chaveirinho estão…

— Questão trinta e quatro. — ela disse, puxando bruscamente a folha de questões de volta. Não que estivesse lendo qualquer coisa, seus olhos estavam embaçados por uma onda súbita de raiva.

— Minha nossa, pra que tanto azedume?

Questão trinta e quatro, Tara.

Um pouco mais tarde naquela semana, Bervely procurou e encontrou Snape na Sala dos Professores. Precisou esperar que ele terminasse uma reunião com os Diretores das outras casas, enquanto andava de um lado para o outro no corredor, sacudindo uma carta que recebera pelo correio-coruja. No momento em que o mestre de poções viu o envelope azul índigo em suas mãos ele também soube do que se tratava; deu espaço para que ela entrasse na sala, agora vazia, atrás dele.

— Acabou de chegar. — explicou ela, sem fôlego. — Eles disseram alguma coisa para o senhor?

— Não. Eles costumam fazer o primeiro contato com o aplicante, após a etapa de triagem.

Ela assentiu, virando o envelope em suas mãos, procurando um endereço ou uma pista ou qualquer coisa, mas só havia mesmo seu nome escrito no fundo, com uma letra rebuscada cheia de arabescos.

— Apenas abra. — Snape disse, deixando transparecer que também estava ansioso para saber o que o conteúdo diria.

Bervely engoliu em seco e partiu o selo acobreado. Nem sabia porquê de repente estava tão nervosa, afinal sua aplicação fora meio de última hora, e ela nem considerava seriamenteSeu coração palpitava quando abriu a carta dobrada em três partes, lendo com lentidão cuidadosa a mensagem do interior, traçada na mesma letra rebuscada do envelope:

Prezada Srta. Black,

Após cuidadosa deliberação das suas credenciais em Poções, fornecidas pelo seu mentor, temos o prazer de informá-la que a sua requisição para concorrer à uma vaga no programa de formação em alquimia do Instituto Nicolau Flamel de Artes Alquímicas foi aprovada, e autorizamos a sua participação na segunda etapa do nosso processo seletivo.

Para tal, queira nos enviar uma poção, unguento, elixir ou fórmula mágica que tenha sido criada ou substancialmente modificada por você, no mais tardar até primeiro de junho. Observe o documento em anexo, que descreve com maiores detalhes as condições necessárias para que o seu projeto seja considerado apto à nossa banca avaliadora.

Meus sinceros comprimentos,

Calidora F. Agrippa

Director Generalis

Senior Alchymista Laureate

Bervely releu a carta, para ter certeza que não entendera nada errado. Como da primeira vez, sentiu um arrepio em suas entranhas ao ler as palavras ‘aceita’, ‘sinceros cumprimentos’ e, principalmente, ‘Calidora Agrippa’ e ‘Senior Alchmysta’. Era como se tivesse em mãos algo sagrado, uma carta escrita por algum deus do panteão greco-romano. Suas pernas estavam meio bambas apenas por segurá-la.

— E então? — Snape perguntou com impaciência. Sem palavras, Bervely passou a carta para ele, que leu em silêncio, mas com uma crescente expressão de satisfação em seu rosto.

— Muito bem — disse quando terminou, lhe devolvendo seu tesouro sacro — Eles seriam obtusos se tomassem uma decisão diferente, não é?

Ela riu, meio incrédula. Resistiu ao impulso de reler a carta mais uma vez só porque ele estava ali, mas a verdade era que uma parte dela não acreditara de verdade que ia conseguir uma chance do Instituto — pelo menos não tão rápido, não com dezessete anos, não quando ainda estava terminando a escola.

— Diz aqui que eu tenho que enviar algo que eu mesma tenha criado. — constatou, assim que recuperou a voz.

— Ou algo que tenha modificado de forma expressiva. Como o Sangue de Saravejo, ou a sua inovação no Elixir da Invisibilidade usando o pelo de Seminviso. Podemos trabalhar em cima de uma dessas, estou certo que servem, ou até mesmo a sua versão concentrada da Poção do Sono Sem Sonhos, embora eu ache difícil você ser autorizada a produzi-la depois do pequeno problema em seu quinto ano.

Por “pequeno problema”, ele queria dizer quando ela tinha se dopado tão profundamente com Poção do Sono Sem Sonhos que alucinara com o primo morto e quase caíra de uma torre. Bervely teria achado graça do eufemismo macabro do padrinho, mas seu pensamento estava em outra frequência, porque sabia que só havia uma poção que poderia enviar para o Instituto Flamel, só uma soava como a certa em sua cabeça.

Ela disse a sua ideia para Snape. Bervely teve aquela sensação estranhamente vulnerável no seu âmago, como se ela estivesse se expondo ao abismo de novo, arriscando uma queda sem saber de que altura iria cair.

A diferença é que, dessa vez, ela estava prestes a pular por vontade própria.

Quando o feriado de Páscoa chegou, Bervely aproveitou o tempo livre para revisar suas anotações de poções, espalhadas pelos seus antigos cadernos de Durmstrang. Por sorte ela os tinha trazido consigo no início do quinto ano e não os levara de volta para casa nas férias, ou eles teriam ficado na Mansão Malfoy quando fora embora.

Snape lhe emprestou Benzoar, sua coruja cinza e felpuda, e através dela Bervely fez o pedido de todos os ingredientes que precisaria para o seu projeto.

Tara decidiu passar o feriado de Páscoa em casa. Ouvir o anúncio lhe causou um princípio de ataque cardíaco, mas no final das contas ela se referia à casa da mãe em Snowfall.

— Bem que eu gostaria de ver meu pai, mas ele continua sem responder minhas cartas. Ele nunca me ignorou por tanto tempo. — Tara se queixou, na véspera do feriado, quando veio se despedir de Bervely em seu quarto. Ela teve o cuidado de fazer uma expressão neutra ao responder.

— Vai ver ele só está muito ocupado com o trabalho.

Tara mordeu seu lábio inferior, pensativa. Ela estreitou seus olhos para Bervely.

— Você ainda tem algum negócio em aberto com ele?

— Não. — ela respondeu, cuidadosamente, ignorando o formigamento em seu braço. — Eu paguei o resto do que devia em dezembro.

Johanne aproveitou os dias vagos para montar acampamento em seu quarto de novo. Ela argumentou que estava com saudades de Jinx, e na primeira oportunidade que teve, prendeu a foto tirada no natal na moldura do espelho de Bervely, sem que ela visse.

— Anne, perdeu o juízo? Isso não pode ficar aí. — reclamou, assim que bateu os olhos na imagem delas duas ladeando o enorme cão negro, Sirius e Anne usando gorros de Papai Noel, Bervely ainda no vestido dourado arruinado, com a cara de quem tinha fugido de um maníaco e explodido uma casa há poucas horas.

— Você gostou? — ela perguntou com um sorriso de orelha a orelha, ao invés de tirar a coisa de lá.

— Podia ter ficado pior. Você sabe, se nós três estivéssemos de gorro.

Os dias do feriado passaram... a foto continuou espetada na moldura.

Elas receberam um correio-coruja de Andrômeda no domingo de páscoa, com um monte de chocolate caseiro, e passaram o dia no quarto se enchendo de doces e desenvolvendo um novo jogo que Anne chamou de Adivinha Quem É. Consistia em Bervely se transfigurando em diversas pessoas que elas conheciam, as quais Anne precisava adivinhar a identidade pelo tato ou pela voz. Ela conseguiu adivinhar o Prof. Snape (pelo nariz), Luna Lovegood e Flitwick, mas precisou ouvir a voz de Tonks para saber quem ela era. Bervely gostava de praticar a metamorfomagia para variar, mas a melhor parte mesmo era ouvir as gargalhadas da irmã quando ela acertava ou errava feio.

— Você pode copiar qualquer pessoa? — a menina perguntou com assombro, depois de umas dez imitações, muitas das quais Bervely preferia perder um braço antes de admitir que tinha mesmo feito.

— Qualquer uma que eu conheça o bastante. Eu posso até me transformar em você.

— Você PODE? — ela fez uma cara de completo e empolgado assombro.

Sorrindo com a espontaneidade da pequena corvinal, Bervely se concentrou um pouco e transfigurou seu rosto no dela. Como das outras vezes, Anne tateou seus traços, os sulcos dos olhos e o nariz, as suas orelhas, o contorno do queixo, o cabelo. Sua boca se torceu numa careta.

— Isso é muito esquisito.

Bervely voltou a si mesma, crescendo de volta ao seu tamanho com enorme alívio. Ser pessoas mais baixas era a mesma coisa que entrar em uma caixa apertada, se ficasse por muito tempo naquela forma, ela acabava toda dolorida.

— Você pode fazer mais alguém? — Anne perguntou, repentinamente tímida. Pelo tom rosa de suas bochechas, Bervely achou que ela ia pedir por João Arty, e já estava pronta para uma negação quando a caçula completou, num fio de voz — Você pode fazer Sirius Black?

O pedido a deixou sem ação por um momento. A irmã tinha os lábios apertados, pronta para encarar uma negativa, visivelmente perto de se arrepender por ter ousado pedir.

— Claro.

Bervely se metarmofoseou em Sirius, como ela já tinha feito uma vez em Tantallon Castle, e enquanto o fazia, se lembrou de todo o tempo que eles tinham passado aperfeiçoando seu ‘formato’. Todas as queixas de Sirius com suas sobrancelhas e canelas. Quando ela se olhou no espelho, seus olhos arderam. Aquele Sirius do reflexo não era o de Tantallon, nem mesmo o atual; não fora para Azkaban, nunca fugira ou precisara comer ratos para sobreviver. Ele tinha o viço da juventude e estava pronto para acolher uma garotinha perdida e lhe oferecer um sorvete. Seu coração se apertou num nó ao perceber que ainda agora, a imagem mais forte que ela guardava dele em sua mente era essa, da primeira vez que o vira, há tantos anos.

Fechou os olhos enquanto Anne dedilhava seu rosto. Ela reconheceu as sobrancelhas grossas, a boca larga e sorridente, o nariz longo e masculino, o cabelo vasto e negro, o contorno anguloso do maxilar. Depois ela abaixou as mãos, decepcionada.

— Eu não consigo. — lamentou, a voz vacilando. — Não consigo formar uma imagem dele em minha cabeça, Bevy. Sou péssima nisso.

Os olhos prateados dela estavam se enchendo de lágrimas contidas. Bervely voltou à si mesma, seu coração quebrado.

— Você não precisa. Vai vê-lo um dia, Anne. — e ao vê-la negar com a cabeça, acrescentou: — Eu garanto que vai.

— Você não pode prometer isso. — se queixou, fungando. Virou o rosto para que Bervely não visse uma lágrima ser limpa discretamente com a manga de sua camisa.

— Eu posso sim. Eu prometo.

— BD –

Quando as férias de páscoa chegaram ao fim, Bervely fez um inventário de todas as suas pendências até o fim do trimestre — todos os trabalhos em vista, ensaios e simulados para o NIEMs — e descobriu que só um vira-tempo lhe proveria chances de dar conta de tudo no curto espaço de dois meses. Ligeiramente tomada pelo pânico com essa constatação (McGonagall nunca ia lhe autorizar um vira-tempo, não importava o quanto confiava nela para aplicar detenções em seus colegas), ela ficou se perguntando o que acontecera para entrar naquele ciclo de negligência com sua vida acadêmica durante o ano inteiro. Bem, tirando um pai perseguido por criaturas que queriam devorar sua alma. E um homem louco e cruel lhe chantageando para conseguir seus serviços, e depois seu corpo. E um caso com o capitão da casa rival. E a monitoria-chefe, sobre tudo isso.

Agora que pelo menos dois desses impasses tinham saído do caminho (nenhum Olho de Hórus, nenhum capitão para desviar sua concentração), ela se obrigou focar na revisão para o NIEMs, se queria mesmo uma chance no Instituo Flamel, afinal eles também iam estar de olho em suas notas. Com isso e a evolução do seu projeto para segunda fase de seleção — os ingredientes chegaram na terça após o feriado, lhe possibilitando começar a poção que enviaria ao Instituto — não lhe sobrava nada de tempo para atividades extra-curriculares.

Como se não bastasse isso tudo, à medida que o último jogo da temporada se aproximava, Bervely começou a vislumbrar a possibilidade de sucumbir a um ataque de nervos. Sonserina ia enfrentar Grifinória no quadribol dali a uma semana, e se na teoria o quadribol não devesse ter efeitos diretos em sua vida acadêmica, na prática a situação era completamente contrária.

Pequenas brigas entre as casas irrompiam nos corredores o tempo todo, as quais ela e Percy Weasley eram constantemente solicitados a separar, o que significava que não havia paz nos intervalos entre as aulas. Num dia especialmente ruim, ela teve de acompanhar um quartanista da Grifinória e um sextanista da Sonserina até a ala-hospitalar, com alhos-porós brotando de seus ouvidos.

Ela quase se arrependia de ter acatado aquele pedido de Sirius e entregado a vassoura da discórdia nas mãos de Harry Potter. Convencido de que o groto era o grande pivô para a vitória da Grifinória, Sonserina decidira inutiliza-lo antes do jogo de qualquer maneira. Bervely tinha ouvido dizer que Wood mandara o resto da casa seguir e proteger Potter onde quer que ele fosse, então por todo o lugar que o garoto aparecia, era escoltado por um séquito de colegas barulhentos, prontos para ‘defender’ ao menor sinal de ameaça sonserino, fosse real ou imaginário.

A última reunião dos monitores antes do jogo foi particularmente estressante. Nenhum deles — nem mesmo o Percy Rei-do-Cronograma Weasley, estavam dispostos a seguir a pauta pré-combinada. Ao invés disso, eles trocavam apostas sobre quem seria o time vencedor, comentavam os pontos fortes de fracos de cada time ou especulavam sobre como Potter ia ‘totalmente esmagar aquele merdinha do Malfoy’ com sua Firebolt. Bervely franziu as sobrancelhas para o monitor da Corvinal, que acabara de tecer o comentário.

— Malfoy é meu primo. — ela disse com arrogância, seu saco já muito cheio da enfastiação quadribolística — Ele pode até ser um merda, mas eu não te dou a ousadia de falar dele deste jeito.

Depois disso, foi mais sensato dar a reunião por terminada, mesmo sem que tivessem resolvido metade do que precisavam. Ela achou bom; se ouvisse mais uma variação da frase ‘Wood é o melhor capitão de Hogwarts, ninguém supera o esquema tático dele esse ano’, Bervely ia cometer algum crime.

Voltou para o dormitório, e era suposta a continuar trabalhando em seu projeto para o Instituto Flamel por algumas horas antes de ir para cama, mas a quem estava enganando? Estava tão cansada que deitou um minuto para descansar os olhos e rolou direto para um sonho.

Ela estava parada no centro de um campo de quadribol. Notou que havia uma vassoura aos seus pés. Ao redor dela, várias outras pessoas estavam montando em vassouras também. Snape, bem ao seu lado, segurava em uma mão o cabo de uma Shooting Star 10, na outra, sua carta do Instituto Flamel.

— Você quer ler o que eles dizem? Vai ter que me pegar, Srta. Black! — e subia nos céus, suas vestes esvoaçando como um urubu gigante, o cabelo oleoso chicoteando no vento.

Bervely olhava para o outro lado e lá estava Tara, em cima de uma Nimbus preta, toda vestida com um uniforme que era um misto das versões da sonserina e da Durmstrang.

— Você nos fez perder pontos. Não consegue encarar nem uma vassourinha? Mas que grande parceira mágica você é, Bervely Black!

Logo, todas as pessoas que ela conhecia estavam no céu, circulando em vassouras, felizes e zombando dela, que tinha ficado no chão e ia encolhendo até ter o tamanho de uma formiga.

— Até eu consigo, vê só? Não acredito que vai ficar ai embaixo.

Era Anne, um óculos espalhafatoso de aviador em seu rosto, decolando uma Firefly novinha em folha, Jinx em sua garupa. Bervely precisava levantar a cabeça para ver o quão alto a menina ia, o gato cintilando atrás dela, se afastando com a calda abanando de um lado para o outro...

— Bervely?

Era a voz de Sirius. Ela se virou, esperando vê-lo em cima de uma vassoura também, fazendo troça dela, mas houve um momento confuso e Bervely estava piscando para colocar seu quarto em foco, notando que caíra no sono ainda de uniforme. Teve só um segundo para avaliar que aquele era o sonho mais idiota da sua vida, quando ouviu a voz de Black de novo:

— Bervely, você está ai?

Vinha da lareira. Ela deu um salto da cama, ainda meio aturdida, se perguntando se podia estar sonhando acordada de novo, ou se só achava que tinha acordado mas ainda dormia e aquele era um sono dentro de outro sonho.

Coçou os olhos. O rosto de Sirius estava mesmo entre as chamas da lareira, magro e encovado com um caso sério de barba desgrenhada, sorrindo no minuto que ela apareceu em seu campo de visão.

— Como diabos — Bervely tossiu, tirando o cabelo da frente do rosto, o coração meio aos saltos com a surpresa. — Como diabos você está na rede de flú? Como você sabe qual a minha… Vão pegar você, seu completo maluco!

— É, deixa eles tentarem. — dispensou com desdém, rolando os olhos fundos, mas brilhantes — Você estava dormindo? São só nove da noite. Na minha época…

— Onde você está? Que lareira é essa? — exigiu saber, desaprovando a displicência dele com algo tão perigoso quanto estar usando a rede de flú. Todo mundo sabia que o Ministério controlava a rede de flú rigorosamente!

— Estou perto. — ele fez uma cara de impaciência com as interrupções insistentes dela — Alguma lareira bruxa, eu não sei. Olha, só estou checando se está tudo bem, mas se incomodo…

Ela deu um suspiro pesado, deixando a cabeça cair e esfregando o rosto. Era um alivio tão grande vê-lo inteiro, todas as vezes, e tão agonizante ao mesmo tempo, porque ele continuava fugido, e cada encontro podia ser o último.

— Só estou exausta. Mas não… você não atrapalha. — Sirius sorriu de lado, convencido, e ela quis que ele estivesse perto, e não do outro lado de uma ligação de flú. — Anne tem perguntado por você.

— Como ela está?

— Impaciente e preocupada. Ouça, Black...

Parte dela queria apressar a conversa, não arriscar qualquer chance de ele se colocar em risco, mas outra relutava, num estranho impulso de ficar olhando o rosto nas chamas até o fim da noite.

— Traga ela na sua próxima visita a Hogsmeade.

Bervely negou.

— Não dá. Segundanistas não tem permissão para sair do castelo, ainda mais com todo o esquema de segurança que está acontecendo desde que você... hum, atacou Rony Weasley.

— Não ataquei Rony Weasley. — ele disse, amuado.

Bervely apertou os lábios num trejeito impaciente, sem querer entrar naquele assunto e brigar de novo. Então ela se lembrou de algo que deveria animá-lo.

— Amanhã é a final de quadribol.

Como esperava, os olhos dele se acenderam num brilho empolgado. Dava para notar que Black começava a ter ideias, esquecendo-se que agora os dementadores estavam autorizados a lanchar sua alma in locus caso o encontrassem.

— Quem contra quem?

— Sonserina versus Grifinória. — não conseguiria esconder a exasperação em seu tom, mesmo que tentasse.

— Um clássico!

Bervely reprimiu um riso consternado. Ela sabia que não deveria, mas um plano estava se formando em sua cabeça agora, e se havia uma coisa que poderia ajudá-la a passar pelo dia seguinte com o mínimo de sanidade seria a sua execução.

— Não faça nada impensado. — pediu a ele, uma empolgação tímida ousando inflar dentro dela à medida em que desenvolvia a artimanha em sua mente — Eu tenho uma ideia, acho que vai gostar dela.

— BD -

Quando o time da Grifinória entrou para o café no dia seguinte, todos ao mesmo tempo e já com seus uniformes de jogo, houve uma tempestade de aplausos.

— Que desnecessário — Tara desdenhou ao seu lado, ecoando o exato pensamento de Bervely, ao mesmo tempo em que a maior parte dos sonserinos vaiavam. A ruiva estava usando as cores da casa, inclusive com fitas adornando o seu cabelo vermelho.

A própria Bervely usava a camisa de madrinha de goles (e só porque gostava muito dela), mas fora isso, ela procurava não se envolver muito na atmosfera elétrica do dia, tomando seu café da manhã com calma. Se sentara por acidente de frente para a mesa dos leões, e na altura exata que o time rival estava acomodado, então podia ver, mesmo que não quisesse, Oliver Wood incitando seus cavaleiros a se alimentarem direito, embora qualquer um pudesse perceber que ele não tinha comido nada.

— Parece que ele está mesmo namorando firme com Bell. — comentou Tara ao ver por onde os olhos da colega vagavam. Bervely voltou rápido para o seu cuscuz.

— É. Que seja.

Ela também não estava com fome. Assistiu pela visão periférica os dois times saírem, e reparou Anne deixando a sua própria mesa e vindo em direção à dela, como quem não quer nada.

— Siga em frente, passarinho. — disse em voz alta, sem olhá-la. A menina franziu os lábios e mudou o curso, girando para as portas duplas.

— O que ela queria? — perguntou Tara, curiosa.

— Hum? Quem? Preciso ir, te vejo mais tarde. — levantou, ajeitando casaco por cima da blusa do time.

— Vai beijar a goles de Flint, Srta. Black? — insinuou a ruiva, cheia de malícia e risadas. Bervely lhe censurou com os olhos e seguiu caminho. — Vou guardar seu lugar na arquibancada!

Anne estava esperando atrás de uma pilastra do hall, toda impaciente, vermelha e dourada.

— O que raios é isso em sua cabeça? — Bervely censurou, tentando entender o chapéu com orelhas e presas no topo da cabeça dela.

— É um leão, Luna me emprestou. Não é um leão?

— Anne, pelo amor de Merlin tire isso, a ideia é sermos discretas.

Ela pegou a irmã pela mão, fazendo o trajeto que estudara cuidadosamente em sua mente desde a sua ideia na noite passada. Não precisava ter se preocupado tanto, pois afora Mme. Norra, não havia ninguém guardando o caminho até a Floresta Proibida. Não era surpresa que Sirius conseguiria invadir Hogwarts durante o último jogo de quadribol, se era assim que eles lidavam com a segurança em dias de competição.

Jinx as ajudou, chamando Mmme. Norra para um passeio. Era difícil saber, mas parecia que a gata velha do zelador tinha uma queda pelo Familiar de pelos prateados; ela não hesitou em largar seu posto para acompanhá-lo.

— Onde estamos indo? — Anne perguntou pela terceira vez, quando elas passavam por trás da cabana de Hagrid sem maiores incidentes. O guarda-caça tinha um canteiro com as abóboras mais gigantescas que Bervely já tinha visto fora dos seus pesadelos.

— Num bom lugar para assistir o jogo. — respondeu com brevidade, ajudando Anne a não tropeçar nas raízes das árvores.

— Mas Bevy, eu não posso assistir o jogo. E se ficarmos muito longe também não vou poder ouvir a irradiação, não vai adiantar nada!

— Você pode confiar em mim, só um minutinho?

Anne bufou, ela não gostando de não saber das coisas.

Logo estavam na clareira da floresta que ficava atrás do lugar onde Rúbeo Hagrid dava, às vezes, aulas de Trato das Criaturas Mágicas. Fazia um tempo que Bervely não ia até lá, mas continuava como antes, inclusive com uma ótima vista para o campo de quadribol lá embaixo. Ela podia ver os colegas se acomodando nas arquibancadas e ouvir os gritos de guerra que o vento trazia.

— Porque nós estamos na floresta? — Anne perguntou, tensa, segurando sua mão com mais força. — Bevy, eu não gosto da floresta.

— Fique tranquila, você vai entender já.

Não precisou esperar muito; mal acabou de falar e elas ouviram patas grandes estalando as folhas secas e os galhos. Anne se aproximou mais dela, visivelmente assustada, ao mesmo tempo que o cão negro enorme chegava à clareira. Ele deu um latido de olá animado.

— Pode mudar, estamos sozinhos. Eu tenho certeza que a escola inteira está no maldito campo, se duvidar até os dementadores querem ver essa final irritante.

Sirius cresceu sobre duas patas, a última coisa a ir embora sendo a cauda que se sacudia de um lado ao outro. Bervely também reparou que ele tinha dado um trato na própria aparência, ou feito uma tentativa. As roupas ainda eram as mesmas, encardidas e desmazeladas, mas a barba, o cabelo e a pele estavam limpos.

— Snuflles? — Anne perguntou, incerta. Sirius abriu um sorrisão para o apelido bobo que ela inventara.

— Hey, pequena. Como vai?

Ela hesitou um momento. Um sorriso tímido surgiu em seu rosto.

— Tudo bem comigo.

Sirius ergueu o olhar e sorriu para Bervely parecendo um garoto empolgado de quinze, não um ex-prisioneiro de trinta e quatro anos.

— Essa foi uma ótima ideia.

— Eu sou cheia de ótimas ideias.

Sirius sugeriu um feitiço de replicação de som que fez com que a voz de Lino Jordan soasse dentro da clareira, tão clara como se estivessem nas arquibancadas, de forma que pudessem ouvir a irradiação do jogo. A visibilidade não era maravilhosa, mas Bervely contrabandeara uns oninhóculos da gaveta de artigos repreendidos na Sala dos Monitores, que iam dar para o gasto. Ela entregou um pra Sirius, a coisa quase sumiu em sua mão enorme, parecendo um brinquedo.

E aí vem o time da Grifinória! — bradou Jordan — Potter, Bell, Johnson, Spinnet, Weasley, Weasley e Wood. Considerado por todos o melhor time que Hogwarts já viu em muitos anos...

Os comentários de Lino foram abafados por uma onda de vaias da torcida da Sonserina.

E aí vem o time da Sonserina, liderado pelo capitão Flint. Ele fez algumas alterações no esquema tático e parece ter preferido o peso à qualidade...

— E eles não preferem sempre? — Sirius desdenhou, procurando se acomodar num lugar com boa visibilidade. Anne e Bervely sentaram ali perto, sobre uma toalha de piquenique que a sonserina fez questão de que fosse verde, para balancear aquela torcida contrária. Sirius se recusou a sentar nela.

Bervely viu dois pontinhos que eram Flint e Wood se aproximaram e apertaram as mãos com força; com um zoom, ela achou que eles davam a impressão de que estavam querendo quebrar os dedos um do outro. Oliver estava apertando seu queixo daquele jeito que ele fazia quando queria mostrar que era bravo e perigoso.

— Montem nas vassouras! — disse Madame Hooch. — Três... Dois... Um...

O som do seu apito se perdeu no estrondo das torcidas na hora em que as catorze vassouras levantaram voo. Bervely tirou os olhos dos onióculos por um momento, captando as expressões extasiadas dos seus acompanhantes de clareira. Anne estava tão compenetrada, com sua sobrancelha franzida e o chapéu de leão de volta à sua cabeça, que podia ser a sua própria casa jogando, e Sirius pressionava os oninhóculos com força contra o rosto.

E Grifinória com a posse da bola, Alicia Spinnet da Grifinória com a goles, voando direto para as balizas da Sonserina, em boa forma, Alicia! Arre, não, a goles foi interceptada por Warrington. Warrington da Sonserina partindo em velocidade pelo campo.

“Uma boa rebatida de um balaço por Jorge Weasley, Warrington deixa cair a goles, que é apanhada por... Johnson, Grifinória com a posse da bola outra vez, aí Angelina, bom desvio de Montague. Se abaixa Angelina, aí vem um balaço! ELA MARCA! DEZ A ZERO PARA GRIFINÓRIA!”

O mar vermelho nas arquibancadas berrou de felicidade. Anne e Sirius começaram a gritar sua comemoração, lembrando à Bervely de jogar um Abaffiato bem forte em torno da clareira para que não pudessem ser ouvidos de fora.

No campo, Johnson, uma das artilheiras grifinórias, quase foi derrubada da vassoura por Flint ao colidir em cheio com ela. Os torcedores vaiaram.

— O que ele fez? — Anne perguntou, revoltada — O que ele fez, o que esse filho de uma porca fez?

Bervely explicou, enquanto Sirius caia na gargalhada.

Não demorou muito, eles assistiram Fred Weasley atirar o bastão contra a cabeça de Flint, cujo nariz bateu com força no cabo da vassoura e começou a sangrar.

— Chega! — gritou Madame Hooch, igualmente amplificada pelo feitiço, mergulhando entre os dois. — Pênalti contra Grifinória pelo ataque gratuito ao artilheiro do seu adversário! Pênalti contra Sonserina por prejuízo intencional ao artilheiro do seu adversário!

— Eu gosto dos que são sangrentos — vibrou Sirius, se ajeitando melhor para assistir as cobranças de pênalti. — São os melhores!

Spinnet se adiantou para cobrar o pênalti.

— Aí, Alicia! — gritou Jordan no silêncio que se abatera sobre as arquibancadas. — SIM, SENHORES! ELA FUROU O GOLEIRO! VINTE A ZERO PARA GRIFINÓRIA!”

Pelo visor, Bervely acompanhou Flint, ainda sangrando pelo nariz e empapando sua camisa, voar para cobrar o pênalti contra Sonserina. Wood sobrevoava as balizas de Grifinória, os maxilares contraídos. Dava para sentir a tensão entre os dois ali de onde ela estava, era de arrepiar os cabelos.

É claro que Wood é um esplêndido goleiro! — comentou Jordan para os ouvintes enquanto Flint aguardava o apito de Madame Hooch. Esplêndido! Difícil de vazar — muito difícil mesmo — SIM SENHORES! EU NÃO ACREDITO! ELE AGARROU A BOLA!”

— Uau, que defesa! — Sirius vibrou, ao mesmo tempo em que Anne gritava:

— Oliver é o melhor! Yey!

Bervely sentiu uma coisa apertando em sua barriga. Será que eles precisavam mesmo daquela ênfase desnecessária?

— Grifinória com a posse, não, Sonserina com a posse, não! Grifinória retoma a posse e é Katie Bell, Katie Bell de Grifinória com a goles, a jogadora corta o campo

— FOI INTENCIONAL!

— O QUÊ? O QUÊ? — Anne quicou, virando-se de um para o outro, desesperada para saber.

— Um artilheiro da Sonserina acabou de agarrar a cabeça de uma artilheira da Grifinória! — Sirius explicou — Esse filho de uma centaura gorda!

— Qual jogadora? Quem foi?

— Katie Bell — disse Bervely secamente, achado bem feito. Bell dera uma cambalhota no ar, deixando a goles escapar, mas infelizmente não caíra da vassoura.

O apito de Madame Hooch soou mais uma vez ao sobrevoar Montague e começar a gritar com ele de forma muito exagerada. Um minuto depois, Bell tinha marcado mais um pênalti contra a defesa da Sonserina.

— TRINTA A ZERO! TOMA, SEU SUJO, SEU COVARDE...

— Jordan, se você não consegue irradiar imparcialmente...

— Estou irradiando o que acontece, professora!

— Adoro esse garoto. — Sirius gargalhou — Quem dera tivéssemos alguém assim pra narrar na nossa época…

— Você JOGAVA? — Anne quase berrou, tal era seu estado enérgico naquele momento. — Em que posição?

— Eu fui batedor, por um tempo. Puxa, eu sinto falta de voar! Definitivamente voar está no meu top cinco. — Ele procurou o olhar de Bervely e lhe deu uma piscadela cúmplice, que lhe rendeu um frio na barriga. Ela lembrou do top cinco dele, das coisas que mais sentira falta enquanto estava em Azkaban, sendo comida de Hogwarts um dos itens na lista.

— Ah, eu queria ser batedora! — Anne suspirou com um ar sonhador. — Mas Oliver acha que eu teria sido uma melhor artilheira. Se eu ainda enxergasse, quero dizer.

— Oliver é esse Wood, o capitão da Grifinória? — Sirius tentou entender, mas então a arquibancada fez um grande barulho lá embaixo e quando eles olharam, pareceu que Potter tinha avistado o pomo.

— Mas ele ainda não pode pegar o pomo! — Anne exclamou, ficando em cima de seus joelhos, agoniada — Não enquanto Grifinória não estiver cinquenta pontos à frente!

— Parece que ele está fintando... UAU, ESSA VASSOURA! — Sirius exclamou, maravilhado. Potter tinha acabado de virar a Firebolt para o alto no último segundo e fazer os dois batedores que o perseguiam colidirem, com um baque de provocar náuseas.

— Há! Há! Há! — bradou Lino Jordan quando os batedores da Sonserina se separaram, levando as mãos à cabeça. —Mau jeito, rapazes! Vão ter que acordar mais cedo para vencer uma Firebolt! E Grifinória fica com a posse da bola mais uma vez, quando Johnson toma a goles, Flint emparelhado com ela, mete o dedo no olho dele, Angelina! — foi só uma brincadeira, professora, só uma brincadeira ah não — Flint toma a bola, Flint voa para as balizas de Grifinória, agora é com você Wood, agarra...

— AÊ! — Bervely vibrou quando Flint marcou; ela e a Sonserina em peso, enquanto Jordan xingava no megafone mágico sem nenhum decoro. Ao perceber o que tinha acabado de fazer, ela voltou à uma posição mais digna, o rosto quente.

Não que ela assistisse muitos jogos, mas aquele era o mais sujo que já vira acontecer em Hogwarts. Bole atingiu Alicia com o bastão e tentou alegar que pensara que era um balaço. Jorge Weasley foi à forra dando uma cotovelada na cara de Bole. Madame Hooch puniu os dois times e Wood fez mais uma defesa espetacular, que Bervely jamais ia admitir que reassistiu em seu oninhóculos em câmera lenta uma segunda vez. E uma terceira.

Bell marcou. Cinquenta a dez para a Grifinória. Fred e Jorge Weasley mergulharam cercando a garota, os bastões erguidos, achando que os jogadores da Sonserina iam querer se vingar.

Bole e Derrick aproveitaram a ausência de Fred e Jorge para arremessar os dois balaços em Wood; eles o atingiram no estômago, um após o outro, e o goleiro virou de cabeça para baixo no ar, agarrando-se à vassoura, completamente sem ar. Bervely também ficou sem fôlego por um momento.

— FILHOS DA MÃE! NÃO SE ATACA O GOLEIRO SEM A GOLES NA ÁREA! — Sirius berrou.

— Ah, não, Oliver está bem? — Anne perguntou penalizada, diretamente para Bervely, como se ela pudesse saber. Não era como se ela tivesse sentido a pancada em seu próprio estômago, não mesmo.

— Ele vai sobreviver — murmurou a contragosto, ajeitando os oninhóculos no rosto e se certificando de que o goleiro voltara ao prumo.

Johnson marcou sessenta, e Spinnet setenta. A torcida da Grifinória devia estar rouca de tanto gritar, afinal se Potter pegasse o pomo àquela altura, a Taça seria deles. O garoto sobrevoava o campo numa implacável busca. De repente ele imprimiu maior velocidade à vassoura, se tornando um vulto. Teria sumido de vista se não fosse Draco ao seu encalço, se atirando para frente e agarrando o fundo de sua vassoura.

SEU SAFADO NOJENTO! — urrou Lino Jordan no megafone, saltando fora do alcance da Profª. McGonagall. — SEU SAFADO NOJENTO, FILHO...

Madame Hooch anunciou pênalti, ao mesmo tempo que Sirius explicava à Anne o que ‘o apanhador cara de fuinha da Sonserina’ tinha feito, entremeando muitos palavrões à sua narrativa. Ele lançou um olhar assassino para Bervely, que estava dando risada.

Spinnet cobrou o pênalti para Grifinória, mas errou por mais de meio metro, do tanto que suas mãos tremiam. O time da Grifinória foi ficando desconcentrado, enquanto o da Sonserina ganhou inspiração com a falta de Malfoy em cima de Potter.

Sonserina com a posse, Sonserina corre para o gol... Montague marca. — gemeu Lino. — Setenta a vinte para Grifinória...

A briga agora parecia focada em Potter e Malfoy, que marcavam um ao outro muito de perto e batiam os joelhos o tempo todo.

Angelina Johnson pega a goles para Grifinória, aí Angelina, VAI, VAI!

Todos os jogadores da Sonserina, a exceção de Malfoy, estavam correndo pelo campo em direção a Angelina, inclusive o goleiro do time, todos iam bloqueá-la.

Potter deu meia-volta na Firebolt, curvou-se até deitar o corpo sobre seu cabo e impeliu-a para frente. Como uma bala, ele se precipitou em alta velocidade contra os jogadores da Sonserina.

Os jogadores se dispersaram quando viram a Firebolt vindo; o caminho de Angelina ficou desimpedido.

— ESSE É MEU GAROTO! — Berrou Sirius num rompante. Bervely nem teve tempo de lançar um olhar escandalizado para o lado.

ELA MARCOU! ELA MARCOU! Grifinória lidera por oitenta a vinte! — Jordan estava berrando no megafone.

— O que Harry fez? — perguntou Anne, confusa e empolgada ao mesmo tempo.

— Um movimento do boliche, eu acho. — Bervely sumarizou, desgostosa. — No caso ele era a bola, e a Sonserina inteira os pinos.

Logo os apanhadores estavam perseguindo alguma coisa de novo, só que dessa vez Malfoy tinha a dianteira.

— Ele viu! — Sirius exclamou, ficando sobre os joelhos — Ele viu! Vai garoto! VAI GAROTO!

Parecia impossível que Potter alcançasse e ultrapassasse Malfoy, ele estava a quilômetros de distância... deitando o corpo na vassoura e imprimindo o máximo de velocidade, ele foi diminuindo o espaço entre eles pouco a pouco, enquanto a escola toda prendia a respiração. Bole atirou um balaço contra ele mas a bola foi lenta demais, errou Harry por muitos metros, e então...

PEGOU!

Potter arremeteu para cima, a mão no ar segurando o pomo, e o estádio explodiu.

Wood foi voando ao seu encontro, quase cego pelas lágrimas; agarrou seu apanhador pelo pescoço e soluçou sem se conter no ombro do garoto. O resto do time os envolveu num abraço coletivo aéreo e muitos gritos.

Na clareira, Sirius roubou a varinha de Bervely e fez explodir uma chuva de faíscas vermelhas e douradas.

— Que jogo! Que jogo! — ele não parava de gritar, e depois, parecendo esquecer que Anne não era Grifinória — NÓS GANHAMOS! GANHAMOS A TAÇA!

Bervely voltou a olhar pelo oninhóculos, acompanhando a movimentação no campo. Onda sobre onda de torcedores vermelhos saltara as barreiras do campo, engolindo os vencedores e urrando ensandecidos. Ela viu Percy Weasley pulando, toda a dignidade esquecida. Viu Oliver no centro daquilo tudo, seu rosto transfigurado de felicidade efusiva, segurando a sua tão sonhada Taça no alto. Então não viu mais nada, quando os oninhóculos voaram de sua mão, pois um cão negro acabara de se jogar em cima dela latindo e lambendo seu rosto.

— Black! Puta que pariu...

— Nós ganhamos! — ele se jogou no chão, homem novamente, os braços abertos e um sorriso enorme no rosto, socando o chão. — Chupa, Sonserina!

A sonora gargalhada de Anne preenchia o plano de fundo, compondo a canção da vitória.

— BD -

Logo se tornou impossível conviver com o humor sombrio dos sonserinos, após a derrota humilhante no quadribol. Bervely, que não estava a fim de gastar seu olhar maligno com os colegas que irrompiam em discussões sem sentido a todo momento com o objetivo de extravasar sua raiva e frustração, decidiu ficar bem longe do seu salão comunal no dia seguinte à partida, um domingo sonolento.

Sem querer ter de aguentar o bando de Grifinórios cheios de si, se vangloriando por aí e tornando o ar sufocante com seus egos muito inflados, ela também evitou as áreas comuns e a biblioteca. Precisava de paz; paz para terminar um livro da largura de sua mão fechada sobre poções alucinógenas do leste europeu, que achara na área restrita na semana passada. Prometia ser uma leitura interessante, embora complexa, e as letras eram bem miúdas e juntas, de forma que, se ela por acidente deixasse os olhos relaxarem, se dava com um estranho efeito onde a escrita dava a impressão de ser um monte de formigas marchando em fila.

Após rodar um pouco pelo castelo, procurando um canto tranquilo que não fosse o seu próprio quarto — que já estava se tornando uma clausura, de tanto tempo que ela passava lá dentro — ela finalmente se decidiu pela Sala dos Monitores no segundo andar. Quando estava vazio, como naquele domingo, era até confortável; tinha duas poltronas espaçosas perto de uma estante de livros, uma mesa redonda de pinho com seis lugares no centro. Era bem iluminada, também; duas janelas amplas viradas para o gramado dos fundos do castelo, com uma vista para o lago, hoje da cor do grafite, refletindo o céu um pouco mal humorado. Também conseguia ver um pedacinho do Salgueiro Lutador refletido na água, tão parado e inocente como se fosse uma criatura da luz. Não havia nenhum barulho externo para atrapalhá-la. Tinha bastante certeza que os outros monitores não iam aparecer ali num dia livre, sem nenhuma reunião marcada. Enfim, tudo que ela precisava para uma leitura longa, feliz e instrutiva sobre as poções alucinógenas europeias. Uma tarde inteira de pura diversão.

Não. Ainda estava na Introdução (”Porque Saber Mais Sobre Poções Alucinógenas e Suas Utilidades”) quando sua mente começou a vagar por outros caminhos. Ela se viu encarando o galho visível do Salgueiro Lutador e pensando no dia anterior, na clareira, em Sirius. No som da risada de Anne, que fora evocado tão naturalmente nas únicas duas vezes que eles tinham se encontrado. Na sua promessa para ela. Na foto em seu espelho, com o grande cão com a língua para fora, no que ele tinha lhe dito na Casa dos Gritos, como ele tinha lhe chamado…

Sua barriga gelava ao pensar na palavra, em algo parecido com medo. Medo de quê? De ele cair em si e admitir que sim, ela era tão sua filha quanto Anne era? De algum dia olhar pra ela como ele olhava para Johanne, com aquela adoração orgulhosa estampada em seu rosto?

Medo de ter sido um engano, corrigiu a voz em sua mente, que era gélida e mais honesta do que ela gostaria. Um acidente.

Bervely sacudiu a cabeça, irritada consigo mesma. Era suposta a estudar, não ficar fazendo a auto-análise das questões impossíveis da sua vida. As coisas eram o que eram, e ela fora tão longe quanto podia no que se referia à Black. Logicamente ela apreciava os momentos que conseguiam passar juntos e até todas as coisas que tinham feito, mas nem lutar lado a lado, ou salvar a vida um do outro podia mudar a realidade. Ela era a filha de Bellatrix. Todos os dias o seu reflexo no espelho e o desenho em seu braço lhe dizia e isso. As pessoas não superavam algo assim… Nem mesmo quando a pessoa em questão era co-responsável pela sua existência no mundo, aparentemente.

Suspirou, desistindo de ler a Introdução do livro de Graham Adams Cowell, um alquimista que ela sabia ter passado pelo Instituto Flamel durante a sua formação mágica. Pensar em todas as pessoas incríveis que tinham frequentado o Instituto também lhe dava algo perto de náuseas nervosas, mas ela passou por cima desse sentimento também.

Foco, Bervely, rosnou teimosamente para si mesma.

“As primeiras ervas mágicas alucinógenas a serem usadas no preparo de poções foram descobertas no século XVI, e eram pertencentes à família Fitolae Adulterum. Por se parecerem com grama comum, diferenciando-se apenas por pequenos pontos amarelos em suas raízes e um crescimento acelerado, eram usadas para revestir o jardim de bruxos que queriam evitar o crescimento de ervas daninhas em seus quintais…”

Ela bocejou. Tinha ido dormir tarde na noite passada, rolando na cama, ainda meio contagiada pela excitação do jogo mais cedo. Excitação do jogo? Ai estava algo que nunca cogitara dizer, verbalmente ou em pensamentos. Mas precisava admitir… o jogo não tinha sido dos piores. Pela primeira vez ela conseguiu ver algo de interessante naquela batalha sangrenta que era o quadribol, precisando de uma corvinal cegueta de treze anos e um ex-prisioneiro barulhento para perceber isso. E— pensou com aspereza — Wood tinha feito um jogo e tanto.

Não vá por esse caminho, a mesma voz sensata lhe avisou, dessa vez num tom de perigosa precaução. Com uma agitação incomoda no peito, ela se obrigou a largar esse curso de pensamento e não visualizar o capitão do outro time no ar, se destacando mais do que qualquer outro jogador em campo — até mesmo de Potter, que honestamente, não teria feito grande coisa sem aquela sua vassoura potente. Bervely só imaginava o que Wood poderia fazer com uma Firebolt em suas mãos…

Não, não imagina não, se corrigiu duramente, estrangulando sua pena, a segunda que estragava aquele mês. Wood era desmerecedor das suas reflexões, porque ele era um bastardo ingrato, e podia enfiar a Firebolt de Potter num lugar não ventilado de sua anatomia. Ela não ia — repetiu para si mesma com muita severidade — dedicar mais nenhum segundo de pensamento para ele, nem para sua pele bronzeada pela frequência obsessiva dos treinos no último mês, ou seus olhos cor de caramelo queimado se estreitando para o time rival em campo, ou sua inabalável segurança para agarrar aquelas Goles, nem seu grito de exultante felicidade e realização cega ao fim do jogo, como se ele tivesse acabado de derrotar os vinkings e reconquistar a Inglaterra, o sorriso abrasador que se abriu em seu rosto quando correu para abraçar o time vencedor...

Oh, pare com isso, ralhou, revoltada. Bastardo ingrato. Vassoura na bunda. Foco.

Ela se inclinou para o lado da cadeira, querendo alcançar uns pergaminhos na mochila, acreditando que tomar notas melhoraria a sua concentração. Enquanto remexia no bolo de papel, procurando um limpo, Bervely se perguntava porque continuava reparando em detalhes tão ínfimos de alguém com quem cortara relações em definitivo. Alguém que já tinha — como o encontro de casais sob o Salgueiro lhe evidenciara — seguido em frente com a vida. Ela era quem devia ter esfregado isso na cara dele, porque ela era quem não dava a mínima.

Mas o ano letivo estava acabando, lembrou a si mesma. E em dois meses, seja lá que rumo sua vida tomasse, uma coisa era certa: não ia mais precisar ficar vendo Wood pelos corredores da escola o tempo todo, e toda essa observação minuciosa ia perder terreno. Wood seria uma lembrança vaga e distante, uma coisa engraçada e ligeiramente constrangedora para se contar, lembra daquela vez que eu dei uns amassos com um grifinório? Onde é que eu estava com a cabeça?

Oi, com licença… você saberia dizer onde consigo a chave para a Sala de Troféus?

Bervely bateu a cabeça no tampo da mesa com um baque, tão forte que viu pontos pretos piscar em sua frente, a dor latejando em sua alma. Ela não tinha ouvido a porta da sala abrir, acabara de pagar caro por isso e estava prestes a pagar mais ainda, a julgar pelo seu imediato reconhecimento da voz cujo dono interrompia a sua tranquilidade.

Calças pretas de treino folgadas, uma camiseta branca que não podia estar mais justa, tênis de treino e as mãos ocupadas, uma vassoura em uma, uma taça de ouro na outra. A visão era tão icônica que Bervely achou, por um momento, que estava vendo coisas. Vendo Oliver Wood parado na porta, justamente quando estava tentando não pensar em Oliver Wood. Esse era um daqueles momentos que ela achava que o destino era uma entidade voluntariosa e mordaz, que adorava tirar uma com a sua cara.

— Ah. — foi tudo que ele disse, tão pego de surpresa como ela. Bervely, que ainda sentia uma dor horrível no topo da cabeça, mas não ia demonstrar nem sob tortura, se recompôs o bastante para erguer suas sobrancelhas.

— Wood? — Ela precisava lembrar que tinham voltado a se tratar pelo sobrenome. E que, ah é mesmo, aquela era a Sala dos Monitores e ela era a monitora-chefe. Havia um protocolo. — Há algo que eu possa fazer por você?

— Uh… talvez.

Bervely percebeu que ele estava sem graça, a julgar em como os olhos corriam pela sala, evitando-a. Ela se perguntou se ele estava constrangido pelo modo como se esbarraram da última vez sob o salgueiro, ou se era porque ele tinha sido um babaca com ela há quatro meses. Difícil saber, se tratando de grifinórios.

— Eu estava só… eu preciso guardá-la na Sala de Troféus. Mas não tem ninguém lá, nem na sala dos professores, então eu pensei, talvez um monitor…

Ele gesticulava indicando a taça, que refletia a luz da janela direto em seu rosto. Mesmo no meio de sua falta de jeito havia uma nota de orgulho, ela percebeu, por finalmente ter conquistado seu maior sonho, pelo menos até onde ela sabia. Ela também sabia que “um monitor” queria dizer Percy Weasley, e não ela. Uma piadinha sobre estar sendo difícil pra ele se separar tão cedo de sua nova amante lhe passou pela cabeça, mas Bervely a dispensou, se levantando da cadeira e tentando parecer eficiente, indiferente e profissional.

— Acho que tem uma cópia na gaveta dos monitores.

Enquanto procurava a chave na gaveta onde ficavam as cópias, ela olhava Oliver pelo reflexo do vidro do armário. Ele continuava parado na porta, se balançando sobre os seus pés, meio impaciente. Os braços estavam à mostra, contornos marcados de músculos todos lá, o mesmo se podia dizer do peito e do abdômen. Ela se perguntou, achando essa uma dúvida justa, onde diabos ele estava indo numa tarde de domingo com uma vassoura na mão. Resposta mais do que óbvia. Agora que ela tinha dado as costas, Oliver estava olhando diretamente para a sua nuca (ao menos ela achava que era a nuca). Ele não sabia que ela podia vê-lo pelo reflexo.

— Achei. — anunciou, se virando suavemente. Ele fez uma expressão de alívio (ansioso para se livrar dela?) e estendeu a mão, mas Bervely não lhe entregou a chave. — Na verdade eu tenho que acompanhar você, não posso simplesmente deixar a chave com qualquer aluno.

Ela viu o rosto dele se franzir com “qualquer aluno”, mas logo voltar à neutralidade cuidadosa.

— Bem, se você precisa. — disse, com uma ironia que não lhe era característica. Bervely gostaria de saber o que era aquilo brilhando atrás dos olhos dele, que ela conseguia alcançar mas não interpretar. Decidiu que aquela interação era mais estranha do que estava disposta a suportar e precisava terminar logo, de forma que tomou a dianteira e passou por ele. Esbarrou em seu ombro sem querer. Quente.

Desculpe.

— Tudo bem. — ele murmurou, lhe seguindo. A Sala de Troféus ficava a poucos metros, logo na esquina do corredor, mas mesmo assim foi uma caminhada estranha, com Bervely incomodamente consciente da presença dele o tempo todo. Do ruído de seus tênis rangendo nas pedras até a respiração dele um pouco alterada, a poucos passos de suas costas.

Ela destrancou a porta, sentindo-o parado logo atrás, o silencio se prolongando cada vez mais estranho entre os dois. A madeira velha estalou, as juntas rangeram, a Sala de Troféus se revelou, reluzente e empoeirada, brindando sua visão com anos de serviços especiais prestados por alunos, copas de casas e de quadribol ganhas, prêmios individuais de disciplinas concedidos e taças de torneios orgulhosamente concedidas. O cheiro era abafado e metálico, o ar não circulava ali direito e parecia cheio de energia estática, estalando enquanto eles andavam.

Havia um armário inteiro só para Taças de Quadribol. Ela observou, com satisfação, que das últimas sete, seis eram da Sonserina. Oliver se aproximou e acomodou orgulhosamente seu tesouro nessa fileira, o observando solene por um momento. Quando ele passou o braço perto de seu rosto, o seu cheiro de loção pinicou no nariz dela com um ferrão de familiaridade. No entanto, Oliver tinha se esquecido momentaneamente que ela existia ali do lado. Seus olhos cintilavam, admirando a taça com seu nome e o do resto do time gravados na base, as cores na Grifinória no brasão afixado sobre o ouro. Bervely lembrou do sorriso e do choro dele no dia anterior, o topo de seu estomago enrolando com algo constrangedoramente perto de inveja.

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— É só isso? — ele perguntou um pouco depois, aterrissando no mundo novamente. Com a necessidade de abandonar a taça recém obtida naquela sala abafada, ela achou que ele tinha perdido um pouco de sua atitude defensiva. Bervely se perguntou se Oliver tinha dormido abraçado com a taça aquela noite. O pensando lhe irritou ao invés de divertir, por alguma razão misteriosa.

— Você tem que assinar que entregou, e eu também. — disse, um pouco brusca, pegando o livro de registros. Passou as páginas até a última e escreveu ‘Taça de Quadribol, 1994’. Assinou seu nome em ‘testemunha’ e arrastou o livro sobre a mesinha de apoio, na direção dele, indicando o campo ‘responsável’.

Oliver se curvou, pegando a pena de sua mão. Seus dedos se roçaram. Quando ele flexionou o braço para escrever, ela viu o músculo ondular por debaixo da pele dele. Desviou seu rosto, olhando para cima com aborrecimento. Mas o teto não era, nem de longe, tão interessante.

— Pronto. — ele disse, lhe entregando pena e livro. — Obrigado.

Ele ia sair. Estava sim, louco para se livrar dela. Alguma coisa em Bervely, que ainda queria torturá-lo e irritá-lo e vê-lo reagir, não permitiu que sua língua se mantivesse quieta dentro da boca.

— Vai levar a vassoura para um passeio?

Ele parou, a encarando com uma expressão desafiadora.

— Vou dar uma volta. — disse, como se fosse óbvio.

— Você não cansa nunca? Já ganhou o campeonato, porque ainda precisa ficar voando?

Ele meneou a cabeça, uma sombra de sorriso nos olhos pela primeira vez desde que aparecera na porta da sala dos monitores, como se soubesse de coisas que ela não sabia, a bobinha.

— Não é só pra isso que as pessoas voam, Black.

Oliver deu mais uma olhada para sua amada taça, solene e grato pela existência dela em sua vida, então fez um aceno para Bervely com a cabeça (ligeiramente debochado, ela achou) e sumiu porta afora. E ela sabia, simples como uma goles atravessando um aro, que sua tarde de estudos acabara de ser arruinada.

— BD -

Oliver estava no céu já fazia quase uma hora quando viu uma sombra parada lá embaixo, no gramado. Um chuvisco fraco havia começado a soprar do norte, gelando sua nuca, mas isso não o impedira de continuar costurando o ar, subindo, descendo e ondulando naquela obra de arte que era a Firebolt de Harry Potter.

Precisava espairecer, e estar no alto ajudava; pensava com maior clareza lá em cima. A euforia de ganhar a Taça de Quadribol, algo pelo que vinha lutando à unhas e dentes desde que virara capitão no seu quarto ano, era como uma droga em seu sistema, lhe deixando a flutuar nas doces nuvens da vitória pelas últimas vinte e quatro horas. Mas, destituído dessa grandiosa meta uma vez que a alcançara, lhe sobrava todo o resto — e o resto, nesse momento, lhe deixava um bocado ansioso.

NIEMs. Futuro. Decisões. Vida adulta se aproximando, fora dos portões de Hogwarts.

E como se não bastasse tudo isso, esbarrar com Rose de forma inesperada, e ela estar tão linda. Linda e completamente indiferente à sua existência. Não podia parar de pensar no olhar que lhe dera, como se ele fosse não mais do que um estranho atrapalhando sua leitura, toda a frieza impressa em seu olhar, a rainha de gelo da Sonserina.

Esperava não ter deixado muito evidente sua vontade de sair de perto dela o mais rápido possível. Lembrou-se que um dia achara a atitude esnobe dela sexy, junto com seu nariz empinado e superioridade espontânea, mas isso era quando ele não era o seu alvo. Quando ele não era página virada da vida dela, numa época em que Rose só fingia que não ficava mexida com ele. Se aquela breve interação entre eles deixara claro alguma coisa era que, para ela, tudo que havia acontecido entre os dois fora incinerado por completo de suas lembranças.

Mas voltemos à sombra. Que ele pensou que era Harry querendo a vassoura de volta, mas não era. Reparando bem, a pessoa lá embaixo tinha o cabelo comprido, chicoteando com o vento, e seu suéter justo era verde escuro, uma releitura mais elegante do blusão de quadribol da Sonserina. O rosto branco estava virando para cima, e apesar de ser loucura afirmar isso tão do alto como ele estava, achou que reconhecia o formato daqueles lábios entreabertos.

Após um instante de confusão, parado no ar, Oliver inclinou o corpo, mudando a sua rota para baixo. A Firebolt respondeu como se carregada por um relâmpago, e em menos de dois segundos ele aterrissou na frente dela, derrapando um pouco na grama molhada.

Rose ofegava. O mais adorável tom de rosa tingia suas bochechas, o cabelo estava todo bagunçado em torno do rosto, algumas mexas mais finas se grudando em sua testa e bochecha, molhadas pela chuva rala. Ela tinha corrido até ali, ele notou, embora no momento tentasse se recompor sem deixar isso muito evidente.

Sentiu um aperto estranho no peito, achando que havia alguma coisa muito errada. Porque mais ela correria? Atrás dele?

— O que foi? — perguntou, o tom sobressaltado traindo o blasé que dirigira a ela momentos atrás. Se ele estava interpretando certo, ela parecia ligeiramente desajeitada ao escolher as palavras que justificariam sua presença ali.

— Eu tenho uma pergunta. — declarou ela, resistindo ao impulso de cruzar os braços para se defender da exposição auto-imposta, afinal esse era um gesto de vulnerabilidade. Ao invés disso, deixou os ombros bem retos e o queixo erguido, praticamente o desafiando a responde-la.

— Que seria...? — Sua pretensa indiferença voltou a se expressar na voz, ao mesmo tempo em que uma tímida esperança se insinuava por detrás, como um bichinho que enfiava a cabeça para fora da caverna querendo checar se o sol tinha chegado.

Afinal ela estava ali, não estava? Tinha mesmo vindo todo o caminho até o campo atrás dele...

— Você disse que as pessoas tem outros motivos para voar. Você me diria... quais eles seriam?

Era óbvio, muito claro mesmo, a quantidade de orgulho que Bervely estava engolindo para aparecer ali e lhe fazer uma pergunta. Ela parecia em uma luta interna, prestes a dar a volta e desistir desse arroubo inesperado, se ele sabia qualquer coisa sobre ela. Lentamente, um sorriso travesso foi se espalhando pelo rosto de Oliver, à medida que ele compreendia a chance que o destino estava lhe oferecendo naquele momento. Outra chance.

— Eu posso te mostrar o porquê. Se quiser arriscar. — E estendeu sua mão pra ela, a palma para cima, fazendo um convite.

Agora ou nunca, ele pensou. Ou ela vai ofender até a quinta geração dos meus antepassados por ousar sugerir tal absurdo, ou ela vai...

Bervely apertou seus lábios muito firmemente, anos de hesitação dando nós em suas entranhas. Olhou para ele, depois para a vassoura, depois para o céu, vasto e perigoso acima de sua cabeça, uma expressão quase dolorida no rosto lentamente se transformando em decisão mordaz.

Sua mão deslizou para dentro da dele, aceitando o seu convite. Oliver mal acreditava.

(Continua…)

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Notas finais
Haha, agora sabemos a verdadeira razão pela qual Bevy Subiu na Vassoura :P